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Projeto : topologia e intencionalidade, fronteiras

Profa. Arq. Dra. Eunice Helena Sguizzardi Abascal

Professora de Teoria e História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo FAU Mackenzie

Arq. Carlos Abascal Bilbao

Arquiteto e Urbanista pela FAU Mackenzie. Mestre em Ciências Sociais pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais FESP – São Paulo.

O projeto definido como concepção do espaço arquitetônico admite uma especificidade, definida como operação espacial articulada às possibilidades de nela incluir significados, percepções e usos, assim como a materialidade expressa pela produção e prática envolvidas na concretização do objeto. Essa compreensão de uma dimensão complexa da arquitetura e do projeto como a mediação, na forma de linguagem, de seus determinantes, requer analisar a co-dependência entre a qualidade estrutural intrínseca ao espaço (Ciência Topológica), entendida como estrutura espacial inerente, a quantidade (a metrificação e a parametrização do espaço) e a enunciação e incorporação de atributos (intenções significativas ou semânticas) a essa estrutura. Demonstra-se que o projeto é a síntese dessa dinâmica de articulação entre a estrutura (a topologia) e o significado intencionalmente proposto por um sujeito do conhecimento arquitetônico, que opera com a singularidade da expressão específica, modificando incessantemente a estrutura das relações topológicas. À sintaxe espacial da topologia, articulam-se as dimensões semântica (a geração do significado) e pragmática, da ação de uso e percepção espacial.

Palavras-chave: Projetação – Qualidade – Quantidade – Topologia – Sintaxe espacial – Semântica – Pragmática. 2

Introdução

Este trabalho realiza uma reflexão teórica do ato de projetar, compreendendo-o como concepção do espaço arquitetônico. Analisa a natureza do projeto enquanto concepção, entendida como articulação entre quantidade (a quantificação do espaço) e qualidade, definindo-a como o conjunto dos atributos manifestos como conceito. Define "forma", relacionando-a à manifestação da especificidade de cada projeto, síntese dos atributos que explicitam intenções e realidades, (conteúdos ou uma

semântica), argumentando que apesar de o espaço arquitetônico estar sujeito às leis da ciência topológica (a qualidade intrínseca às conexões e à vizinhança espacial - uma pura qualidade, em cujo mundo a quantidade é ausente), o espaço arquitetônico representado na mediação do projeto reúne sinteticamente as condições topológicas, a quantificação dimensional e escalar, assim como é a expressão de atributos espaciais imaginados e intencionados pelo sujeito-arquiteto, que articulam a dimensão simbólica e perceptiva, ao criar não somente a vizinhança topológica e geométrica, mas fluxos e percursos específicos, que faz diferir um espaço projetado de outro.

Considerando o projeto como a mediação das relações entre as intenções do sujeito que representa e cria o espaço, o presente artigo enuncia que é o sujeito-arquiteto quem confere a esse espaço qualidade e quantidade, atributo e medida. Analisa-se como essa mediação e síntese resultam do encontro das características próprias à linguagem arquitetônica que representa o espaço (definindo assim uma sintaxe ou estrutura, resultante das leis intrínsecas às conexões espaciais ou

topologia), e entretanto, que o espaço arquitetônico qualitativamente concebido transcende as limitações inerentes a essa estrutura genérica e sempre presente, por sintetizar a escolha dos atributos ou das qualidades à sintaxe determinista, expressa pelas leis topológicas. Apresenta-se essas leis como uma constante que é incessantemente transformada pela ação de atribuir qualidades semânticas à estrutura sintática. 3

O objetivo é, portanto, argumentar que apesar das constrições estruturais ou sintáticas, a riqueza da espacialidade e da concepção do espaço arquitetônico consiste em atingir um patamar de complexidade, determinado pela articulação

sintática e semântica, esclarecendo que a atribuição de qualidades ou conceitos espaciais demanda conceber não apenas conexões espaciais genéricas, mas fluxos e percepções espaciais específicas, constituindo assim um terceiro eixo de interpretação, de natureza pragmática, o qual expressa usos e fluxos especificamente concebidos. Os aspectos qualitativos do espaço são fruto de como se concebem movimentos e percursos, e da capacidade de o arquiteto se colocar no lugar de, no ato imaginativo do movimento específico para cada situação de projeto.

1. Arquitetura e espaço topológico

O projeto arquitetônico decorre do manejo do espaço pelo arquiteto, atuando este como mediador de uma estrutura-processo ou estrutura

em processo (espaço – interpretação – significação – uso e percepção), processo que cria e representa uma complexidade, capaz de articular as condições próprias à estruturação espacial às estruturas de significação e uso, intencionadas pelo arquiteto (SPERLING, 2003a). Essa estrutura em ação requer a representação das interações entre pessoa, fluxos e ambiente, relações estas fruto das representações cognitivas que o sujeito arquiteto produz, podendo ser potencializadas em meios telemáticos. Esses meios têm propiciado a geração processual de diagramas espaciais, entendidos como representações flexíveis, signos que articulam relações entre espaço, temporalidade e eventos (entendidos como fluxos espaciais específicos) e relações de significado que aparentemente ficariam à margem do processo. Os diagramas, sob esta perspectiva, mais do que apenas "máquinas abstratas" (DELEUZE, 1993), possibilidades puras, podem se associar ao funcionamento da intuição e representar uma trama entre representação e criação. Um signo icônico ou uma "forma" gerada não seria, portanto, apenas um recipiente vazio, mas admitiria um caráter representacional de relações e significações, caracterizando-se por um enredamento (SPERLING, 2003a) entre as possibilidades sintáticas puras do espaço (uma estrutura essencial topológica, que também é 4

métrica e quantitativa), uma estrutura comunicacional (simbólica, semântica e qualitativa) e as qualidades espaciais específicas de fluxos e percepções que cada projeto determina.

Essa estrutura de topologia essencial vem sendo estudada pela Topologia Geométrica, definida como a área da Matemática que estuda as relações espaciais invariantes sob transformação formal (SPERLING,

op. cit.). A Topologia deve sua fundamentação ao matemático Leonhard Euler, autor do teorema que demonstrou que para um objeto tridimensional como um cubo, com seis faces (F) , doze arestas (A) e oito vértices (V), o número de Euler (E) se define pela equação E = F – A + V, logo E = 6 – 12 + 8 = 2. Euler demonstrou que para qualquer subdivisão praticada numa superfície, quer seja resultante de uma deformação ou de uma simples divisão ortogonal, o número de Euler continua sempre igual e igual a dois.

Número de Euler igual a dois, para todas essas superfícies sob deformação

Fonte:

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.searadaciencia.ufc.br/donafifi/gausseeuler/toros.gif&imgrefurl=http://www.searadaciencia.ufc.br/donafifi/gausseeuler/gausseuler5.htm&usg=__O5GpG8EwCoI45k7ebibLyvBjohQ=&h=300&w=300&sz=4&hl=pt-

Essas estruturas topológicas invariantes se traduzem como estruturas qualitativas de continuidade e descontinuidade, admitindo o diagrama como um meio através do qual operações tais como homeomorfismo, identificação e soma conexa são realizadas em superfícies. O homeomorfismo se define pela conservação das características topológicas de uma superfície em deformação, transformando-se as condições topográficas ou geométricas. A soma conexa é uma operação topológica descontínua, que junta uma ou mais superfícies separadas, cortando e removendo e depois aproximando e colando os 5

bordos resultantes. Duas superfícies são ditas isotrópicas, quando uma é obtida da outra, através de combinações específicas. Entre as denominadas superfícies topológicas conhecidas encontram-se Disco, Esfera, Toro, Faixa de Möbius, Garrafa de Klein, Plano Projetivo, entre outras.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/46/KleinBottle-01.png/180px-KleinBottle-01.png

A Topologia portanto não está centrada na forma, mas nas relações entre os pontos da forma. Topologia como estrutura espacial invariante não se confunde com variação formal, definindo-se como um conjunto de leis espaciais intrínsecas à natureza do espaço. E relação à variedade formal possível resultante da atividade projetual, as leis topológicas se imporiam como uma estrutura anterior à formalização, uma estrutura profunda que estaria sempre na constituição de todo e qualquer espacialidade singular. As leis topológicas não se confundem com formas complexas, sendo uma organização espacial que se mantém "por trás" das formas (SPERLING, 2003b).

Essa organização espacial geométrica-topológica admite uma transcrição algébrica, iminência de seu caráter ao um só tempo quantitativo e qualitativo. Portanto, a uma reta corresponde uma equação, e portanto, uma descrição com variáveis de análise (SPERLING, 2003b), de que se deduz que essa transcodificação (geometria e matemática algébrica mantendo entre si canais de comunicação), é uma evidência de que distintos mundos textuais de representação mantêm entre si redes de relações internas, mostrando haver uma comunicação entre as linguagens, aqui definidas como linguagem gráfica espacial e linguagem gráfica linear. No que cabe à arquitetura, um diagrama espacial algébrico-topológico pode adquirir o significado de um espaço arquitetônico, assim como pode incluir na roda da significação complexa um sistema de fluxos e eventos ou movimentos no espaço que singularizam e humanizam o espaço projetado. Esse sistema de relações mais amplo, que envolve o conjunto dos significados e intenções de fluxos, percursos e percepções, modificam e suplantam a sintaxe estrutural que a topologia como invariância 6

parece impor, uma vez que a linguagem é então definida como rede de relações trans-textuais.

