Da cacofonia à hermenêutica em volta de um poeminha da Clarice Lispector

postado em 14 de mai de 2015 07:35 por aron barco   [ 25 de mai de 2015 08:31 atualizado‎(s)‎ ]

[discernindo entre cacofonia e preconceito]
Nunca me imaginei citando Clarice Lispector. A Clarice é um desses escritores para sempre selados debaixo do pavoroso falatório popular. Pavoroso, sim — foram raras as vezes em que encontrei um amante do burburinho, da gritaria, da repetição bagunçada da fala, do ruído entre nós. Mas, bem, há quem ame cacofonia por identificá-la com festa. Tolos. E se você é um, então pare e vá apreciar uma festa de 5 amigos por que essa provavelmente terá muito mais chances de dar certo (e o meu critério para 'dar certo' aqui é o maio número de pessoas feitas mais felizes por comparecerem) que a festa de 100 estranhos da sexta passada. Mas eu divago.
        Quando o mero humano ascende ao Olimpo (seja lá por quê), ele fica muito visível para todos os outros meros humanos e seus olhos lá em baixo. Todos temos a qualidade de fama (fama é o que falam de você), só não o mesmo volume. E Clarice Lispector é um ótimo exemplo de quem, independentemente de sua relevância literária, ascendeu ao monte, foi amplamente vista por muitos, foi largamente adorada, e daí foi regurgitada… foi repetida, foi citada, citada de novo, e de novo e de novo até o ponto de seu nome passar os portões cujo letreiro se lê Popworld.
        Essa 'região' da nossa cultura é o equivalente a um parque de diversões de proporções continentais. Há muitas valorosas idéias vivendo ali (Watchmen, Beatles, Breaking Bad, Sherlock Holmes, Tarantino [ele tem um pé no Popworld], entre outros), e outras tantas adoráveis (Nemo!!!). Há também uma colossal pilha de lixo que de já tão superexposta nem vale a pena eu abrir parênteses aqui para citar exemplos. Por ser tão superlativo tão barulhento tão colorido tão tão atrativo, o Popworld é frequentemente tomado por quem pouco pensa (seja por preguiça ou incapacidade ou sei lá, pergunte para um neurocientista). Adicione a característica 'falar muito' para quem já pouco pensa e pronto, você encontrou o perfeito candidato para participar e talvez até iniciar o burburinho, a gritaria, a repetição bagunçada da fala, o ruído entre nós. 
        E meu ponto é: Popworld é cheio de discussões assim que do ponto de vista de quem ama sabedoria parecem mais desertos. Ou seja, estar no Popworld pode ser um péssimo lugar pra Clarice Linspector. E o que é pior, Clarice é um ponto de particular movimentação no Popworld. A internet está cheia de seus papagaios
        Mas eu não vou assumir que suas citações não sejam autênticas demonstrações de pensamento como todos os pseudo-intelectuais adoram fazer por que correlação não é causalidade. Vou repetir mais uma vez para caso você nunca tenha entendido: correlação não é causalidade!
        Mesmo assim, é fácil imaginar que muito do que a Clarice escreveu pode (e é) perdido por quê muita gente prefere evitar o que pra lhes soa como bárbaros conversando na internet. Nós lemos os outros assim: bla blah lbah ba bar bar barbaros. Como amar o desgaste que é o falatório? O Popworld sobrevive por que é enorme, é fácil, está em todo lugar e dá prazer  hurray for pizzas!! — mas aaaaah o falatório em algumas áreas do Popworld (estou olhando pra você Hollywood, trending topics do twitter, as rádios populares, revistas populares, a news feed de 90% do facebook entre milhares de outros exemplos) é algo que não pode ser esquecido. Nós odiamos bárbaros!
        E assim vemos os papagaios da Clarice na internet e esquecemos de propriamente ler a Clarice, o que noz faz perder contato com a escrita da ilustre senhora ou mesmo talvez até ter vergonha de anunciar um gosto por ela por se tratar de algo tão lavado pelas palavras de tanta gente que parece ter perdido todo significado, como acontece com todas as coisas excessivamente pop. Mas olha, achar que o outro é o bárbaro é uma baita bobagem. Algumas pessoas citam demais Clarice, sim, por sei lá qual motivo você desgosta delas, mas e daí?! Nada disso derruba a proposição de que seus escritos ainda podem ser proveitosos.
        As pessoas preferem concordância, preferem andar com quem tem o mesmo gosto. Sim, é mais fácil não ter que lidar com divergência — o que pode ser exaustivo  mas assim nós perdemos a qualidade da diversidade. Ou talvez o motivo mais forte seja esse: as pessoas gostam de manter íntegro aquilo que lhes é integral. Nós atravessamos as fileiras do Popworld escolhendo as atrações como num parque de diversões, escolhendo quais escritores/músicos/cineastas/etc iremos assimilar, adicionar à nossa personalidade (feito um nojo tijolinho para o edifício da personalidade) e defender sem medo de oposição. (As vezes vamos até o supermercado de guilty pleasures, gostos escondidos para não atiçar divergência). Exemplo: se um dia Aron leu The Dark Knight e seu entendimento encaixou novas peças, Aron provavelmente defenderá que outras pessoas deveriam lê-lo, ele vai digerir a passagem ou o livro…. Enfim, como já dizia Marx, du bist was du isst.

