ALBERTO PIMENTA, ANTOLOGIA DE POEMAS AQUI E LÁ ESCARBADOS

ALBERTO PIMENTA [Porto, 1937]

Poeta, narrador, ensaísta, performer e professor universitário. Licenciou-se em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra e, durante alguns anos (1960-1977), exerceu funções de leitor de Português e de Literatura Portuguesa em Heidelberg, na Alemanha. Regressando a Portugal, desenvolveu uma intensa actividade no domínio da criação literária relacionada com os movimentos experimentalistas. Os seus textos, por vezes publicados em livros com uma configuração gráfica original, assumem um sentido polémico, que ocasionalmente os próprios títulos podem evidenciar, e ao mesmo tempo de vanguarda. É autor de O Silêncio dos Poetas (1978), um importante estudo sobre o sentido da criação literária ligada aos movimentos de vanguarda, a qual se caracteriza pelo seu "desvio da norma"; o desenvolvimento dos seus pontos de vista leva-o a estabelecer uma bem fundamentada e sugestiva "fenomenologia da modernidade". Realizou o seu primeiro happening em 1977 no Jardim Zoológico de Lisboa (Homo Sapiens) e a mais recente performance (Uma Tarefa para o Ano Vindouro), dividida em duas partes (31/12/1999 e 01/01/2000), também em Lisboa, na Galeria Ler Devagar. Traduziu, entre outros, Thomas Bernhard (A Força do Hábito, em colaboração com João Barrento, 1991) e Botho Strauss (O Parque). Colaborou com Miguel Vale de Almeida e Rui Simões em Pornex: Textos Teóricos e Documentais de Pornografia Experimental Portuguesa (coord. de Leonor Areal e Rui Zink), 1984. É actualmente professor auxiliar convidado da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Fonte: Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. VI, Lisboa, 1999

http://www.triplov.com/poesia/Alberto_Pimenta/Ditirambo/Magma13.htm

 discurso dobre o filho da puta

PALAVRA DE ORDEM

sacrificaran tudo a deus, e

o que nâo sacrificaram a deus

sacrificaram pelos vindouros

 

os quais

 

sacrificaram tudo a deus, e

o que nâo sacrificaram a deus

sacrificaram pelos vindouros

 

os quais

 

sacrificaram tudo a deus, e

que nâo sacrificaram  a deus

sacrificaram pelos vindouros

 

os quais

 

 

e assim sucessivamente

PARA OS VINDOUROS AINDA NÂO

PARA DEUS JÁ TALVEZ TENHA VALIDA A PENA.

 

De Si(lên)cio dos Poetas

 

A crueldade reside ainda, e talvez sobretudo, no recusar-se

a servir de objecto de prazer, de conciliaçâo com a realida-

de. Ê assim que este tipo de arte esteticamente emancipa-

cipada (acima de tudo esta chamada “poesía moderna) nâo

funciona como representaçâo <clara e pouco usual> da rea-

lidade, nem como hipóstase de un mundo imaginado ou co-

mo ersatz para frustraçâo existencial, nem como mito: funcio-

na como recusa de colaborar com a totalidade na sua lenta

mas constante destruiçâo do individuo e da sua livre e auto-

noma consciência.

(sucedaneo)

(persona, substancia...)

 

EPISTEMOLOGIA GENETICA

 

e,

olhando o retrato de parede demoradamente

nos olhos, uivam lastimosamente.

 

e,

o retrato de parede, calando-se lastimosamente,

olha-os demoradamente nos olhos.

 

e,

eles, olhando o retrato de parede demorada

mente nos olhos, uivam lastimosamente.

 

e,

o retrato de parede, calando-se lastimosamente,

olha-os demoradamente nos olhos.

e,

assim por diante.

 

MIOPIA

 

nâo te sentes capaz de entender

o dia de hoje, baby?

espera ele seja o dia de ontem.

 

nâo te sentes capaz de entender

o dia de ontem,  baby?

espera que ele seja o dia de amanhâ.

 

nâo te sentes capaz de entender

o dia de amanhâ, baby?

espera ele seja o dia de hoje.

 

 

          MIMOS PARA ELISA

elisa. elisa tem ancas gordas e beiços carnudos.

elisa gosta de telefonar ao noivo. sentada no so

fá, com o joãozinho à beira, marca o número e diz:

elisa sim meu bem. entretanto o joãozinho mete o

s dedos por baixo da saia de elisa, mete as mãos,

mete os braços. elisa diz: sim meu bem. enquanto

elisa se recosta, joãozinho mete a cabeça debai

xo das saias de elisa, e faz que sim, faz vivamen

te que sim, enquanto elisa diz: sim meu bem. sim.

estes telefonemas com o noivo são tão longos! se

pararam-se há pouco tempo. o noivo suplica: não

chores elisa. não suspires. a separação não será

eterna. elisa acalma-se. joãozinho sai cá para fo

ra. elisa chega-se muito a ele. joãozinho está ag

ora de pé. o noivo fala fala fala. pergunta: elisa

já comeste os bombons todos que te mandei minha

gulosa? elisa não responde. está com a boca cheia

. mesmo na conchinha do ouvido, muito suavemente,

o noivo chama-lhe gulosa. e outros mimos. outros.

                                                                                                  in «Santa Copla Carnal»

Lisboa: Fenda, 1993

 

Já?

já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
e o contrário, já tentaste?
já?
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.

COM CINCO LETRAS APENAS

entre doces

avelaneiras

sob os açafroados

cálices do fruto

um pequeno acanto

disposto

do fundo da alma

a tantos sacrifícios

como os do salmão

da sabedoria

que

engoliu as nove avelãs

mágicas

como dizem os entendidos

e se tornou o aliado

dos adivinhos

a sua vibração

tão aguda e eléctrica

que traz consigo

a mais criativas das inspirações

essa é a planta da sabedoria

e Leucípe

leva-a consigo

quando procurou o pai e a irmã

e os encontrou

segundo as instruções

do oráculo

ou seja

vestida de sacerdote

e assim

foi vista e amada

e daí nasceu a trama

o prodígio

para que mais uma vez

o mundo continuasse

igual a si mesmo

apenas

um pouco mais gasto e tonto

não canto

 

in «Prodigioso Acanto»

Lisboa:  &etc, 2008

 

Portugal é "igualzinho" aos outros: tem águas territoriais, tem isso, tem aquilo, maternidades, cemitérios - e então Pimenta dá mais uma ideia para os políticos do país:

 

Era uma belíssima ideia juntar, fazer dos jardins das maternidades os cemitérios. Apanhava a vida em seu sentido total, não é mesmo? Os cemitérios são uns dos lugares mais agradáveis neste país para passear. São os únicos lugares limpos, são muito sossegados, são serenos.

Não tem aquela coisa que a outros portugueses incomoda tanto que é os namorados a beijarem-se. Isso é uma coisa que incomoda a muitos portugueses que é o afeto. O beijo, principalmente, se for intenso.

 

"O meu Portugal é o da vida trivial, o Portugal que eu vejo, aquele em que vivo – e o que eu sou." Ouvimos esta última frase, mas não é o fim. Temos mais uma sequência de Pimenta em 1978, outro diálogo ao telefone. Só ouvimos a voz de Pimenta:

Não vi, não vi não. Não vejo televisão, não tenho aparelho. Quando tenho o que fazer, tenho o que fazer. E quanto não tenho o que fazer, tenho mais o que fazer do que ver televisão

Amaeçaram-no de morte? A esquerda? A esquerda ameaçou de morte pelo telefone? E matou?

A esquerda nunca cumpre.

 

 

                                          Marthiya of Abdel Hamid according to Alberto Pimenta 4

 

Vêm agora

Empoleirados em camiões.

O único contacto

Com a terra

É quando saltam

Para a pisar.

 

Têm um coração

Que deve ser cego,

Por isso amparam-se

A uma espingarda,

Como os cegos

A uma bengala.

 

Caminham dos pés à cabeça

Carregando com a morte:

São muitos

Os que tropeçam já

Num sulco de terra.

 

Esses

Não tornarão a ver

O disco da aurora.

Outros se seguirão,

Um a um.

 

Esta

É a palavra

 

Dum coração que vê.

                                            in Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta, 2005

 

Dantes (En los tiempos antiguos)

Os vendedores

De fruta

Cereais

Plantas e peixe

Estendiam a mercadoria

Nas tendas

Do mercado

E depois iam

 

Visitar-se uns aos outros

E cumprimentar-se

Desejando

Mutuamente

Um bom negócio.

Uns e outros

Não tinham

O mesmo culto,

Mas sabiam

Que existir

Depende sempre dum contrato.