Um diagrama processual e topológico é conceituado como uma representação de tipo "quadro a quadro" da modelagem de uma superfície, tanto plana (espaço euclidiano) como curva (espaço não-euclidiano). As leis espaciais topológicas invariantes mantêm canais de transtextualidade com a quantificação das relações algébricas, bem como com a formalização representada por um diagrama,

Desde as vanguardas modernas dos anos 20, a teoria arquitetônica se ocupou de investigações da natureza das operações de produção e percepção do espaço da arquitetura. Depois da constatação de que as teorias gestaltistas desenvolvidas na Alemanha e que tiveram expressão na Bauhaus (de 1919 a 1933) se mostraram estéreis, por insistirem no conceito de percepção subordinado à apreensão da forma, esse viés teórico foi então sendo substituído por outro, em que a percepção espacial envolvia mais do que o conceito de forma enquanto contorno, ou parte de uma composição ou todo. Explicar a percepção exige pensar as relações entre o sujeito da percepção, o objeto e o meio envolvente, principalmente com Kurt Lewin (CONSIGLIERI, 1999).

A percepção espacial passa a ser compreendida como o conjunto das relações complexas ou sistêmicas que demonstram que o objeto (o espaço arquitetônico) pode determinar percepções a partir de suas configurações diversas, ao variarem os contextos e sua organização específica.

Os esquemas ou estruturas espaciais sob esse ponto de vista sistêmico, já não se apresentam e compreendem como independentes da pessoa humana, que, considerada como corpo em movimento, possibilita ler as posições relativas no espaço, conceituado como sistema de organização e repartição em

regiões. Nessas regiões, distribuem-se os elementos, forças e também os obstáculos que se opõem à locomoção. Tais organizações do espaço como possibilidade e repressão aos deslocamentos humanos, expõem tensões, relações de valor positivas e negativas, fortes e fracas, tornando a visão gestaltica um exercício de abstração intelectual (cf. op. cit.). A nova psicologia topológica então se estrutura, a partir dos estudos de Piaget, no campo da Psicologia Experimental e de Christian Norberg-Schulz, no campo arquitetônico. 7

A Topologia, ramo da Matemática e da Geometria, uma vez conceituada de maneira aplicada à Arquitetura, compreende as relações entre a pessoa e o ambiente a partir da idéia de comunicação (conexão) entre regiões espaciais. As regiões espaciais topológicas, quando pensadas em aplicação à arquitetura, definem-se como

espaços de vida (CONSIGLIERI, id.), em que pessoas ou grupos se locomovem em ambientes que se ligam de maneira singular, definindo a partir das conexões singulares por essa razão um fundamento qualitativo para o espaço concebido no ato de projetar.

A psicologia topológica da conexão e do fluir espacial se realiza, entretanto, por meio da geometria topológica, definida como a interação entre as dimensões que constituem a tríade:

limite, região, conexão. Por essa razão, Consiglieri (op. cit.) afirma que o conhecimento do espaço topológico requer o instrumento da geometria topológica. Essas comunicações definem o espaço em sua condição tridimensional, embora todo movimento ou fluir necessite de reduções desse espaço a planos e níveis, conectados por ligações que representam o movimento humano, nos planos horizontal e vertical. Embora a percepção desencadeada entre homem e espaço arquitetônico envolva a relação entre um teto, parede e piso (e estas relações totais não são hoje exclusivamente derivadas do espaço euclidiano), é fato que o fluxo espacial se dá em planos horizontais e em circulações verticais.

No entanto, a arquitetura resulta da prática conjunta dessas relações espaciais qualitativas

a partir de e com uma topografia. Todo projeto arquitetônico opera sobre um conjunto métrico que o fundamenta, representado pelo sítio (a situação) em que se insere seu objeto. Desse modo, as relações espaciais e a geometria topológica adquirem natureza arquitetônica, na ação de conjugar quantidade e qualidade do espaço. O terreno sobre o qual se projeta o sistema topológico constitui assim o conjunto métrico de base.

O processo projetual consiste, desse ponto de vista, na representação (na mediação sob forma de

linguagem) das relações entre seus determinantes quantitativos (métricos) e qualitativos (topológicas e conceituais). A operação de representar o terreno ou conjunto métrico de base consiste em mediar as contingências envolvidas no ato de projetar, transformando uma situação espacial física em objeto de conhecimento, para um sujeito (arquiteto) que deve recriar essa realidade primeira. A criação de espaços qualificados pela ação intencional de organizar modos específicos de deslocamentos e fluxos humanos, de 8

sorte a potenciar a percepção futura do espaço arquitetônico, constitui-se no processo de elaborar a

significação do espaço.

As dimensões psicológicas que compreendem o fluir da pessoa humana no espaço topológico podem ser operacionalizadas por meio das relações entre planos horizontais e verticais, a que se denominam "superfícies". No entanto, a partir dos estudos de Rieman, as superfícies topológicas existentes sob uma curva, ou o espaço curvo, estão determinadas por um espaço não-euclidiano, o que faz pensar que no campo arquitetônico há espacialidades euclidianas (planos horizontais e verticais de fluxo) que pertencem ou são sub-conjuntos de conjuntos espaciais mais abrangentes, as quais podem qualificar-se como superfícies não-euclidianas.

O espaço topológico é uma configuração das relações entre regiões, compartimentos, num ou mais níveis. A locomoção se define pela ação de atravessar fronteiras ou limites, de acordo com as conexões projetadas. Essas conexões podem ser de distintas naturezas, podendo se dar, por exemplo, uma relação direta, linear e fluida entre regiões (a partir de uma estrutura axial, por exemplo), ou é possível conectar elementos que se configuram em um primeiro momento como ilhas fechadas (denominadas pela Ciência da Topologia de Curvas de Jordan), de sorte que duas regiões adjacentes e concêntricas podem ser conectadas por uma abertura que transforma a ilha em interior, relativamente à região que a envolve.

O estudo da topologia possibilita entrever um conjunto de estruturas espaciais qualitativas, como interior e exterior, perto e longe, separado e unido, contínuo e descontínuo, categorias abstratas que Platão definira como uma "ciência do espaço" (

id., ibid.). Aristóteles ao introduzir o conceito de lugar suplantaria a noção genérica e abstrata de espaço, definindo o último como "[...] a soma de todos os lugares num campo dinâmico com uma direção e propriedades qualitativas, completando os aspectos métricos" (op. cit., pp. 169). A definição aristotélica compreende o espaço como uma resultante, a partir de uma ação dinâmica que envolve uma singularidade (qualidade) e uma métrica (quantidade).

O conceito de

espaço como lugar implica em uma ação ou pragmática, definível como ação de fluir e realizar a conexão singularmente estabelecida (uma qualidade determinada, ou semântica), através do relacionamento entre as partes (as diversas regiões ou zonas espaciais) na constituição da totalidade (uma sintaxe). Essa 9

definição que relaciona uma base estrutural (sintaxe) mas que identifica sua relação necessária com um nível semântico e a pragmática (ação de fluir), identificando as qualidades ou especificidades com que o espaço é organizado como lugar, expõe que tais organizações, apesar do fundamento das estruturas que se repetem e da condição métrica do espaço, produzem diferenças qualitativas. A sintaxe ou base topológica (e métrica) é então confrontada, ou ao menos, estimulada pela dúvida intelectual relativa às qualidades agregadas ao espaço, sob a consideração de que a arquitetura define espaços que não são meramente produto da organização entre partes ou formas, mas o espaço arquitetônico realiza intencionalidades que visam vivências e modos de viver e fluir, formas específicas de propor o desenrolar da vida humana, as percepções sensíveis e os arranjos espaciais destinados a essas formas singulares de viver.

No devir da teoria da arquitetura durante a segunda metade do século XX, período crítico para a transformação de paradigmas teóricos e afirmação de alguns deles de grande interesse, a questão da autonomia da forma e do processo de formalização entendido como uma potencialidade infinda de geração espacial veio se colocando como uma fronteira de ruptura crítica, para o avanço de procedimentos e metodologias projetuais contemporâneas. Entre estas posturas e metodologias, estão as que se abrigam sob a denominação de Deconstrutivismo. Essa metodologia gerada pela reciprocidade entre a arquitetura e filosofia desconstrucionista, surge notadamente a partir de finais dos anos sessenta do século XX, propondo como método a repressão de toda relação linear entre forma e significado, propondo a dissolução do sujeito da história e da questão da história em relação ao ato de projetar, considerando-os ficções, uma vez fonte de representação, a que se deveria necessariamente renunciar. Essa ênfase na geração da forma foi sendo afirmada, a partir desse momento, à medida que os instrumentos e ferramentas digitais puderam auxiliar na elaboração de geometrias e espaços de grande complexidade, originados do processo de formalização que possibilitam.

O presente trabalho procura evidenciar o fato de que a despeito do inegável avanço que esses posicionamentos teóricos e instrumentais conferem à teoria e à prática da arquitetura contemporânea, é pertinente assinalar que à idéia de relação entre forma (significante) e conteúdo (significado) arquitetônico, subjaz um terceiro nível, correspondente à percepção de que os espaços arquitetônicos intencionalmente concebidos 10

agregam às relações entre forma e conteúdo uma singularidade, determinada por uma

topologia. A topologia, cuja natureza e especificidade constituem a complexidade do conceito arquitetônico (a maneira específica dos fluxos e conexões projetados), estabelece uma dimensão qualitativa para esse espaço, que opera em situação de fronteira com a intencionalidade, ou a enunciação das intenções articuladas às formas, fluxos e conexões.

Essa dimensão topológica, integra a concepção arquitetônica, formando um corpo inextricável, juntamente com a formalização (a geometria), a parametrização (sua métrica), o programa, a topografia e os significados que comparecem como qualidades semânticas a ele articuladas por um sujeito da enunciação. Essa totalidade sugere uma rede cuja construção complexa é o sistema de tensões que se estabelece entre os signos, comparecendo como forma e conteúdo, a partir de seu encontro ou dialogismo.

