Antipsiquiatria
 

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Entrevista com Franco Basaglia
Autor: Fundación Carl Gustav Jung (Espanha)

Data de Publicação: 04.10.2007

O que quer dizer anti-psiquiatria? Acha que é justificável que se englobem sob esta designação atitudes diferentes das tomadas por Laing, Cooper e Esterson, criadores do termo?

É muito difícil que uma pessoa que se interessa pelos problemas de transformação da psiquiatria possa entender o que significa assistir o paciente fora dos padrões tradicionais. O termo "anti-psiquiatria" tem sido objeto de muitas disputas ultimamente. David Cooper, a quem se deve a sua criação, o analisa em seu livro A gramática da vida, em um capítulo que incide especificamente sobre o termo "anti-psiquiatria". Eu li o livro e penso que é interessante notar como o próprio autor está surpreso pelo destino que ele tomou. É interessante saber como e por que essa palavra conseguiu transformar-se, por si mesma, em um novo tipo de rótulo para a psiquiatria. Então, atualmente existem dois grupos: um amplo, de psquiatras, e outro pequeno, de antipsiquiatras.

Um fato grave é que o anti-psiquiatra - ou o que tem representado o movimento gerado pela anti-psiquiatria - tenta salvar apenas a faceta ideológica, esquecendo-se do aspecto prático. Quer dizer, muitas pessoas que não tinham tido qualquer envolvimento nos problemas práticos da transformação psiquiátrica escreveram livros sobre a anti-psiquiatria, a fim de criar uma nova ideologia. Neste sentido, rejeito categoricamente a qualificação de "antipsiquiatra." Não estou interessado nisto. Eu sou um psiquiatra porque estou consciente das minhas obrigações. Se não fosse assim, deveria mudar de profissão. Se continuo trabalhando no setor público, na esfera estatal, é porque eu aceito meu status de psiquiatra, estatuto que não tem nada a ver com o conformismo intelectual do integrado, o intelectual ou o técnico que trabalha com o consentimento do poder público e da organização social e que atua falsamente, a partir de um ponto de vista democrático. Penso que, como técnico, devo simplesmente usar o meu status para ajudar a superar as necessidades do público e do internado.

O fato de que o termo "anti-psiquiatria" foi tão bem sucedido é por causa da sede de novas ideologias por parte do poder estabelecido, que deve criar "novas ideologias" a fim de alcançar este consenso que cada vez se torna mais difícil. Na verdade, hoje, o único "consentimento", que pode obter o poder é o que decorre da violência e da repressão. Isso é verdade não só na violência e repressão num sentido geral e pública, mas sobretudo nas instituições destinadas a atender as necessidades do cidadão.

 Antes citei Cooper, pois é a ele que remonta ao termo "anti-psiquiatria". Ronald D. Laing e A. Esterson também se incluem no domínio da anti-psiquiatria, mas o mesmo Laing rejeita a idéia do que, para ele, não significa nada e não é nada mais do que uma expressão de consumo.

-- Por vezes, psiquiatria foi comparada com prisão. Qual é a sua opinião sobre este assunto?


Quem entra em um manicômio, embora este seja qualificado como uma instituição hospitalar, não é considerado como um doente, mas como um internado que vai expiar uma culpa, de que não conhece nem as causas nem a sentença, ou seja, desconhece a duração desta expiação. Por outro lado, ali há também médicos, aventais brancos , doentes e enfermeiros, como se fosse um hospital, mas na realidade não é nada mais do que um instituto de acompanhamento onde a ideologia médica é uma desculpa para legítimar uma violência que nenhuma entidade pode controlar, porque o mandato confiado ao psiquiatra é total, no sentido de que ele representa a ciência, a moral e os valores do grupo social de que é o seu legítimo representante na instituição. Apesar disso, alega-se que no século passado deram-se passos gigantescos para a realização da liberdade e o destino humano. A ciência, em todos os campos, declara ir em busca de elementos sempre novos para libertar o homem de suas próprias contradições e de suas contradições com a Natureza. Mas se se analisa - e especialmente se atua - dentro de alguma das muitas instituições criadas pela nossa ciência e nossa civilização, constataremos o pouco que tem sido feito e como as inovações técnicas fizeram nada mais do que dar nova ordem formal a determinadas condições, em que a Natureza e o significado permanecem inalterados.

Na área específica da reclusão -, o termo pode incluir tanto a psiquiatria quanto a prisão - desde a época da barca dos loucos, que errava pelos mares com a sua carga de "anormais" e "indesejáveis", a ciência e a civilização parecem não ter sido capazes de oferecer algo mais do que uma âncora nas ilhas de marginalização e de prisão, em que o "desvio doente" e "diversão saudável", "culpado" e "responsável" - e, portanto, "infrator" - encontram o seu justo lugar.. Para o desviado moralmente a prisão; para os homens com o espírito doente, psiquiatria; para o criminoso e doente, psiquiatria criminal. Esta tem sido a grande "conquista" da ciência até agora.

(Continua)