[a hermenêutica]
Isso que eu fiz ai em cima foi tentar traçar e identificar a raiz da visão que poderia fazer alguém pensar que não há proveito em ler uma passagem da Clarice Lispector citada por alguém sem fama de ser inteligente num post mal formatado de facebook. Eu tentei fazer hermenêutica filosófica, virar a lente de aumento do filósofo para suas próprias fontes, suas raízes, seus motivos.
        — Analise a cultura sendo já uma plantinha na plantação, por que não há outro jeito de fazer isso, não existe espelhar o mundo sem ter uma perspectiva, uma história, uma tradição, e uma caixa de algoritmos que você apreendeu durante a sua vida para poder compreender e pensar. Então use a ferramenta certa para cada trabalho, e aprenda novos jeitos de fazer — eis o objetivo.
        Então, usemos de hermenêutica para fazer manutenção desses algoritmos. É como se estivéssemos limpando o nosso cérebro, organizando que lá está pra abrir espaço para expansões.

Um dos indiretos modos de entender
é achar bonito. Do lugar onde estou
de pé, a vida é muito bonita.
Entender é um modo de olhar.
Porque entender, aliás, é uma atitude.

O que a gente não entende, se resolve
com amor.

Uma das minhas metáforas favoritas que a filosofia já produziu é a "fusão de horizontes", de Gadamer. É isso o que eu tenho quando leio esse poeminha. Eu poderia muito bem ter dito isso. Não escrito, mas dito. Isso ecoa pra todo lado em mim. Eu não mudaria uma palavra.
        A fusão de horizontes é uma metáfora visual para o entendimento. Quando nos entendemos com alguém, toda suposição dá lugar para um contato direto. Nós temos as intenções do outro em vista por que vemos na mesma direção que o outro vê. Nós usamos a linguagem da mesma maneira por que temos à frente e à vista a mesma multiplicidade. Se o meu horizonte é o mesmo que o teu, então estamos lado a lado. Logo, somos muito parecidos. A mesma capacidade cognitiva, as mesmas faculdades e similares potenciais. Eu diria até que em grande medida não é possível uma fusão de horizontes sem quilos de empatia. Não é simpatia, é empatia.
        A fusão de horizontes é o que nos faz nos alinhar com os escritores que gostamos, é o que nos faz gostar de um escritor. E, curiosamente, cá está Linspector falando que entender é um modo de olhar e, aliás, uma atitude. E é. A discussão erosiva não é compreensão. Para entender qualquer texto ou fala é preciso, antes de tudo, ouvir o outro como se ele tivesse boas intenções e clarear o que tiver de ser aclarado para poder ver o mesmo. Entender é de fato uma atitude.
        E quanto a beleza? Bem, se há um traço em comum para todas as instâncias em que alguém acha algo bonito é o seguinte: de onde essa pessoa está — sua localização historico-geográfica sócio-cultural mais sua bagagem de aprendizados — dessa posição o julgado é entendido. Apenas um degrau separa o entendimento da estética, o 'entender' do 'achar bonito', e esse degrau é a capacidade de explicar. Quando somos capazes de explicar está mais que provado a nossa compreensão.
        E sobre a última linha, eu recomendo o texto abaixo

O vício inerente

postado em 28 de abr de 2015 09:46 por aron barco   [ 19 de mai de 2015 05:23 atualizado‎(s)‎ ]

Ler Inherent Vice, do Thomas Pynchon, me lança numa espécie de saudade do que nunca vi. Uma sutil melancolia. Não por que o enredo seja deliberadamente confuso (Pynchon almeja modelar o torpor dos 60 na forma da narrativa, mas ele não reduz os 60 ao seu torpor próprio), mas pela absurda empatia que eu sinto pelo protagonista.
        Doc Sportello é um hippie saudosista cheio de saudade. Ele respira fundo toda vez antes de acessar a memória. Ali está algo querido mas que, por ser memória, é inacessível. Em pleno 1970 ele ainda acredita em maio de 68. Seu coração está no seu passado. Ele achou casa em uma vida que procura a diferença mesmo na alucinação, uma vida de procrastinação produtiva, pacifismo e aceitação generalizada; mesmo da dor de perder, pois 'freedom is just another word for nothing else to loose'.  Doc é um hippie por que ele partilha daquela visão de mundo de estar deitado na grama olhando para a curvatura da Via Láctea de um ângulo não muito longe da Linha do Ecuador.
       O motivo de sua saudade é a percepção de que os hippies perderam, foram longe demais, abrigaram gente como Manson Charles Manson? What the fuck was that?!…  A náusea de Doc atingiu seu ponto máximo quando ele voltou de Las Vegas tendo descoberto que o seu mundo estava repleto de homens bem mais horríveis do que ele previu:

