Sobre o capitalismo

Eduardo d´Orey 

É legítimo que depois de 300 anos de capitalismo, que promove o valor do lucro sobre todos os outros, e de positivismo, que promove o valor da razão sobre todos os outros, nos perguntemos se estamos satisfeitos com o nosso modo de vida, pelo menos nós os que vivemos nas áreas privilegiadas do mundo , o Norte Ocidental.

Afinal, se foi este Norte que exportou o capitalismo para o resto do mundo, é ele que tem mais dúvidas sobre o acerto deste modo de vida, e nele que se exploram as primeiras vias alternativas ao modo de desenvolvimento capitalista.

Uma evidência é nova na consideração sobre o capitalismo – é que o crescimento contínuo é impossível e desastroso. Impossível porque nada cresce indefinidamente sem suporte, e desastroso porque para crescer aqui, tem de apoucar alhures.

O positivismo fez matar Deus, mas temos a necessidade de praticar cultos arcaicos e primitivos, fazer adivinhação, viagens astrais, etc. Somos orgulhosos de não ser crentes, de não cumprir preceitos religiosos – achamos que somos livres, apenas para comprar a revistinha esotérica mais próxima, numa afirmação de insuficiência egocêntrica.

O capitalismo trouxe o avanço da técnica e da ciência – e o resultado foi utilizarem-se as teorias psicológicas e sociológicas para fazer controlo social de massas e manipulação de públicos, e ainda se usam as contribuições destas nobres ciências para incitar ao consumo. A química, por exemplo, serve agora para produzir lucros para as multinacionais farmacêuticas.

Assim, somos chegados a um momento de viragem, em que as consciências começam a perceber que o modelo é insuportável, tanto para o mundo como para as pessoas, os mesmos que, durante tantos anos pensaram que o mundo era deles para sempre.

A nível global encontramos o dito terceiro mundo a ser explorado pelo primeiro, o verdadeiro responsável pelas fomes e doenças, o mesmo que depois inicia hipócritas campanhas de solidariedade. Encontramos também o aquecimento global, o fim da biodiversidade etc.

A nível pessoal, individual, encontramos o desprezo pela pessoa humana - já não temos pessoas mas consumidores apenas, e a esses interessa pois fazer nascer, engordar e manter consumindo. Encontramos a dominação ideológica da publicidade, que nos dá os modelos de vida, os modelos de consumo. Por outro lado a contabilidade das emoções, a feira do amor e o mercado do corpo é também o que encontramos. E nisto o valor da pessoa não é tido em conta, mas é valor de consumo e troca.

 

Isto explica-se – passámos estes 300 anos a dar valor a ideias e a métodos que estão a virar-se contra nós.

 

Que fazer? A ideia mais romântica que surge é a da abdicação:  abdicação do consumo, boicote à produção – levar as multinacionais à falência por dificuldade de escoamento.

É uma ideia que não funciona – mesmo que o ocidente deixa de consumir, neste momento existem milhões de chineses e indianos que querem provar as delícias do capitalismo, e não vão dele abdicar apenas porque estamos enjoados e sofremos de obesidade. E eles não se preocupam mesmo nada com as questões do ambiente. Os que abdicarem realmente serão sempre uma minoria simbólica – poucos poderão escapar à razia das campanhas publicitárias e à desinformção organizada.

Outra ideia bela é a do desenvolvimento sustentável, em que os níveis de produção se mantém os mesmo mas as consequências para o ambiente através da reciclagem e usos de energias não poluentes, são menores. Esta também não funciona porque o lixo vai continuar a aumentar em todo o lado. Aliás o que me parece é que a reciclagem é apenas mais uma oportunidade de negócio para as empresas capitalistas, e uma forma das nossas consciências atormentadas se calmarem.

Só há uma solução – a produção tem de acabar. O problema tem de se resolver na base. Não podemos esperar que as consciências dos consumidores acordem todas de repente e mudem os padrões de consumo, acção difícil num mundo instrumentalizado pela publicidade. Aliás, mesmo a actual juventude, que já foi educada em ambiente de catástrofe ecológica, desde quando hesitou ela em comprar um i-pod devido a questões ambientais?

As opções das  classes políticas são determinadas pelas conjunturas das multinacionais, que são as verdadeiras detentoras do poder. Elas é que criam o nosso mundo e apenas elas o podem destruir. No entanto elas defendem o seu projecto de vida com armas ( exército, polícias etc) e com ideias ( controlo de informação/publicidade).

Existem dois modos de acção para contrariar estes processos: um modo activo e um modo passivo. O modo activo traduz-se na guerra, na destruição e no terrorismo; o modo passivo traduz-se na divulgação de ideias, pela subversão.

E qual é a reacção de defesa do sistema? Aos que usam do primeiro modo a sociedade mata-os ou atira-os para a prisão. Aos que usam do segundo modo a sociedade atribui-lhes loucura e atira-os para um sanatório.

A sociedade tem múltiplas defesas, mas só não se defende do que não a atacar. Parece um enigma, mas a solução é uma acção que não origine uma defesa.

Uma nova forma de vida é necessária. Uma nova economia, uma nova religião, um novo Humanismo, que coloque a pessoa humana no centro e não na periferia da sua própria vida.

 

 

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