Entrevista ao realizador Francesco Giarrusso


Biografia Francesco Giarrusso (Bergamo, Itália, 1980)

Licenciado em cinema pela Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Bolonha. Fez curso de Realização de documentário, em Itália.

Estágio profissional na produtora David & Golias, em Portugal, onde integrou a equipa técnica em duas curtas-metragens.

Encontra-se a terminar Doutoramento em Cinema, e a terminar um projecto de documentário, subsidiado pelo ICAM (actual ICA).

Lecciona italiano e história do cinema, em escola de línguas portuguesa.

Visões do Cinema - Fala-nos um pouco sobre o teu trabalho e sobre a tua visão sobre o cinema.

Francesco GiarussoEncontro-me neste momento a fazer um Doutoramento em Cinema e a tentar conciliar a teoria com a prática. Em geral, penso que na Europa ninguém vive de somente de cinema, excepto os técnicos, que conseguem ter um salário mais ou menos fixo. Infelizmente, muitos deles trabalham sem paixão por aquilo que fazem, pois claro, ninguém duvida do seu profissionalismo, mas acabam por ser, na maioria dos casos, uma espécie de mercenários. No que me diz respeito, é preciso arranjar alguma coisa para ganhar a vida.

Nesse sentido, gostaria de vir a dar aulas em universidades, escolas públicas ou privadas. Além da paixão que sinto pelo cinema, não vos escondo que o ensino dar-me-ia também a oportunidade para ter uma certa segurança financeira, visto que não se pode fazer dinheiro só com o cinema, ou melhor, com um certo tipo de cinema, e o dinheiro que o Estado investe em cinema é muito pouco.

Visões do Cinema - Também te encontras a realizar um documentário. Podes falar-nos um pouco disso?

Francesco Giarusso - Estou há dois anos com um amigo (Adriano Smaldone) e uma produtora portuguesa (Terratreme Filmes), a realizar um documentário. No mês de Novembro começamos a montagem e se tudo correr bem, na primavera estará pronto.

O melhor foi trabalhar com as pessoas que nos acompanharam ao longo da rodagem.

A realização foi difícil porque éramos 2 pessoas a fazer o trabalho que era suposto ser feito por mais 5 ou 6 pessoas.

Neste documentário recusei-me a fazer entrevistas do género televisivo, porque não me interessava a “falsa verdade” que se consegue atingir através da reportagem. Houve uma espécie de trabalho cénico, de Direcção de Actores. As pessoas comuns tornaram-se actores, representando elas próprias, ou fingindo ser "outras pessoas". Houve uma caricatura de si próprios tão falsa que se tornou verdadeira ao ponto de os “actores” acabarem por não acreditar mais neles próprios. Eram duas pessoas, (talvez tenham sido mais) um homem e uma mulher “no buraco do mundo”, como às vezes as pessoas chamam àquela terra, isto é, Trás-Os-Montes.

Visões do Cinema - O que achas do mercado cinematográfico em Portugal?

Francesco Giarusso - O mercado não existe. São sempre as mesmas pessoas, os amigos dos amigos, que têm uma ideia mais ou menos boa e que ganham um subsídio. Na minha opinião, o nível médio dos filmes portugueses é fraco. Por um lado, há pessoas que querem fazer filmes "tipo Hollywood" mas com poucos recursos, em vez de irem atrás da particularidade das próprias origens ou da própria sensibilidade, do sítio onde cresceram. Aqui em Portugal já não há dinheiro, talvez nunca tenha havido, para fazer filmes tipo Hollywood. E em segundo lugar não é uma tipologia de filmes que se encaixa com a produção cinematográfica portuguesa: não há recursos, nem tradição. De facto, não é por acaso que os únicos realizadores que têm uma projecção mundial, por exemplo Manoel de Oliveira, Pedro Costa, João César Monteiro, João Canijo, Teresa Vilaverde, etc… são realizadores que têm uma maneira mais particular de ver o mundo. Claro que as pessoas podem gostar ou não, mas isso já é outra conversa. Estes realizadores têm um olhar característico, não quer dizer que seja um olhar tipicamente português, porque não existe um olhar português, mas estes olhares têm uma sintonia com o ar que respiram, com as atmosferas em que vivem. Não são filmes que tentaram macaquear um género que não lhes pertence.

Eu estou convencido que se a partir de amanhã, todas as salas de cinema, todas as televisões passassem filmes de um certo género, as pessoas iriam habituar-se.O espectador pode ser educado a ver cinema, ter uma educação visual.

Não sei se um dia conseguirei dar aulas. Para mim dar aulas, é uma missão: a de mostrar às pessoas que existem outros mundos possíveis. Nós vivemos num regime e tudo o que vai para além do codificado e universalmente aceite é mal visto: o que não respeita os códigos gerais, o que não é conforme a regra não interessa a ninguém. É uma questão de mostrar as coisas, é uma questão de ter paciência para perceber que esse não é o único mundo possível, que existem outras coisas, outras possibilidades. O cinema é arte, pois claro tem a ver também com industria, mas não pode esquecer que tem a responsabilidade de mostrar outros mundos, proporcionar um outro olhar.

Visões do Cinema - Que tipo de filmes preferes?

Franceco Giarusso - Para mim não há muita distinção entre documentário e ficção, essa classificação tem a ver com a participação nos festivais, para enquadrar e etiquetar o filme dentro de um género, é necessário este enquadramento para ter ordem nas programações cinematográficas.

