Como nos Alimentamos

Rita Calvário

 Estamos no meio de uma inflação mundial sem precedentes do preço dos alimentos que levou os preços aos níveis mais altos de há décadas. Os aumentos afectam quase todos os géneros alimentícios, mas em particular os alimentos básicos mais importantes - trigo, milho e arroz.

São várias as causas apontadas - maus anos agrícolas e baixas reservas; elevado consumo de produtos animais nos países emergentes; crescimento populacional; especulação financeira; agrocombustíveis; elevado preço do petróleo - não sendo nenhuma delas apenas conjuntural. Um factor tornar-se-á especialmente importante: cientistas dizem que as alterações do clima podem reduzir a produção de alimentos nalgumas partes do mundo em 50% nos próximos 12 anos, a que se junta a progressiva escassez de água.

Perante isto há quem venha defender a necessidade de uma nova revolução agrícola, agora assente em transgénicos e novas tecnologias. Mas o facto de já haver alimentos suficientes para alimentar o mundo mostra que a crise alimentar não é um problema técnico - é um problema social e político. Por exemplo, a produção de cereais a nível mundial triplicou desde os anos 60, enquanto a população mundial à escala mundial apenas duplicou.

Desde os anos 1970, a produção de alimentos tornou-se cada vez mais globalizada e concentrada. Mais do que apoiar a produção e o consumo local de alimentos de cada país, os governos apoiaram os exportadores. Supunha-se que as “vantagens competitivas” dos produtos escolhidos para serem vendidos ao exterior enriqueceriam esse sector e que os benefícios se espalhariam por toda a população. Mas, mais do que originar riqueza, a abertura expulsou milhões de agricultores dos campos e dos mercados dos seus próprios países, contribuindo para a desertificação e envelhecimento dos territórios, a degradação ambiental e paisagística e para alimentar um contingente de reserva de mão-de-obra assalariada nas cidades. As importações substituíram o que antes se produzia a nível nacional nessas décadas e as colheitas diminuíram gravemente.

Hoje, poucos países dominam o comércio global de alimentos básicos: 80% das exportações de trigo e 85% do arroz vêm de seis países e três países produzem 70% do milho exportado. Os países, mesmo se exportadores, tornaram-se altamente dependentes das importações de produtos alimentares, o que os torna mais vulneráveis às flutuações do mercado internacional, cada vez mais sujeito à especulação, e às regras das multinacionais exportadoras. Isto nos países mais pobres é dramático. E quando o sistema de comércio global de alimentos deixa de fornecer, são sobretudo os pobres que pagam o preço.

A maior dependência do transporte de longa distância para sustentar este sistema agro-alimentar cada vez mais interdependente, tem um custo: é responsável pelo enorme crescimento das emissões de gases de efeito de estufa, causa das alterações do clima. Mas há ainda outro custo: a subida do preço do petróleo também afecta o custo de produção dos alimentos, levando à alta do seu preço. Fertilizantes e pesticidas são feitos à base de petróleo e gás natural e a gasolina e o gasóleo são usados nas plantações, colheitas e no transporte: por exemplo, calcula-se que 80% do custo da produção de milho sejam custos com combustíveis fósseis.

Mas há outra característica de vulnerabilidade na forma como se organizou o sistema agro-alimentar. Nos últimos 100 anos, a Humanidade, que ao longo da sua história consumiu mais de 7 mil espécies, deixou de cultivar mais de três quartos e depende de apenas três - milho, trigo e arroz - para atender a quase 70% de suas necessidades calóricas, afirmam dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO): a diminuição da diversidade genética das plantas «torna mais vulnerável e insustentável» o abastecimento alimentar.

A maior parte dos alimentos do mundo procede actualmente só de 12 plantas e 14 espécies animais, sendo que «uma menor diversidade genética significa menos oportunidades para o crescimento e a inovação necessários para impulsionar a agricultura numa época de preços alimentares em alta». O problema está em que, «à medida que diminui a biodiversidade, reduz-se a capacidade de adaptação da agricultura aos desafios do ambiente como as alterações climáticas ou a escassez de água», diz a FAO.

É preciso parar com esta irracionalidade do mercado, a qual não resolve de forma estrutural um dos mais antigos problemas da Humanidade: o da alimentação, ou seja, o da fome. Voltar a apoiar a agricultura local e o desenvolvimento rural sustentável, assegurando que a produção responde às necessidades das pessoas ao mesmo tempo que respeita o ambiente e reocupando os territórios para serem espaços vividos, é fundamental.

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