Entrevista Patrick Mendes
Realizador

Cartaz "Diagnósticos", onde se inclui a curta-metragem "Síndrome de Stendhal"

Um projecto da produtora JumpCut

Cartaz do filme "In Cold Blood" 2009.

 

Biografia

Patrick Mendes (nasceu em 1981, França).

Vive em Portugal (Sintra) desde os 6 anos de idade. Frequentou o nível superior nas áreas de antropologia, e educação especial e reabilitação.

Licenciado em Realização pelo Conservatório de Cinema. Trabalhou como assistente de realização de Werner Shroeter, Eugène Green, Inês Oliveira, Jorge Cramez, Pedro Costa, João Canijo,(tendo também colaborado como assistente de produção) e Miguel Gonçalves Mendes (colaboração como Director de Som).

Escreveu, produziu e realizou as curtas – metragens “Síndrome de Stenhdal em 2008” (em colaboração com a produtora JumpCut), e “In Cold Blood, em 2009”, tendo integrado a programação do Festival Indie no mesmo ano.

 

Visões do Cinema – Quando e como é que decidiste ser realizador?

Patrick Eu sempre gostei de cinema, desde miúdo sempre fui apaixonado por filmes. A minha mãe quase corria comigo de casa para eu ir brincar com os outros miúdos, mas nunca pensei que isso fosse uma maneira de ganhar a vida, cá em Portugal ou noutro país qualquer, nunca pensei que iria estudar cinema, foi um bocado o acaso que me levou a isso. Na altura que concorri ao conservatório pensava seguir realização mas também não conhecia muito bem as outras áreas do cinema. Quando sai da escola de cinema é que cheguei à conclusão do que queria fazer, porque foi quando comecei a fazer os meus filmes e a apostar mesmo no meu trabalho.

Não sei dizer quando é que decidi querer ser realizador, aconteceu em 2008 com a ante-estreia do “Síndrome de Stendhal”.

Visões do Cinema – Quais as maiores dificuldades que tens encontrado?

Patrick – A maior dificuldade é encontrar gente que aposte em ti, quando não conhecem o teu trabalho, o género de filmes que tenho feito, são filmes difíceis de ser distribuídos, logo são difíceis de serem subsidiados.

Acho que o maior problema é mesmo não haver dinheiro.

Visões do Cinema – Filmas em vídeo?

Patrick - O “Síndrome de Stendhal” foi filmado em vídeo, mas eu tenho filmado em Super8. É mais interessante como suporte. O vídeo é muito frio e acho que é muito fácil, não precisas de planear nada. Tendo uma câmara podes filmar horas e horas e depois decides na montagem o que queres fazer do filme.

A película obriga-te a pensar como é que tu queres que o filme seja e só depois é que o vais fazer, em função daquilo que já pensaste fazer antes. Exige mais esforço intelectual, e acho que é mais interessante por causa disso. Não é uma coisa que nasce do acaso.

O documentário em vídeo facilmente pode nascer do acaso, agora com película as coisas têm que estar mais ou menos preparadas. (a menos que se tenha dinheiro para improvisar em película)

 

Visões do CinemaQueres falar um pouco sobre os filmes que tens realizado? Sobre as suas temáticas?

Patrick- Sobre o síndrome (curta-metragem), o mais importante é referir o contexto em que o filme foi feito. O Miguel Gonçalves Mendes propôs a quatro realizadores (ele inclusive) que têm trabalhado para a JumpCut (produtora audiovisual), para apresentar quatro curtas-metragens, filmadas e montadas em 24 horas.

O projecto tinha que ter um tema em comum para todos, de forma a haver uma relação entre os trabalhos e decidimos escolher o tema da doença.

Pesquisei numa doença suficientemente abstracta de forma a não ter limitações no argumento.

O filme “Sangue Frio” (In Cold Blood) só existe devido a uma proposta do Filipe Romão (artista plástico) que me convidou para fazer uma curta para uma exposição colectiva (Actos Isolados). Aliás o conceito obriga a que seja uma coisa mais ligada ás artes plásticas apesar dos meus filmes terem uma ligação muito forte a esse conceito. Eu acho que a pintura está completamente entrelaçada com o cinema. O cinema vive muito das imagens da pintura, sem ela, o cinema perderia metade da força.

Visões do Cinema- Como se pode aceder á tua obra? Onde podemos visioná-la?

Patrick- A única forma de a visionarem é em festivais ou em ante-estreias (porque de momento não posso colocá-los na Internet, porque há festivais que não os aceitam, caso já tenham sido passados doutra forma). Existe também um site, com o qual colaborei, onde se pode visionar “uma pequena obra de arte fictícia” na colecção Bernardo, no blog “Daltonic Brothers”, sobre o nome do falso artista Rainer Schlurps.

Visões do Cinema - E longas-metragens?

Patrick- Eu tenho um argumento para uma longa-metragem inspirado em histórias reais de aldeias do concelho de Sintra. É um pouco o retrato da minha infância.

Eu não me vejo a escrever coisas que não tenha vivido, acho que na maior parte dos filmes, se não tivermos conhecimento de causa, o filme não resulta porque não estás lá tu, está antes uma tentativa de tentares mostrar uma coisa que não conheces.

Nas curtas-metragens tenho conseguido ter espaço para criar realidades paralelas, agarro as coisas como elas existem, e altero-as em função da forma como eu as quero retratar. Nas longas-metragens, até agora só me têm surgido ideias ligadas a personagens portuguesas, mas a verdade é eu não me vejo a retratar outras realidades. Eu vivo aqui, é a única coisa que eu conheço, a minha cultura é esta.