O primeiro filme que estou tentar fazer é um documentário mas na realidade tem pouco a ver com a definição clássica de documentário, gosto de brincar com os elementos fronteiriços dos dois géneros.

O documentário é também o género em que geralmente é mais fácil estrear, sobretudo por razões financeiras, digamos que para alguém que queira começar a trabalhar no cinema, o documentário é o género mais adapto para fazer exercício prático, visto que na maioria das vezes é necessário gerir tudo: o imprevisto ou o imprevisível.

Visões do Cinema - Trabalhas ou já trabalhaste com subsídios do ICA?

Francesco Giarusso - O primeiro subsídio que ganhei foi do ICAM. Concorri para a pesquisa e o desenvolvimento de documentários. Pensei que era a melhor estratégia: começar com o subsídio mais pequeno para poder depois um dia concorrer à produção de documentário. De facto, achei lógico concorrer e ganhar o subsídio para a pesquisa porque pensei que se o Estado me dá o dinheiro para fazer a pesquisa, mais tarde também me dará o dinheiro para a realização...

Este documentário tornou-se um "work in progress" porque eu não sabia quem deveria entrar, sabia o que queria fazer e sobretudo o que não queria fazer, mas houve coisas que não pude prever. Entretanto o dinheiro do subsídio para a pesquisa e desenvolvimento não foi suficiente para pagar as pessoas que trabalharam connosco, mas tivemos sorte e encontrámos outros apoios: uma associação do norte, chamada AEPGA, que não tem nada a ver com o cinema, mas que gostou do projecto e deu-nos alguns apoios. Também concorremos a uns subsídios europeus e ganhámos algum dinheiro... Pelo menos não estou a usar o meu dinheiro mas ao mesmo tempo não estamos a ganhar nada. Temos só a quantia certa para pagar um pouco ao montador que é um amigo nosso e por isso nos vai fazer um favor...

Visões do Cinema - Que influências artísticas podemos encontrar no teu trabalho?

Francesco Giarusso - Às vezes penso na juventude e na formação dos realizadores. Com certeza cresceram tendo modelos e também referência literárias ou cinematográficos que os orientaram na escolhas e nos gostos pessoais. Com certeza que tiveram grandes mestres, que lhe ensinaram a ver o mundo...mas então, como é possível às vezes uma tão grande falta de consciência crítica, (supostamente construída a partir das referâncias culturais que tiveram ao longo da vida) para poderem julgar o seu próprio trabalho?

Visões do Cinema - Em que formato filmas? Película ou vídeo?

Francesco Giarusso - É preciso respeitar sempre o formato original do filme. Mas se não for possível não vejo nada de mal vê-lo em formato dvd. Nós filmamos em mini-dv, pois era o único formato que podíamos utilizar... A mini-dv dá para trabalhar com o tempo, tem uma dimensão temporal diferente da película. Por estranho que seja o digital dá-te uma dimensão mais artesanal e intíma, podes acompanhar por mais tempo as pessoas que entrarão no filme, podes estudar a luz por mais tempo, experimentar varias soluções, sem a preocupação do dinheiro e dos metros da película.

Visões do Cinema - O que achas do panorâma nacional?

Francesco Guiarusso - Portugal é o único país, onde um "Zé ninguém" como eu recebeu alguma coisa. Em Itália é muito difícil para os jovens. Aqui, apesar de ganharem sempre os mesmos, há a probabilidade de 1 em cada 100 conseguir ter oportunidades. Portugal é um dos poucos países da Europa em que os jovens realizadores podem fazer alguma coisa.

Visões do Cinema - Como pensas divulgar o teu documentário?

Francesco Giarusso - Em primeiro lugar vou mostrá-lo às pessoas que entraram nele, e aos membros da associação do norte que também irá projectar o filme nas aldeias. Depois gostaria de enviá-lo para festivais. Este documentário reflecte a minha visão das coisas, é intransigente, é preciso ter paciência para o ver. Se não for aceite, fica guardado na gaveta.

Visões do Cinema - Porquê decidiste elaborar a tua tese de Doutoramento sobre o César Monteiro? O que trouxe de novo o trabalho dele?

Francesco Giarusso - O João César Monteiro é um realizador que tem uma liberdade formal e conceptual excepcional. A nível formal não representa uma etapa fundamental na história do cinema, mas no que diz respeito à sua concepção do cinema acho que é um dos realizadores mais importantes da historia do cinema, sobretudo por causa da sua liberdade e genialidade. Não existe muita gente interessada em estudar o cinema dele, portanto, sinto o dever de divulgar uma obra muito importante, seja em Portugal como em todo o mundo.

O doutoramento proporciona-me a oportunidade de cultivar as minhas paixões, a curiosidade que nos leva ao conhecimento. Para a análise do cinema de João César Monteiro também é preciso ter uma bagagem cultural grande, e foi mesmo graças a ele que passei da "infância à adolescência". Foi o primeiro realizador que captou a minha atenção, começando a questionar-me acerca do olhar cinematográfico, dos problemas relacionados com a realização, da ética cinematográfica, da intransigência cinematográfica, do que quer dizer, fazer cinema. Foi a partir dele que conheci outros realizadores, construindo desta forma o meu panorama de referência, através do Monteiro conheci as obras de Straub e Huillet.

A leitura psicanalítica dos filmes é subjectiva, às vezes leva a ver fantasmas... " A semiótica pode ser interessante para analisar as obras: é como se fosse uma autópsia. Podes dividir as partes e começar a fazer uma análise detalhada mas, ao mesmo tempo, é sempre preciso saber que a soma das parte não vai dar o Todo..