[…] and here was Doc, on the natch, caught in a low-level bummer he couldn't find a way out of, about how the Psychodelic Sixties, this little parenthesis of light, might close after all, and all be lost, taken back into darkness… how a certain hand might reach terribly out of darkness and reclaim the time, easy as taking a joint from a doper and stubbing it out for good.1

Ali Doc entendeu o mesmo que Raoul Duke quando este descreve a tsunami conservadora engolido a costa oeste, morrendo aos pés de Las Vegas2. Ambos saíram de Nevada tendo testemunhado um sonho nem um poco groovy nascido da mesma geração que eles tanto amaram: o sonho consumista e cegamente hedonista do prazer por prazer, uma vida niilista, simplesmente vazia. De lá até cá, Las Vegas é um contemporâneo monstro cultural, ícone para o vírus cultural que é o egoísmo.
        Pior, depois dos 60 nosso mundo ganhou um câncer: nunca estivemos tão à beira do niilismo como hoje e devemos isso em parte à rebeldia burra daquela geração. Eles queriam liberdade das amarras conservadoras mas acabaram assustando o mundo pra além do hippie. De nada adianta cortar com a tradição sem ter um plano, ficar à deriva sozinho em meio ao frio e o nada.
        Mas Doc ainda é um herói, e Pynchon não condena os 60. Por motivo de miopia histórica, alguns podem acabar confundindo a Las Vegas de 65 a 75 com a Los Angeles de 65 a 75 — o que é um erro por que o hippie não é niilista. Tendo lendo Buda ou não, os hippies aprenderam que sofrer a condição humana nos faz universalmente iguais. Essa realização, se tomada como premissa, destrói qualquer conclusão absurda de que nós devemos exterminar os diferentes. O deus do hippie é paz e amor.
        Esse é o único meio que sei para falar do vício inerente. O inerente permeia tudo desde o início. E Pynchon escolheu a palavra vício… um vício que seja inerente não pode ser em uma substância. O inerente, por ser de dentro pra fora e não de fora pra dentro, não é algo causado por outro algo, não é um Q na forma lógica da implicação se P então Q. Esse vício, então, deve permear a própria forma de vida. É por isso que todos (os personagens) — do mergulhado em LSD ao mergulhado em chá  todos têm um vício inerente.
        Nós humanos temos mais formas que nos fazem iguais do que diferentes. Todos nós somos inteligências intencionais: o que somos, fazemos e falamos tem direcionamento intencional. Essa estrutura de flecha dá forma à nossa consciência. Todos nós projetamos o solo antes da sola do pé pousar, como expectativa. Dito de outra forma, todos nós acreditamos em algum cenário além do nosso horizonte como sendo fato. Justificativas arrojadas para tal à parte, a lição aqui é que fé é mais um nome para a estrutura da mente humana — todos nós louvamos algo, todos nós temos e precisamos de um poço de motivação, uma forma lógica pra justificar nossas ações, um conjunto de premissas pra começar a pensar, uma espinha dorsal para a nossa personalidade, um propósito pra viver. Todos nós temos um lugar de onde tiramos nossa força. Todos nós temos um deus. Todos nós amamos. Estou falando do motivo pelo qual você levanta da cama. Estou falando da sua resposta à pergunta de Camus 'por que você não se mata?'3.
        Sim, por a vida ser algo em constante mutação em direção à morte, uma resposta à Camus pode facilmente variar ao longo de uma vida. Mas não se esqueça da estrutura da consciência. O que Pynchon chama de vício inerente está mais para uma seta do que para um ponto de chegada, mais para uma direção rumo ao horizonte que permanece inalcançável até o fim impossível-de-prever chegar. Essa direção é seguida como seguimos a vida  em frente, dia após dia, sem saber quando vamos morrer pois a nossa morte é um limite e todo limite é parte da medida do nosso infinito desconhecimento.
        Se você pudesse achar um expressão autêntica pra responder Camus, essa seria a expressão do que você louva, do que você ama, o seu deus, o seu sonho de futuro, sua fonte de esperança. Seu inherent drive towards Seu vício inerente.
        E aqui voltamos ao hippie: se todos precisamos eleger uma estrada infinda como propósito de vida, melhor seguir na direção do amor entre as pessoas e no entendimento mútuo, não? Convencido do sonho hippie, a maior motivação de Doc é amor… Toda a trama de Inherent Vice se desenrola na medida em que Doc não consegue dizer não para o amor. É, ele pode ser contado entre as pessoas que só querem acender mais um baseado e dividi-lo com seus amigos deitados ao seu lado na grama admirando o universo.
        O que faz o Doc e eu tristes é passar o baseado, virar o pescoço e avistar a tempestade. Você pode continuar cool e groovy, mas nosso mundo, o nosso mundo está cheio de gente que dá dois tiros em um Bob Marley pedindo por paz. Gente que tem tesão pelo confronto e não entende violência como infecciosa. Gente cujo mundo pede pela destruição de um outro, cujo vício inerente não está na direção da felicidade de todos.
        O sonho hippie perdeu o palco e foi esquecido quando mudaram a atmosfera pra luzes fluorescentes, cocaína, calças apertadas e os tecladinhos toscos dos 80. Assim o sonho dos 60 morreu, assim 'hippie' se tornou sinônimo de gente inútil, avoados preguiçosos que feito mula teimam em ajudar a fazer a economia girar com eficiência. "Provavelmente por que estão chapados"— Assim o mundo foi tomado por quem ama banqueiros ao invés de abraçadores de árvore.
        A tristeza de Doc (e a minha) vem da certeza de que deixamos pra trás o mundo pior do que quando o achamos.

