A Ciencia Desconhecida


Algures, muito longe da investigação científica "mainstream", tem-se assistido ao crescente interesse de alguns investigadores por assuntos que são actualmente considerados tabu e estão directa ou indirectamente ligados ao fenómeno do sonho. Assim, esta secção incluirá textos relativos a: Experiências fora-do-corpo(OBE's) e projecção da consciência; sonhos lúcidos; percepção extra-sensorial (ESP); etc...

Entre a miríade de ocorrências oníricas podemos encontrar um tipo específico de sonho que, devido às suas implicações científicas, antropológicas e filosóficas, merecem um destaque e uma atenção muito especial:

                                                      O Sonho Lúcido

 

As referências mais antigas acerca desta classe de sonhos remontam há vários séculos atrás e provêm sobretudo da cultura oriental, nomeadamente dos monges budistas do antigo Tibete. Contudo, devido ao “hiato” cultural que perdurou durante séculos entre as civilizações do oriente e ocidente, este fenómeno onírico nunca assumiu grande relevo na nossa sociedade.

Foi apenas no início do século XIX, com a aurora da Psicologia e o interesse renascido pelos fenómenos psíquicos, que este tipo de sonho começou a ser mencionado na literatura. Frederick Van Eeden, psiquiatra holandês, é o “pai” do termo Sonho Lúcido, designação essa que usou para descrever os sonhos que ele próprio tinha e nos quais estava totalmente consciente e com a noção de que estava a sonhar no decurso do próprio sonho.

 

Assim, embora a sua história possa ser traçada através de várias fontes ao longo de muitos anos, os sonhos lúcidos apenas recentemente foram reconhecidos de forma oficial pela nossa comunidade científica. Devido sobretudo ao escrutínio de estudos laboratoriais levados a cabo por diversos pesquisadores do sonho, a lucidez tem sido observada e avaliada sob uma nova luz.

Inacreditavelmente, anteriormente ao estudo que provou definitivamente a existência dos sonhos lúcidos (desenvolvida por Stephen LaBerge na Universidade de Stanford, EUA) havia muitos cientistas que se recusavam a aceitar a possibilidade de estar plenamente consciente no decurso de um sonho (Mark Van de Keere, 1999).

 

Uma das definições de Sonho Lúcido que reúne maior consenso entre os investigadores é a de Malamud. Segundo esta autora, um sonho lúcido é definido como “Conhecimento, durante o sonho, de que se está a sonhar, considerando que existem grandes variações na extensão em que os sonhadores lúcidos estão conscientes das implicações específicas de que estão a sonhar”,

Ainda segundo a mesma autora, podemos distinguir, nestes graus de lucidez, diferentes níveis consoante o grau de consciência que o sonhador tem de três dimensões ou variáveis, postuladas por LeShan:

Ø      Fonte Criativa. Ou seja, nós somos os principais criadores dos nossos mundos e experiências de sonho.

Ø      Ligação entre o Self e o ambiente. O ambiente do sonho tem um aspecto de auto-espelhamento do sujeito, o qual projecta ou expressa nas imagens do sonho as suas percepções únicas da realidade.

Ø      Realidades Alternativas. Isto é, as nossas experiências durante o sonho são subjectivas, oferecendo possibilidades e tendo implicações diferentes dos da vida vigil. Podemos escolher formas alternativas de estruturar os nossos sonhos e as experiências por que passamos neles.

A partir destas três dimensões, Malamud identifica 5 níveis de lucidez durante o sonho (Malamud cit in Gonçalves, 2003):

1.      Totalmente não lúcido

2.      Contextualmente não lúcido

3.      Pré-Lúcido

4.      Intelectualmente lúcido

5.      Experiencialmente lúcido

 

É a partir do 3.º nível (pré-lúcido), onde surge a questão “Isto é um sonho? / Estarei a sonhar?” que se torna possível obter plena consciência durante o sonho. Sendo que no 4.º nível o indivíduo “responde” afirmativamente à questão colocada no nível antecedente mas não tem a noção das implicações do facto de estar a sonhar, ou seja, o sonho continua a decorrer sem a sua acção deliberada; permanece “arrastado” pelo enredo do sonho e acaba eventualmente por voltar a perder a lucidez intelectual.

