Um distante parentesco com Sísifo.

postado em 13 de fev de 2015 07:57 por aron barco   [ 17 de mar de 2015 06:53 atualizado‎(s)‎ ]

No meio da paisagem da minha existência há uma depressão. A hipótese é: uma quantidade não especificada de asteróides caíram ali, por volta da mesma região. Recentemente eu aprendi a jogar tinta nesse buraco, rodopiar e depois sentar pra apreciar a vista. Aprendi a apreciar a vista. Só que a cratera, é claro, nunca foi embora.

A ambição mais alta na minha prateleira é a de ser mais esperto que o universo: quero controlar o incontornável, ir embora nos meus termos. Eu escolho o como, suicídio, só não sei o quando. Afinal, saber quando agir é um desafio constante, tal que parece parte da estrutura de existir até. E se pareço acreditar no mito do controle, o mito de que temos agência — bem, essa é a ambição. 

E não se choque com a palavra… é só outro nome para o ponto final, uma questão de administrar o tempo, como numa narrativa. Narrativa também é um modo de dominar o tempo. No caso, aqui estou já pensando na edição. Nos cortes, mais especificadamente. Parece tolo planejar cortar e ficar com parte da vida quando essa é irrepetível e podes ter o prato cheio. Mas, bem, quando ninguém sabe que hora a noite vai acabar, melhor sair depois da diversão e pouco antes de desligarem as luzes.

Sinceramente essa boemia toda cansa, aproveitar a vida todo tempo cansa, exige energia demais. O cabelo já estar a cair, a tosse a ficar, o ânimo a minguar. Por que quero editar essa narrativa? Por desinteresse, por cansaço, por tédio. A presença é tão imperativa, exigente e repetidamente maçante ao meu ver por que o meu vício inerente é entretenimento. Meu diagnóstico é ter uma atenção faminta demais, um cérebro-buraco-negro a engolir toneladas de interesse. Nada falha a me entediar, eventualmente.

Frente à paisagem espero estar inteiramente sepulto
confundindo a nudez do fundo mudo com meu silêncio
Escrevo talvez para surgir — a poesia como reflexo de um medo
de que não há o que posso escrever que vá, ou venha
e traga mais que som e desejo.

Enquadrada pela janela irrompe a foto ridícula
não se vê céu, só as foscas tardes vazias
que criaram o cansaço vivido com calma
pelos dias.

Então eu divago, procrastino, jogo, por vezes funciono a meia fase, abro e fujo por todas gavetas do interesse, pelas tangentes das conexões de analogias semânticas e da internet, pelos detalhes banais das paisagens urbanas ordinárias.

Fico sentimental, fujo ao passado escapo pelo sorriso dela, os olhos preto-jabuticaba perdidos entre cachos e cobertor. Volto ao tempo em que o tempo era demorado, em que as ruas eram largas e a cidade um mato selvagem a ser explorado. Mas a entropia…Por todos os lados, tudo que amo se vai e leva um pouco. Logo ficarei irremediavelmente vazio.

Sinto-me irreparavelmente incerto quanto a como chegar ou mesmo se chegarei ao centro do labirinto, ao que importa. Pior, nem sei o quanto importa, nem se importa mais; muitas situações não valem o esforço desempenhado para tê-las. E não é por falta de tentar. Sinto-me incapaz de vencer o labirinto. 

Lá no fundo das minhas justificativas arrojadas está essa de que vida e mundo sempre foram desalojados de valor — afinal, valor irradia da práxis  existir nunca foi indispensável. A hora de pedir a conta chegará. Quando você perceber, só terá tempo de ver meu assento vazio.

Eu não irei por tristeza, apesar de tê-la ao meu lado. Não irei por tédio, apesar de estar me apertando para irmos logo. Irei por falta. Não há endorfina, gosto, estado de consciência, viagem, forma feminina, som ou narrativa que vá desalojar o motor de vazio dentro de mim. Eu sou um buraco negro, logo, consumir-me-ei.

O Vômito

postado em 26 de jan de 2015 10:06 por aron barco   [ 26 de jan de 2015 10:07 atualizado‎(s)‎ ]

Levantei-me pesadamente, o vômito continuava espalhado pelo meu rosto e enfeitando o chão em torno do travesseiro formado pelos meus sapatos. “Tu és um vômito solitário. Tu sempre soube que não aguentaria.” Há um ódio contido nos movimentos do braço, nos comprimentos do rosto, enrolado nas olheiras como num cobertor, e um resíduo de desprezo bem debaixo das unhas – todos sintomas de encarar um espelho.

