Evolução Histórica da Ética


A reflexão ética se inicia na Grécia antiga, quando os filósofos buscam compreender o fundamento da conduta humana. Enquanto para a maioria dos filósofos os princípios morais resultam de convenções sociais, Sócrates defende a moral constituída na própria natureza humana.

Para Sócrates (470-399 a.C.), a virtude humana consiste na busca do conhecimento para alcançar a felicidade. O verdadeiro objeto do conhecimento é a alma humana. As afirmações: conhece-te a ti mesmo e sei que nada sei, expressam com intensidade que a conduta humana deve ser ajustada em primeiro lugar, com o próprio ser. O filósofo relaciona de forma estreita as noções de saber, virtude e felicidade. Segundo ele, o conhecimento do bem implica a prática da virtude e o exercício desta faz felizes os homens. A sabedoria é o valor supremo para alcançar a plena felicidade.

Sócrates forneceu material para que Aristóteles e Platão desenvolvessem suas doutrinas. Os três filósofos consideram o homem não como ente isolado, mas como ser social. Na expressão aristotélica clássica, o homem é um animal político.

Platão (428-347 a.C.) estabelece uma hierarquia das idéias e confere um lugar supremo ao bem. As virtudes humanas devem ser coordenadas, cuja harmonia constitui a justiça. A justiça é para Platão, a harmonização das atividades da alma e de todas as virtudes. Segundo ele, a questão moral não é um problema somente do indivíduo, mas das relações coletivas. A formação espiritual do homem cabe ao Estado, entidade que não é meramente organização de poder, mas instituto de educação, e a finalidade última é realizar a idéia do homem e conduzir os indivíduos ao conhecimento e prática das virtudes que deverão torná-los felizes.

A ética de Aristóteles (384 -322 a.C) exerceu forte influência no pensamento ocidental. Segundo sua teoria, conhecida como eudemonismo (do grego eudaimonéu significa ter êxito, ser feliz), todas as atividades humanas aspiram a algum bem, dentre os quais, o maior é a felicidade. Para Aristóteles, a felicidade não se encontra nos prazeres nem na riqueza, mas na atividade racional, no exercício e na evolução do pensamento.

Para os hedonistas (do grego bedoné, prazer) o bem se encontra no prazer. De forma genérica, podemos afirmar que a civilização contemporânea é hedonista, pois associa a felicidade com a aquisição de bens de consumo: casa, carros, roupas, comida, aparelhos eletrônicos e domésticos e sexualidade.

No entanto, segundo Epicuro (século III a.C.), principal representante do hedonismo grego, os prazeres do corpo são causa de ansiedade e sofrimento. Por isso, para que a alma não sofra perturbações, é preciso limitar os prazeres materiais. É virtuoso quem é capaz de usufruir do prazer com moderação. Essa atitude o leva ao cultivo dos prazeres espirituais.

Na mesma época, Zeno de Cítio condena os prazeres em geral e considera que muitos males decorrem da liberalidade dos prazeres. Segundo o pensador, a virtude do sábio depende do viver de acordo com sua natureza e razão, eliminando as paixões, causadoras de sofrimento.

A Idade Média retoma esse pensamento e aperfeiçoa a vida espiritual por meio de práticas de purificação do corpo, instituindo o jejum, a abstinência e a flagelação. Essa tendência predominou na Alta Idade Média, influenciada pela Igreja.

O filósofo e teólogo Santo Tomás de Aquino (século XIII) adapta o aristotelismo aos ideais cristãos e recupera a ética eudemonista. Mas, fiel ao ideal religioso, admite que a única contemplação que garante a felicidade é a contemplação de Deus, de quem teremos conhecimento só na vida futura, após a morte.

Desde a expansão do cristianismo, portanto, a cultura ocidental esteve marcada pela tradição moral fundada nos valores religiosos e na crença na vida depois da morte. Sob essa perspectiva, os valores são transcendentes, porque resultam de doação divina, o que leva à identificação da pessoa moral com o ser temente a Deus.

A partir da Idade Moderna, porém, os princípios éticos e morais distanciam-se da doutrina religiosa. O Ser moral e religioso convive separadamente. Admite-se que uma pessoa que não crê em Deus também possa ser ética, porque o fundamento dos valores não se encontra em Deus, mas no próprio ser humano.

O reconhecimento dos princípios e valores resulta da capacidade humana, representada pelo racionalismo cartesiano e também pelo criticismo de Hume (século XVII). Para este filósofo, a única base para as idéias gerais é a crença. No campo moral não podemos atingir verdades absolutas. Hume rejeita todo sistema ético que não se baseie em fatos e observações. É reconhecido como pensador que rompe com a tradição filosófica herdada da Antiguidade e Idade Média, influenciando as mais diversas concepções e tendências éticas.