2. A Topologia como sintaxe da arquitetura: a forma topológica

A topologia é uma abordagem produtiva na elaboração de uma teoria do projeto arquitetônico, à medida que possibilita compreender as leis intrínsecas de relacionamento parte-todo (uma sintaxe) da organização do espaço, enquanto o define como o conjunto das ligações ou conexões, regiões ou limites espaciais (CONSIGLIERI, 1999). Essas conexões definem as relações possíveis entre oposições binárias, tais como os pares dentro/fora, aberto/fechado, entre outros.

As relações entre as partes de um projeto (definidas tais partes como espaços que se conectam a outros espaços, e não tão somente como formas delimitadas por contornos), podem se desdobrar a partir de estruturas espaciais denominadas "abertas", analíticas ou "modulares". Nestas conexões analíticas, formas determinadas por geometrias baseadas em quadrados, círculos, triângulos etc., constituem as partes que se desdobram e conectam, fazendo o conjunto surgir pela agregação das mesmas, que se organizam em massas volumétricas, de modo a expandir as conexões. Estes sistemas analíticos coexistem com outros sistemas topológicos, originados de ligações entre espacialidades definidas como "sintéticas", originadas a partir de grelhas (

grid) deformadas, que conferem uma regra aos espaços abrigados sob uma membrana ou superfície, a qual pode originar um espaço 11

contido em uma superfície ou casca não-euclidiana, um espaço curvo (

op. cit., 1999), como é bastante difundido e avançado em exemplares de arquitetura contemporânea.

Entretanto, apesar dessas duas formas de produção de topologias em arquitetura parecerem se diferenciar, há uma constante observável na dinâmica da conexão espacial, em que os desdobramentos entre partes configuram eixos de crescimento daqueles sistemas. Consiglieri (1999) denomina essa propriedade conectiva

lei do crescimento topológico, caracterizada pelo agrupamento e ampliação multi-axial (em eixos que se desdobram em múltiplas direções). Desse desdobramento e organização das ligações surgem os espaços de fluxo humano, e também a "[...] sensação de graus de planos de profundidade" (id., ibid., pp. 180). De onde concluir que os princípios compositivos que determinam conexões de espaço são regidos por estruturas axiais, e obedecem a regras de conexão, região e limite.

Enquanto a teoria da Gestalt se fundamentava na leitura das relações parte-todo, compreendendo-as como os contornos das imagens arquitetônicas, uma composição topológica trata do caráter organizado dos traçados que podem expressar

circuitos espaciais. Os fluxos e circuitos espaciais no projeto arquitetônico se definem pelas conexões e uniões entre compartimentos ou zonas, determinando valores e qualidades de um lugar. O conceito de lugar, contemplado a partir da topologia, não é o do sítio apenas, embora não possa haver arquitetura na ausência de uma relação com as condições topográficas que a determinem. Entretanto, a qualidade do lugar aqui enunciada reúne o conjunto de todas as decisões projetuais que o definem, e que conceituam arquitetonicamente esse lugar: quais são os centros dominantes e secundários, que volumetria se configura, como se estabelecem as relações entre interior e exterior, que percursos existem e que caracterizam a organização espacial.

O lugar topologicamente determinado não se constitui exclusivamente em dimensão física, mas resulta do conjunto dos valores ou das qualidades, diríamos, que dão sentido e lhe conferem significado. Considerando sob esta perspectiva, o duplo significado da topologia – a dinâmica e as tensões das deformações e o valor do lugar (CONSIGLIERI, 1999), a sintaxe topológica, que cumpre o papel de uma lei interna da arquitetura enquanto organização, pode ser observada se realizando no projeto numa relação indissociável com as estruturas de significado, de qualidade das relações espaciais. Embora a lei da conexão e do crescimento topológico pareça cumprir o papel de uma "estrutura profunda" inerente ao 12

espaço e anterior a toda experiência, quando se passa da condição abstrata à realização da arquitetura, resgata-se o percurso espacial que necessariamente abriga e reintegra o sujeito da percepção, no ato da projetação, através das relações de percursos.

Esta maneira de conceituar a topologia em arquitetura, ao aproximar sintaxe e semântica, determina-lhe um caminho de estudos divergente do fundamentado pelo Abstracionismo, em seus desdobramentos arquitetônicos. A análise de que qualquer geometria possibilita reintegrar a relação entre vértices de um quadrado, por exemplo, como seqüência de elementos de percurso, ligando um extremo ao outro (op. cit., 1999), é uma ruptura com os estudos gestalticos protagonizados por Kandinsky. Essa ruptura decorre do fato de que se deixa de compreender o espaço como "

a priori", como se o quadrado mencionado contivesse esse espaço, pois quando se insere o percurso, o espaço deixa de ser um receptáculo ou meio, abstratamente concebido, para se determinar em ato, como um "a posteriori". Do mesmo modo como as vanguardas modernas, representadas por Kandinsky, procuravam o desdobramento da abstração e entendiam a renovação artística como investigação da auto-referência das formas, nos anos setenta do século XX Peter Eisenman se lançou a uma procura conceitual alicerçada em um novo paradigma, para a qual a atualidade é a condição da produção e da reprodução das formas. Dessa maneira, o mundo formal e as operações auto-referenciais de produção das formas não teriam história, futuro ou passado. Trata-se de uma concepção da arquitetura que a encara como realização de uma função conceitual pura, exercício em que as formas são determinadas por leis internas, a que o Arquiteto denomina de "a interioridade" da Arquitetura (EISENMAN, 1999). Questões como os valores de função, material, lugar ou técnica, são apartadas do processo de projeto, por consistirem em ficções, fundamentadas na idéia de que o projeto deve representar essas determinações. Ao seguir essa tendência, Eisenman projetou na década de setenta uma série de casas-diagrama, cuja forma resultou das relações possíveis de mutação internas. O procedimento resultou em dez casas numeradas (da Casa I à X), tratadas como exercícios de abstração pura. A operação processual de geração das formas assumiu a época do projeto dessas casas o pressuposto formal da obra lecorbusieriana.

Partindo das casas ou

vilas corbusierianas (La Ville Savoy, por exemplo), a imagem ou antecedente arquitetônico notável (o ponto de partida, a que denomina de "a anterioridade" da Arquitetura) vê-se reduzida às suas condições de mais pura abstração, 13

exemplificadas pelo diagrama do cubo. Considerado em sua face mais abstrata, passaria esse cubo diagramático por uma série de desdobramentos, submetido a rotações e seccionamentos diversos. A escolha do fim do processo determina a opção que gera projeto e obra arquitetônica, consistindo no resultado desse procedimento, no momento de parada do processo diagramático, vindo então a atender às demandas programáticas e suprindo de usos uma das formalizações geradas.

Entretanto, a passagem do diagrama ao projeto não consiste de transposição mecânica e linear do "programa de necessidades" à forma gerada. Essa transposição requer operações intermediárias, ocultas no discurso que toma a forma como um antecedente de espaço kantiano "a priori", uma forma vazia que deve ser "preenchida" de conteúdos. O desvelar dessa mediação oculta ainda por um discurso simplista de relação forma-conteúdo implica em revelar a dinâmica da enunciação e da proposição espacial dos fluxos e percursos, que caracterizam a forma, conceituada em sua propriedade topológica.

A tradução das ligações e conexões específicas que determinam a topologia de um espaço projetado, implicando na representação do movimento (dos fluxos) no espaço, reveste-se de operações complexas de elaboração da

significação (definida também como um processo de enunciados e proposições topológicas).

Retornando à crítica à abstração que preconiza o espaço como uma forma vazia, a ser preenchida pela experiência, como uma forma kantiana (EISENMAN,

op. cit.), representada pela necessidade programática, é interessante contrapor à idéia de programa outra, a de fluxo qualificado, sistema de conexões e expansões de movimento no espaço, conexões que determinam especificamente, na forma de espaços qualificados, as designações frias de um programa funcional qualquer.

Essa mediação de uma topologia dos fluxos caracteriza a des-repressão do sujeito, entidade ausente na concepção estruturalista, que entende a produção da linguagem (definida aqui como a cadeia de signos gerada a partir de uma possível interioridade da forma) como o deslizamento desses signos, numa cadeia infindável (processual) de relações, em que as partes configuram um sistema de relacionamento de signos indiciais.Dessa concepção decorre a ênfase de Eisenman sobre o processo de geração formal, afastando e dissolvendo o sujeito e as operações eventualmente por este engendradas, de relação entre forma e conteúdos. Essa postura se sustenta a partir de um 14

fundamento semiótico presente na teoria da arquitetura de extração lingüística, que dissolve o sujeito da enunciação e por conseguinte, o sujeito intencional da proposição espacial. Dosse (2007) enfatiza que a questão do sujeito na filosofia do século XX se viu presa da dualidade, que a nosso ver obscurece o discurso filosófico e se constitui em obstáculo epistemológico (cf. BACHELARD, 1970), de divisão radical entre um sujeito onipotente e a morte do sujeito.