 

Agora

Aos sábados

Têm as costas voltadas

Uns para os outros

Nos olhos

Lê-se-lhes a desconfiança e

A uni-los,

Circulam entre eles

Os cães

Vadios.

….......................................................

Para voltar

A ver-te

Um só instante,

A ti,

Que és mais bela que a lua,

Antes que a manhã recolha

As estrelas

Uma a uma

E as guarde

Do outro lado do céu,

 

Vou atravessar

O rio

Coberto de holofotes,

Que transformam o verde claro

Numa fosforescência

De água assustada.

 

Se não me matarem

Nem me apanharem vivo,

Mantém-te alerta

Mantém alerta

O desejo mais antigo

e o mais novo.

 

Vou passar

Do lado de fora

Da parede

Perfurada

Pelas balas:

 

Passa-me um lenço

De seda

Com o teu perfume.

 

Marca-o com o segredo

Dos teus lábios.

                                                                                          in Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta, 2005

 

Não sei

Se tornarei a ver

As caravanas

Que de madrugada

Atravessam o deserto

Em frente

Às ruínas de Palmira

Ou

As azenhas milenares

De Hama

A chiar de esforço

Quando elevam

A água do Oronte

Até ao aqueduto

Que encima a cidade

Ou

A paisagem

Aos pés do monte Kasyun

Coberta de estrelas

Que caíram

E se fizeram

Pura luz esparsa:

A cidade de Damasco

 

Não sei

Se tornarei

A fazer a viagem nocturna

No comboio de Bagdad:

Alepo, N´nive,

Tikrit…

 

E se outra vez ainda

Poderei erguer os olhos

E ver a beleza de Nahila

Nos limites da sua açoteia.

 

 

Já ouvi dentro de mim

Um trovão

Fender-me a alma.

 

Para a unir de novo

Não sei o que terei de enfrentar.

                                             in Marthiya de Abdel Hamid Segundo Alberto Pimenta, 2005

                                                            http://perfeitopreterito.blogspot.com/

A Encomenda do Silêncio

Já reparaste que tens o mundo inteiro

dentro da tua cabeça

e esse mundo em brutal compressão dentro da tua cabeça

é o teu mundo

e já reparaste que eu tenho o mundo inteiro

dentro da minha cabeça

e esse mundo em brutal compressão dentro da minha cabeça

é o meu mundo

o qual neste momento não te está a entrar pelos olhos

mas através dos nomes

pois o que tu tens dentro da tua cabeça

e o que eu tenho dentro da minha cabeça

são os nomes do mundo em brutal compressão

como um filtro ou coador

de forma que nem és tu que conheces o mundo

nem sou eu que conheço o mundo

mas os nomes que tu conheces é que conhecem o mundo

e os nomes que eu conheço é que conhecem o mundo

o qual entra em ti e o qual entra em mim

através dos nomes que já tem

de forma que o que entra pelos meus olhos não pode

entrar pelos teus olhos

mas só pela tua cabeça através

dos nomes dados pela minha cabeça

àquilo que entrou pelos meus olhos já com nomes

e do mesmo modo

o que entra pelos teus olhos não pode

entrar pelos meus olhos

mas só pela minha cabeça através

dos nomes dados pela tua cabeça

àquilo que entrou pelos teus olhos já com nomes

e assim o que tu vês

já está normalmente dentro de ti antes de tu o veres

e assim o que eu vejo

já está normalmente dentro de mim antes de eu o ver

e tudo quanto tu possas ver para aquém ou para além dos nomes

é indizível e fica dentro de ti

e tudo quanto eu possa ver para aquém ou para além dos nomes

é indizível e fica dentro de mim

e é assim que vamos construindo a nós mesmos pela segunda vez

tu a ti e eu a mim...

construindo urna consciência irrepetível e intransmissível

cada vez mais intensa e em si

tu em ti eu em mim

no entanto continuando a falar um com o outro

tu comigo e eu contigo

cada um

tentando dizer ao outro

como é o mundo inteiro que tem dentro da cabeça

e porque é e para que é

tu o teu mundo que tens dentro da tua cabeça

eu o meu mundo que tenho dentro da minha cabeça

até que morra um de nós

e depois o outro...

Um poema        

«o carrinho dos uísques

e das revistas

a dizer coisas…

quem o empurra

é o cônjuge periódico

diz que a marca dos uísques

é sobretudo uma questão

de agradar ao olho.

se o papel fosse mais macio

podia-se

dizer o mesmo das revistas.»

                                                Alberto Pimenta, as moscas de pégaso, p. 25, & etc, 1988

 

Alberto Pimenta

Para melhor marcar simbolicamente o conteúdo satírico e insurrecto da sua obra, protagonizou eventos insólitos e desconcertantes, como quando, em Julho de 1977, se encerrou numa jaula de macacos no Jardim Zoológico de Lisboa ou, em Maio de 1991, se expôs para venda à porta da Igreja dos Mártires ou ainda, em Junho do mesmo ano, queimou publicamente o seu ensaio “O Silêncio dos Poetas”, entre vários outros episódios.

Esteve longamente auto-exilado por oposição política ao regime do Estado Novo, desde que foi demitido, em 1963, do seu cargo de leitor de Português na Universidade de Heidelberg, mas aí se manteve até 1977, quando finalmente regressou a Portugal.

Licenciado em Filologia Germânica na Universidade de Coimbra, desenvolveu uma intensa actividade literária relacionada com os movimentos experimentalistas, como poeta, narrador, dramaturgo, crítico e ensaísta e os seus textos, por vezes publicados numa configuração gráfica original, assumem um sentido polémico e vanguardista, como os seus próprios títulos podem evidenciar.

Dos seus livros mais notórios, apontamos “Discurso sobre o filho-da-puta” (1977), obra inclassificável que se avizinha do ensaio, “O silêncio dos poetas” (1978), um estudo sobre a poesia concreta e visual ou, “Ainda há muito para fazer” (1998), um longo poema que parodia os discursos publicitários e da internet.

Na data em que festeja os seus 74 anos,

Bibliografia de Alberto Pimenta

A magia que tira os pecados do mundo

Deusas Ex Machina

Discurso Sobre o Filho-da-Puta

Grande Colecção de Inverno 2001- 2002

Imitação de Ovídio

Marthiya de Abdel Hamid

O Silêncio dos Poetas

Ode Pós-Moderna

Prodigioso Acanto

Tijoleira

 

Enquanto o papa não chega

Todos  dão a sua achega*

 

 POR  EXEMPLO:

 As autoridades convencem com os dentes.

 

Os deputados erguem as nádegas

para lhes serem metidas moedas na ranhura

 

Os investidores apostam na sementeira

de guarda-republicanos.

 

Os magistrados justificam o uso

da força com a força do uso.

 

Os militares apóiam a democracia em

geral e o cão-polícia em particular.

 

Os tecnocratas correm o fecho-éclair

para fazer luz sobre o assunto.

 

Os psiquiatras metem o dedo no olho do

cliente para lhe aprofundar os desvios.

 

Os mestres ensinam os cães particulares

a defecar nos passeios públicos.

 

Os escritores erguem a voz acima de todas para

dizer que todas as vozes se devem fazer ouvir.

 

Os funcionários públicos zelam por que tudo

o que não é proibido seja obrigatório.

 

Os sacerdotes encaminham a alma

para o sétimo céu.

 

Os internados no manicômio recebem

coleiras novas com o número fiscal.

 

Os jornalistas dão peidos que abalam a

qualidade de vida da cidade.

 

O povo digere tudo porque tem

dentes até ao cu.

 

Os polícias de choque referem-se

às conquistas de abril.

 

Os anjos da guarda interceptam os

pacotes com as bombas e explodem.

