Relato de Moradores

Frederico Haroldo Simon

Meu avô foi o chefe da Estação Biológica de 1919 à 1930 e minha mãe chegou com ele. Meu pai chegou em Itatiaia em 1923 e depois de conhecer minha mãe comprou o lote 90 e terminou de pagá-lo em 1924. Eu nasci em 1941 e fiquei brincando na floresta até os 11 anos e mesmo assim cursei o ITA me formando em engenharia Eletrônica. Me dediquei ao Hotel Simon a vida toda: na década de 50 fui guia e eletricista na década de 60 cursei  o curso superior e projetei a ampliação da hidroelétrica do hotel. Sou o autor da arquitetura do prédio de oito andares do hotel e de todo o paisagismo do entorno do hotel.

Junto com os bombeiros e dando-lhes suporte combati todos os grandes incêndios  nas décadas de 60, 70, 80 e 90. Atualmente moro em uma casa ao lado do Itatiaia Park Hotel que é a única que possuo. 

José Roberto Costanza

Meu nome é José Roberto Costanza, sou teólogo e minha família é proprietária em Itatiaia, desde a década de 1950. Conhecemos a região quando meu tio, que era oficial médico do Exército, foi designado, ainda durante a II Guerra Mundial, para servir no então Sanatório Militar de Itatiaia. A Academia Militar estava sendo implantada em Resende e o acesso se fazia pela antiga Rio-São Paulo. A primeira viagem para a região foi uma verdadeira epopéia, pois nos perdemos e tivemos que dormir no carro na região de Floriano. 

O Exército, para cuidar de seus tuberculosos, havia se instalado nas imediações do Núcleo Colonial de Itatiaia (1908), um projeto do Governo Federal (Ministério da Agricultura) para fixar imigrantes de origem alemã. A gleba, que era bem grande, foi dividida em quase 200 lotes de diferentes dimensões. Pouco depois, o governo, sob a supervisão do Jardim Botânico, organizou um núcleo de uma reserva biológica em lotes não vendidos, como base de ação, com vistas ao estudo da flora e da fauna das regiões altas.  

Em 1937, o Governo resolveu criar o Primeiro Parque Nacional nas imediações do citado Núcleo Colonial, a partir da cota média de cerca de 1.300 metros de altitude, com foco maior no planalto onde estão situadas elevações superiores a 2.000 metros, como o Pico das Agulhas Negras. Como havia uma idéia original de se organizar um museu, uma sede do parque e residências para funcionários, não seria adequado que estes morassem isolados do mundo, no interior do Parque, e, assim, o governo instalou a administração e outras edificações em alguns lotes originalmente ocupados pela reserva biológica. 

No início da década de 50, meu falecido pai comprou uma propriedade de lote desmembrado pertencente ao Sr. Joseph Simon, proprietário do Hotel Granja Agulhas Negras, mais tarde denominado Hotel Simon. Hoje é o Itatiaia Park Hotel.

Nessa época, nos hospedávamos, ora na Casa de Pedra, ora no Hotel Repouso Itatiaia (Hoje, Donati) e também no Hotel Granja Agulhas Negras, enquanto o projeto residência ia sendo adiado por motivos financeiros. Quando não estávamos na montanha, ficávamos hospedados na casa de meu tio, que por longos períodos serviu no Sanatório Militar, vindo, inclusive, a ser seu diretor. A garotada andava descalça nas trilhas, ou, quando podia, no lombo de cavalos, e perdi a conta o número de vezes que fui aos Três Picos, Macieiras e Planalto, onde, quase sempre, escalávamos as Prateleiras e Agulhas Negras, por diversas vias, pois meus irmãos eram guias de montanha. Contudo, o lugar comum, o ponto de encontro, era o rio a que chamávamos simplesmente de Maromba (Rio Campo Bello). Nele, tínhamos os nossos locais preferidos, como o escorrega do Leonardo (hoje dono do Hotel Cabanas), Poranga (cujo acesso foi fechado pela atual direção do Parque), Pitu, Itaporani, etc. Nessa época, nós, os proprietários do Núcleo Colonial, interagíamos com o Parque como bons vizinhos, sem traumas, ou cerceamento de liberdade de locomoção. Lembro-me de uma festa junina na sede do parque organizada pelo então diretor, Dr. Vanderbilt.   

Nos hotéis havia muitos cavalos, que estavam à disposição dos hóspedes para passeios na região. Papai gostava de caçar e não havia qualquer impedimento legal. Quando meu tio voltou a servir no Sanatório, juntamente com amigos, íamos ao Hotel GranjaItatiaia (hoje, Cabanas), a que chamávamos de Letelba, pois seu proprietário era o Dr. Letelba de Brito, eminente advogado.  Nessa época não havia qualquer tipo de edificação ou posto do governo entre o Sanatório e o Letelba.