……
1 Inherent Vice (Vintage 2010), p. 254-255.
2 Fear and Loathing in Las Vegas (Harper 2005), parte 1 §8, p. 67-68.
3 Na introdução "Um Raciocínio Absurdo" ao Mito de Sísifo. 

Untitled

postado em 11 de jan de 2015 10:48 por aron barco   [ 11 de jun de 2015 05:04 atualizado‎(s)‎ ]

espalha-te nos meus ombros, concluindo o mundo agora
escute o esquecimento do ausente
deita-te antes do fecho e do escuro, no limite da cama

amarra a confusão de braços ou desmancha-te no embaralho
deixa-me te ver nua, procurar meu tempo que passa em ti
equilibrando-te sobre o calor
pois assim teu seio abre-se contra mim

eu não sei quanto consumir um no outro
nem mais sei quietar o impulso
prefiro perder as contas de vista
velar e tornar mistério o que nos une

quando nosso teto acalma
conto ao sono teus detalhes meus
que é pra destilar numa dose
o tempo passado desde que fechamos a porta

os homens da História paterna

postado em 17 de out de 2014 16:32 por aron barco   [ 25 de mai de 2015 08:33 atualizado‎(s)‎ ]

Meu pai nunca foi pai contador de história, com exceção da história dos grandes homens. Ele me contava seus aprendidos desvairados e assim dava-me visões. Eram minhas espiadas na capacidade imagética do cérebro faminto que eu haveria de ter um dia. Ele contava-me de Átila O Huno, terrívelzão queimador de terra, homem das estepes rudes e Urais ásperos. Quintessência da barbárie, ameaçava o punho de ferro da ordem imperial, agricultura e exército, bonus e aquedutos.
        Quinze anos depois, vejo uma propaganda para o novo jogo simulacro de general pedestalizado no passado. Era o tal. Deram uma face quadrada para ele, Átila. Espero um substituto para o cancelado trem para Londres — todas as vias levam a Londres — evitando contato ocular com a velinha chocada por eu estar comendo um desses sanduíches de estação de trem na plataforma e principalmente por deixar cair um pedacito de pão no concreto. Barbáries. Agora preciso ir pra Fareham trocar de trem.
        O pai tinha uma admiração pelos homens que desafiaram Roma. Ele anarquizou e melhorou a teoria dos grandes homens sem nunca pisar numa sala de história: os movimentos da história não importam, é o potencial de mover cada indivíduo o que pode ser explicado pelo impacto desses grandes opositores, agitadores, subversivos; sangue-nos-olhos ou não. E assim foi que Hannibal Barca apareceu nos seus arcos narrativos: afiado, sapiente e com elefantes.
Pai, eu quero confiar num homem que caminha com elefantes. Mas, pai, eu também quero cuspir na cara daquele que leva elefantes à guerra… Tudo bem, mais uma vez confiar e cuspir no antepassado. Barcos da Itália, Barcas de Cartago, disse-me o pai. Mas, ah, nome de família pouco importa, vale nada. Fantástico é espiar o mundo tomado pelo fugidio momento de acreditar na grandeza dos seus genes.
        Quinze anos à frente, estou pronto para assistir a dança típica das moças do ar packt like sardines in a crushd tin box no avião para Toulouse. O countryside é mais verde e arborizado que la campagne, essa amarela e cultivada. Estava a caminho da Conferência tentar devolver o dinheiro de uns matemáticos que compraram diversas asneiras de alguns filósofos, mas eu perdi meus elefantes no Massif Central. Felizmente, o mundo se resolve sem mim.
        O último grande é Spartacus, feito pelo pai O herói ateu e anarquista, o sujeito a- , o que luta pela sua liberdade, sobrevive contra todas as chances e de tão homem que é abre o buxo envinado de Roma soltando milhares de escravos cantando run for the hills!. A figura messiânica revolucionária, um homem projetando-se maior. O crescimento de Spartacus era inversamente proporcional ao apequenamento de meu pai. Apequenado, mas inspirado.
        A conexão fundamental entre esses homens — hoje eu sei — não era Roma. É a mitologia de fugir para as colinas, largar a morbidez do progresso auto-replicante que mata de tédio, mata sufocando as pernas, mata de invalidez, mata por falta de digestão, mata por ser fácil: do que é fácil de plantar, fácil de produzir, fácil de comer. Dar as costas à rede pesada e complexa de gente, parar de forçar o cuidado com detalhes que jamais importariam; impostos, reais e centavos, fodam-se. Ir existir na mais autêntica forma despido às necessidades ao meio do mundo e mato. Fazer do meio o meio de si.