 

 

                   In A visita do papa

              *Em espírito de profunda caridade pelas legítimas aspirações e valores autênticos         da humanidade

 

 elegia

 

já nada é o que era

e provavelmente nunca mais o será

e mesmo que o fosse

algo me diz que já não seria o que era

porque o que era

era o que era por ser o que era

do que eu me lembro muito bem

embora eu então não fosse o que agora sou

mas o que agora sou

ou estou a ser

é deixar de ser o que sou

porque eu sou deixando de ser

deixar de ser é a minha maneira de ser

sou a cada instante

o que já não sou

e o mesmo se deve passar com tudo o que é

motivo por que não admira que assim seja

quer dizer

quer nada seja o que era

e se assim é

ou  já não é

seja ou não seja

 

Poemas extraídos da revista POESIA SEMPRE, Num. 26, Ano 14, 2007. Edição da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

 

ligação

a palavra repousa de olhos semicerrados

encoberta por um véu deixando entrever

uma mama: o poeta aproxima-se tenta ma

mar. a palavra estremece abre os olhos.

o poeta afasta-se de um golpe tropeça

cai sentado. a palavra percorre-se com

as mãos a ver se está intacta. fica

pensativa os dedos enfiados nas tranças

brincando. o poeta aproxima-se então por

trás. agarra a palavra pela cinta. ela

tenta furtar-se ao contacto. caem. rolam

por terra. a palavra continua a debater

se. o poeta mete um dedo na vulva da

palavra. a palavra torce-se toda. depois

acalma. o poeta mete outro e outro de

do ainda, retira um hífen todo molha

do. a palavra cai ofegante. o poeta a

fasta-se com um sorriso mete o hífen a

o bolso e publica-o com uma palavra

sua na capa

 

carta a uma iniciante

daqui

donde estou

só posso dizer-te: aprende

as melhores maneiras.

passa as mãos por ti, mete os dedos

em todas as tuas entradas e saídas,

só assim as aprenderás

as melhores maneiras,

ou julgas que

facilmente encontrarás

quem tas ensine?

 

repara

como todos

te querem ensinar

as boas maneiras

mas já alguém te

falou das melhores?

já alguém

te deu a conhecer

e a cheirar

os caminhos da tua glória?

 

cuida-os,

dá-lhes toda a atenção enquanto

é tempo,

não te afastes nem te prives

do que és tu, do que tu és,

aproveita

bem o tempo antes que

comece o passado

a parecer-te

mais longo que o possível futuro

e tu

comeces

a cheirar daquele modo

que agrada e sobretudo atrai

a deus, o amador de cadáveres.

 

(…)

eu

a minha história

começou há milhares de anos

e continua é claro

está agora a passar-se

como a tua

e vai continuar a passar-se

durante não sei quantos anos mais

 

transformar homens em animais

ou em escravos que é o mesmo

eu conheço isso melhor que ninguém

o tempo é uma burla

inventada pelos deuses

que tanto fazem de Lucius um burro

dizem eles aos poetas

como também depois dizem e mentem

“trabalha para o futuro” quer dizer

trabalha sempre para eles

 

e como perguntas

se é o silêncio

que nos permite existir

olha que é verdade

nunca houve um acto limpo

na história

eu sofri por isso

e dito isto

pôs  a máscara de burro

vês o que é um escravo

disse ele

 

Lucius disse eu

tu és Lucius

                               (…) alberto pimenta o desencantador 7 nós 2011

fastos III

artur hipólito morreu com 62 an

os, 20 anos após ter feito 42, mas

na altura quem diria?

 

heitor fragoso morreu atropelado.

foi levado para o hospital, mas es

queceram-se duma parte do corpo

no local do acidente.

 

manuel testa morreu sem se ter c

onseguido habituar a este modo

de mal-estar no mundo.

 

arnaldo rodrigues caiu a um bur

aco da canalização e nunca mais

foi visto.

 

jeremias cabral pôs termo à exist

ência por motivos desconhecidos.

 

zeca gomes morreu em defesa da

pátria mas a pensar noutra coisa.

 

antónio de oliveira morreu igual

a si mesmo: triste sinal dos te

mpos!

 

bernardo leite pôs-se a pensar na

morte e não conseguiu voltar a

trás.

 

ivo gouveia tinha uma agência f

unerária e escolheu para si um

caixão representativo.

 

guilherme silva fechou-se no sót

ão, para morrer num lugar eleva

do.

luís dimas respirava saúde, agora

respira um hálito de eternidade.

 

antónio garcia, o coveiro, teve u

ma síncope e caiu dentro da cov

a que estava a abrir.

 

bento nogueira engasgou-se com

um pedaço de carne e desapare

ceu do nosso convívio.

 

paiva de jesus enforcou-se.

 

joão baptista viu o cunhado lev

antar-se do caixão e teve uma sí

ncope.

 

lourenço pinheiro estava a ver a

trovoada e um relâmpago entrou

lhe por um olho e saiu-lhe pelo

outro.

 

jorge velez de castro finou-se

após uma longa vida de sacrifí

cios, toda dedicada ao bem-comu

m. e foi assim: depois de ter inge

rido o seu sumo de laranja, foi c

onduzido para a cadeira de rep

ouso pelo enfermeiro de confian

ça. nela se conservou, de boca en

treaberta e olhos fechados, até

às onze horas. às onze horas, o e

nfermeiro de confiança aproxim

ou-se com a intenção de o condu

zir ao banho. pondo delicadamen

te a mão nas costas da cadeira,

disse: são horas do banho, senhor

director. como este não desse si

nal de ter ouvido, o enfermeiro

de confiança, com a costumada jo

vialidade, debruçou-se e repetiu:

são horas do banho, senhor direc

tor. posto isto, empurrou a cadei

ra até ao balneário, passou um br

aço pelos rins outro por baixo d

os joelhos do director, e assim o

levou para a água, só então se da

ndo conta de que ele já não vivia.

 

zé maria, o peidolas, foi expulso

da vida pela autoridade compet

ente.

 

joão gaspar foi um nobre e val

oroso homem que morreu heroi

camente no campo da honra. p

az à sua alma.

 

raul santos deitou-se um dia e p

or mais que o sacudissem nunca

mais se levantou.

 

alfredo penha caiu tão desastrada

mente da cama que nem é possív

el dar pormenores da sua morte.

 

joaquim perestrelo morreu no me

io da missa, qual quê! ainda a m

issa não ia a metade!

 

sousa dias morreu de pé, mas en

terraram-no deitado, como toda a

 

gente.

                                        http://web.letras.up.pt/vvouga/Antologia.htm

 

 porco trágico I

 

conheço um poeta

que diz que não sabe se a fome dos outros

é fome de comer

ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta

não é a sua ignorância:

pois estou habituado a que os poetas saibam muito

de si

e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta

é a distinção que ele faz:

como se a fome da sobremesa alheia

não fosse

fome de comer

também.

 

VISITANTES DO CONSELHO DIRECTIVO

e,

olhando o retrato da parede demoradamente nos olhos,

uivam lastimosamente.

e,

o retrato da parede, calando-se lastimosamente, olha-os

demoradamente nos olhos.

e,

eles, olhando o retrato da parede demoradamente nos

olhos, uivam lastimosamente.

e,

o retrato de parede, calando-se lastimosamente, olha-os

demoradamente nos olhos.

e

assim por diante.

 

ARTE POÉTICA

resta virgem

esta floresta

 

faz sua festa

honesta

e resta virgem

esta floresta

 

dá rebentos

todo o ano dá rebentos

e fica

como dantes

virgem

como vesta

ora esta

                             (in «Obra Quase Incompleta»),

          inteira a flor do mar guarda o teu nome

junto à proa da vaga e do coral

só os dedos das algas o afagam

com a seda e a sede em sua pele

 

só nos calhaus ondula a hora cheia

troncos parados sobre a terra vasta

fulgem abraços altos soletrados

por um tempo maior de gosto certo

 

só com tintas da tarde o oceano

te desenha nas praias sem farol

sem falcão sem fragata sem fogueira

 

só o caule do sol sustenta o dia

quando o sândalo cresce e mancha a brisa

encostada ao vitral que te nomeia

                                                                                         in «Só de amor»,

                                                                                                                                    Ática

carta

1. se v.exa. me permite

eu gostaria de dizer o que penso.

2. em primeiro lugar penso

que v.exa. anda

no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio.

3. v.exa. dirá que eu estou afirmando

que v.exa. anda para trás.

4. na verdade, nada me impede de afirmar que

v.exa. anda para trás.

não foi isso porém o que eu disse.

5. com efeito, não sei

se v.exa. anda para trás. segundo penso,

v.exa. anda no sentido oposto ao dos ponteiros

do relógio.

6. seria necessário poder afirmar com toda a

segurança que os ponteiros do relógio

andam para a frente,

para poder afirmar

com igual segurança

que v.exa. anda para trás.

7. mas quem está em condições de

afirmar com toda a segurança

que os ponteiros do relógio andam

para a frente? ninguém está

em condições de afirmar com toda a segurança

que os ponteiros do relógio andam

para a frente, porque, como v.exa. sabe,

os ponteiros do relógio andam à roda.

8. a única coisa que se pode afirmar com toda a

segurança

é que os ponteiros do relógio andam

à roda para um lado e v.exa.

anda à roda para o outro. os ponteiros

do relógio rodam para um lado e v.exa. roda

para o outro. de modo que v.exa. com

o seu movimento anula o movimento

dos ponteiros do relógio e vice-versa.

9. na verdade é como

se v.exa. não andasse e como

se os ponteiros do relógio também não andassem.

