Ser português num país de grandes portugueses

Márcia Cardoso 

Tenho estado para aqui a pensar no que é ser português, na nacionalidade, no patriotismo, nas raízes lusitanas, na identidade de Portugal e do seu cidadão.

É impossível fugir ao óbvio desastre que a nossa televisão estatal patrocinou com o nosso (es)forçado contributo, leia-se impostos, e que proclamou Salazar como grande português.

O maior português de sempre.

Contra tudo e todos, Salazar foi votado pelo público ultrapassando nomes de peso na nossa História como D. Afonso Henriques, Vasco da Gama, Infante D. Henrique, Marques de Pombal ou D. João II. E o que dizer de nomes culturalmente tão marcantes como Camões ou Fernando Pessoa? Isto para não entrar em mais discussões sobre os que ficaram para trás e em como nenhuma mulher constava da lista final, etc.

António Oliveira Salazar controlou os destinos da nossa nação durante muitos (demasiados) anos, encheu os cofres do estado (das remessas de ouro proveniente de milhares de inocentes mortos e encarcerados pelos nazis), evitou o nosso envolvimento na Segunda Grande Guerra (mas pelo país reinava a fome e a precariedade, os alimentos básicos como pão eram racionados e a maior parte da população vivia em extrema pobreza), ofereceu estabilidade (enquanto “formava” a população a não pensar, a não ter opiniões e a viver com o peso da censura e da ditadura). Um déspota cruel para alguns e um salvador da nação para muitos.

Digo para muitos porque, felizmente (ou neste caso, infelizmente) não preciso de uma votação num programa para me informar sobre o que vejo à minha volta. Não pode ser, com certeza, por inconformismo ou descontentamento com o governo actual ou com o desgoverno e inconstância governamental desde o 25 de Abril

Como forma de protesto, por falta de informação ou simples convicção a verdade é que muita gente apoia Salazar.

Ainda há muito pouco tempo, depois de ter ido ver a peça A filha Rebelde ao Teatro Nacional, apanhei um taxista que, ao ouvir-nos comentar o espectáculo, arrebitou a orelha ao ouvir o nome Salazar, por quem sentia muito apreço e que muito fez pelo país.

Mas não são só taxistas…Velhotes nos autocarros que evocam o nome de Salazar por tudo e por nada, miúdos que acham que sabem alguma coisa e dizem à boca cheia que o que o país precisava agora era de um Salazar, senhoras de bem que afirmam que isto é tudo uma vergonha e que no tempo do Salazar é que era bom.

No tempo do Salazar é que era bom!

Mas o que eu gostava de perceber era o quê?

Por mais programas “elucidativos”, por mais livros que leia, por mais que eu saiba sobre Salazar e a sua política totalitarista e o seu regime ditatorial, as palavras que me vêem à cabeça quando penso nisso são: polícia política (PIDE), censura, vidas “poupadas” na Segunda Guerra Mundial que serviram uma Guerra Colonial, analfabetismo e extremas dificuldades de sobrevivência para a maioria da população.

Mas, claro, eu sou só uma pessoa, uma cidadã nesta vasta sociedade de gente pensante. Que importância pode ter a opinião de uma rapariga como eu? Tivesse votado e gasto 60 cêntimos! Agora não me vale de nada queixar-me!

Ironias à parte, do que eu me queixo, não é de Salazar ter vencido este pseudo concurso patrocinado pelo contribuinte, uma vez que vivemos num Estado democrático onde cada um deveria ter o direito de expressar a sua opinião.

Pessoas como Álvaro Cunhal, o segundo melhor classificado, lutaram para que hoje tivéssemos liberdade para falar e discutir, aprender e compartilhar experiências e saberes.

E houve neste país quem tenha posto em risco a própria vida para ajudar a salvar centenas de pessoas que fugiam da guerra nazi e de uma morte certa num campo de concentração, como foi o caso do nobre Aristides de Sousa Mendes. Grandes portugueses teremos com certeza vários e seguramente, grande parte, anónimos.

O que me custa é o negócio camuflado de boas intenções que a RTP organizou para o povinho.

Segundo o semanário Expresso deste sábado, “a RTP arrecadou cerca de 84 mil euros através das chamadas telefónicas dos telespectadores que participaram na votação do concurso «grandes Portugueses».

