Entrevista Mariana Rolim Carlos (realizadora/ videasta)

Biografia de Mariana Rolim Carlos
 

(Sintra, 1989)

 

Licenciada em Audiovisual e Multimédia pelo Instituto Politécnico de Lisboa. Colaborou na produção do programa televisivo da ESCS para a RTP2. Responsável pela cobertura dos eventos realizados pela Dínamo – Associação de Dinamização Sócio - Cultural (intercâmbio de teatro de rua e comunidade local, em Viseu; intercâmbio de teatro de rua urbano, na Polónia - OUTxchange). Tem realizado a cobertura audiovisual e diversas peças promocionais em formato vídeo (A Minha pequena descoberta, Decoração na Avenida de Roma, Encontro, entre outras). Colaborou na cobertura audiovisual do evento Pop Up Lisboa 2010).

 

Arte Projectada Porque decidiste trabalhar em vídeo? Quais as mais valias deste formato relativamente a outros?

 

Mariana Rolim Carlos - Quando recebi a minha primeira câmara de filmar, senti finalmente que poderia alcançar algo meu. Penso que o vídeo tem um potencial imenso. As imagens têm uma força infinita, e através do vídeo penso que se pode criar novas dimensões e mundos. E este potencial concede-lhe um lugar privilegiado relativamente a outros formatos. O olhar é sem dúvida um bem precioso, que nos surpreende a cada instante. Instantes esses que jamais se repetem. E é arte capturar o instante, que morre ali. E ao mesmo tempo que aprecio bastante o realismo e a possibilidade de imortalizar o momento, também penso que o vídeo tem o poder de romantizar, de enfatizar, algo real ou ainda de tornar o impossível numa realidade. O que torna o vídeo um objecto ambíguo e suspeito. Tornando o jogo entre o que realiza e o que o vê vivo. Porque um vídeo tem a identidade de quem o realizou mas é sempre visto por olhos alheios, contendo uma multiplicidade de identidades conferida por diferentes interpretações. Fazer vídeo é o poder de dar voz a algo: a uma situação, a um contexto, a uma acção, a uma ideia, a uma pessoa. É criar uma visão, uma perspectiva. E acaba inevitavelmente por provocar o surgimento de novas visões e perspectivas. 

 

Arte Projectada-      Pré-produção, produção, pós-produção. Podes falar-nos um pouco do trabalho inerente a cada uma destas fases de produção de um vídeo? Com a qual te identificas mais?

 

Mariana Rolim Carlos - Todas as fases são fundamentais.

A fase de pré-produção gira em volta de uma ideia. Requer um trabalho meticuloso e um grande planeamento para que o sucesso aconteça nas fases seguintes. Penso que a fase de pré-produção é sem dúvida a que requer mais coragem e ousadia. Depois do nascimento da ideia é necessário torná-la credível, real e "apetecível". É essencial trabalha-la e transformá-la em algo bastante concreto e fazível.   

A fase de produção é o desafio. É um processo semelhante à fase de preparação de uma escultura, em que é necessário recolher os melhores e os mais apropriados materiais para a construção final. É ver perante os nossos olhos a transformação das ideias, das palavras ou expectativas, em acções reais ou torná-las o mais real possível, o que no fim do dia é sempre gratificante.

A pós-produção é o elemento que interliga todas as partes. A fórmula que no fim dita o veredicto final. Devo confessar que das três fases é a que mais aprecio. Penso que tem qualquer coisa de mágico e poderoso. E nos trabalhos que já realizei, principalmente no documentário sobre o intercâmbio de teatro urbano na polónia da Dínamo, adorei o processo. Foi um processo muito intensivo e solitário. Mas organizar, analisar, seleccionar, e transformar material de 10 dias num documentário conciso, apenas de 30 minutos, explícito e interessante no ponto de vista do espectador foi desafiante. A edição fascina-me na medida em que torna as imagens manobráveis, e tudo possível. Existe assim uma infinidade de perspectivas e visões possíveis – e é na fase de pós-produção que a obra toma um rumo, um caminho. 