10. com efeito, nâo creio que v.exa. ande para a frente

nem que v.exa. ande para trás, nâo creio que v.exa.

ande para cima nem que v.exa. ande para baixo, nâo creio

que v.exa.

ande para direita nem que v.exa. ande para esquerda,

apenas suponho que v.exa. anda à roda de si mesmo.

no sentido oposto ao dos ponteiros do relógio e,

ainda,

de olhos fechados, nâo sei porquê, talvez

para nâo enjoar.

11. o que eu, em duas palavras, em segundo lugar penso,

ë que v.exa. usa um instrumento de osso ou de plastico

com uma enfiada de pontas aceradas, chamado pente,

a sim de estar sempre ben penteado, pois nada

perturba mais v.exa. que o receio de nâo

estar bem penteado, nada perturba mais

v.exa., e é por isso que só quando v.exa.

acaba de perder o cabelo todo se começa

a sentir um pouco à vontade, é, segundo suponho,

por isso.

12. de forma que a visâo de

v.exa. e dos restantes concidadâos

andando todos à roda de si mesmos,

no sentido oposto ao dos ponteiros de relógio,

de olhos fechados e cabeloscuidadosamente penteados,

é um espectáculo alucinante,

que v.exa. infelizmente nâo pode apreciar,

por ter os olhos fechados.

13. claro que v.exa. julga que só v.exa.

faz o movimento que v.exa. faz, e o mesmo

julgam os restantes concidadâos, poes

todos se consideram uma exsepçâo, um

caso unico, especial, e no entanto todos

formam uma régra, no seu movimento regular,

no seu circulo vicioso,

à roda de si mesmos,

no sentido oposto ao dos ponteiros do relogio,

de olhos fechados

e cabelos cuidadosamente penteados.

 

REFRIGÉRIO

um homem e uma mulher

aproximam-se de uma porta

com uma chave na mão.

avançam

como se não respirassem.

um deles

mete a chave na fechadura

e entram.

assim que fecham a porta

atrás de si,

olham-se um instante e

lançam-se um ao outro,

prendendo-se com as mãos e

abrindo caminho com a cara, com a boca.

passado pouco tempo

arrastam-se no chão

procurando cada lugar do corpo

com cada lugar do corpo,

arqueando-se

ou amoldando-se e

vorazmente passando de uma para outra entrada.

ambos têm a boca molhada

quando se levantam,

passada uma hora,

arfando enlaçados,

mas

devora-os ainda

uma sede quase infinita

e impossível de satisfazer.

 

ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, AMOR ARDENTE...

Nâo sei. Faltame un sentido, un tacto

Para a vida, para o amor, para a gloria.

 

Tudo passei: mais tenho tâo presente

A grande dor das cousas que passaram!

Para que serve qualquer historia

Ou qualquer facto?

 

Estou só, só como ninguém ainda esteve,

Oco dentro de mim, sem despois nem antes.

Parece qie passam sem ver-me os instantes

Mas...em minha perdiçao se conjuraram:

Passam sem que o seu passo seja leve.

 

Errei todo o discurso de meus anos,

Que as magoadas iras me ensinaram

A nâo querer já nunca ser contente.

 

Començo a ler, mas cansa-me  o que ainda nâo li.

Quero pensar, mais doi-me o que irei concluir.

Dei causa a que a fortuna castigasse

as minhas mal fundadas esperanças.

 

O sonho pesa-me antes de o ter. De amor

Nâo vi senâo breves enganos. Sentir

E tudo uma coisa

Como qualquer coisa que já vi.

 

Oh nâo ser nada, ser uma figura de romance,

Sem vida, sem morte material, uma ideia,

Qualquer coisa que nada tornasse util ou feia,

Uma sombra no châo irreal, um sonho num transe.

 

Os erros e a fortuna sobejaram,

Que para mim bastava amor somente;

Oh quem tanto pudesse que fartasse

Este meu duro génio de vinganças!

 

 

Quando de minhas mágoas a comprida

Imaginaçao os olhios me adormece,

 

No ouro sem fim da tarde morta,

Na poeira de ouro sem lugar

Da tarde que me passa à porta

Para nâo parar,

Em sonhos aquela alma me aparece.

 

No silencio dourado ainda

Dos arvoredos verde fim

Que para mim

Foi sonho nesta vida...

 

Recordo: eras antiga

E linda, e estas em mim.

 

Lá numa saudade onde estendida

A vista pelos campos desfalece,

Corro para ela,

E ela entâo parece

Que mais de mim se alonga, compelida.

 

(Tua memoria  há sem que houvesses,

Teu gesto sem que fosses alguém,

Como una brisa me estremeces

E eu choro um bem...)

 

Brado: Nâo me fujais, sombra benigna!

Ela, os olhos em mim com brando pejo,

Como quem diz que ja nâo pode ser,

Torna a fugir-me.

 

Perdi-te. Nâo te tive. A hora

E suave para a minha dor.

Deixa meu ser que rememora

Sentir o amor,

 

Ainda que amar seja un receio,

Uma lembrança falsa e vâ,

E a noite deste vago anseio

Nâo tenha manhâ!

 

E eu gritando: Dina

Antes que diga Mene,

Acordo e vejo

Que nem um breve engano posso ter.

ela no entanto tem as pernas levemente abertas

 

BUSQUE AMOR NOVAS ARTES, NOVO ENGANHO

para matar-me

E novas esquivanças;

Que nâo pode tirar-me as esperanças

Que mal me tirará o que eu nâo tenho.

 

O que há em mim é sobretudo cansaço--

Nâo disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansanço assim mesmo, ele mesmo,

Cansanço.

 

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que nom temo contrastes nem mudanças

Andando en bravo mar,

perdido o lenho.

 

A subtileza da sensaçôes inúteis,

As paixôes violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o siposto em alguém,

Essais coisas todas--

Essas e o que falta nelas eternamente;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

 

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Ha sem dúvida quem deseje o impossivel,

Há sem dúvida quem nâo queira nada---

Trés tipos de idealistas, e eu nenhum deles;

 

Mas, conquanto nâo pode haver desgosto

Onde esperança falta,

Lá me esconde amor um mal

Que mata e nâo se vé;

 

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possivel,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se nâo pude ser...

 

Eo resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço.

Um supremissimo cansaço,

Issimo, íssimo, íssimo,

Cansaço...

 

Que dias há que na almame tem posto

Um nâo sei quê,

Que nasce nâo sei onde,

Vem nâo sei como

E doi nâo sei porquê.

faltalhe um pau, quer isto dizer.

 

         Alberto Pimenta, Iraque e Ovídio Vozes e Silêncios da Inquietação, por Pádua Fernandes - Agosto 2006.htm

En posfácio a unha antoloxía de Alberto Pimenta, A encomenda do silencio (São Paulo: Odradek Editorial, 2004), escribín que a inexistencia era a estratexia poética e política dese autor.  O carácter experimental de súa obra manifestábase na desaparición do autor, dos xéneros, do verso, das propias letras. Nesta pasaxe, mencionaba un dos varios exemplos:

 

A multifacetica obra de Pimenta ofrece diversos exemplos da estratexia da inexistencia. Busquemos un caso intertextual: "as notas da carraça" (Bestiário Lusitano, 1980) é composto só das palabras que rimam das quince primeiras estrofes do Canto I dos Lusíadas, e de notas ao curioso poema así formado, que o refiren como descricción da vida dos piratas... A inexistencia de Camões nas propias palabras camonianas fixo que a voz anticolonialista de Pimenta reverberasse na vella trompeta épica e colonialista. [p. 164-165]

 

 

Ese experimentalismo, pois, se conxugaba a un engajamento político presente tanto en súa biografía (a súa rexeita a apoiar a política colonialista de Portugal na África levouno ao exilio na Alemaña1) canto na súa poesía, que trata de temas como o fascismo, o imperialismo, prisioneiros de guerra, a Unión Europea, a tortura... Desa forma:

 

 

Alberto Pimenta pertence a unha tradición contestatória; Pimenta cumpre o papel de contestador cunha estratexia da inexistencia, que asume diversas facetas: desaparición do poético, do autor, do xénero, a repetición, o exilio.

[...]

Por tanto, a estratexia da inexistencia, con súa relación metonímica co exilio, a denegação, a desaparición, a morte, a sombra, móstrase apropiada para indicar o papel social do poeta no presente estágio do capitalismo contemporáneo e nas presentes modas académicas. [p. 169]

 

 

A estratexia e o engajamento continúan. No fin de 2005, Pimenta publicou Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta (Lisboa: &etc), longo poema dividido en trinta e cinco partes (é posíbel, porén, lelo como un conxunto de trinta e cinco poemas), dedicado á invasión do Iraq polos EUA. En abril de 2006, foi a vez de Imitação de Ovídio (Lisboa: &etc). Trátase de dous libros aparentemente moi diversos; porén, "ambos márcanse polo engajamento en (e contra) un tempo hostil"2.

