ENTREVISTA COM BERNARDO KUCINSKI


Reproduzido da Agência Repórter Social, 9/1/2006

A rotina do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem uma constante: a leitura obrigatória, todas as manhãs, de um documento conhecido como "carta crítica". Uma resenha do que saiu na imprensa sobre o governo naquele dia. Nela, o presidente tem acesso a uma análise apurada do noticiário. Recebe críticas, sugestões, advertências e até broncas. Algumas vezes, em seus discursos, Lula reclama da acidez dos que acordam mal-humorados. Nestas ocasiões, ele se refere ao autor da "carta crítica", o jornalista e professor da USP Bernardo Kucinski. Não é para menos. Para produzir a resenha, Kucinski acorda às 5 da manhã, percorre os jornais nacionais, internacionais e faz uma análise da conjuntura a partir do que leu. No documento, o "chato do Kucinski", como é conhecido nos corredores do Planalto, tece comentários sobre as ações do governo, suas repercussões e analisa as matérias da imprensa no que elas trazem de mais interessante: as entrelinhas.

A prática de escrever esta resenha para Lula começou ainda nas eleições de 1998, quando o jornalista percebeu que uma leitura crítica do noticiário poderia ajudar o então candidato a presidente. Kucinski, que era colaborador da campanha, passou a enviar relatórios diários – conhecidos como "cartas ácidas" – a Lula. Em 2000, estas cartas foram publicadas em livro. Já na campanha de 2002, dentro da lógica do "Lulinha paz e amor", as "cartas ácidas" se tornaram "cartas críticas" e assumiram um tom mais ameno. Lula venceu e quando chegou ao Planalto continuou recebendo o material do agora assessor especial da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica.

Além do presidente, poucos colaboradores têm acesso ao conteúdo da resenha. Na entrevista a seguir, o autor das "cartas críticas" fala sobre o governo Lula ("decepcionou muito"), sobre a imprensa ("a palavra de ordem é linchar") e sobre o papel dos jornalistas na cobertura da crise política ("eles estão fazendo uma cruzada moral"). Por último, mas não menos importante, Kucinski também critica a atuação de Duda Mendonça no governo – "ele atuou dos dois lados do balcão" – e aponta problemas na área de comunicação do governo.

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REPERCUSSÕES:

- Para Dines, entrevista de Kucinski vai pautar relação entre imprensa e governo
A entrevista que Bernardo Kucinski deu à Agência Repórter Social está há vários dias em todos os jornais, colunas políticas, portais e sites da internet. Pode-se discordar dela quando arrasa a política de comunicação do presidente Lula ou quando denuncia o preconceito da imprensa contra ele. Mas o teor e compromissos do "manifesto" de Kucinski são basicamente construtivos e idealistas: ele acredita no jornalismo, quer melhorar a qualidade dos nossos jornalistas e, sobretudo, quer impedir – junto com tantos outros – que a imprensa seja manipulada por interesses políticos e econômicos capazes de criar impasses institucionais. (Por Alberto Dines em 13/1/2006)

Lula manterá Kucinski no cargo, informa o Estadão
A entrevista do professor Bernardo Kucinski à Agência Repórter Social, reproduzida neste Observatório, continua repercutindo na grande imprensa. 

Folha de S. Paulopublicou os principais trechos da entrevista e tentou ouvir o jornalista, atualmente responsável pelo boletim diário Cartas Críticas, uma espécie de clipping analítico que o presidente Lula e alguns ministros do chamado núcleo duro do governo recebem diariamente com a análise do que sai na imprensa

- Mais um analista de Lula
Por Chico Bruno em 16/1/2006, no Observatório da Imprensa

- O "desrespeito" dos jornalistas por Lula

- Para Carlos Chaparro, o problema era Gushiken

. O brilho do mau-humor: No campo da Comunicação, especificamente na temática “Jornalismo”, o texto mais importante da semana foi a entrevista concedida por Bernardo Kucinski à repórter Alice Sosnowski, para o site da Agência Repórter Social. O meu colega e amigo Kucinski sabe, como ninguém, ser ácido quando faz crítica. A entrevista não chega a ter a dimensão de “fato histórico”, como sugeriu Alberto Dines. Mas a verdade é que Kucinski conseguiu espantar a pasmaceira do começo de ano com uma entrevista que reflete muito bem o brilho do seu conhecido mau humor. Bateu à esquerda e à direita, na imprensa e no governo, em repórteres e colunistas, em editores, ministros e donos de jornais. E alcançou a repercussão que pretendia, produzindo discussões que saltaram da Internet para a mídia impressa de referência.

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