A ESCOLA COMO EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO

 

Por: Roberta Binatti

 

  

A escola é uma organização que exerce um papel imprescindível em nossa sociedade, ela é responsável por muito mais que a pura e simples transmissão do saber, ela tem o dever de contribuir para a transformação social e, concorrer para o desenvolvimento da consciência crítica de sua clientela.

 

A escola é uma instituição prestadora de serviços que lida diretamente com o elemento humano. Segundo Vitor Paro:

 

Aí, o aluno, não é apenas o beneficiário dos serviços que ela presta, mas também participante de sua elaboração. É evidente que essa matéria-prima peculiar, que é o aluno, deve receber, um tratamento todo especial, bastante diverso do que recebem os elementos materiais que participam do processo de produção, no interior de uma empresa industrial qualquer. [...] (PARO, 2005, p.126)

 

A postura empresarial assumida por uma instituição de ensino auxilia-a a se libertar de esquemas que não suportam mais as tensões e assumirem a necessidade de se transformar. Apesar das inevitáveis transformações, a escola precisa preservar sua missão, o seu caráter, os seus valores. Pestana (2003) “Uma escola moderna não precisa abdicar do seu rosto, da sua identidade”.

 

Para que uma escola sobreviva num mercado cada vez mais exigente e competitivo como o existente nos dias atuais, de acordo com André Pestana:

 

[...] É fundamental que o corpo diretor da escola (empresa) entenda que os seus alunos (clientes) representam a razão da existência da sua escola, que o seu maior patrimônio são funcionários e professores. E principalmente, na condição de prestadores de serviços, precisam investir continuamente em recursos humanos, científicos e tecnológicos. Nenhuma organização, seja ela política ou econômica, pode fechar os olhos a essas mudanças. A empresa de hoje não se limita mais ao seu tamanho físico ou poder econômico. A estrutura jurídica que quiser ultrapassar os próximos dez anos deve estar comprometida com a sua rua, o seu bairro, a sua cidade, o seu país. (PESTANA, 2003 p.22)

 

Por muito tempo, a escola esteve presa a modelos administrativos reprodutórios. As salas de aula eram idênticas, os pátios, a cantina, os banheiros e o autoritarismo de professores e diretores formavam um ambiente que se acreditava ser o ideal de uma escola. Mas o mundo mudou, e a sociedade apresenta-se como um organismo em constante mutação, com isso, a consciência coletiva em relação a um modelo ideal de escola também mudou e hoje se encontra de modo bastante diversificado.

 

Enquanto empresa, a escola precisa atender aos interesses de uma política que prioriza as demandas do mercado, no qual a modernidade educacional está atrelada ao universo do mundo do trabalho. Surgem, então, propostas que fortalecem as práticas interativas e participativas no interior da escola, acirrando-se o discurso em torno de questões como descentralização, participação e autonomia.

 

A sociedade contemporânea é cada vez mais dinâmica, competitiva e veloz, a informação é instantânea, a globalização está fazendo com que as fronteiras econômicas, políticas, culturais, sociais, científicas e tecnológicas desapareçam.

 

O aluno de hoje não aceita mais a simples condição de expectador, de mero receptor do conhecimento alheio, ele tem buscado participar de modo cada vez ativo do processo educacional. Ele cobra o respeito à sua individualidade, opina sobre o que fazer ou que profissão seguir, questiona o poder estabelecido e atua claramente em defesa daquilo que acredita ser sua verdade.

 

A empresa-escola precisa manter suas portas abertas à sociedade na qual está inserida, deve ser um exemplo do exercício da cidadania, precisa inserir-se nas campanhas sociais da sua comunidade e incentivar o diálogo entre alunos, professores, diretores e funcionários em geral dentro da própria instituição.

 

O grande desafio do sistema educacional, nos dias de hoje, é o tratamento da escola como uma empresa prestadora de serviço. A escola é uma empresa prestadora de serviço educacional que pode ser pública ou privada. Cabe ao Estado a oferta de um serviço de qualidade que atenda a população de uma maneira geral, sobretudo os mais necessitados, ficando, então, à iniciativa privada àqueles que tem condições de pagar e que estejam a procura de opções diferenciadas.

 

O caos em que se encontra a realidade da escola pública no Brasil fez com que as instituições privadas ganhassem força, com um crescimento desordenado, estas instituições muitas vezes não possuem a qualidade desejada por seus alunos, pais e sociedade.

 

O descaso do governo com a escola pública gera um aumento da demanda pela escola particular, com isso, surge a concorrência entre as escolas particulares, onde estas para sobreviverem precisam se transformar em organizações complexas e bem administradas, isto é, empresas.

 

O aluno é o beneficiário imediato do processo de produção pedagógica, portanto, é possível afirmar que o trabalho de prestação de serviços, que ocorre nas escolas, é caracterizado pela presença permanente do seu principal consumidor, o aluno, no ato de produção.

