"Gary Hill, Jogos de Linguagem"

Gary Hill surge actualmente como uma das maiores personalidades associadas à instalação vídeo. Trabalhando e combinando o vídeo, a escultura, o áudio, o texto escrito e o texto falado, juntamente com todo o tipo de tecnologias modernas, incluindo software, hardware e dispositivos mecânicos, este artista é o principal percursor do actual florescer da vídeo arte.
 
Video - instalação de Gary Hill
 

Uma típica obra de Gary Hill, inclui normalmente múltiplas projecções e uma componente sonora bastante trabalhada que permite a criação de um ambiente interactivo levando o espectador a fazer parte da experiência.

Gary conta com a Dave Jones Design, uma empresa encarregue da construção de equipamento tecnológico necessário às suas instalações.

 

Algumas obras de Gary Hill revelam o interesse do artista pela performance. Desde 1971, em associação com vários performers, Gary Hill criou cerca de trinta peças. Mas para além dos aspectos técnicos e performativos, o aspecto conceptual da sua obra, consegue vingar, ao debruçar-se sobre as temáticas-base da filosofia actual. A sua obra incide na exploração de temas ligados à percepção da imagem e da linguagem, à relação entre corpo e a articulação visual e linguística, consistindo numa  pesquisa sobre as condições de percepção e de interpretação de imagens e de palavras.

 

Renunciando a uma posição fetichista em relação à técnica, o vídeo na sua obra surge apenas como o instrumento que visa permitir explorar a profundidade e a complexidade da estrutura da realidade.

 

As suas instalações permitem questionar a capacidade intelectual na relação Eu/Mundo (espectador/ obra), na medida em que rompem com os padrões convencionais de comunicação. Os conceitos de espaço e de tempo revelam-se então fulcrais, pois torna-se necessária a criação e o tratamento de espaços que propiciem um ambiente interactivo em que o espectador possa realmente receber os estímulos, contribuindo para o processo comunicativo. Para isso, Gary Hill apresenta as suas obras em salas escuras, ou nos também designados “não-lugares”, que levam a que o espectador perca as suas coordenadas espaço-temporais e igualmente os seus sentidos visuais e auditivos. Outras vezes, são utilizadas luzes estroboscópicas que surgem em intensos flashes, quando menos se está à espera e que, inevitavelmente, desordenam a percepção. O objectivo consiste precisamente na perda de referencias do espectador, de modo a que este possa adquirir consciência do quão dependente está do seu modo convencional de percepção, permitindo e levando a uma maior abertura da percepção, através da criação de novos modos de linguagem.

Sem saber o que se vai passar, o espectador torna-se mais atento e consciente dos seus próprios mecanismos de percepção.

 

O pragmatismo é uma visão prática da filosofia que vê a veracidade das ideias de acordo com a sua utilidade na vida real. O filósofo John Dewey considerava a mente como uma ferramenta para a resolução de problemas, capaz de se adaptar continuamente ao ambiente. O hábito surge a partir do instinto, mas quando o hábito não se adequa  devidamente às situações, desenvolve-se então a capacidade de raciocínio.

 

Com base nas teses de Dewey,  Gary Hill , inicia com as suas obras “um diálogo entre o reino empírico, um mundo de luz no qual os fenómenos se encontram firmemente correlacionados no espaço e no tempo  e o reino da consciência humana, um mundo interior e obscuro no qual os significados colectivos e individuais se sobrepõem sob a forma de pensamentos, sentimentos e memórias”.

De acordo com a perspectiva da fenomenologia da percepção, a comunicação visual surge acima de tudo caracterizada pelo seu carácter contínuo e global. O fluxo contínuo das imagens confere-lhes sentido e o contexto necessário à interpretação, que se encontra dependente da percepção da globalidade.

 

Segundo Aristóteles*1 (ver final do texto), a realidade dos acontecimentos nem sempre surge capaz de constituir uma unidade, pois os factos enredam-se e por vezes são desprovidos de nexos recíprocos, levando ao desenvolvimento de várias situações em direcções diferentes.