Contra essa visão dualística, insurgiu-se a filosofia da linguagem, desreprimindo o sujeito da enunciação e o reinserindo na trama geradora da linguagem através dos conceitos de intertextualidade e dialógica (caros a Mikhail Bakhtin, como se pode ler e esclarecer em Dosse,

op. cit.). A dialógica se define como a reinstauração de que a produção da linguagem é uma ação comunicacional, que permite o renascimento da referência ao Autor. Nesta acepção, o Autor (escritor ou arquiteto, no uso e manipulação dos signos) é um sujeito e como tal, "[...] dirige-se a outrem, numa démarche de comunicação, sem a qual sua obra não teria o menor sentido" (DOSSE, 2007: pp. 547). O nível dialógico foi então visualizado como um intermediário (id., ibid.), o nível em que ocorre a interpretação como diálogo, acrescentando-o (não substituindo, lembre-se), "[...] a atenção exclusiva dedicada aos procedimentos da escritura [...] " (DOSSE, 2007: 548).

No ano de 1967, o estruturalismo vigente como máxima expressão filosófica e científica no campo da linguagem,. vê-se então atravessado pelo frescor de duas obras de Jacques Derrida,

De la grammatologie e L’écriture et la differance. As obras foram publicadas concomitantemente, e abalaram as concepções então aceitas, relativas à produção da linguagem enquanto estrutura sígnica. Com a publicação crucial desses livros e a visita de Derrida aos Estados Unidos no início dos setenta, de que acontecem os encontros e a influência recíproca entre o filósofo e o Arquiteto Peter Eisenman, inicia-se um fértil cruzamento entre arquitetura e filosofia, que se configura teoricamente para a Arquitetura no deconstrutivismo.

Os americanos denominam de pós-estruturalista a revolução derridiana, que, transpondo de maneira radical a objeção da fenomenologia

1 ao estruturalismo, pretende desviar-se desta chegando "[...] ainda mais longe" (DOSSE, op. cit., pp. 35). Assumindo

1 Fenomenologia: filosofia que remonta a Edmond Husserl, fundamentada na ação intencional de um sujeito do conhecimento que visa o objeto de sua intenção e conhece a realidade a partir dessa visada. 15

uma posição ofensiva, Derrida inicia um trabalho a que denomina desconstrução, que visa à crítica radical de um logocentrismo (baseado na presença de um sujeito).

A posição derridiana em sua ação crítica exacerbou a lógica estruturalista, hipervalorizando uma operação de natureza estruturalista, em que a inteligibilidade de um texto é a desconstrução do mesmo, a partir da exposição de oposições, relações e disjunções, ou desfuncionamentos. Na concepção derridiana, a estrutura é o jogo incessante das diferenças, e o pensamento pode penetrar o processo infindável da escritura, que caracteriza a criação pura da linguagem. Na transcrição desse insight à arquitetura, a teoria deconstrutivista elevou a geração autônoma da forma e a formalização a partir de diagramas à condição de interioridade. (FALTA CONVERSA: INTRODUZIR SEMÂNTICA E PRAGMÀTICA AQUI, A COMPLEXIDADE DO PROCESSO COMO DIALOGIA). INTRODUZIR EXEMPLO ARQUITERTÔNICO CIDADE DA CULTURA GALÍCIA).

Na concepção dialógica, o texto (considerando também a produção da arquitetura como projeto de construção textual) nutre-se não somente de todos os textos anteriores, com quem dialoga, e não apenas das relações intertextuais (indiciais) possíveis na geração da escritura, mas nutre-se e se estrutura com a

tensão entre essa cadeia formal de índices e processos de significação que a ela se agregam, trazendo à sincronia da estrutura, a diacronia. Essa diacronia (o movimento, o tempo, os acontecimentos), agrega as sugestões que constituem nem a interioridade ou a anterioridade, mas a exterioridade. O produto (o texto ou o projeto arquitetônico) é a ação de sincronizar e relacionar esse amálgama de informações dialogais. Em arquitetura, no ato do projetar, a exterioridade pode ser compreendida como a interpretação e concepção do fluxo e do movimento no espaço, a elaboração de uma forma topológica.

3. Projetar a forma topológica: conceder qualidade às conexões

Ao conceber conexões e percursos que qualificam o espaço, o arquiteto o desdobra, necessariamente. Partindo do pressuposto que o movimento humano se realiza no plano euclidiano, apesar de ser plenamente possível a concepção de relações inusitadas entre esse plano do fluxo e o espaço não-euclidiano contido numa superfície obtida por deformação 16

topológica do

grid ou grelha cartesiana (tarefa muito bem realizada, diga-se de passagem, pela arquitetura contemporânea), conceber ligações faz o espaço explodir em percursos que configuram balcões, terraços, átrios, coberturas, circulações horizontais e verticais. Esses percursos e as percepções que possibilitam recebem ainda intensidade expressiva da cor, da luz, natural ou artificial, conduzida intencionalmente aos interiores pela habilidade da atuação projetual. Esta exploração dos fluxos qualificados por esses elementos é a tônica do trabalho do arquiteto americano Steven Holl.

O controle das relações entre interior e exterior, com o projeto das aberturas e dos panos envidraçados, é parte fundamental do espaço arquitetônico definido topologicamente. Desse ponto de vista, uma figura topológica originada na dimensão geométrica, tal como o

toro, ou a fita de Möbius, não constitui forma topológica na dimensão arquitetônica, pois não é concebível fluxo ou percurso humano nas condições ideais e abstratas da geometria pura.

Um exemplo desta passagem de formas abstratas oriundas do mundo da topologia abstrata a formas arquitetônicas é a Möbius House Het Gooi (1993-1998), de Ben Van Barkel. O arquiteto partiu da intenção de projetar com topologias inusitadas e também de criar percurso. A questão a salientar é que a Casa Möbius não é uma transposição literal da fita de Möbius ou de um diagrama, mas sua transcrição de natureza arquitetônica. A passagem do mundo da abstração ao da Arquitetura depende da evidência dos fluxos, e das formas qualificadas de percorrer e estar. A casa em questão introduz interessantes aspectos relacionados ao modo de vida e aos percursos possíveis de criar a partir da

analogia da fita de Möbius. O que define a casa é a maneira conforme a qual os usuários são convidados a estar e circular nela, estruturando-se (topologicamente) a partir de dois caminhos. Nestes, há espaços de uso compartilhado (espaços entre), em que as pessoas se encontram em alguns pontos da casa. Além destes pontos espaciais em comum, dois caminhos ou eixos possibilitam usos coletivos e também separados. Estes esquemas de conexões, encontro e disjunções espaciais configuram a estrutura topológica da Casa Möbius, sendo a fita de Möbius apenas um suporte icônico que gera analogia. Outras qualidades dos espaços foram definidas pela integração entre casa e paisagem, através da escolha de aberturas e transparências. As qualidades integradas à arquitetura somente se tornam palpáveis no momento em que esta se realiza, e que o edifício pode ser penetrado e usado. Nessa 17

realização das qualidades ou significados, mesmo que estes transcendam aqueles idealizados pelo arquiteto, apóia-se a vida do edifício, que ao deixar a mesa do projetista, pode comunicar ao menos parcialmente o modo de vida e os fluxos que o determinam.

O exemplo evidencia que o projeto enquanto mediação da arquitetura opera a articulação sintática (leis do crescimento topológico), semântica (um modo qualificado e específico de viver e de se movimentar na casa) e pragmático, um uso possível e definido pelas condições anteriores. Essas relações complexas que articulam espaço e significação (significado em processo) podem ser demonstradas em exemplares de arquitetura contemporânea, como no exemplo que se segue.

4. A Casa Möbius, espaço-tempo na criação arquitetônica

Para o arquiteto Ben van Berkel, o processo projetual se inicia com a construção de uma

paisagem de dados (SPERLING, 2003b), concepção de espaços ligados a eventos, que correspondem aos fluxos e movimentos específicos projetados. Esses eventos são conceituados como os elementos dinâmicos que são capazes de transformar a "paisagem arquitetônica", ou o espaço diagramático considerado em sua auto-referência ou interioridade. O projeto se estrutura portanto como um sistema de interações entre a estrutura espacial e os acontecimentos previstos para que nela ocorram.

Uma obra instigadora atribuída a Ben van Berkel e Caroline Bos (UN Studio) é a Casa Möbius, situada em Het Gooi, Holanda, projetada e construída entre 1993 e 1997, com 520 metros quadrados de área construída. Neste projeto, a faixa de Möbius e estrutura topológica de um bi-toro (soma conexa de dois toros) foi tomada como sugestão para gerar um diagrama, cuja dimensão propriamente arquitetônica foi incorporada enquanto enunciação de um modo específico de viver, expresso na forma de fluxos orientados específicos. Mais do que metáfora ou referência a Fita de Möbius, a Casa sugere uma dinâmica de fluxos e encontros no espaço, concebendo-o como o dinamismo de possíveis eventos nela realizáveis. O ícone ou representação da Fita de Möbius é então dinamizado por uma rede de relações espaço-temporais, que retiram do diagrama seu caráter de abstração, caracterizando-se portanto por uma não transcrição direta da condição diagramática. Trata-se de uma estrutura temporal de uso, encontros e desencontros, uma 18

vez que o sistema dos fluxos na forma possibilita a existência de áreas de uso coletivo (ponto de encontro) e regiões de uso privativo, possibilitando que a residência possa ser vivenciada como lugar de sociabilidade e reclusão, a uma só vez.

O enunciado desse sistema significativo (semântico) implicado com as formas específicas de fluxo, uso e percepção espaço-temporais (pragmático) confere uma singularidade ao objeto projetado, sobrepondo-se em trama à estrutura profunda, sintática e topológica.

Fonte: http://www.unstudio.com/projects/name/M/1/ 19

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CONSIGLIERI, Victor. A morfologia da Arquitetura. (1920-1970). Lisboa, Referência/ Editorial Estampa, 1999. vs. I e II.

