Aprendizagem no Jardim-de-infância

Dizer que «devia ser proibido aprender a ler e a escrever no jardim de infância», 
é de uma arrogância inqualificável - Daniel Lousada [LER EM PDF >>>]
 

Leitura e escrita na educação infantil


Dúvida sobre a idade certa para alfabetizar

Ultimamente e com muita frequência, leio títulos como, «Libertem as crianças», «Do que as crianças precisam é de brincar», «Não transformemos o jardim-de-infância numa escola», 

«As crianças precisam de ser crianças» …, expressões que seriam muito sensatas, não fora a perspectiva em que se inserem: de que há uma idade para brincar e outra para aprender,1 e de que compete ao adulto decidir [somente a ele] o que as crianças podem ou não fazer no jardim-de-infância. Eduardo Sá, por exemplo, diz que «devia ser proibido aprender a ler e a escrever no Jardim-de-Infância»!2 [o ponto de admiração é meu]. Felizmente que «as crianças têm o péssimo hábito de não pedirem autorização para começarem a aprender».3

O jardim-de-infância é isso mesmo, um «jardim». Um local onde a criança «floresce», com a ajuda de um «cuidador» que procura garantir que não «murche». Se fosse apenas [reforço apenas] para a criança brincar, era parque-infantil, tinha vigilantes e dispensava educadoras [ou educadores]. Não é local onde as crianças vão «aprender» a ler e a escrever(?), mas é lugar onde as crianças constroem representações importantíssimas sobre a escrita, com a ajuda dos seus educadores [ou educadoras]. Como construí-las, se este objecto mágico estiver ausente?

Se me dissessem que deviam ser banidas, da educação pré-escolar, a cópia interminável de grafismos, a picotagem do contorno de um desenho em movimentos repetidos, a «escrita» infindável de linhas de letras sem sentido, e outras enormidades que tais, diria que nem na escola deveriam ter entrada e que nada disto tem a ver com a escrita.

A iniciação à leitura e à escrita não acontece quando o adulto decide. E como refere Emília Ferreiro, «é necessário imaginação pedagógica para dar às crianças oportunidades ricas e variadas de interagir com a linguagem escrita (...). É necessário entender que a aprendizagem da linguagem escrita é muito mais que a aprendizagem de um código de transcrição: é a construção de um sistema de representação».4 Talvez porque este entendimento esteve presente na sua vida, que Alberto Manguel descobriu «pela 1ª vez que sabia ler aos quatro anos. Já tinha visto, vezes sem conta, as letras que sabia [porque me tinham dito] serem os nomes das imagens debaixo das quais se encontravam. (…) eu sabia que aquelas formas não só reflectiam o menino que se encontrava por cima delas, mas que também me podiam dizer exactamente o que o menino estava a fazer (…)».5 A escrita só é objecto de tortura se for apresentada como tal. Basta colocar um livro ao alcance de uma criança para sentir a magia que se estabelece entre eles. E é tão só isso que se pede no jardim-de-infância: apresentar a escrita como «aquele objecto mágico» e deixar-se levar pelas interpelações cheias de curiosidade das crianças.

Dizer que a aprendizagem da escrita devia ser proibida no jardim-de-infância é de uma arrogância inqualificável. Atrevo-me mesmo a dizer que só ignorando o que significa «aprender», ou desconhecendo o sentido que se procura imprimir à relação da criança com o «trabalho» no jardim-de-infância, ser-me-ia possível compreender uma proibição deste género.


1. De repente, fica-se com a impressão de que brincar e aprender são actividades que se excluem.
2. In «Eduardo Sá e o ensino pré-escolar». Pais & filhos, 2013.Maio.19
3. Emilia Ferreiro, «Dúvida sobre a idade certa para alfabetizar». Nova Escola, 2013.Maio.07 [Canal do youtube]. 
4. Deve-se ou não se deve ensinar a ler e escrever na pré-escola? In «Reflexões sobre alfabetização». São Paulo, Cortez Editora, 1991: pp. 96-102
5. «Uma história da leitura». Lisboa, Editorial Presença, 2010: p. 19
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