A necessidade humana de percepção, tende a colocar todos esses factos segundo uma perspectiva unitária. A unificação dos factos leva a outras tantas “experiências”.

Para melhor compreendermos a noção de experiência, John Dewey define-a: “temos uma experiência sempre que o material experimentado avança para a realização. Então, e só então, ela se integra e se distingue das outras experiências na corrente geral da experiência...Numa experiência o decorrer é o decorrer de algo para algo.” *2 (ver final do texto) A interpretação é assim produção, porque foi também escolha e composição, segundo o processo humano de percepção.

 

Esta é a base da crítica às linguagens convencionais. Na base da criação de novas linguagens na obra de Gary Hill,  encontra-se a construção de sentidos para além do unívoco. Exemplo perfeito de linguagem convencional seriam os meios de comunicação de massas, cuja linguagem contorna, tanto na sua forma, como no seu conteúdo, a complexidade do mundo. De fácil compreensão, os meios de comunicação de massas abordam simplesmente a superfície das coisas.

 

Procurando criar novas linguagens, Gary Hill vai sujeitar as imagens vídeo na sua obra, a uma fragmentação radical, destruindo estruturas convencionais de narrativa imagética, provocando uma descontinuidade e consequente desintegração semântica.

Hill viu na instalação vídeo a possibilidade de por em prática as suas ideias, no entanto, o artista renuncia qualquer espécie de fetichismo em relação à técnica e procurando evidenciar a sua posição, o artista fragmenta os aparelhos técnicos que geram as imagens, quer sejam monitores ou projectores, descarnando-os, tornando-os matéria plástica, submetendo-os a uma desconstrução de forma a adquirirem formas esculturais, ao mesmo tempo que procura desmascarar as “caixinhas mágicas”. Com isso, Hill procura por em evidência a vulnerabilidade dos instrumentos electrónicos enquanto máquinas.

 

O uso de software de maneira a controlar a sequência de imagens, de sons, palavras, e iluminação, nas suas instalações, é necessário, porém para Hill, o computador é meramente um instrumento auxiliar, bem como a utilização de qualquer outra tecnologia. No que diz respeito à sua obra, o computador auxilia a construção de estruturas semânticas em camadas múltiplas de maneira a que o espectador tenha focos de interesse consoante o que lhes está mais próximo no conjunto de toda a envolvente imediata.

 

Do colapso de sentido, eis que surgem novos sentidos, e estão criadas novas linguagens. As imagens estremecem, desaparecem, fogem pelas paredes, sobrepõem-se, desfocam-se, sendo acompanhadas ao mesmo tempo por todo o tipo de estalidos produzidos por circuitos electrónicos, que surgem deliberadamente defeituosos, aparelhos fragmentados, jogos na sonorização, entre o silêncio e o ruído ensurdecedor, a voz calma que debita palavras e frases aparentemente sem sentido, tudo isto num mundo isento de significados pré-estabelecidos.

Nas suas obras “não há indicações das origens dos fenómenos visíveis ou das palavras, de um objectivo que governe o seu uso, ou de uma função que lhes tenha sido destinada. São abordados em si e a partir de si próprios, como presença auto-suficiente que se refere a si própria.”*3(ver final do texto)

 

“(...) Qualquer ideia ou processo conceptual que eu queira experimentar, uma frase, ou uma palavra, podem adquirir os mais variados significados (...)”– Gary Hill*4(ver final do texto)

 

A definição de linguagem surge enquanto faculdade humana de expressão e comunicação de pensamento e sentimentos por meio de um sistema de signos convencionados, realizados oral ou graficamente, os quais constituem uma língua.

Na obra de Gary Hill, o discurso oral adquire uma importância particular, pois as palavras surgem como contra ponto das imagens  projectadas e agem sobre o espectador de maneira mais directa que as próprias imagens.

 

“A vocalização foi uma maneira de marcar fisicamente o tempo com corpo, através da dicção- a voz que fala assume-se como uma espécie de motor que gera as imagens... Cada sílaba encontra-se ligada a uma imagem, subitamente as imagens tornaram-se bastante espaciais e o espectador adquire a consciência de temporalidade de cada palavra”. Gary Hill*5(ver final do texto)

 

Para Gary Hill a linguagem surge enquanto comunicação discursiva e enquanto forma, sendo trabalhada enquanto matéria-prima.

