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4- Fatores que influenciam as mudanças culturais

Por outro lado, a continuidade cultural tem seus custos. No campo da tecnologia, por exemplo, a inovação leva, em geral, a uma maior eficiência no uso da energia e do tempo humano, a uma melhoria no padrão de vida e amplia as possibilidades em diversas áreas. Da mesma forma podem ser grandes os benefícios com as mudanças no campo das organizações sociais. Nenhuma sociedade é perfeita ou adquiriu uma forma acabada e definitiva para a vida em comum. Especialmente no mundo moderno e contemporâneo, após a Revolução Industrial e o desenvolvimento da ciência moderna, a mudança sociocultural tornou-se permanente e intensa. Nos dias de hoje, as sociedades que incluem um mais amplo componente de mudança, tendem a favorecer uma melhor qualidade de vida para uma parcela cada vez maior da sua população.

São vários os fatores que contribuem para a mudança e inovação em uma sociedade: fatores internos à própria sociedade ou fatores externos do ambiente que a cerca. Em nossos dias, tornou-se muito clara a extrema importância da relação entre a sociedade e o seu ambiente. O meio ambiente não é somente uma fonte crucial para o sustento da sociedade com suas características climáticas e geográficas em geral, suas riquezas naturais, suas fontes de energia, sua flora e fauna, tudo isso funcionando como um conjunto de condições em relação ao qual a sociedade deve se adaptar. Nesse processo, a sociedade pode interagir com o seu ambiente em diferentes formas e direções: seja contribuindo para melhorar ou para piorar e prejudicar suas condições de vida. As mudanças no ambiente acabam por forçar mudanças na sociedade. As sociedades, ao longo da história, tiveram necessidade de ajustar-se às mudanças no ambiente. Esse é um processo de adaptação inquestionável.

O ambiente a que uma sociedade deve adaptar-se inclui, também, outras sociedades com as quais ela mantém contato. Uma mudança maior em uma costuma desencadear um processo em cadeia gerando consequências para as outras e obrigando a ajustamentos e inovações.

Mas há outras fontes de mudanças. A dinâmica das forças no interior das sociedades, que fazem parte da própria condição do ser humano, impede que a sociedade permaneça estável permanentemente. Em primeiro lugar, na transmissão da herança cultural de uma geração para outra ocorrem alterações de vários tipos. Como vimos anteriormente, os indivíduos não são passivos na formação dos hábitos, na aprendizagem dos costumes e na recepção das informações ao longo de seu crescimento e desenvolvimento. Os seres humanos aparentemente, por sua própria natureza, são motivados a tentar novos padrões de ação. Muitas vezes, a motivação é a simples curiosidade que pode ser intensificada pelo mundo cultural. Ou, então, a motivação pode ser o simples autointeresse material. Os homens buscam maximizar suas recompensas, isto é, ganhar mais e melhor como resultado de suas ações. Dessa forma, a experimentação e as inovações são inevitáveis.

O acaso ou as “chances” desempenham uma parte importante no processo da inovação e das descobertas, mas o conhecimento, a inteligência e a ação com propósito, que movem a disposição maior para a pesquisa, são essenciais. As novas descobertas e as inovações resultam da combinação de “chance”, conhecimento e persistência em uma ação com propósito.

A quantidade de informação acumulada por um grupo social é, talvez, o fator mais importante para a capacidade de inovação e mudança positiva para a vida de seus membros. As invenções que constituem um dos processos básicos de inovação são essencialmente recombinações de elementos existentes da cultura.

Outro fator dos mais importantes no mundo atual, é o contato com outras sociedades. Quanto maior for o relacionamento com outros povos e culturas maior são as oportunidades para incorporar suas descobertas e inovações. É sempre possível incorporar a herança cultural de outras sociedades.

É importante assinalar que esses fatores mencionados, que estimulam e promovem as mudanças e a inovação nas sociedades, são mutuamente interdependentes.

Há outro aspecto na relação entre diferentes sociedades e culturas que devemos considerar. É um engano pensar que a paz entre nações seja um estado normal e que a hostilidade, o conflito e a guerra são condições anormais. Gostaríamos que fosse verdade mas os registros históricos e a realidade de nosso tempo indicam que é diferente.

São várias as razões para explicar porque as guerras e outros confrontos são tão comuns. A causa básica parece ser a mesma que motiva a competição no mundo biológico de maneira geral, isto é, a escassez de recursos. Tanto Malthus quanto Darwin reconheceram que uma oferta finita de recursos, independente de seu tamanho, nunca seria suficiente para uma população com uma infinita capacidade para o crescimento. A não ser que uma população, animal ou humana, controle seu crescimento, em algum momento ela esgotaria seus recursos. Isso ajuda a explicar as ações de invasão de territórios e apropriação de recursos de outros grupos sociais, ou povos ou nações. Na medida em que esses recursos são essenciais, a sociedade atingida reage. O conflito, assim, torna-se inevitável.

No caso dos humanos o problema tornou-se especialmente complicado pela existência da cultura. O problema da escassez torna-se mais agudo nas sociedades humanas porque a cultura multiplica enormemente nossos desejos e necessidades. Os desejos dos animais são limitados enquanto os dos seres humanos quanto mais os realizam mais, de um modo geral, desejam. O cientista social americano Thorstein Veblen viu isso com clareza. Em um livro publicado no final do século IXX ele desenvolveu a tese de que uma vez que uma sociedade é capaz de produzir mais do que o necessário para viver, seus membros lutam para adquirir bens e serviços não essenciais por causa de seu valor de prestigio. Um pouco antes, na metade do mesmo século, Karl Marx havia diagnosticado esse mesmo problema ao descrever as sempre novas necessidades criadas artificialmente pelo processo de desenvolvimento da sociedade moderna. Considerando que o prestígio é sempre, para as diferentes pessoas das diversas classes sociais, uma questão relativa (é uma medida da posição social de alguém em relação aos demais), é impossível satisfazer a demanda por bens e serviços gerada pela permanente busca de sempre mais prestígio. A escassez seria, portanto, inevitável não importando o quanto de tecnologia se desenvolva e em quanto se aumente a produção.

Guerras podem destruir culturas e civilizações. E, com isso, acabam gerando grandes transformações sociais e culturais. Formas não militares de poder também acarretam destruição de culturas através de um processo de incorporação de sociedades culturalmente mais vulneráveis porque tecnológicamente menos desenvolvidas. É o caso de muitas sociedades, tribos e etnias antigas, que acabam abandonando sua cultura tradicional, minando sua autonomia como grupo social. Isso acontece especialmente com a cultura de sociedades menores e economicamente menos desenvolvidas quando entram em contato com sociedades maiores e economicamente mais fortes. Considerem como exemplo o que ocorreu, e continua ocorrendo, com as culturas indígenas e as de etnias africanas, tanto no Brasil como em outros países.