A estratexia da inexistencia asume en Marthiya outra forma: non é Alberto Pimenta, mais un poeta iraquí que se dirixe ao lector. A estratexia é tan ben-sucedida que a propia dicção do poeta é outra, cun lirismo raro en súa obra:

 

 

San moitos

Os que tropezaran xa

Nun sulco de terra.

Eses

Non tornarán a ver

O disco da aurora. [p. 13]

Se non me mataren

Nin

Me colleren vivo,

Mantenche alerta,

Mantén alerta

O desexo máis antigo

E o máis novo. [p. 50-51]

 

 

Ese lirismo, con todo, non é, de forma algunha, politicamente inofensivo, pois se conxuga á ironia, como nesta pasaxe que se refire á chegada dos invasores:

 

 

Viñeran

A esta terra

Por amor

Dos que a habitan

(foron as súas

palabras da boca).

Esperaban que

Rejubilássemos

Coa súa presenza,

E fósemos

A palacio

Levar unha vénia

E carne fresca.

O amor

É un asasino

Dicía

al-Dschahis

Hai mil

E douscentos anos,

(palabras do corazón,

estas). [p. 37]

 

 

Ese lirismo non se nega a describir os detalles máis rudes; sobre os invasores, di:

 

 

Lanzando sobre o vento quente

Outro vento incandescente,

Facendo sombras que

Encubriron as árbores

Que comezaban agora a ser.

Adubadas a osos

Con carne

Aínda pegada,

Carne antiga,

Babilônia descarnada. [p. 9-10]

Dentro da auga,

Rabos mal metidos

En pneumáticos de camión,

Lanzan uns aos outros

Sandálias recheas:

Dentro delas

Ficou

A sombra da carne

Que as calzou,

Ou será só efecto da luz?

Ao lado do mural,

Os nomes

Das súas principais

Operacións:

"Violación colectiva

do bulldog",

Por exemplo. [p. 35-36]

 

 

A inexistencia do poeta portugués (que, paradoxalmente, marca a súa presenza) neste libro iraquí de Pimenta é que torna tan convincente súa postura antiocidental: "Non é ningún apaixonante/ Drama histórico,/ É parte da historia do roubo/ Que sustenta o Occidente." [p. 25]. A asunción do ton lírico da poesía árabe dos diváns fai que Marthiya sexa antiimperialista non só no contido, mais na súa propia forma. Non por acaso, el foi boicoteado por librarías de Portugal (país que non enviou soldados, mais que tivo até mesmo poetas, como Vasco Graza Moura, que apoiaran abertamente a invasión do Iraq) despois de ser lanzado na Mesquita de Lisboa...

Se a marca da historia é a catástrofe, o que Pimenta describe é un despertar para o tempo histórico: "Cando as primeiras/ Bombas caeran/ Bagdad aínda durmía" (p. 8). O pasado é evocado de forma idílica: "Hai mil anos/ Nas bibliotecas de Bagdad/ Había máis libros/ Que nun millar/ De conventos dos cristiáns." [p. 24].

Se me veres

Un sorriso

E un cesto de pan

Nas mans,

Non é un misterio:

Sabes

Que estou a contemplar

O pasado.

O pasado

É hoxe

A visión do paraíso. [p. 19]

 

 

Cal será o resultado do conflito? Non se sabe; o libro termina coa impossibilidade de ver ese futuro:.

Non sei

Se tornarei

A facer a viaxe nocturna

No tren de Bagdad:

Alepo, Nínive,

Tikrit... [...]

Xa ouvín dentro de min

Un trono

Fender-ma alma.

Para a unir de novo

Non sei o que terei que afrontar. [p. 54]

A actitude do elocutor ? volverse para o pasado (para Babilônia, para a vella Bagdá), que o divide entre o que foi e o que non máis é, movido pola catástrofe, non deixa de invocar a noción de historia encarnada no Anxo da nona das Teses sobre o concepto de historia de Walter Benjamin: el ve "unha catástrofe sen modulação nin tregua, amontoando os cascallos e os proxectando eternamente diante dos seus pés"3. O Anxo está de costas para a sociedade futura (non sabe como ela será, por tanto), mais a "tempestade", a que damos o nome de progreso "", continúa ao impelir para fronte.

O libro, certamente, contesta o progreso occidental ("Tamén crearan máquinas/ Para devorar o" tempo [p. 46], di dos invasores). Esa contestação e o volverse ao pasado diante da catástrofe parécenme corresponder a móbil tamén do libro seguinte, Imitação de Ovídio.

Pimenta vólvese ao poeta romano non para o citar ou falar das desventuras da Antigüidade. El evoca, como fai o autor antigo, o contraste entre un pasado mellor e un presente de infortunio; xa llo ve na epígrafe, da oitava elixía do libro IV de Tristia de Ovídio4. A hostilidade do tempo actual reflete-se desde a capa, baseada en colagem do autor. Nela, se ven dous corpos que naufragan entre rasuras e restos de texto de lingüística ? a rasura chega a obscurecer o logotipo da editora.

Os tempos actuais naufragan, prendidos a "ideas que/ ao nacer/ xa non son nascentes/ e / van todas en dirección ao poñente" [p. 9]; "o home/ non é o señor da verdade/ e a relixión/ está de volta" [p. 46]. Os homes estão perdidos "cargando/ males/ e mails" [p. 22], mentres a pobreza aumenta:

 

 

por exemplo e

a propósito,

hai máis

miseria

que hai vinte anos

e entón

xa había

este dito:

hai

máis miseria

que

hai vinte anos. [p. 44-45]

 

 

O aumento da pobreza alíase ao uso instrumental dos dereitos humanos, que son distorcidos para favorecer a dominação, nunha estratexia da decepción (segundo Paul Virilio5), ou como cabalo de Tróia (de acordo con Norbert Rouland6). Trátase de tema común aos dous libros, e que xa aparecera na obra de Pimenta. Ese uso instrumental pode revelarse na invocación da liberdade que, porén, serve só como pretexto para unha política imperialista. En Marthiya, lese sobre a política supostamente liberadora dos invasores do Iraq (que entrarían no país para liberalo da ditadura):

 

 

Pois pretenden

Encamiñarnos despois

Para outro campo

Que están a tentar

Estabelecer:

Cercado a toda a volta

Das súas liberdades. [p. 42]

 

 

Na Imitação, pódese ler sobre as políticas de inclusión social:

 

 

mais

non nos ollen así

como

se nos fosen excluír

ou incluír

(penso que é o mesmo) [p. 12]

 

 

Nos dous casos, temos o desrespeito á autonomía, problema que é abordado tamén en textos teóricos do autor7. Mais, nestoutro libro, o problema é visto so unha ótica principalmente individual, e non a de un pobo (que é o que ocorre en Marthiya ). Hai un tempo colectivo, de decadencia, mais tamén un tempo individual, da madureza, que rexeita, porén, diante da pasaxe dos anos, os consolos familiares da paternidade. Así o elocutor di á amada:

 

 

non nos quero reproducir, xa sabes,

non quero contribuír con

a perda anticipada

do corpo

que se parte,

e a eternidade non está

aí. [p. 36]

 

 

Fálase a ela, non como garantía da posteridade, mais como suspensión da pasaxe: o amor "non é unha forma/ de duración,/ é unha forma/ da suspender.// da ter/ presa de nós. " [p. 26].

O poema maniféstase como un longo discurso á amada, dividido en catro partes (I, II, III e a súa suma, VI), que busca outras ideas (en divertido fragmento, compara a antropoloxía, a filosofía e a socioloxía coa "policía xudiciaria" [p. 57]), contra a decadencia dese mundo que comeza a apodrecer:

 

 

[...] as nosas ideas

non chegan

onde

non queren chegar

para aí pór unha pedra

elas espatifam-se

contra os osos do crânio

e traen á boca

sangue tirado ao corazón:

non é así, amor? [p. 12]

 

 

Como as "palabras/ son dispositivos/ só sanitarios" [p. 52], o elocutor busca escribir cos corpos: "os lanhos, todos eles,/ ábrense/ coa lingua" [p. 34]. A amada, que non é unha das damas que "van/ aos peiteadores/ a todos/ e nada [...] van/ ás farmacias/ a todas/ e nada" [p. 39], escribe con el:

 

 

nós

coa boca

saboreamos

lanhos

que a nosa boca

abriu

e que nunca máis

cicatrizarão.

cando toco a corda dos teus cabelos

e ti dis:

máis abaixo!

si, eu sei. [p. 29]

Trátase do "fin/ do alfabeto,/ desta infâmia,/ deste crime letrado:" [p. 60]. Con todo, Pimenta non se ilude coas políticas do corpo, cuxo potencial emancipatório parece terse esgotado nas décadas de 1960 e 1970. O elocutor diríxese á amada, coa punta do dedo rodéalle "a esfera" de saliva [p. 62], mais non sabe o que, a quen, e se aínda podería dicir. O libro termina coa interrogação: "e ti?/ ti sabes?" [p. 63].