A presença do discurso oral enquanto factor estrutural, vai incidir na maneira como se percepciona a imagem, levando-a a adquirir uma dimensão mais profunda.

Gary Hill conjuga o ritmo das imagens de acordo com uma alteração da temporalidade do texto, que se vai reflectir no aumento da duração de pausas ou na eliminação completa destas, utilizando sempre uma entoação deliberadamente neutra.

O artista vai basear-se no método “desconstrucionalista”, criado por Jacques Derrida, que consiste na “desconstrução” ou separação da linguagem para demonstrar que não pode existir um significado fixo. A linguagem convencionada surge então posta em causa.

As palavras e as imagens no trabalho de Gary Hill não se explicam mutuamente, apresentam-se ambas como realidades auto-suficientes, que nos surgem através de meios de comunicação diferentes, com sentidos diferentes pois uma não documenta a outra ou vice-versa, são ainda percepcionadas por sentidos diferentes, nomeadamente a visão e a audição. Mas ao mesmo tempo, estas surgem interligadas, como forma de representação e de expressão do seu autor. Surgem materializando uma ideia e apresentam-se ao espectador, em “tempo real”, consolidando-se na construção de sentidos. Mas o que é o tempo real quando a percepção humana lhe cria um desfasamento temporal?

 

Os deliberados intervalos de tempo na obra de Hill, despertam a consciência da recepção da informação e da relação com o meio de comunicação. O uso do vídeo permite tornar o processo comunicativo mais claro, elevando a consciência do receptor.

 

A linguagem está igualmente relacionada com o tempo, e por sua vez o tempo é necessário para a nossa compreensão da linguagem. A focagem neste tema é bastante evidente no trabalho de Gary Hill, é através deste elemento que Gary Hill vai fomentar toda a sua teoria e desenvolver a sua obra.

“Tempo, é conceito central em vídeo (…) O princípio intrínseco ao vídeo é o feedback”. Gary Hill *6   (ver final do texto)

 

A exploração das ligações entre a realidade corpórea e a articulação ou recepção dos sinais linguísticos e visuais, remete para uma visão da mente humana enquanto processo físico e da linguagem também enquanto forma.

Na busca por uma linguagem mais consciente,  as imagens e as palavras em Gary Hill são realidades sobre a realidade, na realidade que por sua vez está contida real realidade mais além.

“Quero suspender a relação de exclusão mútua do sentido e do absurdo; ver o que acontece no interior da experiência da linguagem à medida que o sentido se estabelece ou desintegra, conforme aquilo que acontece”. Gary Hill *7 (ver final do texto)

O artista utilizou durante anos, os seus próprios textos até começar a utilizar textos de outros autores. De facto, a consciência da realidade enquanto teia de complexidades encontra-se no âmago do modernismo literário. Muitos dos textos- chave da literatura moderna estão presentes em obras de Gary Hill, bem como os textos de filósofos como Gregory Bateson, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein.

Para além destes autores inerente à sua teoria encontram-se os modelos epistemológicos criados pelos estruturalistas. O estruturalismo é uma corrente de pensamento filosófico que se propõe o estudo das estruturas ou sistemas formais de relações em matérias antes definidas pela subjectividade. Foucault, Blanchot, Barthes e Derrida, são de maior influência para o seu trabalho.

 

*1 Poética, de Aristóteles

*2 O acaso e o enredo, Umberto Eco

*3 traduzido por Ana Yoicochi a partir da versão inglesa

*4 Gary Hill em entrevista a Streaming Media World

*5   Gary Hill: Inter-view

*6   Gary Hill: Inter-view

*7    Gary Hill: Inter-view

 

 

Obras de Gary Hill- Jogos de Linguagem

 

Viajando um pouco pelo universo bem particular de algumas das obras de Gary Hill, salta à vista o complexo percurso da informação visual em Dervish (1993-94) em que a projecção das imagens nas paredes não se dá imediatamente, mas somente após ser mediatizada por espelhos móveis.