 

Penso que é seguro afirmar que grande parte da população atinge esporadicamente o 3.º nível da escala e uma percentagem menor mas ainda considerável atingirá o 4.º estádio. Contudo, o panorama muda de figura quando nos referimos ao 5.º e derradeiro nível de lucidez – o experiencialmente lúcido. Embora não existam formalmente estatísticas sobre este assunto, os relatos de pessoas que atingiram este grau de lucidez no sonho são muito diminutos. Neste patamar o indivíduo encontra-se totalmente consciente e com a noção das implicações de estar a sonhar, isto é, ele poderá, se assim o entender, mudar o curso dos acontecimentos no sonho, exercendo a sua acção consciente sobre o mesmo; pode saltar do cimo de um prédio pois sabe que na sua mente a gravidade não existe e tudo é possível; pode visitar os locais mais remotos e observar as paisagens mais fantásticas; pode até jantar com seu actor de cinema preferido. As possibilidades são infindáveis e o limite é, literalmente, a imaginação do sonhador. Posso dizer-vos que é uma experiência incomparável.

 

Um dos factos interessantes neste estado é que ele constitui um estranhíssimo paradoxo. Os sonhadores lúcidos, estando desligados de qualquer contacto sensorial, e portanto totalmente adormecidos para o mundo exterior, encontram-se simultânea e plenamente conscientes dos seus sonhos e em posse das mesmas faculdades mentais que possuem quando estão acordados (LaBerge, 1987). O insight que se tem numa situação dessas é equiparável àquele que terias neste momento se por um motivo qualquer te apercebesses que afinal estás a sonhar e, o teu mundo não seria afinal aquilo que tomas por realidade, mas sim uma criação da tua própria mente; não serias apenas o teu Self, mas sim tudo o que te rodeia neste momento, incluindo a cadeira onde estás sentado e o monitor para onde estás a olhar!

 

Assim, chegamos a um ponto em que várias questões se colocam. Tudo bem que os Sonhos Lúcidos existem mas que interesse é que eles têm para mim, como me poderão ser úteis? Além disso, será que é possível sequer vir a ter essa espécie de sonhos e/ou que poderei fazer para conquistar essa capacidade?

Estas são questões que, entre outras, pretendo abordar no próximo texto a postar em breve.

 

Uma vez mais agradeço a tua visita e comentários sejam em que sentido for, especialmente no post de sonhos que poderás fazer no tópico “A Arca”.

 

 

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 "Um sonho não compreendido é como uma carta não aberta"

(O Talmude)

 

 

 

                                      Sonhos e Fenómenos Psi

O tema que abordarei hoje, e como o próprio título indica, diz respeito à ocorrência de fenómenos Psi durante o sonho. De facto, num estudo realizado por Rhine (1962), onde este autor compilou mais de 7.000 relatos deste tipo de fenómenos, quase dois terços dos mesmos tinham lugar durante o sonho. Parece assim existir uma correlação entre este estado de consciência e a manifestação de experiências Psi.

 

O que são afinal fenómenos Psi, ou simplesmente Psi? Podemos dizer que é, de um modo geral, um sinónimo para designar ocorrências paranormais. Contudo, devido à actual banalização do termo "paranormal" bem como à sua conotação negativa no meio científico e na sociedade em geral (devido sobretudo a graves lacunas de informação, à forma como os media tratam o tema e ainda aos charlatães), os investigadores da área da Parapsicologia preferem usar o termo "Psi" ou "fenómenos Psi".

Desta forma, segundo Krippner, podemos definir fenómenos Psi como sendo intercâmbios anómalos (enigmáticos ou inexplicáveis) de informação ou influências que parecem existir à parte dos actuais mecanismos físicos identificados e conhecidos.

 

Os fenómenos Psi estudados pela parapsicologia dividem-se em três grandes grupos: Psi-Gama, Psi-Kappa e Psi-Teta. Entre os Psi-Gama incluem-se os fenómenos de Telepatia, Clarividência e Pré-Cognição; entre os Psi-Kappa, os fenómenos de Psicocinese- micro e macro- por exemplo RSPK (Recurrent Spontaneous Psychokynesis), Poltergeist e DMILS (Distant Mental Influence in Living Systems); e os Psi-Teta, tais como Experiências Fora-do-Corpo (OBE- Out-of-Body Experiences), Experiências de Quase Morte (NDE- Near Death Experiences) e, recentemente, fenomenologia ligada à teoria dos renascimentos sucessivos (Simões, 2003).

 

Provavelmente, de todos os fenómenos acima mencionados, aquele que mantém uma relação mais estreita com o sonho é a Experiência Fora-do-Corpo. Contudo, haveria tanto a dizer neste tema específico que optei por mencionar apenas aqui esta relação e deixá-la para um olhar mais atento numa outra oportunidade. Por um motivo diferente não abordarei também os Psi-Kappa, neste caso por não ter ainda conhecimento sobre dados experimentais e teóricos acerca da ocorrência destes dentro do sonho. Assim, de aqui em diante quando mencionar Psi ou fenómenos Psi, estarei naturalmente a referir-me aos Psi-Gama- Telepatia, Clarividência e Pré-Cognição.