No governo de João Goulart, não havia dinheiro para pagar os guardas-florestais e a direção do parque procurou os proprietários, que haviam constituído, desde 1951, uma Associação de Amigos do Itatiaia (AAI), para solicitar a permissão de colocar um portão na Estrada Federal (BR 485), a fim de cobrar uma pequena taxa de entrada no "parque" para que seu pessoal não morresse de fome. Os proprietários, reunidos em minha casa, discutiram o pedido e chegaram à conclusão que, preservados seus direitos de ir e vir sem quaisquer ônus, não haveria problemas, pois tal portão (uma cancela) iria dar aos moradores uma privacidade adicional (uma espécie de condomínio moderno). Entretanto, segundo consta, não há registro de pedido formal ao DNER, “dono” da estrada. E assim a coisa foi indo.

Em meados da década de 60, meu tio, já diretor do Sanatório, construiu sua casa e meu pai optou por comprar a residência de um outro oficial do Exército, que havia construído sua casa na década de 30, antes mesmo da criação do Parque. Nessa casa, que tinha até estrebaria, meus filhos foram criados e fizeram profunda amizade com os filhos de outros proprietários. Éramos uma grande família, pelo menos até 1982, quando nosso direito de propriedade foi profundamente abalado.  
Nessa época, alguns incêndios de grandes proporções aconteceram no Planalto. A culpa recaiu sobre fazendeiros vizinhos ao Planalto. Esses incêndios efetivamente estavam colocando em risco a fauna e a flora locais, mas é bom que se frise, nenhum teve origem no Núcleo Colonial. Pelo contrário, na hora de apagar o fogo, todo esforço era liderado pelos proprietários, que cediam suas instalações para servir de campos de pouso de helicópteros, em especial, os donos do Hotel Simon. 

Justificativas à parte, resolveu-se ampliar, por decreto, a área original do parque. Segundo informações que considero fidedignas, ao saberem que suas terras estavam em risco de serem incluídas na nova dimensão do parque, um político influente e um grande empresário dono de jornal agiram em Brasília no sentido de jogar os limites em direção à cidade de Itatiaia, a cavaleiro do Rio Campo Bello. É bom que se diga que, nesse processo de ampliação não foram observados o Plano de Manejo recém elaborado e as normas legais que regulamentam o assunto, como a desapropriação prévia, ou seja, o governo tomou posse de uma área particular, emancipada, sem pagar um tostão por ela.

O mais absurdo é que os proprietários do Núcleo Colonial, que transformaram em mata uma região que havia sido devastada pela implantação e exploração da estrada de ferro que liga o Rio a São Paulo, hoje são humilhados e chamados de posseiros por representantes do governo, como o atual chefe do parque, conforme inúmeros testemunhos.

O certo é que eu, meus filhos e, agora, meus netos, amamos Itatiaia de todo o nosso coração, e não abriremos mão do que consideramos nosso direito perante a Lei, que, infelizmente, não tem sido cumprida por parte de quem tem a obrigação de fazê-lo, como exemplo para os cidadãos de nossa querida nação brasileira.


Deise – Presidente da Associação das RPPN’s do Estado do RJ (APN) 

" Em princípio, não sou favorável a diminuição de qualquer área protegida. Mas, temos que reconhecer que, em alguns casos, a ocupação é tão consolidada e densa que fica inviável sua retirada. Por este motivo, transformar esta área específica em Monumento Natural é louvável, mesmo porque, nesta categoria, os proprietários, que podem ali ficar, se comprometem a proteger efetivamente a área. 

Caso contrário, serão desapropriados. E a natureza continua protegida que é o mais importante. A idéia de monumento natural ou de APA nesta área pode e deve ser discutida, mesmo porquê a Lei ( 9.985/2000) exige consulta pública para qualquer ato relativo aos limites das UCs de proteção integral. Como um plano de manejo pôde ser feito sem a AAI? Onde fica o princípio da informação e da participação? A lei exige." 

Dra. Sonia Wiedmann ex-procuradora do IBAMA. “Eu acredito que quem pode recuperar a Mata Atlântica deste Estado são os proprietários particulares, que hoje detêm mais de 80% do que restou deste Bioma. Não acredito ser possível ao Estado ignorar que somente se unindo ao segmento privado poderá manter, e até mesmo recuperar muitas áreas degradas. 

O ICMS Verde vem mostrar que está se abrindo um novo portal de cooperação. Não podemos deixar de acreditar que este incentivo é serio e valoriza em muito a nossa participação” 

Deise – Presidente da Associação das RPPN’s do Estado do RJ (APN)

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