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EDITORIAL 2012 - Sobre a Filosofia no Currículo da Educação                                          Idiomas em Translate

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Após vinte e seis séculos de existência como saber sistematizado, ainda se pergunta qual a necessidade da Filosofia, sobretudo para a educação? Em tese seria o mesmo que perguntar sobre qual a necessidade da razão para o homem ou do raciocínio para o conhecimento?

 

Mas, já que a pergunta é a gênese de todo o filosofar e que a dúvida persiste, ainda que provavelmente oriunda da falta de conhecimento e compreensão da condição humana, então; torna-se imperativo que a Filosofia aceite mais este desafio e, sem restrições, esforce-se em jogar luz sobre essa sombra que lhe acompanha desde a sua  efervescência nos tempos de Péricles.

 
A Filosofia surge do diálogo, da reflexão das situações vividas e sua tarefa é buscar o esclarecimento da razão humana para torná-la livre de toda a ignorância; semente de todo o mal.

 

Como nos advertiu Sócrates (470,399 a .C. )  “nenhum homem há de preferir o mal, conhecendo verdadeiramente o bem”. Há que se ressaltar que o bem Socrático diz da sabedoria e da consciência  ética, o que torna cada um de nós capaz de fazer girar a roda das virtudes humanas; da justiça, da anti-violência e dos valores supremos, justamente o que nos torna mais humanos.

 

Contudo, para dissertar sobre sua necessidade a Filosofia deve recorrer ao método da investigação pela pergunta conceitual, ou seja, a pergunta que visa ao significado do que está sendo investigado. No caso, a necessidade da Filosofia para a educação.

 

Assim posto, a pergunta de raiz é: o que é  necessidade? Aristóteles (384 -322 a C.)  já havia refletido sobre essa  questão e a conclusão que chegou é que “O necessário é aquilo que é, e não pode deixar de ser”. A Necessidade é um imperativo categórico, no sentido de que não há  liberdade de escolha a quem se depara com ela. A Necessidade é uma “condição à priori”, é o que não deixa a opção de não existir. É necessário, por exemplo, que o triângulo tenha três lados, para ser um triângulo, é necessário que o homem seja dotado de razão, para ser um ser racional. Deste modo, a Necessidade é o que não pode não ser.

 

Dado o significado conceitual do que seja “Necessidade” cabe agora indagar se a Filosofia é então necessária.

 

A dificuldade maior em abordar tal questão vem de uma outra dificuldade talvez ontológica, a de definir antes, o que é a própria Filosofia. Tarefa árdua, já que muito se refletiu sobre essa questão e até hoje não se conseguiu definir em um só conceito, o todo que a Filosofia é.

 

Admitem alguns, que a Filosofia é o  conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer rumo a felicidade. Ela é a busca do sentido das coisas, das origens, das causas, dos meios e finalidades universais, do homem e do mundo. A Filosofia é a investigação sobre o princípio uno de todas as coisas, da essência escondida na sombra das aparências é a investigação da verdade ocultada pelas ideologias. Nesse sentido a Filosofia é também um agir contra-ideológico, é a ação da razão consciente, contra o engano das aparências e da alienação que nos escraviza.

 

Mas o certo é que todos estes conceitos acabam por reduzir o significado do todo que a Filosofia é.  No entanto, não se pode negar,  que a Filosofia é de todo modo,um reaprender a ler o mundo, em suas letras mais miúdas, interpretando as verdades mais ocultas desse texto cósmico, afim de provocar nos homens, o despertar de sua própria consciência –  entendendo  consciência como a descoberta de si mesmo; condição para a descoberta de todo o resto –  e, se despertar e desenvolver a própria consciência, é uma necessidade humana, então; a Filosofia também o é pela mesma causa, pois, a Filosofia se confunde com a própria consciência.

 

Em sendo a Filosofia, em síntese, um “reaprender a ler o mundo”, então; a “alfabetização” e o “letramento” desse sujeito que pensa, passam necessariamente pela educação, que por sua vez, necessita da investigação, da reflexão, dos conceitos e fundamentos metodológicos, axiológicos e críticos da Filosofia e da Sociologia para sustentar seus modos, meios e fins.  Assim, podemos inferir que Filosofia e Sociologia  são imprescindível ao homem por ser uma atividade humana necessária e sua arché, seu princípio, é a gênese da natureza humana que são: a perturbação  a curiosidade e desconfiança investigativa diante do aparentemente normal, é uma atitude reflexiva e crítica ante a inospitalidade do mundo, e a capacidade humana de tomar consciência, ante a possibilidade da descoberta de sí-no-mundo. – O homem é um ser, que quer saber! – somos homo sapiens, e a força anímica que nos move nessa direção, é o amor à sabedoria, é o “PHILOS-SOPHIA”.

 

Queremos compreender primeiro a nós mesmos, depois ao outro, o mundo, a sociedade, a natureza, o transcendente e as relações objetivas, subjetivas e intersubjetivas existentes entre todos esses fatos e fenômenos que se nos apresentam envoltos ao véu do mistério.

 

A saga do homem é desvelar esses mistérios e compreender os princípios e fins de tudo isso, para dar sentido a sua própria estada e itinerância no mundo.

 

A Filosofia é mesmo necessária para que o homem possa saber observar uma vez, tudo que tem visto todos os dias e a Sociologia, para que ele compreenda sua natureza de ser social e político e, o meio e o “lócus” privilegiado para tal pesquisa é a educação, por ser esta a prática das humanidades e referir-se à formação mais humana deste ser inacabado. Isso, através do desenvolvimento das potencialidades, habilidades e criticidades dos sujeitos.  Assim, a educação se faz  uma atividade mediadora na construção do projeto homem rumo à humanidade. A educação é como um veleiro, cujas velas são sopradas pelos ventos utópicos do conhecimento. A Ciência lhe oferece o método e as técnicas de navegação, a Filosofia, marca o norte, o rumo e o porquê da navegação.

 

Sem a fundamentação filosófica para se fazer realizar, – já que toda pedagogia é uma filosofia -, a educação esvazia-se de sentido e invariavelmente vai à deriva na busca de sua finalidade, como, aliás, vem ocorrendo hoje que a Filosofia e outras áreas das humanidades estão relegadas A uma participação menor na prática educacional.    Deste modo, a educação corre o risco de se transformar apenas em um instrumento ideológico, de coisificação desse ser inacabado que é o homem, isso, se sua formação for deixada a sorte de uma prática puramente técnica, “funcionalista” e  cientificista.

 

Mas, a educação de mãos dadas à Filosofia, a Sociologia e ao Ensino Religioso, assegura-se em seu sentido original e caminha soberana rumo à sua função primeira, só assim, as humanidades e a educação estarão se realizando em suas finalidades que são, no conjunto, as de despertar as consciências retas-verdadeiras, as habilidades reflexivas e críticas, a capacidade de se fazer juízos corretos de valor sobre nossa realidade na construção do sujeito livre de toda ignorância para que possa agir e pensar com retidão ética no caminho da virtude, da verdade, da solidariedade e da antiviolência, da justiça e da liberdade que ao fim e ao cabo, visam a felicidade humana no mundo.

 

Westerley Santos

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