De acordo com as contas do jornal, as 214.972 chamadas telefónicas, com um valor de 60 cêntimos por unidade terão rendido à estação pública, após descontados os 35% habitualmente cobrados pelos operadores de telecomunicações, 84 mil euros. Os votos em António Oliveira Salazar, que venceu a votação, terão rendido cerca de 34,4 mil euros. O segundo classificado, Álvaro Cunhal, terá permitido a entrada de 16 mil euros nos cofres da RTP.”

Note-se bem que tudo não passa, dizem agora, de um mero concurso sem qualquer significado especial sobre a expressão da vontade popular.

Assustados com a popularidade de Salazar? Descrentes no valor real que esta votação tem em termos da real vontade e das linhas de pensamento da nossa sociedade?

Incultos, somos todos nós, ainda a viver sobre a sombra do fascismo e de olhos empoeirados pela Igreja e pela censura.

País de ex-analfabetos agarrados à Internet, a depender de subsídios para tudo e carregados de preconceitos e créditos impossíveis de cumprir.

Somos o país da histeria quando joga a Selecção, e por magia, lembramo-nos que somos portugueses e acordamos patriotas e entoamos o hino e penduramos nas nossas janelas a bandeira que compramos nas lojas dos “chinocas” mesmo que ela venha com pagodes em vez de castelos. Somos o país do ordenado mínimo reles mas que, ainda assim, chega bem para pagar aos de leste para nos limpar a merda que não queremos limpar. Somos o país que fala mal do governo mas não sabe quem são os nossos ministros porque nem sequer vai votar. Somos o país da Nova Gente e das Caras e dos Globos de Ouro e das mentiras cor-de-rosa com sabor a morangos com açúcar e das Floribellas que amam as crianças, principalmente se forem pobrezinhas, órfãs e deficientes que fica melhor na fotografia. Somos o país que adora o país irmão e papa todas as novelas e todos os Carnavais e todos os trios eléctricos mas se for preciso dizemos mal dos brasileiros porque não gostam de trabalhar ou porque elas são umas putas e nos roubam os maridos. Somos o país que deu novos mundos ao mundo mas que não cria condições para quem cá está e ainda goza com o mau gosto das casas dos emigrantes que andam a lutar por uma vida melhor bem longe daqui. Somos o país que tenta incentivar a natalidade para combater o envelhecimento da população mas que não pode manter abertas as maternidades locais. Somos o país que descobre casos de pedofilia e até hoje ainda não se percebeu bem como é que foi possível o senhor da bota Botilde estar envolvido nesses esquemas, mas, assim como assim, a justiça é lenta e aparentemente o sofrimento de todas as partes envolvidas não é o suficiente para apressar as coisas.

Somos o país que promove a reciclagem mas não põe pontos verdes em cada rua e onde se tem que olhar por onde se anda porque ainda não aprendemos a limpar os dejectos dos nossos cães e se for preciso ainda cuspimos por cima.

Somos o país onde um trabalhador a recibos verdes tem que pagar mais impostos e mais segurança social que o resto da população trabalhadora e um desempregado chega a viver melhor que um funcionário público e onde ser velho é sinónimo de incapaz e jovem sinónimo de rasca.

Talvez Salazar esteja a ver-nos neste momento e a pensar: “No meu tempo é que era…”

Talvez até tenha as suas razões…

Mas uma coisa é certa, neste Portugal dos pequeninos, os grandes portugueses ainda existem. E vivem mesmo ao nosso lado. Na pele dos bons professores que amam o seu ofício, nos bombeiros que apagam incêndios que proliferam a cada Verão que passa, nos artesãos, músicos, artistas e grupos culturais, profissionais e amadores que teimosamente continuam a fazer cultura e a preservar as nossas origens culturais mesmo sem apoios do Estado, nos cientistas e nos investigadores que lutam por um conhecimento que cresce e deve ter acesso a todos, nos médicos e no pessoal médico que trabalha horas extraordinárias e ainda consegue sorrir, em todas as pessoas que se empenham dignamente na sua actividade e se esforçam por tornar os nossos dias melhores.

Essas pessoas existem e ninguém pensa nelas como sendo grandes portugueses ou se um dia as suas acções terão algum impacto na nossa História.

Mas talvez esteja na hora de olharmos para o lado para conseguirmos ver com clareza quem somos e valorizar as nossas capacidades, talentos e vocações.

Talvez aí, conseguiremos, sem qualquer sombra de brumas da memória ou fantasias de nação valente e imortal, contemplar o que foi o nosso passado e o que pode vir a ser o nosso futuro, como país e como cidadãos que somos.

 

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