 

A telepatia é, de todos os acontecimentos mencionados, aquele que tem maior visibilidade mediática e social e define-se como a troca de informação entre dois sujeitos numa relação do tipo "mente-para-mente". A Clarividência, por seu turno pode ser definida como a capacidade de visualizar à distância, objectos, seres, situações, mapas ou instalações sem recurso a qualquer meio físico. Este aspecto mereceu o interesse de agências de espionagem, nomeadamente da CIA e ex-KGB, tendo estas agências realizado experiências interessantes neste campo (Simões, 2003). Em terceiro, a Pré-Cognição consiste na obtenção de informação acerca de um evento futuro, evidentemente antes deste suceder.

 

Infelizmente, os sonhos com ocorrência de Psi são ignorados pela maioria dos autores de livros e artigos sobre o sonho. Os relatos destas experiências oníricas não são bem-vindas nos meios académicos e círculos científicos mais respeitáveis no Ocidente. Contudo, a quantidade de relatos dos mesmos não dá sinais de diminuir (Krippner, 2001).

 

Nos círculos académicos ocidentais, existe a noção de que "Saber é Poder". Contudo, Michel Foucault (1980) chamou a atenção para o facto de que o Poder (político, económico, ideológico ou religioso), por seu lado, também determina o que é considerado Saber (e portanto, "realidade") num determinado tempo e lugar. O conhecimento acumulado pelos parapsicólogos acerca de sonhos enigmáticos e outras experiências anómalas carece de uma grande base de Poder que o suporte; como resultado disto falha em se tornar "legítimo" e assim desempenhar um papel de relevo no discurso científico comum.

 

Collins e Pinch (1982), descreveram a forma como a ciência é construída socialmente prestando especial atenção a áreas como a parapsicologia, que sentem o impacto da ausência de uma adequada base de Poder para o necessário reconhecimento científico.

David Hess (1992)) elaborou uma tipologia dos mecanismos usados para "disciplinar cientistas heterodoxos" e usou-a para avaliar a utilidade da base teórica de Foucault. O trabalho de Hess fornece-nos evidências suficientes que os círculos académicos ocidentais são inóspitos e até mesmo hostis relativamente ao estudo de experiências humanas anómalas, entre as quais se incluem os sonhos enigmáticos.

 

É curioso como a História tende a repetir-se ao longo dos tempos! Basta recordar Copérnico, Galileu, Darwin ou mesmo Freud para compreender a pressão sentida pelos teóricos que "remam" contra a corrente científica vigente no seu tempo. Todos sabemos como é difícil aceitar algo que abala por completo aquilo em que se acreditou durante séculos e que questiona imperativamente o paradigma científico actual. De facto, é mais fácil fechar os olhos a todas as provas obtidas a partir de situações experimentais rigorosamente controladas...

 

Feito este pequeno desvio (contudo necessário) relativamente à questão central coloca-se então uma importante questão: porque ocorrem os fenómenos Psi mais frequentemente nos sonhos do que durante a vigília? A resposta poderá residir nos aspectos idiossincráticos que caracterizam este estado de consciência, nomeadamente no que diz respeito à diminuição drástica de input sensorial.

Na verdade, diversos estudos realizados sobre esta matéria (eg. Honorton et al, 1990; Schechter, 1984; Ullman et al, 1989) chegaram à mesma conclusão de que os fenómenos Psi tendem a ocorrer não só nos sonhos mas também noutros estados de consciência caracterizados por uma redução do impacto da estimulação sensorial, nomeadamente em estados meditativos e hipnóticos. Aliás, estes resultados deram origem a um dos procedimentos actualmente mais usados na investigação parapsicológica e que melhores resultados tem produzido: O procedimento Ganzfeld (palavra alemã que significa "campo total"). Também este procedimento assenta numa técnica de privação sensorial moderada de forma a facilitar a ocorrência de Psi.

 

Assim, tendo como suporte prático inúmeros estudos, entre os quais aqueles que foram acima mencionados, diversos investigadores (eg. Bem, Krippner, Tart) propuseram a hipótese teórica que a informação Psi poderá funcionar como um sinal fraco que normalmente é mascarado pelo "ruído" sensorial que caracteriza a vigília e assim, o sonho será um estado de consciência mais propício à ocorrência de Psi devido à ausência deste "ruído".

