Os Maias, a leitura obrigatória e ...

O “negócio” das Aprendizagens Essenciais na boca de alguns
O tratamento escolar de um livro passa, em grande medida, ao lado da sua leitura

«Muitos alunos, por causa do “negócio” das Aprendizagens Essenciais, não terão a oportunidade de estudar o mais admirável romance da nossa literatura» – leio no artigo de opinião de Carlos Reis1 – «Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, (…) o ME (…) abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária».2 

Permito-me discordar: nem os jovens estudantes são forçosamente afastados d’Os Maias, por força das Aprendizagens Essenciais, nem as escolas de “elite” [sejam elas privadas ou públicas] são reconhecidas como tal, por fazerem da sua leitura [ou de qualquer outra obra de qualquer outro autor], livro de leitura obrigatória. Porque quando se faz da leitura de um livro leitura obrigatória, é para o conhecimento da obra [a ser avaliado em testes e exames] que a preocupação do aluno se vira. E como quem anda nestas vidas da pedagogia bem sabe, entre os meios que o estudante tem ao seu dispor, a leitura do livro é o menos eficaz, para passar no exame.3 Além disso, como defende Daniel Pennac, a leitura não aceita imperativo! Tenho até, para mim, a teoria de que, paradoxalmente, o livro de leitura obrigatória afasta o leitor do livro que é obrigado a ler, re­me­tendo-o para os livros que dizem do livro, o que ele precisa saber. Seguindo esta teoria, Os Maias tem mais hipóteses de ser lido agora, que pode ser objecto de escolha, do que alguma vez teve anteriormente [saibamos nós incidir sobre ele o foco certo].

Falta conhecimento pedagógico no debate educativo, que traga bom senso e questione o senso comum, pouco sensato tantas vezes. E neste sentido, onde Carlos Reis vê «uma desistência inadmissível e uma intolerável quebra de confiança na competência dos professores e no seu desempenho para motivarem os alunos», eu vejo a manifestação de confiança no seu bom senso. Porque o bom professor é sensato: vê na liberdade de escolha, que as Aprendizagens Essenciais lhe oferecem, não o pretexto para aligeirar o seu trabalho, mas a oportunidade de construir, com os seus alunos, um currículo que respeitante as necessidades fundamentais de todos.4 Então, atrevo-me a ver, na condenação desta possibilidade de escolha, como que uma espécie de inversão de valores. Isto porque, no que respeita ao desenvolvimento do gosto pela leitura de uma obra literária, a sua leitura não é um meio mas um fim, para o qual concorre o modo como o livro é dado a conhecer.

Com Umberto Eco, diria que «estamos rodeados de poderes imateriais (…). E entre estes poderes incluiria o da tradição literária (…), o conjunto de textos que a humanidade produziu e produz não para efeitos práticos (…) mas antes por amor de si própria».5 Então, a obrigação da escola [o seu propósito ou o seu projecto] é dar conta da tradição literária como um dos mais importantes poderes imateriais que nos rodeiam, e fazer com que o encontro com o livro [não na obrigação de ler, mas de conhecer], que daqui resulta, seja traduzido [ao menos a prazo] num propósito de leitura.6

Entre a promessa de um leitor para o livro e o leitor que o lê porque obrigado, e por isso num movimento que o afasta dele, ao ponto de no final não desejar voltar a ele, esque­cendo-o, prefiro seguramente a promessa de um potencial leitor.


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NOTAS

1 Os Maias na encruzilhada das escolhas”. Público online de 2018.07.24
2 O facto de não ser obriga­tó­rio desde 2008 é, para Car­los Reis, apenas a insistência num erro. 

3 Quando se faz de um livro uma obra de leitura obrigató­ria, o foco deixa de ser a lei­tura para ser a per­gunta para a qual é preciso en­contrar a resposta certa. 

4 Digo necessidade, que não con­fundo aqui com desejo: neces­sidade de aprender a ler, aprender a pensar, a re­flectir…


5 In «Sobre literatura». Lis­boa Relógio D’Água, 2014: p. 11
6 À conta do que ouvi e li so­bre livros, e do que fiquei a co­nhecer sobre eles sem os ler, devo a lei­tura de muitos livros que me de­ram grande prazer ler.