 

http://www.youtube.com/user/associacaodinamo#p/u/7/Zt3O3rziy-A (link para video de promoção ao documentário Outxchange Polónia)

 

Arte Projectada-      Até que ponto é que a qualidade do material técnico pode influenciar a qualidade do trabalho final?

 

Mariana Rolim Carlos - Eu penso que pode influenciar bastante. Não ter o material mais apropriado cria condicionantes e pode muitas vezes ditar o rumo de um trabalho. Penso é que temos de assumir os supostos problemas técnicos e procurar superá-los com criatividade e empenho, incorporando-os no trabalho final. Não ter medo de arriscar e de assumir a suposta falha e torná-la natural ou propositada aos olhos do espectador.

 

Arte Projectada -      Tens algum tema que gostes de explorar em particular e trabalhar a sua continuidade, ou a preferes uma liberdade criativa total, de filme para filme?

 

Mariana Rolim Carlos - Não tenho nenhum tema particular que goste de explorar. Gosto, sim, da ideia de deixar um lugar para os espectadores, tornando-o numa peça fundamental do vídeo, tornando-o activo. A minha ideia para a curta Encontro partiu daí, de deixar o espectador fazer uma interpretação do que vê, um pouco ao género de uma charada.

E gostei muito das duas experiencias que tive em documentar (A minha pequena descoberta e OUTxchange). Captar e incorporar num vídeo algo tão real como a visão de acontecimentos concretos, e conseguir transmitir a sua essência, penso que, é muito nobre e mais do que gratificante.

 

Arte Projectada-      Sentes que há poucos programas e formas de apoio financeiro e pouca acessibilidade ao trabalho audiovisual independente?

 

Mariana Rolim Carlos - Penso que existe pouca visibilidade e pouco reconhecimento. Apoios existem, é necessário  estar-se muito atento e lutar por eles. Mas penso que é preciso conhecer-se muito bem o meio. É um meio muito cingido. E é necessário sobretudo querer saber mais e estar alerta para conhecê-lo melhor.

 

Arte Projectada-      Na tua opinião o que vale mais: uma boa ideia (conteúdo) ou uma boa imagem (forma)?

 

Mariana Rolim Carlos - Ambas têm uma enorme importância.

No entanto, enquanto espectadora sinto-me enganada e traída ao ver uma boa imagem sem conteúdo. Já uma boa ideia deixa sempre uma marca mesmo que a imagem não a complemente da melhor forma. A ideia pode sobreviver sem uma boa imagem, mas a imagem por mais bela que seja, se vazia a questão surge: “porquê?”. E a ideia pode levar o espectador a procurar mais, a fazer mais. E a imagem só se torna realmente bela quando preenchida e cheia de significado.

Mas sem dúvida que o desafio é esse. Encontrar a harmonia perfeita entre o conteúdo e a forma.

 

 

A visões do cinema agradece a colaboração da realizadora/ videasta Mariana Rolim Carlos para responder a esta entrevista.
 

 

       

English translation: INTERVIEW MARIANA ROLIM CARLOS
 
 (Videomaker/ Director)

 

Biography Mariana Rolim Carlos
 

 

Degree in Audiovisual and Multimedia, in Polytechnic Institute of Lisbon. Collaborated in the production of the television show ESCS for RTP2. Responsible for video coverage of events held by Dynamo - Youth Association for Socio - Cultural (exchange of street theater and the local community, in Viseu, exchange of urban street theater, in Poland - Outxchanges). Has held various audiovisual coverage and promotional items in video format (My little discovery, Decoration in Rome Avenue, Summit, among others). Collaborated in audiovisual coverage of the event Pop Up Lisbon 2010).

Arte Projectada- Why did you decide to work in video? What are the gains of this format for others?