Vamos tentar atravessar esses babacas. Mas cada toque, cada toque ou esbarrão é cheio de membros e órgãos, choques de pessoas frenéticas… quantas páginas seriam necessárias pra fundir toda essa aversão ruminada no ar concretado da cidade?

O vômito ainda não é o fim dessa rodada. Essa está comigo há tempos. Doem-me as cartilagens que se ligam ao fêmur esquerdo, não por ficar solto pelo chão por horas, mas por anos todos soltos nos chãos. O mal-estar é desse cansaço, esse só meu. O mal-estar mudou-se para dentro, instalou-se fundo, tem cama arrumada faz tempo. "Amanhã é náusea e incerteza, sempre, e a soma de todos esse amanhãs vai quebrar o teu pescoço. É certo que não choverá no teu funeral.”

Quem sabe meu pai soubesse o que fazer agora, quem sabe estar mais em contato com ele recheasse todos essas coisas que hoje são ocas… Não. Melhor é ficar longe, cada vez e cada vez mais se afogar. Nunca ter nascido, melhor é nunca nascer. Afogar. Se fuder. Se estrepar. Se matar. É melhor...

Mas descobri da pior maneira como o punho se fode ao socar a cara da parede. Ao menos eu fui embora na onda, a vibração percorrendo sua distância produzindo aquele som oco como o de crânio em rota de esmago. A vontade de afundar esses olhos que veem tudo meio gasto..

Mas descobri que a inexatidão da linha reta se dá por causa desse equilibrismo que é ser; ganhar forma enquanto ganhando espaço. Sou um sopro qualquer, uma brisa tola. Mas ao menos estou em plena consciência de que quanto mais perturbo os arredores, mais reverbero, até o suficiente pra derrubar qualquer convicção magra.

Untitled

postado em 11 de jan de 2015 10:48 por aron barco   [ 2 de fev de 2015 15:42 atualizado‎(s)‎ ]

dei as flores e começou a chover no quarto
tive de ficar, pois paguei o florista com as pernas
logo veio o som de trocar 
o fôlego de um pelo d'outro

espalha-te nos meus ombros, concluindo o mundo agora
escute o esquecimento do ausente
deita-te antes do fecho e do escuro, no limite da cama

amarra a confusão de braços ou desmancha-te no embaralho
deixa-me te ver nua e procurar meu tempo que passa em ti
equilibrando-te sobre o calor
assim teu seio abre-se contra mim

não sei quanto consumir um no outro
nem mais sei quietar o impulso
prefiro perder as contas de vista
velar e tornar mistério o que nos une

se nosso teto acalma
conto ao sono teus detalhes meus
que é pra destilar numa dose
o tempo passado desde que entrei pela porta

os homens da História paterna

postado em 17 de out de 2014 16:32 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 05:58 atualizado‎(s)‎ ]