 

 

 Dervish (1993-94)

 

Em Reflex Chamber (1996) e Midnight Crossing (1997), cuja forma estrutural é similar, as imagens são interrompidas por momentos de escuridão ou de flashes intensos. Esta última peça transporta o espectador para um mundo onde realidade e sonho fazem parte da mesma dimensão. Na sala escura, as imagens surgem nas paredes enquanto manchas de cor e só gradualmente é que se tornam definidas, ganhando forma, sendo alvo de um processo de criação, influenciando o espectador na sua apreensão.

A luz tremeluzente e fraca, em que as imagens surgem, possibilita a ambiguidade das imagens. Os seus contornos vagos que são como que reflexos do que se passa na nossa consciência, enquanto espectadores.

A luz estroboscópica de grande intensidade, que nos interrompe momentaneamente, traz-nos violentamente à consciência pura.

Existe uma preocupação com a colectividade, pois as obras de Gary Hill, antes de se dirigirem a um indivíduo, dirigem-se a vários indivíduos. A experiência é única e singular, ao mesmo tempo que é partilhada entre os vários espectadores.

 

 

Midnight Crossing (1997)

 

Em Reflex Chamber, uma mesa rectangular no centro da sala escura recebe a projecção.

Os espectadores, reunidos em torno da mesa, observam uma sequência de imagens, ouvindo uma voz que parece surgir casualmente. Essa voz, as imagens e a luz estroboscópica parecem surgir de forma aleatória.

O ambiente nesta instalação, torna-se de grande intimidade e os espectadores sentem-se como que a fazer parte numa sessão espirita.

 

 

 

Reflex Chamber, 1996

 

 Em Between Cinema and a hard place (1991), um conjunto de monitores de tamanhos variáveis, despojados da sua armação exterior e ligados através de cabos, estão dispostos no chão, sem aparentemente qualquer ordem.

As imagens surgem a diferentes velocidades, fragmentadas, constituindo matéria-prima visual, aparecendo, desaparecendo, aparecendo noutro écran, repetindo-se noutro, enquanto vários outros se encontram vazios, ou no mesmo tipo de frenesim imagético, com outras quaisquer imagens. A forma como surgem chama a atenção para os mecanismos que governam a nossa percepção visual. Em paralelo e em simultâneo, ouvimos um texto de Heidegger, adaptado pelo artista, que mais uma vez parece surgir de forma aleatória.

 

 

 

 Between Cinema and a hard place (1991)

 

Em Tall Ships, figuras humanas emergem da escuridão para estabelecer contacto com o espectador. Pequenos focos de luz projectados na parede, vão-se definindo à medida que se dirigem ao espectador. Surgem homens, mulheres e crianças que nos observam e posteriormente desaparecem no vazio.

 

 

 Tall Ships (1972)

 

Inasmuch as It is always already taking place (1990) é uma instalação vídeo que consiste em dezasseis monitores de diferentes tamanhos, descarnados da caixa que os reveste e quarenta  diferentes repetições de close-ups em vídeo de um corpo humano.

O tamanho dos écrans em relação ao tamanho das partes do corpo humano que surgem nas  imagens, a disposição e a ordem das imagens relacionada com a disposição e ordem dos monitores, o som ambiente e o discurso oral, permitem mais um jogo de linguagem.

 

Inasmuch as It is always already taking place (1990)


 

Fontes de imagens:

http://atc.berkeley.edu/bio/Gary_Hill/

http://www.docam.ca/en/component/content/article/343-gary-hill-dervish.html

http://csw.art.pl/new/97/hill_e.html

http://www.ricegallery.org/new/exhibition/reflexchamber.html

http://www.tate.org.uk/research/tateresearch/tatepapers/04spring/time_based_media.htm

http://gonsalves.anat.org.au/?m=200803

http://www.fotos.org/galeria/showphoto.php/photo/5296

 por Cláudia Almeida

 

 

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