 

Mariana Rolim Carlos - When I received my first camera, I finally felt that I could achieve something. I think video has a huge potential. The images have an infinite power, and through the video I think it can add new dimensions and worlds. And this potential gives it a privileged position relative to other formats. The look is certainly a precious gift that surprises at every turn. These moments are never repeated. And art is capturing the moment that dies there. And while i appreciate the realism and the ability to immortalize the moment, I also think that the video has the power to romanticize, to emphasize, something real or to make the impossible a reality. What makes a video object ambiguous and suspect. Making the match between that place and who sees it live. Because a video identity is achieved it but is always viewed by others, containing a multiplicity of identities given by different interpretations. Making video is the power to give voice to something: a situation, a context, an action, an idea, a person. You create a vision, a perspective. And inevitably ends up provoking the emergence of new visions and perspectives.

 

Arte Projectada - Pre-production, production, post-production. Can you tell us a bit of the work involved in each of the stages of video production? With wich you indentify most?

 

Mariana Rolim Carlos -  All phases are critical.The pre-production revolves around one idea. Requires painstaking work and planning for a big success happen in next phases. I think the pre-production is undoubtedly the one that requires more courage and boldness. After the birth of the idea is necessary to make it credible, real and "desirable. " It is essential to work it and turn it into something very concrete and doable.
The production phase is the challenge. It's similar to the preparation of a sculpture, it is necessary to collect the best and most appropriate materials for the final construction. You see before our eyes the transformation of ideas, words or expectations, real action, or make them as real as possible, which at the end of the day is always rewarding.

The post production is the element that connects all parts. The formula that ultimately dictates the final verdict. I must confess that the three phases is the one that I most appreciate. I think it has something magical and powerful. And the work I've ever done, especially in the documentary on the exchange of urban theater in Poland the Dynamo, I love the process. It was a very intensive process and lonely. But organizing, analyzing, selecting, and transforming materials 10 days in a concise documentary, only 30 minutes, explicit and interesting in view of the spectator was challenging. The issue fascinates me in that it makes images maneuverable, and everything possible. There is thus a multitude of perspectives and views possible - and is in post-production work that takes a path, a path.

 

 

 http://www.youtube.com/user/associacaodinamo#p/u/7/Zt3O3rziy-A (link to video promotion to Outxchange Polónia documentary, by Mariana Rolim Carlos)

 

Arte Projectada - How is the quality of technical equipment can influence the quality of the final work?

 

Mariana Rolim Carlos - I think it can influence a lot. Not having the most suitable material creates conditions and can often dictate the course of a job. I think we must assume the alleged technical problems and seek to overcome them with creativity and commitment, incorporating them into the final work. Do not be afraid to take chances and take the alleged failure and make it natural or deliberate in the eyes of the beholder.

 

Arte Projectada -  Do you have a theme you like in particular to explore and work on their continuity, or do you prefer a total creative freedom, from film to film? 

 
Mariana Rolim Carlos - I have no particular theme that I like to explore. I Like, yes, the idea of leaving a place for viewers, making it an essential part of the video, making it active. My idea for a short meeting then departed, leaving the viewer to interpret what he sees, just as a charade. And really liked the two experiences I had in documentary (My Little Discovery and Outxchanges). Capture and incorporate in a video, something as real as the sight of concrete events, and to convey its essence, I think that is very noble, and more than rewarding.

 

  Arte Projectada - Do you feel that there are few programs and forms of financial support and little acess to independent audiovisual work?
 
Mariana Rolim Carlos - I think there are little visibility and little recognition. There are supports, but we need to be very careful and fight for them. I think that we have to know very well the environment. It's a very girded environment. And it is necessary above all, want to know more and be alert to know it better.
 
Arte Projectada - In your opinion, what matters most: a good idea (content) or a good image (form)?
 
Both have enormous importance.
However, as a spectator I feel deceived and betrayed to see a good image without content. A good idea always leaves a mark even if the image is not the best.The idea can survive without a good picture, but the image no matter how beautiful it is, if empty, the question arises: "why? ". And the idea can take the viewer to seek more, do more. And the picture only becomes really beautiful when completed and full of meaning. But no doubt that this is the challenge. Find the perfect harmony between content and form.
 

 

 Visões do cinema thanks the collaboration of video artist Mariana Rolim Carlos to answer this interview.

 

 

 

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