Meu pai nunca foi pai contador de história, com exceção da história dos grandes homens. Ele me contava seus aprendidos desvairados e assim dava-me visões. Eram minhas espiadas na capacidade imagética do cérebro faminto que eu haveria de ter um dia. Ele contava-me de Átila O Huno, terrívelzão queimador de terra, homem das estepes rudes e Urais ásperos. Quintessência da barbárie, ameaçava o punho de ferro da ordem imperial, agricultura e exército, bonus e aquedutos.
        Quinze anos. Vejo uma propaganda para o novo jogo simulacro de general pedestalizado no passado. Era o tal. Deram uma face quadrada para ele, Átila. Espero um substituto para o cancelado trem para Londres  todas as vias levam a Londres  evitando contato ocular com a velinha chocada por eu estar comendo um desses sanduíches de estação de trem na plataforma e principalmente por deixar cair um pedacito de pão no concreto. Barbáries. Agora preciso ir pra Fareham trocar de trem.
        O pai tinha uma admiração pelos homens que desafiaram Roma. Ele anarquizou e melhorou a teoria dos grandes homens sem nunca pisar numa sala de história: os movimentos da história não importam, é o potencial de mover cada indivíduo o que pode ser explicado pelo impacto desses grandes opositores, agitadores, subversivos; sangue-nos-olhos ou não. E assim foi que Hannibal Barca apareceu nos seus arcos narrativos, afiado sapiente com elefantes.
        Pai, eu quero confiar num homem que caminha com elefantes. Mas, pai, eu também quero cuspir na cara daquele que leva elefantes à guerra Tudo bem, mais uma vez confiar e cuspir no antepassado. Barcos da Itália, Barcas de Cartago, disse-me o pai. Mas, ah, nome de família pouco importa, vale nada. Fantástico é espiar o mundo tomado pelo fugidio momento de acreditar na grandeza dos seus genes.
        Quinze anos, pronto para assistir a dança típica das moças do ar packt like sardines in a crushd tin box no avião para Toulouse. O countryside é mais verde e arborizado que la campagne, essa amarela e cultivada. Estava a caminho da Conferência tentar devolver o dinheiro de uns matemáticos que compraram diversas asneiras de alguns filósofos, mas eu perdi meus elefantes no Massif Central. Felizmente, o mundo se resolve sem mim.
        O último grande é Spartacus, feito pelo pai O herói ateu e anarquista, o sujeito a- , o que luta pela sua liberdade, sobrevive contra todas as chances e de tão homem que é abre o buxo envinado de Roma soltando milhares de escravos cantando run for the hills!. A figura messiânica revolucionária, um homem projetando-se maior. O crescimento de Spartacus era inversamente proporcional ao apequenamento de meu pai. Apequenado, mas inspirado.
        A conexão fundamental entre esses homens — hoje eu sei — não era Roma. É a mitologia de fugir para as colinas, largar a morbidez do progresso auto-replicante que mata de tédio, mata sufocando as pernas, mata de invalidez, mata por falta de digestão, mata por ser fácil: do que é fácil de plantar, fácil de produzir, fácil de comer. Dar as costas à rede pesada e complexa de gente, parar de forçar o cuidado com detalhes que jamais importariam; impostos, reais e centavos, fodam-se. Ir existir na mais autêntica forma despido às necessidades ao meio do mundo e mato. Fazer do meio o meio de si.

faces come out of the rain when you're stranger

postado em 29 de set de 2014 12:40 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 05:59 atualizado‎(s)‎ ]

They get crazy on the head at nights. They undress their politeness and expose the rough skin under, thus inheriting from mad-poets-of-the-past the license to hedonistically test the clash of their desires and their constrains. As you noticed already, on some nights desire gets to moon. However, on that particular night, a tie. A miserably wet tie. 
        It rained for days, just after summer peaked. A week straight, to the best of my memory. London was colourless, but the capital kept its dispirited march of englishness, their rainy business, exhaling resentment over the corpse of summer. The chinese foodstand at the entrance of Camden Market was hopeless. Camden Town, a convoluted orgy of everything that Earth has ever pooped. Ever and Everything; the Market its creepy bowels, not far removed from the worldwide family of markets with which I’m sure you are familiar. The thing is that right there nostalgia bloomed in my ear. At the back of a series of church-like arranged chairs, projected on the grey brick walls of old – back there I heard the cry of a semi-amorphous white blob dressed in a sailor costume only a senseless mom would dress her kid with – a free exhibition of Ghostbusters, as a bus passed trampling by. So please let the night burn as follows.