O poeta Manuel de Freitas, en texto publicado no xornal portugués Expresado (Esplendor & Miseria: Entre a ironia e a corrosão, un longo poema de Alberto Pimenta. 15 jul. 2006), destaca a exemplar "mestria prosódica que, non abdicando da ironia e da elipse, concede a este poema un ritmo e un grao de persuasão a que só a mellor poesía accede". Só podo concordar, e debo aduzir que ese discurso poético, pola acumulação de silencios, de respostas que non son dadas, camiña en dirección ao silencio e ao nada (as palabras calan, os corpos se ausentam), á inexistencia.

Ese inexorábel camiño fai que o desencanto marque o libro (outro paralelo con Ovídio, alén do amor e do exilio):

poesía

propiamente dita

não hai medio de acontecer,

é como matar un pássaro

onte

cunha pedra

lanzada hoxe [p. 59]

Mais a inquedanza permanece. É preciso responder á pregunta:

e poderemos aínda

colaborar

para que a morte

non sexa

a mellor forma de liberación? [p. 61]

                                                                                                agosto, 2006

 

 

              «Eu, apesar de não saber também o que essa palavra significa, não faço a pergunta. Não, porque saber o significado não me resolve nenhuma questão. O significado é paragem no tempo, e a questão é justamente o movimento. Porque poesia durante muito tempo parece que foi sonoridade, ritmo sonoro obtido com palavras; só muito mais tarde se tornou sobretudoescrita e, depois disso ainda, imagem criada a partir de palavras escritas: ritmo visual. Esta evolução dá naturalmente que pensar.»

          

Alberto Pimenta, Acerca da poética ainda possível

in Poemografias: perspectivas da poesia visual portuguesa

Fernando Aguiar; Silvestre Pestana (orgs.), Lisboa, Ulmeiro,1985, p.31.

 

O homem que ainda não desistiu de encontrar «um triângulo de quatro lados» chegou exactamente ao meio-dia, conforme combinado. Alberto Pimenta é dono de uma pontualidade afrodisíaca, o que é apenas um dos seus muitos pontos de confronto aberto com a sociedade portuguesa. Nascido no Porto em 1937, viveu na Alemanha durante dezassete anos e só continua português porque, pelo meio, houve o 25 de Abril. Garrett, Bocage, Eça, Pessoa, Mário de Sá Carneiro são algumas das suas referências culturais. Fazem parte da lista dos seus prazeres pessoais, assim como o Cavaleiro de Oliveira, António Sérgio, Camões, Aquilino, António José da Silva, Cesário Verde. Pelo estilo e pelos temas, considera que a literatura portuguesa contemporânea é um deserto, com alguns oásis: Herberto Helder, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Vergílio Ferreira, Luiz Pacheco, José-Emílio Nelson e poucos mais. De Saramago acha que «tem coisas muito boas, mas abusa dos truques de estilo».

O livro mais recente de Pimenta, «Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta», reflecte um empenhamento político pouco vulgar na poesia dos dias que correm. E sobretudo uma coragem grande, expressa com o rigor de linguagem a que o autor nos habituou em livros como «O Labiritodonte», «Discurso Sobre o Filho-da-Puta», «O Terno Feminino» ou «Deusas Ex-Machina». Também por isso esta conversa – numa tarde de sábado, à mesa de um restaurante do Bairro Alto – foi um grande prazer.

– É compatível a ideia do prazer com a crise deste tempo?

– Se nós pensarmos que o prazer custa dinheiro, obviamente que o prazer é influenciável pela crise. Se pensarmos que o prazer é uma certa atitude de espírito, que se reflecte no corpo, que é – eu não quero dizer uma filosofia, embora na origem estejam filósofos, para não parecer que sou treinador de futebol – mas se quisermos dizer que é uma filosofia, então é independente, ou quase, do dinheiro que se tem. Claro que há prazeres pontuais que só podem ser adquiridos através do dinheiro, são prazeres que estão à venda. Por exemplo, este charuto que estou a fumar. Mas há muitos outros, há uma infinidade de prazeres que dependem do nosso estado de espírito, da nossa capacidade de ir ao encontro deles e de os trazer para nós. E portanto só em parte é que eu acho que, em época de crise financeira, há problemas em realizar os prazeres. E até talvez aqueles de que mais se gosta sejam os que menos custam em termos de dinheiro…

– De que prazeres podemos falar para além dos charutos que estão à venda? Os teus prazeres, por exemplo…

– O charuto é um prazer da boca. A boca é uma das entradas, é um dos cinco sentidos, e chega a reuni-los todos. Porque a boca dá o gosto, o paladar, não é ela que dá o aroma, mas o aroma está presente. E há o tacto, porque a boca também tem tacto, os olhos também gostam de ver… De qualquer maneira, os prazeres são uma questão dos cinco sentidos e de um sexto que é o resumo desses todos: o espírito, a mente. Eu dou a primazia, como os empíricos, à percepção e à sensação: as coisas vêm pelo corpo. Mas não podem acabar aí, têm que se transformar em coisas do espírito. E um charuto tem tudo isso, é um dos pequenos prazeres. Mas a grande questão é a da implicação dos sentidos, e isso tem por trás uma filosofia. Quem está na base desta reflexão da entrega ao prazer como uma forma de realização na vida são dois filósofos gregos: Epicuro e Aristipo, que foi ainda discípulo de Sócartes. Aristipo propõe o aproveitamento máximo de cada prazer, e isso é o hedonismo, enquanto Epicuro é um moderador, entende que a finalidade da vida é ter prazer e felicidade, mas que esse prazer, para ser constante, não pode ser excessivo, já que isso nos vai afectar na saúde do corpo e do espírito.

– Entre os dois, onde é que te situas?

– Eu sou mais hedonista do que epicurista. Não tenho vocação para uma felicidade moderada, contínua, a minha vocação é para procurar o prazer, excessivo e intenso, quando existe essa possibilidade. E depois passar, naturalmente, as inevitáveis ressacas… Mas há uma coisa em que eu sou epicurista, e se calhar era por aí que devia começar, na minha idade: a questão da morte. A atitude epicurista a este respeito fez escola em certas classes, em Roma. Porque a morte é uma coisa que pertence à vida, embora muitos pensem que não. A morte digna é uma felicidade a que o homem tem direito. É, ainda, a busca da última felicidade possível para uma vida. A morte digna já não pode ser exactamente como no tempo dos romanos, na banheira, a cortar lentamente as veias, com rosas a boiar na água, rodeado dos amigos e das amigas… Mas o que vejo hoje é que a maioria das mortes são indignas: as pessoas são depositadas em lares de terceira idade – que são eufemismos para matadouros: tal como as vacas e os bois, as pessoas, quando já não servem para o trabalho, vão para o matadouro. Porque esta é uma sociedade de trabalho, de produção! Nós estamos aqui a falar daquilo que é o mais politicamente incorrecto, que é o prazer. Que já não conta, não interessa, pelo contrário, porque vai prejudicar a capacidade de produzir – que é a única que interessa a esta ordem, a este poder. Produzir o quê? Produzir riqueza. Produzir riqueza para quê? Para acumular. Não é para distribuir e para gozar, já ninguém sabe bem o que isso é. Basta nós ouvirmos com atenção os discursos que as excelências nos dirigem: nós somos tratados como «cidadãos», como «contribuintes», como «funcionários», mas nunca como pessoas. O ser humano está em segundo plano. Mas o ser humano, no seu íntimo, sabe e sente que a única razão da vida é ser feliz, sem com isso prejudicar outros...

– No passado, o homem acreditou na possibilidade de ser feliz em função do trabalho. Houve um retrocesso em relação a isso?

