Astronomia Cantada n'Os Lusíadas


Carlos Pereira dos Santos, CST e CEAFEL-Universidade de Lisboa
Carlota Simões, CFisUC e Museu da Ciência - Universidade de Coimbra


Resumo: O poema épico português Os Lusíadas é de uma riqueza única em muitas e variadas áreas do conhecimento: história, geografia, astronomia, mitologia, literatura clássica, entre outras, e Luís de Camões (1524-1579) entrelaça todos estes assuntos com uma técnica e uma elegância notáveis. Luciano Pereira da Silva (1864-1926), matemático e lente catedrático em Coimbra, estudou detalhadamente a obra do poeta do ponto de vista da utilização, muitas vezes velada, de tais conhecimentos. Tendo por base fundamental o trabalho de Pereira da Silva, pretende este trabalho fazer uma divulgação alternativa quanto à astronomia presente n’Os Lusíadas. A análise do texto tem como fio condutor a própria viagem relatada no poema, havendo uma preocupação central em manter a estrutura literária da obra, em vez de estar organizada por temas astronómicos como fez Pereira da Silva. Na versão online deste trabalho encontram-se vídeos e diagramas dinâmicos respeitando os céus de 1497-1498, bem como uma componente sonora. Pretendemos assim conduzir o leitor da forma mais real e fiel possível ao longo daquela magnífica aventura lusitana.


1. TRAÇANDO O ITINERÁRIO

1.1. Pedro Nunes: a fonte astronómica de Camões

A "Astronomia dos Lusíadas" consiste numa série de artigos publicados na Revista da Universidade de Coimbra, entre 1913 e 1915, por Luciano Pereira da Silva (1864-1926), matemático e lente catedrático em Coimbra [11]. Neste seu trabalho, Luciano Pereira da Silva deixou completamente esclarecidas todas as referências à astronomia de Os Lusíadas, mostrando que Camões tinha um conhecimento claro e seguro dos princípios da astronomia, como ela se professava no seu tempo”. Parece claro que as ideias astronómicas de Luís de Camões (1524-1579) são as do texto de João Sacrobosco (1195-1256) [10], com as modificações contidas nas notas do grande matemático português Pedro Nunes (1502-1578). Ou seja, o Tratado da Sphera de Pedro Nunes [15] pode ser considerado a principal fonte astronómica de Os Lusíadas.

Figura 1: Esquerda - Luciano Pereira da Silva (1864-1926). Direita - Astronomia dos Lusíadas, 1915.

O poema relata a primeira viagem por mar da Europa à Índia, entre Julho de 1497 e Maio de 1498, comandada por Vasco da Gama (1469-1524). Camões só iria nascer duas décadas mais tarde, mas acabaria por fazer a mesma viagem para a Índia entre 1553 e 1554, partindo na frota de Fernão Álvares Cabral (1514-1571), o filho mais velho de Pedro Álvares Cabral. A frota enfrentou dificuldades no Cabo das Tormentas e a nau São Bento, aquela em que iam Camões e Fernão Álvares Cabral, escapou por pouco. A sua obra foi publicada em 1572, três anos após o seu regresso do Oriente. Camões diz de si próprio 

«Nem me falta na vida honesto estudo,
com longa experiência misturado,
nem engenho, que aqui vereis presente,
cousas que juntas se acham raramente».
(Os Lusíadas, X, 154)                         


X, 154


Importa sublinhar que a vasta cultura de Camões não é apenas fruto da sua experiência. O poeta tinha um enorme respeito pelo estudo e pela ciência. De novo pelas suas próprias palavras,


«Os casos vi, que os rudos marinheiros,
Que têm por mestra a longa experiência,
Contam por certos sempre e verdadeiros,
Julgando as cousas só pola aparência,
E que os que têm juízos mais inteiros,
Que só por puro engenho e por ciência
Vêm do mundo os segredos escondidos,
Julgam por falsos ou mal entendidos.»
(Os Lusíadas, V, 17)  

V, 17


Camões era também um bom conhecedor dos mais avançados instrumentos de navegação da época. O astrolábio foi aperfeiçoado pelos marinheiros portugueses durante o período dos descobrimentos. Por exemplo, hoje em dia é muito simples identificar um astrolábio como português pelo pormenor da colocação do zero da escala no zénite. Era constituído por um limbo graduado e uma alidade (duas pínulas, medeclina), o limbo tinha quatro quadrantes graduados de 0° a 90° e tinha uma argola de suspensão. Devido à sua grande simplicidade, era possível construir astrolábios de grandes dimensões, o que permitia leituras mais precisas.


«E, pera que mais certas se conheçam
As partes tão remotas onde estamos,
Pelo novo instrumento do Astrolábio,
Invenção de sutil juízo e sábio.»
(Os Lusíadas, V, 25)  

V, 25



Figura 2: Astrolábio.

Os Lusíadas é uma obra de enorme amplitude. Além de uma estética literária inigualável, contém uma enorme riqueza relativa a vários aspectos, tais como geografia, história, cultura pagã, ciência, astronomia, etc. Nesse sentido, a interdisciplinaridade é uma constante, tendo sabido o poeta interligar essas temáticas de forma consistente e musical, com um conhecimento de causa a todos os títulos desarmante. Esta variedade de temáticas serve a composição de forma contextualizada, nunca aparecendo de forma forçada, mas sim ao serviço da exaltação das várias ideias e episódios.

Estando bem enquadrada com episódios da cultura pagã, suportada em eventos reais ocorridos nos céus da primeira viagem de Gama, associada a localizações no espaço e no tempo, a astronomia, antes de qualquer outra coisa, surge ao serviço da musicalidade e da estética poética.

É claro que a análise da utilização camoniana da astronomia tem muita importância científica e histórica. Por exemplo, Luciano Pereira da Silva demonstrou terem sido os portugueses os primeiros a identificarem a nova constelação Cruzeiro do Sul, em contraste com a opinião de Humboldt (1769-1859) que indica uma carta datada de 1515 e escrita pelo florentino Andrea Corsali como a mais antiga referência de sempre à constelação do Cruzeiro.

Não esquecendo a vertente mais técnica, o objectivo deste texto consiste em divulgar o trabalho de Luciano de uma forma alternativa. Em vez de organizar a discussão por temas astronómicos como a Lua, Sol, sistema ptolemaico, etc., o fio condutor será a própria viagem espaço-tempo do poema. Dessa forma, uma preocupação central será abordar os vários tópicos astronómicos ao mesmo tempo que se percorre a odisseia lusitana cantada por Camões. Não nos coibiremos de fazer uma ou outra interpretação astronómica original. Também não nos coibiremos de apresentar alguns fenómenos ocorridos nos céus de 1497/1498 que também poderiam ter sido utilizados pelo poeta, tivesse ele sabido deles.


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