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Projeto : topologia e intencionalidade, fronteiras

Profa. Arq. Dra. Eunice Helena Sguizzardi Abascal

Professora de Teoria e História da Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo FAU Mackenzie

Arq. Carlos Abascal Bilbao

Arquiteto e Urbanista pela FAU Mackenzie. Mestre em Ciências Sociais pela Escola Pós-graduada de Ciências Sociais FESP – São Paulo.

O projeto definido como concepção do espaço arquitetônico admite uma especificidade, definida como operação espacial articulada às possibilidades de nela incluir significados, percepções e usos, assim como a materialidade expressa pela produção e prática envolvidas na concretização do objeto. Essa compreensão de uma dimensão complexa da arquitetura e do projeto como a mediação, na forma de linguagem, de seus determinantes, requer analisar a co-dependência entre a qualidade estrutural intrínseca ao espaço (Ciência Topológica), entendida como estrutura espacial inerente, a quantidade (a metrificação e a parametrização do espaço) e a enunciação e incorporação de atributos (intenções significativas ou semânticas) a essa estrutura. Demonstra-se que o projeto é a síntese dessa dinâmica de articulação entre a estrutura (a topologia) e o significado intencionalmente proposto por um sujeito do conhecimento arquitetônico, que opera com a singularidade da expressão específica, modificando incessantemente a estrutura das relações topológicas. À sintaxe espacial da topologia, articulam-se as dimensões semântica (a geração do significado) e pragmática, da ação de uso e percepção espacial.

Palavras-chave: Projetação – Qualidade – Quantidade – Topologia – Sintaxe espacial – Semântica – Pragmática. 2

Introdução

Este trabalho realiza uma reflexão teórica do ato de projetar, compreendendo-o como concepção do espaço arquitetônico. Analisa a natureza do projeto enquanto concepção, entendida como articulação entre quantidade (a quantificação do espaço) e qualidade, definindo-a como o conjunto dos atributos manifestos como conceito. Define "forma", relacionando-a à manifestação da especificidade de cada projeto, síntese dos atributos que explicitam intenções e realidades, (conteúdos ou uma

semântica), argumentando que apesar de o espaço arquitetônico estar sujeito às leis da ciência topológica (a qualidade intrínseca às conexões e à vizinhança espacial - uma pura qualidade, em cujo mundo a quantidade é ausente), o espaço arquitetônico representado na mediação do projeto reúne sinteticamente as condições topológicas, a quantificação dimensional e escalar, assim como é a expressão de atributos espaciais imaginados e intencionados pelo sujeito-arquiteto, que articulam a dimensão simbólica e perceptiva, ao criar não somente a vizinhança topológica e geométrica, mas fluxos e percursos específicos, que faz diferir um espaço projetado de outro.

Considerando o projeto como a mediação das relações entre as intenções do sujeito que representa e cria o espaço, o presente artigo enuncia que é o sujeito-arquiteto quem confere a esse espaço qualidade e quantidade, atributo e medida. Analisa-se como essa mediação e síntese resultam do encontro das características próprias à linguagem arquitetônica que representa o espaço (definindo assim uma sintaxe ou estrutura, resultante das leis intrínsecas às conexões espaciais ou

topologia), e entretanto, que o espaço arquitetônico qualitativamente concebido transcende as limitações inerentes a essa estrutura genérica e sempre presente, por sintetizar a escolha dos atributos ou das qualidades à sintaxe determinista, expressa pelas leis topológicas. Apresenta-se essas leis como uma constante que é incessantemente transformada pela ação de atribuir qualidades semânticas à estrutura sintática. 3

O objetivo é, portanto, argumentar que apesar das constrições estruturais ou sintáticas, a riqueza da espacialidade e da concepção do espaço arquitetônico consiste em atingir um patamar de complexidade, determinado pela articulação

sintática e semântica, esclarecendo que a atribuição de qualidades ou conceitos espaciais demanda conceber não apenas conexões espaciais genéricas, mas fluxos e percepções espaciais específicas, constituindo assim um terceiro eixo de interpretação, de natureza pragmática, o qual expressa usos e fluxos especificamente concebidos. Os aspectos qualitativos do espaço são fruto de como se concebem movimentos e percursos, e da capacidade de o arquiteto se colocar no lugar de, no ato imaginativo do movimento específico para cada situação de projeto.

1. Arquitetura e espaço topológico

O projeto arquitetônico decorre do manejo do espaço pelo arquiteto, atuando este como mediador de uma estrutura-processo ou estrutura

em processo (espaço – interpretação – significação – uso e percepção), processo que cria e representa uma complexidade, capaz de articular as condições próprias à estruturação espacial às estruturas de significação e uso, intencionadas pelo arquiteto (SPERLING, 2003a). Essa estrutura em ação requer a representação das interações entre pessoa, fluxos e ambiente, relações estas fruto das representações cognitivas que o sujeito arquiteto produz, podendo ser potencializadas em meios telemáticos. Esses meios têm propiciado a geração processual de diagramas espaciais, entendidos como representações flexíveis, signos que articulam relações entre espaço, temporalidade e eventos (entendidos como fluxos espaciais específicos) e relações de significado que aparentemente ficariam à margem do processo. Os diagramas, sob esta perspectiva, mais do que apenas "máquinas abstratas" (DELEUZE, 1993), possibilidades puras, podem se associar ao funcionamento da intuição e representar uma trama entre representação e criação. Um signo icônico ou uma "forma" gerada não seria, portanto, apenas um recipiente vazio, mas admitiria um caráter representacional de relações e significações, caracterizando-se por um enredamento (SPERLING, 2003a) entre as possibilidades sintáticas puras do espaço (uma estrutura essencial topológica, que também é 4

métrica e quantitativa), uma estrutura comunicacional (simbólica, semântica e qualitativa) e as qualidades espaciais específicas de fluxos e percepções que cada projeto determina.

Essa estrutura de topologia essencial vem sendo estudada pela Topologia Geométrica, definida como a área da Matemática que estuda as relações espaciais invariantes sob transformação formal (SPERLING,

op. cit.). A Topologia deve sua fundamentação ao matemático Leonhard Euler, autor do teorema que demonstrou que para um objeto tridimensional como um cubo, com seis faces (F) , doze arestas (A) e oito vértices (V), o número de Euler (E) se define pela equação E = F – A + V, logo E = 6 – 12 + 8 = 2. Euler demonstrou que para qualquer subdivisão praticada numa superfície, quer seja resultante de uma deformação ou de uma simples divisão ortogonal, o número de Euler continua sempre igual e igual a dois.

Número de Euler igual a dois, para todas essas superfícies sob deformação

Fonte:

http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.searadaciencia.ufc.br/donafifi/gausseeuler/toros.gif&imgrefurl=http://www.searadaciencia.ufc.br/donafifi/gausseeuler/gausseuler5.htm&usg=__O5GpG8EwCoI45k7ebibLyvBjohQ=&h=300&w=300&sz=4&hl=pt-

Essas estruturas topológicas invariantes se traduzem como estruturas qualitativas de continuidade e descontinuidade, admitindo o diagrama como um meio através do qual operações tais como homeomorfismo, identificação e soma conexa são realizadas em superfícies. O homeomorfismo se define pela conservação das características topológicas de uma superfície em deformação, transformando-se as condições topográficas ou geométricas. A soma conexa é uma operação topológica descontínua, que junta uma ou mais superfícies separadas, cortando e removendo e depois aproximando e colando os 5

bordos resultantes. Duas superfícies são ditas isotrópicas, quando uma é obtida da outra, através de combinações específicas. Entre as denominadas superfícies topológicas conhecidas encontram-se Disco, Esfera, Toro, Faixa de Möbius, Garrafa de Klein, Plano Projetivo, entre outras.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/46/KleinBottle-01.png/180px-KleinBottle-01.png

A Topologia portanto não está centrada na forma, mas nas relações entre os pontos da forma. Topologia como estrutura espacial invariante não se confunde com variação formal, definindo-se como um conjunto de leis espaciais intrínsecas à natureza do espaço. E relação à variedade formal possível resultante da atividade projetual, as leis topológicas se imporiam como uma estrutura anterior à formalização, uma estrutura profunda que estaria sempre na constituição de todo e qualquer espacialidade singular. As leis topológicas não se confundem com formas complexas, sendo uma organização espacial que se mantém "por trás" das formas (SPERLING, 2003b).

Essa organização espacial geométrica-topológica admite uma transcrição algébrica, iminência de seu caráter ao um só tempo quantitativo e qualitativo. Portanto, a uma reta corresponde uma equação, e portanto, uma descrição com variáveis de análise (SPERLING, 2003b), de que se deduz que essa transcodificação (geometria e matemática algébrica mantendo entre si canais de comunicação), é uma evidência de que distintos mundos textuais de representação mantêm entre si redes de relações internas, mostrando haver uma comunicação entre as linguagens, aqui definidas como linguagem gráfica espacial e linguagem gráfica linear. No que cabe à arquitetura, um diagrama espacial algébrico-topológico pode adquirir o significado de um espaço arquitetônico, assim como pode incluir na roda da significação complexa um sistema de fluxos e eventos ou movimentos no espaço que singularizam e humanizam o espaço projetado. Esse sistema de relações mais amplo, que envolve o conjunto dos significados e intenções de fluxos, percursos e percepções, modificam e suplantam a sintaxe estrutural que a topologia como invariância 6

parece impor, uma vez que a linguagem é então definida como rede de relações trans-textuais.