– Sim, os primeiros socialistas, no século XVIII... Não é desde sempre: em muitas das civilizações antigas conseguiam isso à custa de escravos. E hoje também – agora chamam-se assalariados, empregados por conta de outrem, mas é o mesmo. Os utópicos socialistas do século XVIII e ainda do século XIX queriam era acabar com os escravos, arranjar máquinas que fizessem o trabalho, para que todos pudéssemos ter alguma felicidade, cada um à sua maneira. Agora, vamos perguntar seriamente à maioria desta população que espécie de prazer é que tem. E se, nos primeiros anos da infância, ainda tem uma grande liberdade de inventar palavras, de criar o seu mundo, a pouco e pouco, desde o princípio da escola até ao fim, é levada a substituir isso por uma ordem que deve ser o mais possível igual para todos, por forma a estarem preparados aos vinte e tal anos para produzir, trabalhar, servir. «Credere, obbedire», na lapidar antecipação de Mussolini a Berlusconi & Companhia Ilimitada. Ora, isto pode ser uma perversão minha e de outros, mas eu acho que é a negação de uma consciência de existir que tenha por fim ter nem que seja só uma ponta de felicidade que vá além de alegrar-se com a vitória do Benfica. Porque isso não é exactamente felicidade, é uma embriaguez.

– Há uma frase da Hélia Correia para caracterizar essa coisa dos futebóis, em que ela diz que é um desperdício de sentimentos…

– Eu acho lindíssimo. Claro que, para alguns, poderá ser o único sentimento que podem ter, o que já fala pela sociedade em si, não é? E para outros é de facto um desperdício, porque aquele sentimento poderia ter sido aplicado de uma maneira mais humana, em relações humanas concretas de qualquer espécie. Nem estou a pensar no amor, mas em relações humanas que, em vez de acabarem ali – porque o indivíduo integrou-se na massa, e é isso que leva a fenómenos como o da guerra, e outros paralelos: são fenómenos de massas, em que o indivíduo se dilui e perde a consciência de si, para aceitar fazer o que lhe é exigido. E se lhe é exigido fazer a sua causa triunfar tem a tal embriaguez. A questão é considerar ou não considerar a obtenção de felicidade como a razão de ser. Felicidades diferentes, claro, não podem ser iguais porque senão estaríamos – no sentido em que a palavra é hoje utilizada pelos liberais – a «sovietizar» o prazer…

– O que seria uma infelicidade…

– No entanto, em relação às sociedades antigas, perdeu-se esse sentido que orientou até as pesquisas científicas. A máquina tinha por função simplificar, tornar a vida do homem mais descansada, contribuir para o ócio e, assim, para o prazer. Isso perdeu-se, a ponto de hoje, quando se fala em «choque tecnológico» e coisas parecidas, é no sentido em que já não é preciso pensar. Nem convém, há uns botões que resolvem tudo! Pensar é um crime. E então a matemática (que não é um saber crítico, mas comparativo), a tecnologia, dá a resposta. O botão resolve, ele sabe. O homem está lá apenas para o manejar, porque por enquanto ainda é preciso o dedo para carregar no botão. Claro que o dedo tinha funções muito mais interessantes, em relações de várias espécies que procuram o prazer... O tacto é mesmo imprescindível ao prazer. Procurar o prazer implica pelo menos um dos cinco sentidos – e, se forem todos, tanto melhor. É muito difícil olhar para uma mulher bonita e considerá-la o máximo do prazer visual – e uma mulher tem a vantagem sublime de ser, ao mesmo tempo, um objecto da natureza e um objecto fabricado. Uma mulher, ou um homem para uma mulher – mas claro que eu falo do meu ponto de vista, ou do ponto de vista do falo... Ou do murmuro, ou do cicio... Ao olhar para uma mulher, a visão parece quase total, mas logo a seguir nós queremos ouvi-la. Uma vez, eu estava num bar e ouvi atrás de mim uma voz que me fez estremecer dos pés à cabeça. Claro que isto foi há muitos anos, não sei se hoje ainda estremeceria, porque nunca mais ouvi uma voz assim. São raras, mas há vozes destas. Depois, se gostamos, queremos tocar. Mas, claro, sabemos que não é possível, que há um interdito. E está certo, porque ela poderia não querer, e nós não podemos ter o nosso prazer se ele não for partilhado e aceite, se for uma violência para o outro. Isso já não é prazer, pelo menos para mim que não sou sádico. E, avançando um pouco mais, chegaríamos ao aroma e ao gosto. Mas esses já levam àquele ponto que faz com que também a gastronomia, os prazeres da boca, sejam tão importantes e estejam tão associados ao prazer do amor…

– Há pessoas que, quando se fala em prazer, pensam logo nos prazeres do sexo, ou até em pornografia…

– Bom. Aí temos de ter cuidado com os vários conceitos. Pornografia é uma coisa, sexo é outra. Eu falei de amor, e o amor implica o sexo, mas é uma maneira diferente de falar. De facto, eu acho que vai tudo lá ter, porque cada homem e cada mulher são metade de qualquer coisa que nós não sabemos bem o que é. Pode ser uma coisa muito ridícula, e até infame, que enche as revistas que estão aí à venda sobre o amor dos príncipes e do raio que os parta a todos! E esses excluem o sexo, a não ser o reprodutivo. E aquilo que, com razão, pode ser designado por amor não é apenas sexo nesse sentido reprodutivo. Amor, no sentido que estou a usar, é um movimento simultaneamente de espírito e de corpo que se manifesta por uma compulsão inexplicável racionalmente – foi misteriosamente que ganhou a forma de um absoluto qualquer. E esse absoluto vai realizar-se através do corpo. Por isso se fala muitas vezes em alquimia, no elemento químico, porque o amor, em última análise, é o incorporar totalmente: as bocas tocam-se, toca-se o corpo todo, de todas as maneiras possíveis, e esse será talvez o prazer supremo que tornará os dois num só, que é quase como a divindade. Pode durar umas horas ou um dia, não precisa de durar muito: foi divino naquele momento. Dificilmente durará muitos anos, porque as oscilações do humor – humor nos vários sentidos – fazem com que seja impossível manter esse estado para sempre. Durante anos, o que se pode manter é uma responsabilidade que se criou num momento desses, mas que depois já não vai dar esse prazer. Porque esse é o prazer limite, o prazer máximo, o que hoje é condenado…

– Esta luta quase sanguinária contra os tabacos a que assistimos hoje significará que há outras coisas, como o prazer do amor, que vão ser hostilizadas por princípio?

– Esse tipo de campanha fundamentalista contra prazeres que pretensamente incomodam o próximo, tudo isso é pensado por gente do norte da Europa, por calvinistas. São tipos pouco inteligentes mas muito rigorosos e exactos, que têm, como na Suécia e na Finlândia, uma lei que não é seca, é meia molhada: os desgraçados estão controlados, têm uma caderneta e só em função dela é que podem comprar bebidas alcoólicas! E por isso, quando entram num avião, por exemplo, daí a meia hora já estão pelo chão, a babar-se... Mas aquelas almas não perceberam ainda isso, continuam a pensar como se fossem feitos de números e matemática pura. Cada vez mais sinto uma coisa que não se deve sentir e que não gosto de sentir: não é ódio, mas é um desprezo profundo pelas civilizações do norte da Europa. Esses indivíduos têm um grau de inteligência que se tornou muito pequeno após se afastar tanto e duma maneira tão obsessiva do macaco, do animal. Ou seja, do natural. Eles funcionam hoje mais como máquinas do que como pessoas. Suecos, finlandeses, essa gente toda…

– Que são apresentadas como sociedades modelares…

– Sim, modelares nesse sentido, no sentido da organização estrita onde cada um funciona como um robot. É nesse sentido que apontam as normas estipuladas pelo acordo de Bolonha sobre a Educação: se as normas dizem que o professor deve estipular o número de horas que o aluno vai levar para preparar a disciplina, é porque entendem que todos os alunos são iguais, são peças duma máquina. Isto não serve para o ser humano. Agora diz-se que fumar mata. Mas não fumar também mata: eu nunca conheci ninguém que não fumasse e que ficasse vivo eternamente! São muito primitivos, toda essa corja é muito primitiva! E nós, que temos ainda capacidade de ter prazer, temos fatalmente de estar contra isso. Mas não é fácil, sobretudo a partir de uma certa idade: aos 20 anos é-se anarquista, aos 40 é-se bombeiro!

– Falavas há pouco na preparação de uma morte digna, um último prazer…

– A questão da morte, para quem é assumidamente ou hedonista ou epicurista, coloca-se sempre. A pessoa terá que, em certo momento, perceber que os prazeres que pode ter já não lhe são suficientes. E não pode deixar-se nas mãos dos que o vão transformar num pacote de sofrimento. Eu ainda não estou nesse ponto, mas um dia vou ter que pensar nisso.

– Essa tua «sanha» contra os povos do norte da Europa, tem uma equivalência relativamente aos Estados Unidos da América?