The bus was carrying a group of four nurses in blue uniforms, a sad old man in a yellowish tweed suit, a sharply dressed absent-minded young man (watching the rain running throughout the window, I guess), and a borderline-chavy couple with smartphone in hands. (Please, remember them). From the last two seats, their machine filled that casket with american rap. The other passengers stared at each other (except the young man) already tormented by the faint possibility of confrontation. That went on for a while, until at a stop, the driver turned the engine off, so no voices could fill the air aside from Eminem’s. That went on for a smaller while, until the man shouted from the back ‘Oi!... Hey, ok, I’ll turn the volume down!’ More waiting. Silence. ‘Can we go now?’… ‘This bus isn’t going anywhere until you turn that thing off’, yelled the driver. ‘Ok, ok. It’s off, you see?’. Moment to breathe. ‘Fucking hell’. The driver mumbled something about respect. Then there were sighs. Then: 'You know, I’ve to ask that from fifteen-year-old teens! And look at you, you two must be in your forties!’. They laughed deliciously, cracked up the volume and jumped out below the next rainy cloud.
        They had friends, friends nowhere to be seen. Friends hidden in some room at arbitrary points in the city’s manifold. They hid around a small wooden central table surrounded by rainbow colours, one empty hotel-room-vodka-bottle, two filled ashtrays, three packs of cigarettes (one of them did not smoke), four howling men (some of the best of our generation), five bottlers of LSD, six mood cubes, and seven grams of shrooms. The men have had dropped the LSD and stored the shrooms for sunny days. One of them talked about his girl, rolled a cigarette, smoked it to finally collapse on the floor, taken afloat by a collection of harmonies. Two have fastened their seatbelts and departed. The last one stood and played with the lights, feverishly seeking to construct the most improbable prism ever seen. In such cases the fate of the world hangs on the flip of music. And don’t forget! the human mind is possessed when a familiar song (the ones so used by the ears it seems a fraction of your genes have transmuted into melody) is around. This is how I notice I am getting old. Sound waves turn to smoke, contorting its shapes under the orders of a master deeply submerged in my skull. They are summoned by the faded smooth tunes of melancholia to carry my voice to echo away – to echo, it might as well be, in some dark waters of other’s consciousness, to rise up to surface in a permanently out-of-fashion way.
        By a whim of the twelve notes some children danced in a strobe lighted claustrophobic club, whilst a too-drunk girl sat crossed-legged on the floor next to her two girlfriends striving to roll fags. She was the picture of some anachronistic hippie, her auburn hair and brown dress waving around patterned like a Persian rug. Besides them there was only a bearded man chain-smoking marlboro reds, viciously observing the local fauna. Around that moment she caught the attention of a somewhat chubby scottish dancing with a bootle of czech beer. Scot arrived and there stood, one tall and proud representation of all courage boys must muster to talk to girls. They all behaved entertainingly. A friend of his arrived. There was some elegance in this one’s movements, as if he was bigger than that surface exquisitely made for pukes. There was no telling from where he came from. I’ll call him Stranger; he only had eyes for the auburn hippie, I’ll call her Secret.
        The couple from the bus found its way to that convulsive corner of the universe. They paid respect to the lights and danced joyfully, but not gracefully. Secret watched them and smiled, infatuated with life. I couldn't not notice it, although the I here is always diluted — not entirely dissociated  within the crowd. At least not dissociated enough to miss how her face twitched in different arrangements of smiles disclosed by one colour at a time, composing a motley of one girl in my fragmented brain. (A point of equilibrium, when produced, can suddenly harmonize and soothe the wanting soul). That’s when Stranger took over the sight. Unlike her, little his features changed, for he hid scars deeply and wear them off simultaneously. You shan’t escape from his presence. He found his way next to her with rare subtlety — you got to give him that — and manufactured small sentences that made her rest her head on his right shoulder.
        Occasionally, when faces come out of the rain, constrain beats desire. And like that, Scot offended himself frowning at the cheerful sexuality exposed by the chavy couple. I'm afraid that whenever constrain wins, the voidless generation screams order. As so, soon an uninteresting fight broke off. Secret’s two girl-friends would tell that story to each other and other acquaintances for months to come, for reasons I never truly grasped. The bearded observer left without anyone noticing, as a drop of rain extinguished his last cigarette. I, for one, was all over Camden Town’s decay, while the convergence of drunks was over and the faces dissipated into fog. Only two children remained in the club: they had a table and alcohol for longer conversations after all. Many-coloured ashes gently embraced that entire table surface until disturbed by a nose mistakenly snorting them as cocaine. Justified by exhaustion, the nose sneezed and the mouth complained loudly.
        Maybe I should state here that Scot writes anecdotes (perhaps that’s the reason why his anxiety-filled temper is short). During the day he folds into himself, taken by an austerity that absorption moulds to the shape of an impenetrable sphere and coffee fuels for the travel into the land of unusual brain frequencies. Then he starts ruminating ideas as if he was checking the intricate machinery of thought from within, looking for alleyways in a structure not unlike the set of stairs in Echer’s Relativity. (I wouldn’t advice obsessing with recursive sequence of stages each one formed by every possible arrangement of its predecessor. But do read some Borges).
        Taking notice his esquire was lost (an acquired opportunity), Stranger held Secret then escorted her to a dry spot outside the Market.

Of everything men can resign and consign within women, some kind of higher ground remain in them that only the darkness of men can claim. Not the boldness of men; their darkness retain all secret. Men bury in women’s body ‘what solitude and the night made them fear’. Until a delirium takes over. You wouldn’t see this under daylight, when they ‘camouflaged themselves as rational beings’. And as the Camus in my head stops echoing, the paragraphs become shorter as the night. Stranger left next morning with the rain.

to make a point

postado em 29 de set de 2014 11:25 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 06:00 atualizado‎(s)‎ ]

Make sense is taking the world as the interlocutor's shared canvas.