faces come out of the rain when you're stranger

postado em 29 de set de 2014 12:40 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 05:59 atualizado‎(s)‎ ]

They get crazy on the head at nights. They undress their politeness and expose the rough skin under, thus inheriting from mad-poets-of-the-past the license to hedonistically test the clash of their desires and their constrains. As you noticed already, on some nights desire gets to moon. However, on that particular night, a tie. A miserably wet tie. 
        It rained for days, just after summer peaked. A week straight, to the best of my memory. London was colourless, but the capital kept its dispirited march of englishness, their rainy business, exhaling resentment over the corpse of summer. The chinese foodstand at the entrance of Camden Market was hopeless. Camden Town, a convoluted orgy of everything that Earth has ever pooped. Ever and Everything; the Market its creepy bowels, not far removed from the worldwide family of markets with which I’m sure you are familiar. The thing is that right there nostalgia bloomed in my ear. At the back of a series of church-like arranged chairs, projected on the grey brick walls of old – back there I heard the cry of a semi-amorphous white blob dressed in a sailor costume only a senseless mom would dress her kid with – a free exhibition of Ghostbusters, as a bus passed trampling by. So please let the night burn as follows.

The bus was carrying a group of four nurses in blue uniforms, a sad old man in a yellowish tweed suit, a sharply dressed absent-minded young man (watching the rain running throughout the window, I guess), and a borderline-chavy couple with smartphone in hands. (Please, remember them). From the last two seats, their machine filled that casket with american rap. The other passengers stared at each other (except the young man) already tormented by the faint possibility of confrontation. That went on for a while, until at a stop, the driver turned the engine off, so no voices could fill the air aside from Eminem’s. That went on for a smaller while, until the man shouted from the back ‘Oi!... Hey, ok, I’ll turn the volume down!’ More waiting. Silence. ‘Can we go now?’… ‘This bus isn’t going anywhere until you turn that thing off’, yelled the driver. ‘Ok, ok. It’s off, you see?’. Moment to breathe. ‘Fucking hell’. The driver mumbled something about respect. Then there were sighs. Then: 'You know, I’ve to ask that from fifteen-year-old teens! And look at you, you two must be in your forties!’. They laughed deliciously, cracked up the volume and jumped out below the next rainy cloud.
        They had friends, friends nowhere to be seen. Friends hidden in some room at arbitrary points in the city’s manifold. They hid around a small wooden central table surrounded by rainbow colours, one empty hotel-room-vodka-bottle, two filled ashtrays, three packs of cigarettes (one of them did not smoke), four howling men (some of the best of our generation), five bottlers of LSD, six mood cubes, and seven grams of shrooms. The men have had dropped the LSD and stored the shrooms for sunny days. One of them talked about his girl, rolled a cigarette, smoked it to finally collapse on the floor, taken afloat by a collection of harmonies. Two have fastened their seatbelts and departed. The last one stood and played with the lights, feverishly seeking to construct the most improbable prism ever seen. In such cases the fate of the world hangs on the flip of music. And don’t forget! the human mind is possessed when a familiar song (the ones so used by the ears it seems a fraction of your genes have transmuted into melody) is around. This is how I notice I am getting old. Sound waves turn to smoke, contorting its shapes under the orders of a master deeply submerged in my skull. They are summoned by the faded smooth tunes of melancholia to carry my voice to echo away – to echo, it might as well be, in some dark waters of other’s consciousness, to rise up to surface in a permanently out-of-fashion way.
        By a whim of the twelve notes some children danced in a strobe lighted claustrophobic club, whilst a too-drunk girl sat crossed-legged on the floor next to her two girlfriends striving to roll fags. She was the picture of some anachronistic hippie, her auburn hair and brown dress waving around patterned like a Persian rug. Besides them there was only a bearded man chain-smoking marlboro reds, viciously observing the local fauna. Around that moment she caught the attention of a somewhat chubby scottish dancing with a bootle of czech beer. Scot arrived and there stood, one tall and proud representation of all courage boys must muster to talk to girls. They all behaved entertainingly. A friend of his arrived. There was some elegance in this one’s movements, as if he was bigger than that surface exquisitely made for pukes. There was no telling from where he came from. I’ll call him Stranger; he only had eyes for the auburn hippie, I’ll call her Secret.
        The couple from the bus found its way to that convulsive corner of the universe. They paid respect to the lights and danced joyfully, but not gracefully. Secret watched them and smiled, infatuated with life. I couldn't not notice it, although the I here is always diluted — not entirely dissociated  within the crowd. At least not dissociated enough to miss how her face twitched in different arrangements of smiles disclosed by one colour at a time, composing a motley of one girl in my fragmented brain. (A point of equilibrium, when produced, can suddenly harmonize and soothe the wanting soul). That’s when Stranger took over the sight. Unlike her, little his features changed, for he hid scars deeply and wear them off simultaneously. You shan’t escape from his presence. He found his way next to her with rare subtlety — you got to give him that — and manufactured small sentences that made her rest her head on his right shoulder.
        Occasionally, when faces come out of the rain, constrain beats desire. And like that, Scot offended himself frowning at the cheerful sexuality exposed by the chavy couple. I'm afraid that whenever constrain wins, the voidless generation screams order. As so, soon an uninteresting fight broke off. Secret’s two girl-friends would tell that story to each other and other acquaintances for months to come, for reasons I never truly grasped. The bearded observer left without anyone noticing, as a drop of rain extinguished his last cigarette. I, for one, was all over Camden Town’s decay, while the convergence of drunks was over and the faces dissipated into fog. Only two children remained in the club: they had a table and alcohol for longer conversations after all. Many-coloured ashes gently embraced that entire table surface until disturbed by a nose mistakenly snorting them as cocaine. Justified by exhaustion, the nose sneezed and the mouth complained loudly.
        Maybe I should state here that Scot writes anecdotes (perhaps that’s the reason why his anxiety-filled temper is short). During the day he folds into himself, taken by an austerity that absorption moulds to the shape of an impenetrable sphere and coffee fuels for the travel into the land of unusual brain frequencies. Then he starts ruminating ideas as if he was checking the intricate machinery of thought from within, looking for alleyways in a structure not unlike the set of stairs in Echer’s Relativity. (I wouldn’t advice obsessing with recursive sequence of stages each one formed by every possible arrangement of its predecessor. But do read some Borges).
        Taking notice his esquire was lost (an acquired opportunity), Stranger held Secret then escorted her to a dry spot outside the Market.

