Artes Contemporâneas: Novos Caminhos para a Arte


 

 

“Fotografia, cinema, televisão, computador: num século e meio, da química à informática, as máquinas da visão tomaram a seu cargo a antiga imagem «feita pela mão do homem». Daí resultou uma nova poética, isso é, uma reorganização geral das artes visuais»

Régis Debray, Vie et Mort de l ‘Image. Paris: Gallimard, 1992

 

 

 

 

A partir do séc. XIX, ciência e técnica caminham juntas para uma acção comum, numa interacção recíproca que resulta na extraordinária aceleração de descobertas científicas e de progressos industriais.

A descoberta da fotografia, arte de imprimir numa emulsão sensível a imagem de um objecto por meio da luz, e a posterior descoberta do cinema, que utiliza a sucessão de imagens impressas em película de suporte celulóide, a uma cadência de 24 imagens por segundo, e que em virtude do fenómeno óptico da persistência das imagens na retina, produz a ilusão de movimento, traduziu-se inevitavelmente na exploração das potencialidades e possibilidades artísticas dos novos meios, partindo das suas características ontológicas: o facto de se encontrarem dependentes de um dispositivo tecnológico e de obedecerem à reprodução de um “realismo essencial”, com possibilidade de manipulação da realidade.

 

Imóvel, a imagem fotográfica é uma memória. Movimentada, a imagem cinematográfica agita-se em torno da fotografia, dando-lhe vida. Na luta contra o instante, o cinema opõe-se à imobilidade da fotografia através do movimento, dando-lhe dinamismo. 

 

A ERA DAS NOVAS TECNOLOGIAS

 

Com a conquista da electricidade, o aparecimento da Televisão, da Rádio e do Computador, a arte estende o seu campo de actuação a estes novos meios de comunicação.

 

A arte electrónica desde o seu início baseia-se num novo principio de modificação de sinais pré- existentes. O artista deixa de criar somente a partir da sua imaginação, mas torna-se um técnico, um acessório para a máquina.

 

O primeiro instrumento electrónico, desenhado em 1920 por Lev Theremin, cientista e músico russo, continha um gerador que produzia um determinado sinal de onda. O artista mudava simplesmente a sua frequência e amplitude.

 

 

Os primeiros sintetizadores musicais chegam em 1950, substituindo sinais de onda por sinais mais complexos no que diz respeito a sons, ritmos e melodias, incluindo a acumulação de sinais de gerador. A música electrónica aumentou em muito as possibilidades técnicas abertas ao compositor e à expressão musical.A música torna-se também objecto de consumo e é um meio que ao longo do séc. XX  passa por significativas revoluções epistemológicas, e se vulgarizou a utilização de tecnologias digitais.

 

A informática pessoal adquiriu um papel extremamente importante na nossa sociedade. Se considerarmos a rapidez do avanço tecnológico nestas últimas décadas, é de esperar o surgimento de novas e espectaculares tecnologias.Após a aparição dos primeiros circuitos integrados (microships), em 1959,  a maior parte dos avanços tecnológicos são consequência da evolução da tecnologia existente.

 

Uma tecnologia que está actualmente a ter um grande interesse no mercado informático, é a tecnologia multimédia:

 A evolução de uma linguagem cinemática acaba por abrir espaço ao multimédia digital, chamando a atenção para a especificidade tecnológica como critério que define um medium”.   Thomas Elsaesser

 

 

Chama-se multimédia à integração num computador, de informações provenientes de diversas fontes (áudio, vídeo, hipertexto, etc.). Este tipo de tecnologia vem facilitar a comunicação entre o homem e o computador.

Os computadores guardam a informação em formato digital e para poder manipular e controlar imagens e sons, é necessário transformá-los em informação digital passível de ser utilizada pelo computador. Para isso existe todo um conjunto de técnicas de digitalização que convertem os sinais analógicos que formam imagens e sons em informação numérica preparada para o processamento informático. As necessidades multimédia foram sendo ultrapassadas. O armazenamento de grandes quantidades de dados possíveis em equipamentos de alta capacidade levou ao Disco Rígido, ao CD- ROM, ao DVD. A tecnologia moderna permite converter o computador num centro audiovisual generalizado, sendo apenas necessário seleccionar o software correspondente.