– Claro! Esses não são bem do Norte, mas foram os piores do Norte que para lá emigraram. E que estão a tentar transformar o mundo à sua imagem e semelhança, ao seu estilo. Aquele estilo que nós conhecemos, que é profundamente desumano e desumanizado, onde a miséria é brutal, onde os preconceitos são imensos, onde impera muita estupidez de convivência e de vivência e onde há uma tecnologia altamente avançada que finge compensar isso. Qualquer indivíduo que preze a sua humanidade como capacidade de chegar ao prazer tem de ter uma sanha grande contra essa gente. Do frio vem tudo isso, e é esse frio que eu não quero.

– A propósito dos americanos, chegamos inevitavelmente à questão árabe. A cultura árabe desperta-te interesse?

– Muito, muito. Embora haja um ponto que não podemos escamotear: há três religiões, monoteístas, que são fatais – o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. O monoteísmo é fatal porque transmite a ideia do dogma, do absoluto, enquanto que as religiões que têm muitos deuses encontram em cada um uma verdade própria: há uma divindade da força, outra da violência, outra do amor… Há, assim, várias formas de distribuir o pensamento humano, de o remeter para energias distintas. Ao passo que o monoteísmo é fatal. No entanto, dos três monoteísmos, o islâmico é o que ainda tem um envolvimento e uma certa capacidade de se relacionar com questões do prazer que para as outras duas são tabus. E além disso teve momentos de criação – poética, política, científica – interessantíssimos. Basta ver aqueles movimentos todos do tempo do Al Andaluz, aquilo é muito bonito. Assim como é bonito, num certo sentido, o tabu da imagem, por entenderem que é uma falsificação do que transcende a possibilidade de representação. Isso dá uma dimensão totalmente diferente da nossa «dimensão de santinhos».

– A tua actividade docente dá-te prazer? O ensino em Portugal é um prazer?

– Pode ser e pode não ser. E actualmente com a unificação que se está a tentar, talvez se torne mais difícil. Mas depende do tema de que se trata e dos alunos que se têm. Actualmente está a aparecer uma série de jovens com atitudes muito críticas e muito produtivas, coisa que há dez anos não havia. Eu tenho a sorte de ter disciplinas de opção, e só lá vai quem tem interesse. E é agradável, porque não se trata de transmitir um conhecimento que está nos livros, o que é um bocado árido, mas é o acto de criar em conjunto uma relação com coisas novas. E só se pode criar em conjunto, até os meninos só se criam em conjunto, pelo menos por enquanto. Só a poesia é um acto de criação solitário.

– Isso leva-nos à questão do prazer da escrita…

– A escrita é um grande prazer em certos casos, noutros caos é um grande sofrimento. O começo, geralmente, traz algum sofrimento. Mas a partir de certo ponto, quando o caminho já está claro, torna-se um prazer.

– Tu és um homem muito crítico relativamente a Portugal. Aqui há uns anos, o Mário Dionísio dizia que a democracia instalou-se e foi rapidamente absorvida pelos gregos e troianos…

– É, é uma coisa antiga. Os judeus passaram todos a ser os cristãos-novos. E por isso o Marquês de Pombal dizia que todos, sem excepção, até o rei, temos um grãozinho de sangue judeu. É esta capacidade de adaptação que faz com que os portugueses quando emigram se integrem melhor. Os estrangeiros adoram os portugueses: o espanhol chega a outro país e continua a ser espanhol, o italiano continua a ser italiano. O português não: chega e, daí a uns dias, já está a fazer aquelas coisas que eles fazem.

– É doloroso viver em Portugal?

– Em certos momentos, sim.

– O que é que te agride mais?

– Agride-me muito a coscuvilhice dos vizinhos, agride-me muito esta tendência portuguesa para se preocuparem tanto com o que os outros fazem, agride-me a falta de responsabilidade: se um vizinho partir o vidro do lado, vai arranjar mil maneiras de dizer que a culpa foi do vidro. Em Portugal é assim. Isso torna difíceis as relações humanas. Se, no restaurante, eu disser que o peixe estava estragado, o empregado vai-me dizer que ninguém se queixou. Não vai simplesmente ver porque é que o peixe está estragado. Há uma desconsideração geral incomodativa.

– Há uma mediocridade congénita em Portugal?

– Acho que há. Há uma mediocridade até na capacidade de ter prazer: a maior parte das pessoas nem sabe o que isso é. Estou a lembrar-me dum poema de Apollinaire em que ele diz – e cito de cor – «riam, riam de mim, homens de todo o mundo, principalmente pessoas daqui, porque há tantas coisas que eu não ousaria dizer-vos, há tantas coisas que vocês não me deixariam dizer, tende piedade de mim.» Já Herberto Helder disse: «vós, os desta nação, ignorais muitas coisas.» Os portugueses não sabem nada: confundem, o amor com casar e ter filhos…

– A Igreja, aí, teve um papel importante…

– Mas há Igreja em todo o lado! A Inquisição era o lugar onde o namorado fazia a delação da namorada porque ela não lhe ligava, ou vice-versa. Existem registos disso. É um país de delação, realizada ou não realizada, é um país de medo, são poucos os que o não têm – e esses são os que se estão marimbando para a carreira. E há principalmente muita inveja, mesmo ao nível dos prazeres: quando se sabe que o vizinho do lado foi para casa com uma rapariga e se calcula que não estão só a conversar, no dia seguinte nota-se a inveja.

– Há algum futuro plausível para Portugal?

– Não sei. Em termos de sociedade, vai continuar assim enquanto as outras continuarem assim. Quanto ao resto, não sei. Há tantos séculos que as coisas são assim, que não vai ser fácil mudar. Seria óptimo, mas não vejo como…

– Há uns anos, num texto sobre os portugueses, dizias que «os alemães não gostam de trabalhar, mas sabem que é preciso e fazem-no de forma eficaz»…

– Isso é um facto, e é um dos lados positivos da organização nórdica. Num restaurante, em Portugal, eu só ouço as pessoas falar do trabalho e, quando chegam à repartição, estão a falar dos filhos ou da roupa interior. E, se forem homens, de futebol. Na Alemanha é o contrário: enquanto estão a trabalhar, trabalham, e ao almoço não falam de trabalho… É uma das coisas boas que eles têm.

– E que também contribui para a produtividade dos alemães. E talvez lhes aumente o prazer…

– É verdade. Eu, quando falei dos nórdicos, estava a referir-me mais aos suecos, aos da Noruega, da Finlândia, da Holanda. Os alemães, principalmente os do sul, têm uma grande capacidade de prazer. Os do norte menos. São muito diferentes. Há uma linha, que passa ali por Frankfurt, e que eles próprios dizem que é a linha separativa da cerveja e do vinho: para baixo bebe-se vinho, para cima cerveja. São muito diferentes, até fisicamente.

– Neste teu último livro [«Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta», ed. & Etc], pôs-se na pele de um iraquiano. Este é o primeiro livro de um autor português sobre a invasão do Iraque…

– Este livro aconteceu-me. Não fui eu que encontrei o projecto, aquela forma veio ter comigo. E parece-me muito difícil escrever poesia sobre um tema desses. Porque, para haver poeticidade, é preciso tomar uma atitude muito radical de rejeição da guerra, saltar por cima de toda a espécie de ideologias e continuar ligado a uma paisagem que está sempre presente. Aliás, este livro não apenas anti-americano é anti-ocidental. E tudo isso nem sequer faz parte do interesse da maioria dos poetas, que estão muito virados para o «eu», o que torna a poesia coisa de si mesmo.

– O que te parece esta recente polémica dos cartoons de Maomé?

– Parece-me que o mínimo que se pode dizer é que foi uma falta de sensatez total publicar cartoons daqueles num momento em que existe todo este problema. Mas, em absoluto, um cartoon a gozar com a religião dos outros vai até contra os princípios que são sagrados aos nórdicos e que estão expressos na carta dos Direitos Humanos: o direito à religião e a não ser discriminado por ela. Não fazem muito sentido, e sobretudo não são nenhum exercício de liberdade. Exercício de liberdade era publicar aquilo no Cairo. Se eu, em Lisboa, publico um cartoon a gozar com o Futebol Clube do Porto e, no Porto, publico um cartoon a gozar com o Benfica, eu não estou a fazer nenhum exercício de liberdade.

– Eu acho é que os cartoons não tinham grande graça…

– Além do mais é isso. Agora, a reacção aos cartoons tem a ver com toda uma situação em que há uma civilização a agredir outra. Aquilo foi uma brincadeira de garotos, uma brincadeira de dinamarqueses. Uma brincadeira de nórdicos!