What makes sense, paints (in accordance or not with the direction pointed by expectation, inertia or canon).

Irrationality, with its banner-man (√2, ℇ and π) morphs and melts away with as does the blob of infinity, the blob of all, of always, and ever, and everything. 
The blob of generality.
(Or, the dark vast horizon of what the eyes cannot discern and then inspect).

a incompletude de Godel

postado em 24 de set de 2014 12:48 por aron barco   [ 3 de jan de 2015 11:14 atualizado‎(s)‎ ]

Imagine the follow queer possibility: we have always gone wrong up to now in multiplying 12 × 12. True, it is unintelligible how this can have happened, but it has happened. So everything worked out in this way is wrong! – But what does it matter? It does not matter at all! – And in that case there must be something wrong in our idea of the truth and falsity of arithmetical propositions.
Ludwig Wittgenstein, Remarks on the Foundations of Mathematics, I—135.

‘Não me leve a mal, querida. Eu gosto de ver o armário em ordem. É só’, dizia Godel à sua esposa em tréplica. Ela perguntou ‘qual é o problema?’, afinal. Mas a sutileza dos tons enervados e timbres descontentes escapam estas palavras aqui empregadas para – sem qualquer chance de sucesso – comunicar esse próprio escape. Chame isso de intenção do autor, chame de tanto faz; o importante aconteceu só depois, três horas adiante, quando uma contradição oculta bateu na porta.
        Bateu no padrão | ... | | . | . | ... | .. | enquanto Godel rascunhava, fechado em seu escritório, na tentativa de encontrar expressão para o dia anterior. No dia anterior Godel fechou a persiana, deitou-se no seu divã, deitou-se dentro, no centro do mesmo escritório. Deitou-se por que esperava. Esperava transcender a sala na direção do escuro indizível; pretendia rasgar o céu, ultrapassar o fim, voltar de lá puxando uma incompreensível novidade como se puxasse O Bebê que traria as novas, que entre nós tornar-se-ia homem e que nos fecundaria com impensadas ideias. Godel jamais descreveria seu trabalho assim: uma espécie de parteiro e genitor de ineditudes infantes. Não, por que ele é o estereotipo do matemático. Regularmente veste a calça denim bege, a camisa amarelo-lavado debaixo do suéter azul marinho, aqueles sapatos velhos mas inteiros, penteia o cabelo todo pra direita e barbeia-se sistematicamente. Nunca foi íntimo, muito menos intenso, mas faz todo necessário para manter satisfeitas as vontades: vinho, castanha-de-caju, Wagner; adicione a esposa (o que comprime sexo, atenção e o mínimo afeto) e eis a receita do que Godel precisa pra deixar seu corpo pra trás.
        ‘Eu te conheço por acaso?’ dizia quase incerto de sua insegurança. 
        Ela entrou sem cerimônia, ele prontamente aumentou o arco de abertura da porta. Ele puxou-lhe uma cadeira. Ele enfrentou aquele rosto antigo, o mesmo rosto que lhe tomou todo o ar quando por fim compreendeu o que viera lhe contar.
         'Hmm' Havia uma inconsistência na aritmética, silenciosamente trabalhando para bloquear as artérias dos axiomas que Dedekind e Peano talharam nos ombros de gigantes. (grupos de simetria abominavelmente inconsistentes!). Por razão de dualidade de categorias, uma doída conclusão esperava: uma contradição. Godel tocou-se que deveria sentir terror. Logo sentiria. Logo. Ele reforçava o coro, sussurrando para si mesmo que o universo precisa ser completo e consistente (nós é que, presos em patéticas perspectivas, só alcançamos o Tudo por partes. Míseras partes). Mas nós possuímos visão e rigor, e com elas nós descobrimos como extrapolar a finitude para retornar os pedaços cortados pelo olhar analítico ao sublime contínuo. É o conhecimento alcançado no cume da mais alta montanha de pensamento, onde os homens capturaram a estrutura primordial: com a exaustão de todas as combinações possíveis 2S de um contexto ilimitado 2{nN : n + 1} explodiriam as barreiras do conceptível, a estrutura recursiva V de estágios de conjuntos que do Nada abre-se à inefável infinidade de infinitos.
        Contudo cá estava aquela face tomando conta como a ansiedade toma conta na medida do anoitecer. O mito nunca cessou de ser sussurrado entre círculos de especialistas, mas até hoje era tão remoto quanto um mito grego. Ele ouviu e digeriu e esperou sentado o terror que não veio e... nada. Seus óculos não partiram ao meio, seu teto não caiu, as paredes não desmoronaram, a lâmpada nem sequer piscou. Só um vento familiar lhe roubou o calor. Godel deixou as palavras vagarem e suspendeu-se, pairando na luz que alagava a sala-de-estar.
         Suas descobertas em viagens insones na terra sem chão tornaram-se invenções. Seu orgulho de descobridor esvaiu pelos poros Eram invenções, apenas invenções suas. Outra imagem veio então: eram criações de um homem de meia-idade, sim, mas esse homem estava na crista de um acontecimento que não era responsabilidade sua; era o ápice de um arco feito de muitos outros homens, um arco cujo aparecimento era ora impossível de conter, ora impossível de notar.
        Da sobreposição de imagens Godel ganhou uma enxaqueca. O vento que lhe acertava estagnou, mas nenhum calor lhe foi devolvido. Notou que a visita agradeceu o chá e levantou-se para ir embora quando o aspecto de invenção cessou de fazer sentido, quando Godel entendeu a inconsistência estava mais que exposta – todos os olhos podiam ver e não fazia diferença alguma.
       