Um diagrama processual e topológico é conceituado como uma representação de tipo "quadro a quadro" da modelagem de uma superfície, tanto plana (espaço euclidiano) como curva (espaço não-euclidiano). As leis espaciais topológicas invariantes mantêm canais de transtextualidade com a quantificação das relações algébricas, bem como com a formalização representada por um diagrama,

Desde as vanguardas modernas dos anos 20, a teoria arquitetônica se ocupou de investigações da natureza das operações de produção e percepção do espaço da arquitetura. Depois da constatação de que as teorias gestaltistas desenvolvidas na Alemanha e que tiveram expressão na Bauhaus (de 1919 a 1933) se mostraram estéreis, por insistirem no conceito de percepção subordinado à apreensão da forma, esse viés teórico foi então sendo substituído por outro, em que a percepção espacial envolvia mais do que o conceito de forma enquanto contorno, ou parte de uma composição ou todo. Explicar a percepção exige pensar as relações entre o sujeito da percepção, o objeto e o meio envolvente, principalmente com Kurt Lewin (CONSIGLIERI, 1999).

A percepção espacial passa a ser compreendida como o conjunto das relações complexas ou sistêmicas que demonstram que o objeto (o espaço arquitetônico) pode determinar percepções a partir de suas configurações diversas, ao variarem os contextos e sua organização específica.

Os esquemas ou estruturas espaciais sob esse ponto de vista sistêmico, já não se apresentam e compreendem como independentes da pessoa humana, que, considerada como corpo em movimento, possibilita ler as posições relativas no espaço, conceituado como sistema de organização e repartição em

regiões. Nessas regiões, distribuem-se os elementos, forças e também os obstáculos que se opõem à locomoção. Tais organizações do espaço como possibilidade e repressão aos deslocamentos humanos, expõem tensões, relações de valor positivas e negativas, fortes e fracas, tornando a visão gestaltica um exercício de abstração intelectual (cf. op. cit.). A nova psicologia topológica então se estrutura, a partir dos estudos de Piaget, no campo da Psicologia Experimental e de Christian Norberg-Schulz, no campo arquitetônico. 7

A Topologia, ramo da Matemática e da Geometria, uma vez conceituada de maneira aplicada à Arquitetura, compreende as relações entre a pessoa e o ambiente a partir da idéia de comunicação (conexão) entre regiões espaciais. As regiões espaciais topológicas, quando pensadas em aplicação à arquitetura, definem-se como

espaços de vida (CONSIGLIERI, id.), em que pessoas ou grupos se locomovem em ambientes que se ligam de maneira singular, definindo a partir das conexões singulares por essa razão um fundamento qualitativo para o espaço concebido no ato de projetar.

A psicologia topológica da conexão e do fluir espacial se realiza, entretanto, por meio da geometria topológica, definida como a interação entre as dimensões que constituem a tríade:

limite, região, conexão. Por essa razão, Consiglieri (op. cit.) afirma que o conhecimento do espaço topológico requer o instrumento da geometria topológica. Essas comunicações definem o espaço em sua condição tridimensional, embora todo movimento ou fluir necessite de reduções desse espaço a planos e níveis, conectados por ligações que representam o movimento humano, nos planos horizontal e vertical. Embora a percepção desencadeada entre homem e espaço arquitetônico envolva a relação entre um teto, parede e piso (e estas relações totais não são hoje exclusivamente derivadas do espaço euclidiano), é fato que o fluxo espacial se dá em planos horizontais e em circulações verticais.

No entanto, a arquitetura resulta da prática conjunta dessas relações espaciais qualitativas

a partir de e com uma topografia. Todo projeto arquitetônico opera sobre um conjunto métrico que o fundamenta, representado pelo sítio (a situação) em que se insere seu objeto. Desse modo, as relações espaciais e a geometria topológica adquirem natureza arquitetônica, na ação de conjugar quantidade e qualidade do espaço. O terreno sobre o qual se projeta o sistema topológico constitui assim o conjunto métrico de base.

O processo projetual consiste, desse ponto de vista, na representação (na mediação sob forma de

linguagem) das relações entre seus determinantes quantitativos (métricos) e qualitativos (topológicas e conceituais). A operação de representar o terreno ou conjunto métrico de base consiste em mediar as contingências envolvidas no ato de projetar, transformando uma situação espacial física em objeto de conhecimento, para um sujeito (arquiteto) que deve recriar essa realidade primeira. A criação de espaços qualificados pela ação intencional de organizar modos específicos de deslocamentos e fluxos humanos, de 8

sorte a potenciar a percepção futura do espaço arquitetônico, constitui-se no processo de elaborar a

significação do espaço.

As dimensões psicológicas que compreendem o fluir da pessoa humana no espaço topológico podem ser operacionalizadas por meio das relações entre planos horizontais e verticais, a que se denominam "superfícies". No entanto, a partir dos estudos de Rieman, as superfícies topológicas existentes sob uma curva, ou o espaço curvo, estão determinadas por um espaço não-euclidiano, o que faz pensar que no campo arquitetônico há espacialidades euclidianas (planos horizontais e verticais de fluxo) que pertencem ou são sub-conjuntos de conjuntos espaciais mais abrangentes, as quais podem qualificar-se como superfícies não-euclidianas.

O espaço topológico é uma configuração das relações entre regiões, compartimentos, num ou mais níveis. A locomoção se define pela ação de atravessar fronteiras ou limites, de acordo com as conexões projetadas. Essas conexões podem ser de distintas naturezas, podendo se dar, por exemplo, uma relação direta, linear e fluida entre regiões (a partir de uma estrutura axial, por exemplo), ou é possível conectar elementos que se configuram em um primeiro momento como ilhas fechadas (denominadas pela Ciência da Topologia de Curvas de Jordan), de sorte que duas regiões adjacentes e concêntricas podem ser conectadas por uma abertura que transforma a ilha em interior, relativamente à região que a envolve.

O estudo da topologia possibilita entrever um conjunto de estruturas espaciais qualitativas, como interior e exterior, perto e longe, separado e unido, contínuo e descontínuo, categorias abstratas que Platão definira como uma "ciência do espaço" (

id., ibid.). Aristóteles ao introduzir o conceito de lugar suplantaria a noção genérica e abstrata de espaço, definindo o último como "[...] a soma de todos os lugares num campo dinâmico com uma direção e propriedades qualitativas, completando os aspectos métricos" (op. cit., pp. 169). A definição aristotélica compreende o espaço como uma resultante, a partir de uma ação dinâmica que envolve uma singularidade (qualidade) e uma métrica (quantidade).

O conceito de

espaço como lugar implica em uma ação ou pragmática, definível como ação de fluir e realizar a conexão singularmente estabelecida (uma qualidade determinada, ou semântica), através do relacionamento entre as partes (as diversas regiões ou zonas espaciais) na constituição da totalidade (uma sintaxe). Essa 9

definição que relaciona uma base estrutural (sintaxe) mas que identifica sua relação necessária com um nível semântico e a pragmática (ação de fluir), identificando as qualidades ou especificidades com que o espaço é organizado como lugar, expõe que tais organizações, apesar do fundamento das estruturas que se repetem e da condição métrica do espaço, produzem diferenças qualitativas. A sintaxe ou base topológica (e métrica) é então confrontada, ou ao menos, estimulada pela dúvida intelectual relativa às qualidades agregadas ao espaço, sob a consideração de que a arquitetura define espaços que não são meramente produto da organização entre partes ou formas, mas o espaço arquitetônico realiza intencionalidades que visam vivências e modos de viver e fluir, formas específicas de propor o desenrolar da vida humana, as percepções sensíveis e os arranjos espaciais destinados a essas formas singulares de viver.

No devir da teoria da arquitetura durante a segunda metade do século XX, período crítico para a transformação de paradigmas teóricos e afirmação de alguns deles de grande interesse, a questão da autonomia da forma e do processo de formalização entendido como uma potencialidade infinda de geração espacial veio se colocando como uma fronteira de ruptura crítica, para o avanço de procedimentos e metodologias projetuais contemporâneas. Entre estas posturas e metodologias, estão as que se abrigam sob a denominação de Deconstrutivismo. Essa metodologia gerada pela reciprocidade entre a arquitetura e filosofia desconstrucionista, surge notadamente a partir de finais dos anos sessenta do século XX, propondo como método a repressão de toda relação linear entre forma e significado, propondo a dissolução do sujeito da história e da questão da história em relação ao ato de projetar, considerando-os ficções, uma vez fonte de representação, a que se deveria necessariamente renunciar. Essa ênfase na geração da forma foi sendo afirmada, a partir desse momento, à medida que os instrumentos e ferramentas digitais puderam auxiliar na elaboração de geometrias e espaços de grande complexidade, originados do processo de formalização que possibilitam.

O presente trabalho procura evidenciar o fato de que a despeito do inegável avanço que esses posicionamentos teóricos e instrumentais conferem à teoria e à prática da arquitetura contemporânea, é pertinente assinalar que à idéia de relação entre forma (significante) e conteúdo (significado) arquitetônico, subjaz um terceiro nível, correspondente à percepção de que os espaços arquitetônicos intencionalmente concebidos 10

agregam às relações entre forma e conteúdo uma singularidade, determinada por uma

topologia. A topologia, cuja natureza e especificidade constituem a complexidade do conceito arquitetônico (a maneira específica dos fluxos e conexões projetados), estabelece uma dimensão qualitativa para esse espaço, que opera em situação de fronteira com a intencionalidade, ou a enunciação das intenções articuladas às formas, fluxos e conexões.