Of everything men can resign and consign within women, some kind of higher ground remain in them that only the darkness of men can claim. Not the boldness of men; their darkness retain all secret. Men bury in women’s body ‘what solitude and the night made them fear’. Until a delirium takes over. You wouldn’t see this under daylight, when they ‘camouflaged themselves as rational beings’. And as the Camus in my head stops echoing, the paragraphs become shorter as the night. Stranger left next morning with the rain.

a incompletude de Godel

postado em 24 de set de 2014 12:48 por aron barco   [ 1 de abr de 2015 08:49 atualizado‎(s)‎ ]

Imagine the follow queer possibility: we have always gone wrong up to now in multiplying 12 × 12. True, it is unintelligible how this can have happened, but it has happened. So everything worked out in this way is wrong! – But what does it matter? It does not matter at all! – And in that case there must be something wrong in our idea of the truth and falsity of arithmetical propositions.
Ludwig Wittgenstein, Remarks on the Foundations of Mathematics, I—135.

‘Não me leve a mal, querida. Eu gosto de ver o armário em ordem. É só’, dizia Godel à sua esposa em tréplica. Ela perguntou ‘qual é o problema?’, afinal. Mas a sutileza dos tons enervados e timbres descontentes escapam estas palavras aqui empregadas para – sem qualquer chance de sucesso – comunicar esse próprio escape. Chame isso de intenção do autor, chame de tanto faz; o importante aconteceu só depois, três horas adiante, quando uma contradição oculta bateu na porta.
        Bateu no padrão | ... | | . | . | ... | .. | enquanto Godel rascunhava, fechado em seu escritório, na tentativa de encontrar expressão para o dia anterior. No dia anterior Godel fechou a persiana, deitou-se no seu divã, deitou-se dentro, no centro do mesmo escritório. Deitou-se por que esperava. Esperava transcender a sala na direção do escuro indizível; pretendia rasgar o céu, ultrapassar o fim, voltar de lá puxando uma incompreensível novidade como se puxasse O Bebê que traria as novas, que entre nós tornar-se-ia homem e que nos fecundaria com impensadas ideias. Godel jamais descreveria seu trabalho assim: uma espécie de parteiro e genitor de ineditudes infantes. Não, por que ele é o estereotipo do matemático. Regularmente veste a calça denim bege, a camisa amarelo-lavado debaixo do suéter azul marinho, aqueles sapatos velhos mas inteiros, penteia o cabelo todo pra direita e barbeia-se sistematicamente. Nunca foi íntimo, muito menos intenso, mas faz todo necessário para manter satisfeitas as vontades: vinho, castanha-de-caju, Wagner; adicione a esposa (o que comprime sexo, atenção e o mínimo afeto) e eis a receita do que Godel precisa pra deixar seu corpo pra trás.
        ‘Eu te conheço por acaso?’ dizia quase incerto de sua insegurança. 
        Ela entrou sem cerimônia, ele prontamente aumentou o arco de abertura da porta. Ele puxou-lhe uma cadeira. Ele enfrentou aquele rosto antigo, o mesmo rosto que lhe tomou todo o ar quando por fim compreendeu o que viera lhe contar.
         'Hmm' Havia uma inconsistência na aritmética, silenciosamente trabalhando para bloquear as artérias dos axiomas que Dedekind e Peano talharam nos ombros de gigantes. (grupos de simetria abominavelmente inconsistentes!). Por razão de dualidade de categorias, uma doída conclusão esperava: uma contradição. Godel tocou-se que deveria sentir terror. Logo sentiria. Logo. Ele reforçava o coro, sussurrando para si mesmo que o universo precisa ser completo e consistente (nós é que, presos em patéticas perspectivas, só alcançamos o Tudo por partes. Míseras partes). Mas nós possuímos visão e rigor, e com elas nós descobrimos como extrapolar a finitude para retornar os pedaços cortados pelo olhar analítico ao sublime contínuo. É o conhecimento alcançado no cume da mais alta montanha de pensamento, onde os homens capturaram a estrutura primordial: com a exaustão de todas as combinações possíveis 2S de um contexto ilimitado 2{nN : n + 1} explodiriam as barreiras do conceptível, a estrutura recursiva V de estágios de conjuntos que do Nada abre-se à inefável infinidade de infinitos.
