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Campos e Reis, discípulos ao espelho do mestre Caeiro

Quem era Alberto Caeiro

Parece-me bem começar a explicar quem foi Caeiro citando Agostinho da Silva, no seu Um Fernando Pessoa, quando o pensador nos diz que “para Caeiro, o ideal é que não se junte coisa alguma daquelas que o mundo, naturalmente, nos apresenta separadas”. Serve esta pequena citação para apresentar uma “personagem” criada por Pessoa para exprimir o que Pessoa tinha em si de contemplativo, de mero observador da Natureza. É uma verdade que Caeiro, que Pessoa apelida de “O Mestre”, surge, na linha temporal dos heterónimos, não como o primeiro, como se esperaria de um “Mestre”, mas sim em último (Pessoa data os seus primeiros poemas de Caeiro com datas de 1925, embora ele surja na sua mente em 1914) contraposição ao próprio Pessoa, como que funcionando como filtro da sua escrita e das suas emoções. Caeiro, em rigor, define a estrutura funcional da obra, partindo dele Reis – em oposição – e Campo – em subordinação. Serve por isso Caeiro um propósito estrito para Fernando Pessoa – o de limpar a sua mente da confusão do que seria ter de desenvolver linearmente uma linha, um estilo de pensamento, que incluía, às vezes contra a sua vontade, pontos de vista tão diversos e, em certa medida, inconciliáveis.  

O poeta múltiplo, mais do que apenas levado por uma necessidade de negar a sua própria personalidade, via-se confrontado com uma necessidade de desvendar tudo aquilo que sentia, e nenhuma melhor forma existia que dar vida a cada uma dessas linhas de pensamento, a cada hipótese dar vida e respiração, para que na “discussão em família”, eventualmente se chegasse mais perto da Verdade Inicial. Note-se que esta operação é trinitária – Caeiro, Reis, Campos – e por isso mesmo simbólica, alquímica, oculta. Curiosamente e como indica outro critico, Eduardo Lourenço, no seu Pessoa Revisitado, Caeiro é porventura o mais intelectualista das personagens poéticas de Pessoa, um quase filósofo da ontologia tão em voga hoje na nossa modernidade, e que acabou por desaguar na filosofia da linguagem de Wittgenstein. A análise exaustiva de Caeiro, sob a aparência da simplicidade, leva-o a uma “patética aventura”, nas palavras de Lourenço, consubstancia uma crença num mundo de irrealidade, negação ou afastamento não poderemos saber exactamente.  

Caeiro na verdade, segundo Pessoa, surge no seguimento de uma brincadeira com o amigo de Pessoa e também poeta Mário de Sá-Carneiro. Pessoa ter-se-á encostado à sua cómoda (segundo nos dizem, costumava escrever assim) e num jacto terá escrito a obra maior de Caeiro, o Guardador de Rebanhos, num dia em 1914, para depois surpreender com esta aventura o seu colega e amigo. Parece esta explicação de índole mais simples. Claro que cabe aos críticos por vezes achar os porquês que o próprio poeta ignora, ou que em verdade operam inconscientemente. Curiosamente a Caeiro é dada uma vida com os mesmos anos de Sá-Carneiro, 26, e morre tuberculoso o “Mestre” como o pai de Pessoa, depois de ter 5 curtos anos de actividade poética fictícia, 5 tendo sido também os anos de felicidade do “Menino de Sua Mãe”.

 

Bibliografia sobre Caeiro 



Fernando Pessoa, Cartas (…), Europa-América, página 228;


Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa, Guimarães Editores, páginas 51-63;

 
Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Verbo, páginas. 23-33;


 Eduardo Lourenço, Fernando Pessoa Revisitado, Gradiva, 37-51;  


Jorge de Sena, «O «Meu Mestre Caeiro» de Fernando Pessoa e outros mais», in Actas do 1.º Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, Brasília Editora, páginas. 343-367. 

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