Essa dimensão topológica, integra a concepção arquitetônica, formando um corpo inextricável, juntamente com a formalização (a geometria), a parametrização (sua métrica), o programa, a topografia e os significados que comparecem como qualidades semânticas a ele articuladas por um sujeito da enunciação. Essa totalidade sugere uma rede cuja construção complexa é o sistema de tensões que se estabelece entre os signos, comparecendo como forma e conteúdo, a partir de seu encontro ou dialogismo.

2. A Topologia como sintaxe da arquitetura: a forma topológica

A topologia é uma abordagem produtiva na elaboração de uma teoria do projeto arquitetônico, à medida que possibilita compreender as leis intrínsecas de relacionamento parte-todo (uma sintaxe) da organização do espaço, enquanto o define como o conjunto das ligações ou conexões, regiões ou limites espaciais (CONSIGLIERI, 1999). Essas conexões definem as relações possíveis entre oposições binárias, tais como os pares dentro/fora, aberto/fechado, entre outros.

As relações entre as partes de um projeto (definidas tais partes como espaços que se conectam a outros espaços, e não tão somente como formas delimitadas por contornos), podem se desdobrar a partir de estruturas espaciais denominadas "abertas", analíticas ou "modulares". Nestas conexões analíticas, formas determinadas por geometrias baseadas em quadrados, círculos, triângulos etc., constituem as partes que se desdobram e conectam, fazendo o conjunto surgir pela agregação das mesmas, que se organizam em massas volumétricas, de modo a expandir as conexões. Estes sistemas analíticos coexistem com outros sistemas topológicos, originados de ligações entre espacialidades definidas como "sintéticas", originadas a partir de grelhas (

grid) deformadas, que conferem uma regra aos espaços abrigados sob uma membrana ou superfície, a qual pode originar um espaço 11

contido em uma superfície ou casca não-euclidiana, um espaço curvo (

op. cit., 1999), como é bastante difundido e avançado em exemplares de arquitetura contemporânea.

Entretanto, apesar dessas duas formas de produção de topologias em arquitetura parecerem se diferenciar, há uma constante observável na dinâmica da conexão espacial, em que os desdobramentos entre partes configuram eixos de crescimento daqueles sistemas. Consiglieri (1999) denomina essa propriedade conectiva

lei do crescimento topológico, caracterizada pelo agrupamento e ampliação multi-axial (em eixos que se desdobram em múltiplas direções). Desse desdobramento e organização das ligações surgem os espaços de fluxo humano, e também a "[...] sensação de graus de planos de profundidade" (id., ibid., pp. 180). De onde concluir que os princípios compositivos que determinam conexões de espaço são regidos por estruturas axiais, e obedecem a regras de conexão, região e limite.

Enquanto a teoria da Gestalt se fundamentava na leitura das relações parte-todo, compreendendo-as como os contornos das imagens arquitetônicas, uma composição topológica trata do caráter organizado dos traçados que podem expressar

circuitos espaciais. Os fluxos e circuitos espaciais no projeto arquitetônico se definem pelas conexões e uniões entre compartimentos ou zonas, determinando valores e qualidades de um lugar. O conceito de lugar, contemplado a partir da topologia, não é o do sítio apenas, embora não possa haver arquitetura na ausência de uma relação com as condições topográficas que a determinem. Entretanto, a qualidade do lugar aqui enunciada reúne o conjunto de todas as decisões projetuais que o definem, e que conceituam arquitetonicamente esse lugar: quais são os centros dominantes e secundários, que volumetria se configura, como se estabelecem as relações entre interior e exterior, que percursos existem e que caracterizam a organização espacial.

O lugar topologicamente determinado não se constitui exclusivamente em dimensão física, mas resulta do conjunto dos valores ou das qualidades, diríamos, que dão sentido e lhe conferem significado. Considerando sob esta perspectiva, o duplo significado da topologia – a dinâmica e as tensões das deformações e o valor do lugar (CONSIGLIERI, 1999), a sintaxe topológica, que cumpre o papel de uma lei interna da arquitetura enquanto organização, pode ser observada se realizando no projeto numa relação indissociável com as estruturas de significado, de qualidade das relações espaciais. Embora a lei da conexão e do crescimento topológico pareça cumprir o papel de uma "estrutura profunda" inerente ao 12

espaço e anterior a toda experiência, quando se passa da condição abstrata à realização da arquitetura, resgata-se o percurso espacial que necessariamente abriga e reintegra o sujeito da percepção, no ato da projetação, através das relações de percursos.

Esta maneira de conceituar a topologia em arquitetura, ao aproximar sintaxe e semântica, determina-lhe um caminho de estudos divergente do fundamentado pelo Abstracionismo, em seus desdobramentos arquitetônicos. A análise de que qualquer geometria possibilita reintegrar a relação entre vértices de um quadrado, por exemplo, como seqüência de elementos de percurso, ligando um extremo ao outro (op. cit., 1999), é uma ruptura com os estudos gestalticos protagonizados por Kandinsky. Essa ruptura decorre do fato de que se deixa de compreender o espaço como "

a priori", como se o quadrado mencionado contivesse esse espaço, pois quando se insere o percurso, o espaço deixa de ser um receptáculo ou meio, abstratamente concebido, para se determinar em ato, como um "a posteriori". Do mesmo modo como as vanguardas modernas, representadas por Kandinsky, procuravam o desdobramento da abstração e entendiam a renovação artística como investigação da auto-referência das formas, nos anos setenta do século XX Peter Eisenman se lançou a uma procura conceitual alicerçada em um novo paradigma, para a qual a atualidade é a condição da produção e da reprodução das formas. Dessa maneira, o mundo formal e as operações auto-referenciais de produção das formas não teriam história, futuro ou passado. Trata-se de uma concepção da arquitetura que a encara como realização de uma função conceitual pura, exercício em que as formas são determinadas por leis internas, a que o Arquiteto denomina de "a interioridade" da Arquitetura (EISENMAN, 1999). Questões como os valores de função, material, lugar ou técnica, são apartadas do processo de projeto, por consistirem em ficções, fundamentadas na idéia de que o projeto deve representar essas determinações. Ao seguir essa tendência, Eisenman projetou na década de setenta uma série de casas-diagrama, cuja forma resultou das relações possíveis de mutação internas. O procedimento resultou em dez casas numeradas (da Casa I à X), tratadas como exercícios de abstração pura. A operação processual de geração das formas assumiu a época do projeto dessas casas o pressuposto formal da obra lecorbusieriana.

Partindo das casas ou

vilas corbusierianas (La Ville Savoy, por exemplo), a imagem ou antecedente arquitetônico notável (o ponto de partida, a que denomina de "a anterioridade" da Arquitetura) vê-se reduzida às suas condições de mais pura abstração, 13

exemplificadas pelo diagrama do cubo. Considerado em sua face mais abstrata, passaria esse cubo diagramático por uma série de desdobramentos, submetido a rotações e seccionamentos diversos. A escolha do fim do processo determina a opção que gera projeto e obra arquitetônica, consistindo no resultado desse procedimento, no momento de parada do processo diagramático, vindo então a atender às demandas programáticas e suprindo de usos uma das formalizações geradas.

Entretanto, a passagem do diagrama ao projeto não consiste de transposição mecânica e linear do "programa de necessidades" à forma gerada. Essa transposição requer operações intermediárias, ocultas no discurso que toma a forma como um antecedente de espaço kantiano "a priori", uma forma vazia que deve ser "preenchida" de conteúdos. O desvelar dessa mediação oculta ainda por um discurso simplista de relação forma-conteúdo implica em revelar a dinâmica da enunciação e da proposição espacial dos fluxos e percursos, que caracterizam a forma, conceituada em sua propriedade topológica.

A tradução das ligações e conexões específicas que determinam a topologia de um espaço projetado, implicando na representação do movimento (dos fluxos) no espaço, reveste-se de operações complexas de elaboração da

significação (definida também como um processo de enunciados e proposições topológicas).

Retornando à crítica à abstração que preconiza o espaço como uma forma vazia, a ser preenchida pela experiência, como uma forma kantiana (EISENMAN,

op. cit.), representada pela necessidade programática, é interessante contrapor à idéia de programa outra, a de fluxo qualificado, sistema de conexões e expansões de movimento no espaço, conexões que determinam especificamente, na forma de espaços qualificados, as designações frias de um programa funcional qualquer.

Essa mediação de uma topologia dos fluxos caracteriza a des-repressão do sujeito, entidade ausente na concepção estruturalista, que entende a produção da linguagem (definida aqui como a cadeia de signos gerada a partir de uma possível interioridade da forma) como o deslizamento desses signos, numa cadeia infindável (processual) de relações, em que as partes configuram um sistema de relacionamento de signos indiciais.Dessa concepção decorre a ênfase de Eisenman sobre o processo de geração formal, afastando e dissolvendo o sujeito e as operações eventualmente por este engendradas, de relação entre forma e conteúdos. Essa postura se sustenta a partir de um 14

fundamento semiótico presente na teoria da arquitetura de extração lingüística, que dissolve o sujeito da enunciação e por conseguinte, o sujeito intencional da proposição espacial. Dosse (2007) enfatiza que a questão do sujeito na filosofia do século XX se viu presa da dualidade, que a nosso ver obscurece o discurso filosófico e se constitui em obstáculo epistemológico (cf. BACHELARD, 1970), de divisão radical entre um sujeito onipotente e a morte do sujeito.