O século XIII é denominado século das luzes, em virtude da razão, considerada em todas as expressões e atividades humanas, como a luz que serve para interpretar e reorganizar o mundo. Recorrer à razão significa recusar a imposição religiosa. Para Kant, maior expoente do iluminismo, a ação moral é autônoma, pois o ser humano é o único capaz de determinar segundo leis que a própria razão estabelece.

A moral iluminista é racional, laica e acentua a importância da liberdade e do direito de contestação. Também é uma moral universalista porque, embora admita as diferenças dos costumes dos povos, aspira encontrar valores comuns.

A partir do final do século XIX, porém, os pensadores começaram a se posicionar contra a moral formalista kantiana fundada na razão universal, abstrata, de um sujeito transcendental.

Entre eles, Hegel destaca a importância da relação do sujeito com a cultura e a história, compreendendo a diversidade dos valores conforme o tempo, a cultura e o lugar. Também Marx explica a moral como uma das expressões da consciência humana, que por sua vez, são o reflexo das relações sociais estabelecidas no mundo do trabalho. Nesse caso, conforme variam os modos de produção, mudam não só as normas morais, mas também os valores sociais, políticos e econômicos.

Nietzsche, cujo pensamento se orienta no sentido de recuperar as forças inconscientes, vitais e instintivas subjugadas pela razão durante séculos, critica Sócrates por ter encaminhado pela primeira vez a reflexão moral em direção ao controle racional das paixões.

Segundo Nietzsche, nasceu aí a desconfiança nos instintos, tendo essa destruição culminado com o cristianismo, que acelerou o processo de domesticação do ser humano ao incentivar a moral do rebanho, geradora de culpa e ressentimento, fundada na aceitação do sofrimento, da renúncia, da piedade, típicos da moral dos fracos. No seu pensamento defende a transvaloração de todos os valores, superando a moral comum para que os atos do homem forte não sejam pautados pela mediocridade das virtudes estabelecidas. Para tanto é preciso recuperar o sentimento de potência, a alegria de viver, a capacidade de invenção.

No decorrer do século XX e no início deste século, continua valendo a desconfiança na razão como instrumento eficaz para orientar os princípios éticos e as normas morais. Não se pode afirmar de maneira convicta que agir virtuosamente é agir de conformidade com a razão.

As advertências de Marx, que denuncia a ideologia e seu poder de manipular a consciência, acrescenta-se a descoberta de Freud (1856-1939) do inconsciente, força interna radicada nas pulsões que, ao entrarem em conflito com as normas sociais, tornam-se fonte de repressão e neurose.

Dentre as correntes do existencialismo, Sartre (1905-1980) se debruça sobre o tema da liberdade, como expressão da autonomia do querer, do projetar humano. Por valorizar de maneira singular o indivíduo, viu-se diante de dificuldades para estabelecer os critérios da fundamentação moral coletiva.

A prevalência da ordem subjetiva das vivências e emoções, por um lado, e, por outro, a denúncia da razão dominadora como instrumento de repressão, fornecem os elementos que caracterizam a chamada crise da razão.

Diante dos problemas do mundo globalizado, podemos ressaltar o fato que hoje, a moral se situa além dos limites da casa, do bairro, da cidade, do país, para exigir a reflexão sobre a macrosfera, que envolve o destino da humanidade. Neste sentido, é preciso constituir uma macroética que examine os interesses humanos vitais em nível planetário. Vivemos uma ruptura de paradigmas, sem que tenhamos ainda esboçado novos referenciais de conduta.

No mundo contemporâneo, muito são os desafios para tentar construir a vida ética e moral. A questão que se coloca hoje é a da superação dos empecilhos que dificultam a existência de princípios e parâmetros para a boa conduta. Algumas dessas dificuldades derivam da sociedade individualista, incapaz de praticar a solidariedade e a tolerância.

O esforço de recuperação da ética passa pela necessidade de não se esquecer da dimensão planetária da sociedade contemporânea, quando todos os pontos da Terra, essa aldeia global, se acham ligados pelos mais diversos e velozes meios de informação.

A generosidade da moral planetária supõe a garantia da pluralidade dos estilos de vida, a aceitação das diferenças, sem sucumbir à tentação de dominar o outro por considerar a diferença um sinal de inferioridade e de desigualdade.

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 2000.
NALINI, José Renato. Ética geral e profissional. São Paulo: revista dos tribunais,2001.


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