        Contudo cá estava aquela face tomando conta da sala como a ansiedade toma conta na medida do anoitecer. O mito nunca cessou de ser sussurrado entre círculos de especialistas, mas até hoje era tão remoto quanto um mito grego. Ele ouviu e digeriu e esperou sentado o terror que não veio e... nada. Seus óculos não partiram ao meio, seu teto não caiu, as paredes não desmoronaram, a lâmpada nem sequer piscou. Só um vento familiar lhe roubou o calor. Godel deixou as palavras vagarem e suspendeu-se, pairando na luz que alagava a sala-de-estar.
         Suas descobertas em viagens insones na terra sem chão tornaram-se invenções. Seu orgulho de descobridor esvaiu pelos poros Eram invenções, apenas invenções suas. Outra imagem veio então: eram criações de um homem de meia-idade, sim, mas esse homem estava na crista de um acontecimento que não era responsabilidade sua; era o ápice de um arco feito de muitos outros homens, um arco cujo aparecimento era ora impossível de conter, ora impossível de notar.
        Da sobreposição de imagens Godel ganhou uma enxaqueca. O vento que lhe acertava estagnou, mas nenhum calor lhe foi devolvido. Notou que a visita agradeceu o chá e levantou-se para ir embora quando o aspecto de invenção cessou de fazer sentido, quando Godel entendeu a inconsistência estava mais que exposta – todos os olhos podiam ver e não fazia diferença alguma.
       
'Podemos ver na regra quais circunstâncias excluem erros na aplicação da regra, mas a aplicação seguiu como seguiu de Euclides até ontem à tarde e nenhuma ponte caiu. O erro lógico estava aí, só que esse erro não importa e um erro que não importa não é um erro!' Não faz diferença, não importa. Não faz diferença. A única consequência nesse universo inteiro foram cabelos arrepiados na cabeça de Godel.
         Ele tinha a escolha toda para ele. De um lado, pôr no estandarte a cabeça daquela Senhora, encher os pulmões e anunciar em comoção o último paradoxo, convidando o mundo para provar a mais nova onda elétrica embriagante que incendeia as sinapses e condena a boca à expelir contra-sensos. Do outro lado, abrir a porta e deixa-la ir. Deixa pra lá. Por que somos nós que fazemos (ou fazíamos) valer a regra – a necessidade é também uma regra – e agora q
ue o guincho perturbador de uma ordem dúbia foi ouvido, esse homem nenhum faria a escolha por todos nós entre seguir em frente pela direita ou pela esquerda.
        ‘Quem era?’ perguntou Adele.
        ‘Alguém que caminhou longas distancias.’ Godel sentou-se na poltrona na sala perto da janela e lá restou.
        O jantar esfriou, o filme acabou, a lua arqueou. Adele ficou preocupada de vê-lo quase estático na mesmíssima poltrona num véu de sono e pensamento. Seus olhos refletiam um vórtice regurgitando pensamento da origem até a morte do universo em gelo. A extensão de sua morte tornou-se palpável e, contudo, indelével; mesmo para ela, acostumada ao papel de copiloto. Quando ela o encontrou 15 anos atrás ele era como um cachorro abandando o rabo para o primeiro sinal de afago. Fiel aos confiados donos e amigos, visivelmente tomado por uma tristezinha fugaz quando acossado, enfeitiçado na empolgação de perseguir o que se move. Ela tentou descrever em linguagem precisa como ele foi abraçado por algum truque labiríntico Borgiano quando testava as barreiras da imaginação humana e lá vaga desde então, para além de prazer ou desprazer. Aquele texto morreu de fome. Noutro momento, numa noite fria de tempestade, Adele pintou um quadro para libertar o marido: do escuro partia um trovão iluminando os poços da imaginação, mas sem revelar nada – era tanta luz que não se podia ver. 