Contra essa visão dualística, insurgiu-se a filosofia da linguagem, desreprimindo o sujeito da enunciação e o reinserindo na trama geradora da linguagem através dos conceitos de intertextualidade e dialógica (caros a Mikhail Bakhtin, como se pode ler e esclarecer em Dosse,

op. cit.). A dialógica se define como a reinstauração de que a produção da linguagem é uma ação comunicacional, que permite o renascimento da referência ao Autor. Nesta acepção, o Autor (escritor ou arquiteto, no uso e manipulação dos signos) é um sujeito e como tal, "[...] dirige-se a outrem, numa démarche de comunicação, sem a qual sua obra não teria o menor sentido" (DOSSE, 2007: pp. 547). O nível dialógico foi então visualizado como um intermediário (id., ibid.), o nível em que ocorre a interpretação como diálogo, acrescentando-o (não substituindo, lembre-se), "[...] a atenção exclusiva dedicada aos procedimentos da escritura [...] " (DOSSE, 2007: 548).

No ano de 1967, o estruturalismo vigente como máxima expressão filosófica e científica no campo da linguagem,. vê-se então atravessado pelo frescor de duas obras de Jacques Derrida,

De la grammatologie e L’écriture et la differance. As obras foram publicadas concomitantemente, e abalaram as concepções então aceitas, relativas à produção da linguagem enquanto estrutura sígnica. Com a publicação crucial desses livros e a visita de Derrida aos Estados Unidos no início dos setenta, de que acontecem os encontros e a influência recíproca entre o filósofo e o Arquiteto Peter Eisenman, inicia-se um fértil cruzamento entre arquitetura e filosofia, que se configura teoricamente para a Arquitetura no deconstrutivismo.

Os americanos denominam de pós-estruturalista a revolução derridiana, que, transpondo de maneira radical a objeção da fenomenologia

1 ao estruturalismo, pretende desviar-se desta chegando "[...] ainda mais longe" (DOSSE, op. cit., pp. 35). Assumindo

1 Fenomenologia: filosofia que remonta a Edmond Husserl, fundamentada na ação intencional de um sujeito do conhecimento que visa o objeto de sua intenção e conhece a realidade a partir dessa visada. 15

uma posição ofensiva, Derrida inicia um trabalho a que denomina desconstrução, que visa à crítica radical de um logocentrismo (baseado na presença de um sujeito).

A posição derridiana em sua ação crítica exacerbou a lógica estruturalista, hipervalorizando uma operação de natureza estruturalista, em que a inteligibilidade de um texto é a desconstrução do mesmo, a partir da exposição de oposições, relações e disjunções, ou desfuncionamentos. Na concepção derridiana, a estrutura é o jogo incessante das diferenças, e o pensamento pode penetrar o processo infindável da escritura, que caracteriza a criação pura da linguagem. Na transcrição desse insight à arquitetura, a teoria deconstrutivista elevou a geração autônoma da forma e a formalização a partir de diagramas à condição de interioridade. (FALTA CONVERSA: INTRODUZIR SEMÂNTICA E PRAGMÀTICA AQUI, A COMPLEXIDADE DO PROCESSO COMO DIALOGIA). INTRODUZIR EXEMPLO ARQUITERTÔNICO CIDADE DA CULTURA GALÍCIA).

Na concepção dialógica, o texto (considerando também a produção da arquitetura como projeto de construção textual) nutre-se não somente de todos os textos anteriores, com quem dialoga, e não apenas das relações intertextuais (indiciais) possíveis na geração da escritura, mas nutre-se e se estrutura com a

tensão entre essa cadeia formal de índices e processos de significação que a ela se agregam, trazendo à sincronia da estrutura, a diacronia. Essa diacronia (o movimento, o tempo, os acontecimentos), agrega as sugestões que constituem nem a interioridade ou a anterioridade, mas a exterioridade. O produto (o texto ou o projeto arquitetônico) é a ação de sincronizar e relacionar esse amálgama de informações dialogais. Em arquitetura, no ato do projetar, a exterioridade pode ser compreendida como a interpretação e concepção do fluxo e do movimento no espaço, a elaboração de uma forma topológica.

3. Projetar a forma topológica: conceder qualidade às conexões

Ao conceber conexões e percursos que qualificam o espaço, o arquiteto o desdobra, necessariamente. Partindo do pressuposto que o movimento humano se realiza no plano euclidiano, apesar de ser plenamente possível a concepção de relações inusitadas entre esse plano do fluxo e o espaço não-euclidiano contido numa superfície obtida por deformação 16

topológica do

grid ou grelha cartesiana (tarefa muito bem realizada, diga-se de passagem, pela arquitetura contemporânea), conceber ligações faz o espaço explodir em percursos que configuram balcões, terraços, átrios, coberturas, circulações horizontais e verticais. Esses percursos e as percepções que possibilitam recebem ainda intensidade expressiva da cor, da luz, natural ou artificial, conduzida intencionalmente aos interiores pela habilidade da atuação projetual. Esta exploração dos fluxos qualificados por esses elementos é a tônica do trabalho do arquiteto americano Steven Holl.

O controle das relações entre interior e exterior, com o projeto das aberturas e dos panos envidraçados, é parte fundamental do espaço arquitetônico definido topologicamente. Desse ponto de vista, uma figura topológica originada na dimensão geométrica, tal como o

toro, ou a fita de Möbius, não constitui forma topológica na dimensão arquitetônica, pois não é concebível fluxo ou percurso humano nas condições ideais e abstratas da geometria pura.

Um exemplo desta passagem de formas abstratas oriundas do mundo da topologia abstrata a formas arquitetônicas é a Möbius House Het Gooi (1993-1998), de Ben Van Barkel. O arquiteto partiu da intenção de projetar com topologias inusitadas e também de criar percurso. A questão a salientar é que a Casa Möbius não é uma transposição literal da fita de Möbius ou de um diagrama, mas sua transcrição de natureza arquitetônica. A passagem do mundo da abstração ao da Arquitetura depende da evidência dos fluxos, e das formas qualificadas de percorrer e estar. A casa em questão introduz interessantes aspectos relacionados ao modo de vida e aos percursos possíveis de criar a partir da

analogia da fita de Möbius. O que define a casa é a maneira conforme a qual os usuários são convidados a estar e circular nela, estruturando-se (topologicamente) a partir de dois caminhos. Nestes, há espaços de uso compartilhado (espaços entre), em que as pessoas se encontram em alguns pontos da casa. Além destes pontos espaciais em comum, dois caminhos ou eixos possibilitam usos coletivos e também separados. Estes esquemas de conexões, encontro e disjunções espaciais configuram a estrutura topológica da Casa Möbius, sendo a fita de Möbius apenas um suporte icônico que gera analogia. Outras qualidades dos espaços foram definidas pela integração entre casa e paisagem, através da escolha de aberturas e transparências. As qualidades integradas à arquitetura somente se tornam palpáveis no momento em que esta se realiza, e que o edifício pode ser penetrado e usado. Nessa 17

realização das qualidades ou significados, mesmo que estes transcendam aqueles idealizados pelo arquiteto, apóia-se a vida do edifício, que ao deixar a mesa do projetista, pode comunicar ao menos parcialmente o modo de vida e os fluxos que o determinam.

O exemplo evidencia que o projeto enquanto mediação da arquitetura opera a articulação sintática (leis do crescimento topológico), semântica (um modo qualificado e específico de viver e de se movimentar na casa) e pragmático, um uso possível e definido pelas condições anteriores. Essas relações complexas que articulam espaço e significação (significado em processo) podem ser demonstradas em exemplares de arquitetura contemporânea, como no exemplo que se segue.

4. A Casa Möbius, espaço-tempo na criação arquitetônica

Para o arquiteto Ben van Berkel, o processo projetual se inicia com a construção de uma

paisagem de dados (SPERLING, 2003b), concepção de espaços ligados a eventos, que correspondem aos fluxos e movimentos específicos projetados. Esses eventos são conceituados como os elementos dinâmicos que são capazes de transformar a "paisagem arquitetônica", ou o espaço diagramático considerado em sua auto-referência ou interioridade. O projeto se estrutura portanto como um sistema de interações entre a estrutura espacial e os acontecimentos previstos para que nela ocorram.

Uma obra instigadora atribuída a Ben van Berkel e Caroline Bos (UN Studio) é a Casa Möbius, situada em Het Gooi, Holanda, projetada e construída entre 1993 e 1997, com 520 metros quadrados de área construída. Neste projeto, a faixa de Möbius e estrutura topológica de um bi-toro (soma conexa de dois toros) foi tomada como sugestão para gerar um diagrama, cuja dimensão propriamente arquitetônica foi incorporada enquanto enunciação de um modo específico de viver, expresso na forma de fluxos orientados específicos. Mais do que metáfora ou referência a Fita de Möbius, a Casa sugere uma dinâmica de fluxos e encontros no espaço, concebendo-o como o dinamismo de possíveis eventos nela realizáveis. O ícone ou representação da Fita de Möbius é então dinamizado por uma rede de relações espaço-temporais, que retiram do diagrama seu caráter de abstração, caracterizando-se portanto por uma não transcrição direta da condição diagramática. Trata-se de uma estrutura temporal de uso, encontros e desencontros, uma 18

vez que o sistema dos fluxos na forma possibilita a existência de áreas de uso coletivo (ponto de encontro) e regiões de uso privativo, possibilitando que a residência possa ser vivenciada como lugar de sociabilidade e reclusão, a uma só vez.

O enunciado desse sistema significativo (semântico) implicado com as formas específicas de fluxo, uso e percepção espaço-temporais (pragmático) confere uma singularidade ao objeto projetado, sobrepondo-se em trama à estrutura profunda, sintática e topológica.

Fonte: http://www.unstudio.com/projects/name/M/1/ 19

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CONSIGLIERI, Victor. A morfologia da Arquitetura. (1920-1970). Lisboa, Referência/ Editorial Estampa, 1999. vs. I e II.

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