O Jeitinho Brasileiro


O jeito, ou o jeitinho brasileiro, é a prática da conveniência, driblando o que está legalmente estabelecido. É a forma de resolver um problema individual, geralmente de interesse imediato.

Quando se fala em jeitinho brasileiro, a primeira coisa em que pensamos é esperteza, suborno, ambição, embora essa não seja a única maneira de definir o jeitinho. Mas, o lado negativo dessa prática tão disseminada em nossa sociedade é o que mais se evidencia.

O jeitinho é quase um código secreto de relacionamento. Basta apenas que algo dê errado ou tarde em solucionar para pensarmos em como dar a volta e, assim, abreviar seu desfecho. Ele revela o desejo do ser humano de não se prender às normas, e sim de superá-las, subjugá-las. Suspende-se temporariamente a lei, cria-se a exceção e depois tudo volta ao normal.

O brasileiro seria, então, um anarquista, um fora-da-lei? Não. O brasileiro não nega a existência da lei, o que ele nega é a aplicação da lei naquele momento. Simples assim. Justificamo-nos com todos os rigores da razão: se podemos pagar menos imposto de renda a um governo que não retribui adequadamente em benefícios sociais para seus contribuintes, por que não fazê-lo? Por que pagar uma multa de trânsito – altíssima – se podemos dar um jeito de cancelá-la?

Mas nem todo jeitinho é negativo. A inventividade e a criatividade são algumas das facetas mais relevantes do lado positivo. O brasileiro possui uma alta capacidade de adaptação às situações mais inesperadas, que muitas vezes pode significar a diferença entre viver ou morrer, entre estar desempregado ou arranjar uma profissão alternativa para manter a si próprio e à família.

O jeitinho brasileiro também tem o lado conciliador, permitindo que se crie uma solução favorável para uma situação a princípio impossível. É o caso do operário que substitui o colega em seu turno enquanto aquele participa de um curso no supletivo, para ganhar o tempo perdido.

Enquanto o lado negativo do jeito brasileiro gera situações delicadas e comprometedoras da conduta ética, o lado positivo muitas vezes vem aliviar o brasileiro da vida oprimida que ele precisa vencer. E é aqui que se estabelecem os dilemas éticos do jeitinho. A inconsistência da ação governamental em áreas como a segurança pública, a fiscalização e o planejamento da política tributária e financeira leva o cidadão a uma situação tal que sua única saída no momento é o jeito, a driblada, sob pena de perder o emprego ou inviabilizar sua empresa.

A legislação no Brasil, vinculada ao Estado sob o domínio da elite capitalista, impõe sobre a população normas rígidas e formas de punição para os que não cumprem a lei. A distância entre a lei e a conduta das pessoas na realidade social é uma resposta ao formalismo instituído pelo Estado, através das estruturas social, política e econômica. O jeitinho funciona como válvula de escape individual diante das imposições e determinações. Os interesses pessoais tornam-se mais importantes do que a coletividade.

Com o modelo centralizador de poder em nosso país, o jeitinho pode ser visto como mecanismo de controle social. Torna-se um instrumento de manipulação quando utilizado pela autoridade instituída para subjugar a população com menor grau de instrução. Exemplo disso, é a prática do paternalismo e do assistencialismo inspirado nos coronéis, que se confundem com a própria lei. "Você sabe com quem está falando"? É a expressão da autoridade, que pode conceder benefícios usando as brechas e os favores da lei, confirmando a desigualdade e a dependência social.

No estágio próximo ao jeitinho, encontra-se a corrupção, tema diariamente mencionado na mídia escrita e falada. Ela está presente naquele jeito de conseguir uma concorrência, no jeito de apressar um processo numa repartição pública, no jeito de driblar o fiscal, sempre apoiada em algum tipo de pagamento ou suborno. A corrupção não se contenta apenas em transgredir a norma mas envolve ganho monetário além de prejudicar terceiros, que lhe confere a diferença para o jeitinho, culturalmente brasileiro.

Em suma, o descaso das autoridades públicas quanto às reais necessidades do povo e as leis impostas pela elite estatal, gera o salve-se quem puder, que por sua vez alimenta o jeitinho e incentiva a transgressão das normas. Desta à corrupção é apenas um passo. Tão logo se estabeleça, a corrupção generalizada aumenta a impunidade.



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