 

O aparecimento da Internet resultou num verdadeiro terramoto comunicacional. Designers gráficos, artistas vídeo e webmasters, começam a criar trabalhos artísticos desenvolvidos especialmente para a Internet. A Web arte é a arte feita na e para a Internet. A questão da infinita possibilidade de reprodução da arte da Internet, leva a que o próprio conceito de artista deva ser recolocado na Internet. Outras questões estão a ser debatidas, nomeadamente a questão da propriedade intelectual, e a própria especificidade da World Wide Web como meio de expressão artística.

 

 

“Assim como a água, o gás e a corrente eléctrica vêm de longe às nossas casas satisfazer nossas necessidades, por meio de um esforço quase nulo, assim também seremos alimentados por imagens visuais e auditivas, nascendo e evanescendo ao mínimo gesto, quase a um sinal”.                                                                                                                                             Ricardo Anderáos

 

CINEMA, VIDEO E FOTOGRAFIA DIGITAL

 

O digital é caracterizado pelo suporte em banda magnética, codificando as imagens em bits (dígitos de computador).

A chegada do digital ao cinema vem alterar um pouco de tudo, desde as condições de filmagem até aos modos de conceber a fabricação da própria imagem.

A abordagem digital das imagens alarga a possibilidade de explorar novas paisagens cinematográficas, tornando realizáveis alguns projectos específicos de rodagem, não sendo contudo, sinónimo de produções necessariamente mais baratas.

Com o digital a pós-produção liberta-se da necessidade de manipulação da película facilitando a própria tomada de opções na montagem.

Uma câmara digital por ser bastante mais ligeira, permite uma maior flexibilidade e acessibilidade a certos locais. Torna-se ainda possível fabricar uma imagem inserindo um qualquer elemento nessa mesma imagem. Estes processos digitais de manipulação na criação de imagens cinematográficas vêm alterar a concepção clássica do cinema em que o realismo eminente, captado pela câmara, acaba por ser devolvido no filme.Torna-se então possível, com o digital, apagar ou inserir elementos visuais que nunca tenham existido num tempo correspondente ao da acção.

 

 

O cinema liberta-se da realidade pró-filmica.

 

As aplicações do digital permitem ainda a exploração de novas soluções experimentais de narrativa, criando, por exemplo, várias zonas temporais dentro da mesma imagem.

Toda uma série de obras mais marginais e experimentais analisam as possibilidades oferecidas pela tecnologia digital, retomando a tradição que surge com o pós-guerra, com o advento das câmaras de 16mm e de Super 8mm, utilizadas no cinema independente e de vanguarda.

No ensaio de Alexandre Astruc “O nascimento de uma nova vanguarda: la caméra- stylo” de 1948, era reclamada a necessidade de um estilo de realização livre equiparada à expressão do escritor, daí a invocação da câmara como caneta. Este apelo pode ser visto como o anúncio da nova vaga francesa e quase como uma profecia e manifesto dos ensaístas DV (vídeo digital).

Em 1960, os artistas vídeo, começaram a desenvolver sintetizadores vídeo baseados no principio da arte electrónica, o de modificação de sinais pré- existentes.

 

CINEMA ELECTRÓNICO / VIDEO

 

O cinema electrónico é já uma realidade. O cinema digital veio construir uma ponte entre o mundo fotográfico do filme e o mundo electrónico do vídeo e do computador. A câmara de filmar está a ser substituída pela câmara de televisão electrónica. A película está a ser superada pela fita magnética. O projector  está a dar lugar ao reprodutor electrónico de grande écran.

Francis Ford Coppola, George Lucas, James Cameron já anteviram vantagens na produção electrónica, a nível de cálculo de custos efectuado pelo computador e até mesmo de organização e controlo de produção. Esta democratização e controlo individual dos novos media foi fortemente influenciada pelo vídeo que conta já com história desde 1940.

 

Ao expandir o seu mercado através dos Blockbusters (1970), o cinema entrou em crise, fazendo temer os proprietários das casas de espectáculos. Sem razão de ser, o cinema teve nos últimos anos um autentico renascimento. Os grupos de vídeo alternativos, serviram a indústria, experimentaram o equipamento semi- profissional e abriram um mercado para esta tecnologia. Quando nos anos 80 os estúdios começaram a explorar o potencial deste dispositivo no que diz respeito ao armazenamento de entretenimento, conseguindo um lugar entre a exibição de filmes no cinema e a emissão televisiva. O vídeo ocupa um lugar vacilante entre cinema e televisão.