 

Para exemplificar melhor esta hipótese LaBerge (2003) compara a estimulação sensorial a que estamos sujeitos durante o período vigil, ao Sol. Durante o dia, a luz do Sol é tão intensa que ofusca por completo o brilho imensamente mais ténue das outras estrelas. Contudo, à noite, depois do Sol se pôr, podemos observar o cintilar de milhares de estrelas no firmamento. Durante o dia, as estrelas que vemos à noite continuam lá, no entanto devido à forte influência do Sol, o seu estímulo visual não chega até nós. Da mesma forma, durante a vigília, a influência dos estímulos captados pelos nossos cinco sentidos é tão grande que "ofusca" completamente o sinal Psi, muito mais fraco. Contudo, durante o período REM (Rapid Eye Movement, fase do sono em que sonhamos) o input sensorial perde uma enorme parte da sua influência e assim, o ténue "brilho" da informação Psi pode chegar até à nossa consciência.

 

Assim torna-se possível: obter informação acerca de um evento futuro durante o sonho -Pré-Cognição Onírica (ou sonho premonitório como é conhecido no senso-comum); sonhar com algo importante que alguém nos pretendia dizer- Telepatia; ou visitar um lugar em que nunca estivemos antes mas sabemos já ter sonhado com ele (sensação que muitas vezes é descrita como déjà-vu e é provavelmente fruto da ocorrência de Clarividência durante o sonho).

 

É importante aqui referir que, se por um lado os estudos no campo da parapsicologia já comprovaram a existência de Psi nomeadamente nos sonhos, o mesmo não se pode dizer em relação aos mecanismos que levam à ocorrência destes fenómenos. Neste ponto, pouco ou nada se sabe e existe acima de tudo bastante especulação.

Desta forma, o nível psicológico de teorização, no qual se relacionam Psi e diversas variáveis psicológicas (tais como introversão/extroversão, motivação, criatividade), leva actualmente um bom "avanço" relativamente à teorização sobre os aspectos que em primeiro lugar tornam os fenómenos "anómalos": a sua presumível incompatibilidade com o nosso actual modelo conceptual de realidade física (Bem, 1996).

 

Os parapsicólogos divergem muito no que respeita às teorizações a este nível mas muitos deles, cuja formação assenta na Física ou Engenharia, propuseram teorias físicas ou biofísicas dos fenómenos Psi e apenas algumas destas teorias levariam a uma revisão radical da nossa actual concepção de realidade física.

Contudo, aqueles que acompanham os debates contemporâneos da física moderna, estarão cientes que diversos fenómenos previstos na teoria quântica, e experimentalmente comprovados, são eles próprios incompatíveis com o actual modelo de realidade física. Entre estes, foi a confirmação empírica do teorema de Bell em 1982 que criou maior excitação e controvérsia entre os poucos filósofos e físicos dispostos a especular nestas matérias (Herbert, 1987). De forma resumida, o teorema de Bell diz que qualquer modelo compatível com a mecânica quântica tem necessariamente de ser não-local, ou seja, tem de permitir a possibilidade dos resultados de observações em dois locais arbitrariamente distantes estarem correlacionados de uma forma que é incompatível com qualquer mecanismo físico causal.

 

O facto é que, quer queiramos quer não, a ocorrência de fenómenos Psi no sonho poderá ter influenciado de forma determinante o curso da Humanidade. A título de exemplo menciono a descrição bíblica da fuga dos pais de Jesus para o Egipto, fuga esta que evitou a morte do mesmo no infanticídio ordenado pelo Rei Herodes. Este acontecimento particular teve lugar devido a um sonho "anómalo" e as suas consequências tiveram um grande impacto na História da Humanidade. O mesmo se poderá dizer de outras profecias e revelações ocorridas em sonhos.

 

Em jeito de conclusão, podemos dizer que, segundo a informação actualmente disponível, os dados apoiam a existência de Psi nos sonhos, teorizando-se hoje em dia sobre o modo como surgem e qual o seu sentido no mundo moderno.

As relações de Poder-Saber e o estatuto "precário" da Parapsicologia relativamente a outras disciplinas científicas, têm por um lado constituído grandes obstáculos à realização de investigação mais aprofundada neste campo e por outro, à subvalorização (e em casos extremos o "boicote") dos dados já obtidos sob condições experimentais rigorosamente controladas. Sendo a replicabilidade dos fenómenos Psi difícil de ser alcançada, e os sonhos experiências necessariamente pessoais e subjectivas, encontramos uma dificuldade acrescida no estudo deste objecto.

Por último, desenvolvimentos recentes na Física poderão catalisar o reconhecimento "oficial" da Parapsicologia por parte da comunidade científica, contribuindo para o afastamento definitivo desta disciplina relativamente ao obscurantismo científico e permitindo uma expansão do paradigma actual.

 

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