 

A aula não é o único produto da educação escolar, embora seja efetivamente a aula que se acredita remunerar quando se compra a educação. A aula, porém, é apenas uma atividade, um processo através do qual se buscam determinados resultados. O fato de a aula, importante, mas não único, instrumento do processo de ensino-aprendizagem, pressupor a não-passividade do aluno é um aspecto determinante da própria natureza do processo pedagógico. Esse aspecto é de grande importância na determinação do produto da escola, pois é pela participação ativa do aluno que se dá a aprendizagem deste.

 

Avaliar serviços é uma tarefa bem mais complexa que avaliar produtos industrializados, avaliar, então, o desempenho de uma instituição de ensino enquanto produto consumido individualmente é uma tarefa ainda mais desafiadora, uma vez que esta avaliação não deve considerar tão-somente os benefícios que a pessoa obtém com a educação, mas especialmente a medida em que a educação formal pode concorrer em benefício da própria sociedade.

 

Ao assumir o papel de empresa prestadora de serviços, a escola, por meio do seu gestor terá de colher informações que afetam direta ou indiretamente a atividade escolar para que seja feito um planejamento embasado em informações seguras. Os responsáveis pela administração escolar devem conhecer, entre outros: o perfil do seu consumidor, do seu público alvo; a atuação dos seus diversos departamentos; o comportamento da concorrência; a qualidade dos serviços oferecidos; a interação com alunos, pais, professores e comunidade na qual está inserida; as tendências e expectativas do mercado e; parâmetros para ações presentes e planejamento para o futuro.

 

Não obstante muitas escolas estarem percebendo cada vez mais a importância de se reconhecerem enquanto empresas prestadoras de serviços, o fato de a escola ser ou não uma empresa ainda e bastante polêmico em nossa sociedade, quanto a esta polêmica, André Pestana:

 

[...] Continuamos com aquela visão diletante e muito pouco empresarial. A pretexto de discussões políticas e ideológicas, ignoramos a inexorabilidade das transformações em todos os segmentos humanos. Dessa forma, os meios de comunicação entendem a escola somente como um dever do Estado e ponto final. Ouso afirmar que por falta de informação e de estruturação por parte das escolas particulares a opinião pública tem acesso somente a um lado da moeda – a escola pública. Aonde estão os nossos diretores que não se mexem na direção de campanhas de esclarecimento junto à opinião pública, explicando o imenso esforço demandado pelas escolas particulares na construção de uma sociedade mais competitiva, aberta e inserida nessa nova ordem social mundial. É a mesma história de sempre. O Estado não consegue fazer o dever de casa e fica de coitadinho. Quando empreendedores sérios se lançam na aventura de construir escolas, fazem porque acreditam que podem contribuir para o crescimento do país e de todos, e no entanto, acabam transformados em vilões. (PESTANA, 2003, p.46)

 

O reconhecimento da escola enquanto empresa facilita sua organização administrativa e faz com que aqueles que desejam desempenhar o papel de diretor ou gestor se preparem adequadamente para bem administrar a escola que pretendem dirigir. Pois, ainda nos dias de hoje, encontramos nas escolas uma cultura centralizadora, muito pouco participativa e focada em resultados de curto prazo, nestas escolas, normalmente é aquele que foi um excelente professor quem assume a direção da instituição, por falta de conhecimento administrativo este diretor muitas vezes não é competente enquanto gestor.

 

Para André Pestana, o grande erro que os administradores escolares cometeram, foi o de não pensar a escola como empresa:

 

A visão era diletante, amadora ou simplesmente ortodoxa e baseada no conceito de troca aula / aluno. Os resultados não poderiam ser diferentes. Criamos dois grupos dentro da mesma escola (empresa). O grupo administrativo (secundário) e o grupo pedagógico (principal). A partir da formação desses dois times com níveis de importância diferentes ficou configurado que a canoa iria ter dois grupos e cada grupo remaria para um lado. Depois de várias tentativas, ainda não saímos do lugar. (PESTANA, 2003, p.92)

 

A sustentabilidade de uma escola depende diretamente das estratégias do marketing educacional, que tem a função de orientar as instituições de ensino no planejamento estratégico, na busca de um caminho menos turbulento para o futuro, tendo em vista o ambiente competitivo, diversificado e dinâmico no qual estamos inseridos, mas sempre respeitando as características do serviço a ser prestado, a educação.

 

A escola é uma empresa feita por e para pessoas, é um organismo vivo, dinâmico e em permanente transformação. Ela é um importante instrumento que pode e deve ser utilizado na busca de uma transformação social, por isso, ao assumir sua posição de empresa prestadora de serviços, a escola não pode se entregar aos interesses das classes dominantes, beneficiando e enaltecendo os interesses do mercado e de uma ideologia específica, em detrimento dos interesses humanos e de suas múltiplas necessidades.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

PARO, Vitor Henrique. Administração escolar: introdução crítica. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2005.

 

PESTANA, André. Gestão e educação: uma empresa chamada escola. Petrópolis, RJ: Catedral das letras, 2003.

 

 

Roberta Binatti é graduada em Administração de Empresas pela Faculdade Moraes Júnior e pós-graduada em Administração Escolar pela Universidade Cândido Mendes / Instituto a Vez do Mestre.