No pôr do sol ele veio à varanda da casa, escorou-se na parede e pôs-se a admirar um raio dourado atingir a armadilha de vidro verde para vaga-lumes, projetando sobre o chão de ipê uma sobreposição de hexágonos e triângulos. Adele notou.
        ‘Eu gosto. É bonito.’ Frente a fortaleza de silêncio do marido, ela decidiu lançar isca ‘mas pouco importa, beleza está nos olhos de quem vê’.
        ‘Querida, a beleza... a beleza é uma experiência. Eu aprendi. Não é nem precisamente aqui, nos olhos que veem, nem lá. Lá na coisa. Tão pouco nos dois. A beleza precede esse constructo. A experiência vem primeiro, é o primeiro a ganhar nome. Por isso tudo começa no verbo, como quis Deus. Há prazer nela, aparentemente, por isso a cultivamos como tal. Claro, a História é um jogador importante pois constitui o cânone, dá o exemplo – escutamos os gênios maestros e vemos que eles sabem onde ir, como ir, permitimo-los nos ensinar – Rilke disse melhor: “é uma grande riqueza; não tua, de um mundo”. Vemos uma multiplicidade de aspectos não presentes numa figura que sozinha jamais poderia conter tudo isso e – voilà – é arte. Nela eu posso jogar, há espaço. Posso dizer que se assemelha a isso ou aquilo, e ela escava cantos abandonados da memória, faz-me sentir ciente de conexões, me deixa ver como nunca havia visto antes. Ou faz um velho amigo mais nítido, mais presente, como nunca antes. Meu amigo melancólico. E assim por diante, assim por diante. Tudo se passa como se o amor pela beleza estivesse de mãos dadas com o amor pelo saber. A fascinação com a expansão operada no teu cérebro por ninguém em particular se não um cutucar da imensurável malha que tecemos e dividimos com todos os homens.’ A central serenidade na voz de Godel engolfou o mundo num toque de azul, como se o oceano tivesse subido morro acima e flutuássemos juntos em paz. 
        Adele respirou frente a ameaça da morte vestida de paz e disse para nunca mais ter de dizer: ‘Arrume Platão, querido. Retifique-o.’

dos últimos minutos na brasilândia

postado em 16 de ago de 2014 04:56 por aron barco   [ 1 de abr de 2015 08:12 atualizado‎(s)‎ ]

Dentre todos os acentos vagos, escolhi meu usual mais ao canto e à janela. Eu noto a luz dura e excessiva. Eu noto as pessoas cheias de vozes e negócios e tristezas. Eu mergulho com olhos para o-que-vem-e-vai sem propósito.

Pelos anos que passam me especializei um certo autismo de ver matéria — são apenas pontos — aglomerada em multiplicidade alternante, a desenrolar e estender sem enredo.

Eu mergulho e você me traz à tona porque tem uma esposa que fala. A esposa fala alto. Vocês discutem os casuais com sotaque português. A bolsa dela cai, carteira no chão e eles não notam. Eu ajudo. Eu quixotesco. Escolho as lutas erradas e me embebedo em lirismo. Derramo e rolo sobre as minhas dores fantasmas. 

Quero fumar um cigarro para sair de perto de você e de sua esposa e de mim que percebe. Mas o avião está para chegar. Deixo-me para trás. Algumas horas atrás nos abraçávamos e dizíamos até mais.

Dentre todos os acentos vagos, escolhi meu usual mais ao canto e longínquo. Eu vou. Era hora de lamentar. O teto era sólido, mas chovia em mim.

Untitled

postado em 16 de ago de 2014 03:50 por aron barco   [ 26 de jan de 2015 10:04 atualizado‎(s)‎ ]

They all hate what they write. Writers and wannabes alike. What discriminates the writer is sending it away before the hatred infects the meat-engine in the skull.

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