A INFLUÊNCIA DO ENSINO NA VIDA DAS PESSOAS

Por trás das estatísticas do nível de alfabetismo, gente que frequentou a escola e não aprendeu

Acompanhar a coleta de dados de uma pesquisa sobre alfabetismo é mais que observar a aplicação de questionários. É enxergar a verdadeira influência do ensino na vida das pessoas.

Num dia de maio, na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, dois pesquisadores do Instituto Paulo Monte-negro - braço do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) - batiam de porta em porta para colher informações para o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2009.

A busca por voluntários para responder às 126 questões é árdua. O discurso de apresentação é repetido com paciência ao público-alvo do Inaf, que têm idade entre 15 e 64 anos. "Estamos fazendo uma pesquisa sobre Educação para ver como o que aprendemos na escola está sendo usado aqui fora." Paulo Vicente e outros 40 entrevistadores, nas ruas do país até o fim de junho, perdem a conta de quantas recusas recebem. "Quando falo que é preciso dispor de cerca de uma hora, muitos desistem de participar." 

Depois de muita caminhada e de dez tentativas frustradas, encontramos a primeira voluntária de Vicente, uma das 2.002 pessoas que irão compor o quadro de entrevistados. Lidiane*, 27 anos, respondeu a todas as questões em 40 minutos (quando, em média, são gastos 50). O questionário mede as habilidades matemáticas, de leitura e de escrita aplicadas no contexto social. Pelo grau de escolaridade que declarou (Ensino Médio completo), ela deveria ter alcançado o nível pleno de alfabetismo. Mas ficou abaixo, no de alfabetismo rudimentar, que corresponde à capacidade de ler números em contextos específicos e localizar informações explícitas em textos curtos.

Outra voluntária, Teresa*, 39 anos, estudou até a 5ª série. Mesmo tendo sido classificada como alfabetizada em nível básico - um abaixo do pleno -, ela sente, no dia-a-dia, as limitações provocadas pela falta de estudo. "Tenho dificuldades para anotar recados", confessou. Ou seja, não consegue elaborar textos curtos, o que se espera para esse patamar.

No fim do dia, Paulo Vicente e o colega José Benedito Ribeiro tinham aplicado sete pesquisas. O semblante dos dois revelava, além de cansaço, tristeza. Eles sabem que carregam um retrato desolador da Educação brasileira nas mãos. "A gente vê nas ruas a realidade do povo no que diz respeito às escolas. É triste. Sonho em ver a maioria dos entrevistados acertar todas as questões. Porém acho que não vou estar vivo para presenciar isso", desabafa Ribeiro.

Está realmente longe o dia de tal desejo se realizar, mas o caminho foi aberto. A porcentagem de pessoas analfabetas absolutas caiu de 12 para 7% entre o período de 2001 e 2007. Nesse mesmo intervalo, o nível de alfabetismo básico aumentou de 34 para 40% e o de pleno passou de 26 para 28%.

Apesar de lamentar o ritmo lento dessa evolução, Ribeiro considera que o seu o trabalho vai além de desvelar um cenário da atualidade. Visa fomentar o debate, estimular iniciativas da sociedade civil e fornecer subsídios para as políticas públicas. Com tudo isso em ação, o sonho do entrevistador - a transformação da realidade de todas as Lidianes e Teresas - talvez fique um pouco mais próximo.

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