'Podemos ver na regra quais circunstâncias excluem erros na aplicação da regra, mas a aplicação seguiu como seguiu de Euclides até ontem à tarde e nenhuma ponte caiu. O erro lógico estava aí, só que esse erro não importa e um erro que não importa não é um erro!' Não faz diferença, não importa. Não faz diferença. A única consequência nesse universo inteiro foram cabelos arrepiados na cabeça de Godel.
         Ele tinha a escolha toda para ele. De um lado, pôr no estandarte a cabeça daquela Senhora, encher os pulmões e anunciar em comoção o último paradoxo, convidando o mundo para provar a mais nova onda elétrica embriagante que incendeia as sinapses e condena a boca à expelir contra-sensos. Do outro lado, abrir a porta e deixa-la ir. Deixa pra lá. Por que somos nós que fazemos (ou fazíamos) valer a regra – a necessidade é também uma regra – e agora q
ue o guincho perturbador de uma ordem dúbia foi ouvido, esse homem nenhum faria a escolha por todos nós entre seguir em frente pela direita ou pela esquerda.
        ‘Quem era?’ perguntou Adele.
        ‘Alguém que caminhou longas distancias.’ Godel sentou-se na poltrona na sala perto da janela e lá restou.
        O jantar esfriou, o filme acabou, a lua arqueou. Adele ficou preocupada de vê-lo quase estático na mesmíssima poltrona num véu de sono e pensamento. Seus olhos refletiam um vórtice regurgitando pensamento da origem até a morte do universo em gelo. A extensão de sua morte tornou-se palpável e, contudo, indelével; mesmo para ela, acostumada ao papel de copiloto. Quando ela o encontrou 15 anos atrás ele era como um cachorro abandando o rabo para o primeiro sinal de afago. Fiel aos confiados donos e amigos, visivelmente tomado por uma tristezinha fugaz quando acossado, enfeitiçado na empolgação de perseguir o que se move. Ela tentou descrever em linguagem precisa como ele foi abraçado por algum truque labiríntico Borgiano quando testava as barreiras da imaginação humana e lá vaga desde então, para além de prazer ou desprazer. Aquele texto morreu de fome. Noutro momento, numa noite fria de tempestade, Adele pintou um quadro para libertar o marido: do escuro partia um trovão iluminando os poços da imaginação, mas sem revelar nada – era tanta luz que não se podia ver. 

No pôr do sol ele veio à varanda da casa, escorou-se na parede e pôs-se a admirar um raio dourado atingir a armadilha de vidro verde para vaga-lumes, projetando sobre o chão de ipê uma sobreposição de hexágonos e triângulos. Adele notou.
        ‘Eu gosto. É bonito.’ Frente a fortaleza de silêncio do marido, ela decidiu lançar isca ‘mas pouco importa, beleza está nos olhos de quem vê’.
        ‘Querida, a beleza... a beleza é uma experiência. Eu aprendi. Não é nem precisamente aqui, nos olhos que veem, nem lá. Lá na coisa. Tão pouco nos dois. A beleza precede esse constructo. A experiência vem primeiro, é o primeiro a ganhar nome. Por isso tudo começa no verbo, como quis Deus. Há prazer nela, aparentemente, por isso a cultivamos como tal. Claro, a História é um jogador importante pois constitui o cânone, dá o exemplo – escutamos os gênios maestros e vemos que eles sabem onde ir, como ir, permitimo-los nos ensinar – Rilke disse melhor: “é uma grande riqueza; não tua, de um mundo”. Vemos uma multiplicidade de aspectos não presentes numa figura que sozinha jamais poderia conter tudo isso e – voilà – é arte. Nela eu posso jogar, há espaço. Posso dizer que se assemelha a isso ou aquilo, e ela escava cantos abandonados da memória, faz-me sentir ciente de conexões, me deixa ver como nunca havia visto antes. Ou faz um velho amigo mais nítido, mais presente, como nunca antes. Meu amigo melancólico. E assim por diante, assim por diante. Tudo se passa como se o amor pela beleza estivesse de mãos dadas com o amor pelo saber. A fascinação com a expansão operada no teu cérebro por ninguém em particular se não um cutucar da imensurável malha que tecemos e dividimos com todos os homens.’ A central serenidade na voz de Godel engolfou o mundo num toque de azul, como se o oceano tivesse subido morro acima e flutuássemos juntos em paz. Adele respirou frente a ameaça da morte vestida de paz e disse para nunca mais ter de dizer:
        ‘Arrume Platão, querido. Retifique-o.’

dos últimos minutos na brasilândia

postado em 16 de ago de 2014 04:56 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 06:02 atualizado‎(s)‎ ]

Dentre todos os acentos vagos, escolhi meu usual mais ao canto e à janela. Eu noto a luz dura e excessiva. Eu noto as pessoas cheias de vozes e negócios e tristezas. Eu mergulho com olhos para o-que-vem-e-vai sem propósito.
Pelos anos que passam me especializei um certo autismo de ver matéria — são apenas pontos — aglomerada em multiplicidade alternante, a desenrolar e estender sem enredo.
Eu mergulho e você me traz à tona porque tem uma esposa que fala. A esposa fala alto. Vocês discutem os casuais com sotaque português. A bolsa dela cai, carteira no chão e eles não notam. Eu ajudo. 
Eu quixotesco. Escolho as lutas erradas e me embebedo em lirismo. Derramo e rolo sobre as minhas dores fantasmas.
Quero fumar um cigarro para sair de perto de você e de sua esposa e de mim que percebe. Mas o avião está para chegar.
Deixo-me para trás. Algumas horas atrás nos abraçávamos e dizíamos até mais.
Dentre todos os acentos vagos, escolhi meu usual mais ao canto e longínquo. Eu vou. Era hora de lamentar. O teto era sólido, mas chovia em mim.

Untitled

postado em 16 de ago de 2014 03:50 por aron barco   [ 26 de jan de 2015 10:04 atualizado‎(s)‎ ]

They all hate what they write. Writers and wannabes alike. What discriminates the writer is sending it away before the hatred infects the meat-engine in the skull.

on meaningfulness

postado em 8 de ago de 2014 13:38 por aron barco   [ 23 de jan de 2015 06:02 atualizado‎(s)‎ ]

He drew invisible maps. No geography or streets, no mountains either. He mapped spaces. He pictured all you say as the attempt to map some region of wilderness. As a cone of light selecting certain parts of a dark borderless space. The most general remark would shed the most dim light on a long extension. The most specific assertion would be a sharp beam calling all eyes on the point.
He pictured all you can conceive as indefinite whole embedding the light, and passing the greyness, and embracing the dark. Truth as a choice where to stick the pin against a background of false or non-actual. Go, defend each pin, stand their ground against hordes of spectres of what could have been and what could have been gone by now.
He tried to show such spaces, but spaces are lofty and ghostly. Spaces allow too much.  They spread and etherealize. His fingers were too frail to hold them off and bind them together in a presentable fashion. In words. Or other words.
Light and word were the only way to show — if they could only see! — yet they were the best way to cancel, to eliminate, to say just 1 instead of 999 others, to close. Alas, to choose is to close the possibility. To say, as did Beckett, is to stain, for 'every word is like an unnecessary stain on silence and nothingness.'
Throughout, the map is, stain by stain, the only picture.

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