Os Cotrim da Bahia

O ramo conhecido dos Cotrins da Bahia tem origem no alto sertão baiano.

É seu patriarca um certo Antonio Xavier de Carvalho Cotrim, que teria saído de Portugal em 1 de Fevereiro de 1735. Sabe-se que casou com Angela Maria de Jesus, falecida em 10/04/1751 com quem teve um filho (Antonio) . Sabe-se também que casou novamente e era morador em Rio de Contas, na Bahia em 1771.(*)

Data de 2 de dezembro de 1752 carta em que Benedito Manoel Egas José de Carvalho Cotrim, estando na Bahia escreve a seu irmão, Antonio Xavier - que estava em Portugal, através da qual pode se reconstituir toda a história.

Os descendentes de Antonio se fixaram em cidades que hoje são Guanambi, Caetité, Caculé, Brumado e outras. No final do século XIX, após a grande seca, muitos se mudaram e foram tentar a sorte principalmente com o café em São Paulo, se fixando em cidades como Rio Preto, Pitangueiras, Batatais, Rio Preto e outras.

(*) dados coletados por Paulo Alcobia Neves e Erivaldo Fagundes Neves 

(veja abaixo: fac-simile da carta supra-citada. Ao final uma interpretação pessoal do que diz o texto. Para quem se interessar em saber como ler uma carta escrita em português arcaico recomendo ler sobre Paleografia Portuguesa no site www.genealogias.org)


 
 


Em 2 de Dezembro de 1752

 

Meu caro mano e amigo do coração. Recebi a tua carta que muito estimei pela certeza de que gozas saúde e que não tinhas preterido de tuas lembranças nem (ilegível) que me motivava certa persuação haver quatro annos que não (ilegível) de letras tuas; porém como logres saúde (ilegível) por muitos anos é o que mais desejo. Eu aqui vou passando melhor do que mereço a Deus e sempre a tua obediências quando te queiras servir dos meus préstimos.

Em primeiro lugar repetidas vozes te dou os parabéns não só do vosso estado, mas do Vosso acerto (ilegível) que me representa a idéia , julgo que esta Ma. Sr2ª (parece ser Minha Senhora) será um compendio de perfeições, Deus por sua infinita misericórdia te conserve em graça e deixe lograr por muitos anos com todas as felicidades que desejas. Bem sei que em carta separada devia eu a essa Ma. Sr2a(?) fazer  patente sacrifício da minha escravidão, certificando-lhe  quanto mui serão estimáveis os empregos de obedecer-lhes; mas bastará que (ilegível) demonstração de afeto me representes a (ilegível) de meus sentimentos.

O Dr. A quem na tua carta me dizes incumbistes a diligência de teus proclamas, nem o conheço, nem quis procurá-lo porque o que eu possa fazer não o peço a outrem: antes me servirá de grande estímulo que tu em qualquer dependência que tenhas nessa terra ocupes outra pessoa, enquanto te não constam que se acabarem meus dias.

 Vai a certidão de bentos em forma reconhecida pelo Juízo da Índia e Minas, em duas vias porque se se perder uma fique a outra destas.

Verás que te mandei proclamas na freguesia de Encarnação, Santos e São Mamede com três proclamas em cada freguesia e uma em cada freguesia circunvizinha às três demais. Com o que se mandou passar esta certidão que te remeto em forma (formal?), porém as tuas asneiras no tempo de rapaz agora é que se sentem porque certamente lá te (ilegível) por duvida em não constar da dita certidão onde te desobrigaste o ano de 34.

Consta da dita o teres batizado na freguesia de Encarnação e nela te desobrigaste pelos anos de 27-28-29-30 e no ano de 31 em S. Mamede e por todos os mais anos desde o tempo de menor idade até o ano de 33 em a frequesia de Santos excetuando os acima referidos. Mais claro, nascestes em uma quarta-feira pela madrugada do dia 28 de Setembro do ano de 1707 isto é o que consta do novo livro dos acentos .

 Consta da certidão te desobrigaste em a freguesia de Santos  desde a menor idade isto é,do ano de 1719 até  1726, os quatro anos de 27-28-28-30 na Encarnação, o de 31 em São Mamede, o de 32-33 outra vez na mesma freguesia de Santos. Isto é o que consta dos livros das freguesias e disso vai a certidão.

Porém em fazendo a minha conta acho que tu te ausentaste dessa terra em uma terça-feira, 1o dia do mês de Fevereiro do ano de 1.735 e nesta terra não consta que tu te desobrigastes o ano de 34 nem está nos livros dos acentos e se neste ano fizeste algumas confiçois (confissão) foi só da amante e não de católico(?) em final do ano de 35 lá (ilegível) ou nessa cidade. Vê como poderás lá em (ilegível) juntamente o ano de 34 que aliás não será fácil (ilegível) a dúvida que lá te hão de por. Mas como já estas casado o que se segue de prejuízo é perder o depósito em castigo de tua penitencia e omissão pois me lembro ser preciso que a nossa Santa Velha te andasse chorando e fazendo suplicas para que te confessasses.

Vamos a dar notícias desta terra , saberás que depois da morte dos velhos fiquei na posse da Quinta do Raposo e nela me conservo até o presente para o que denunciei no juízo dos Resíduos Eclesiásticos que testamento de Luiz de Souza se não tinha cumprido.  Constituiram-me testamenteiro dativo, fiz sequestro na dita Quinta, avoquei todas as demandas para o dito juíso e para servir avm.as  até hoje duraram e durarão enquanto eu quiser porque com os mesmos rendimentos da Quinta lhe sustentam as demandas contra Francisco Xavier  e contra os herdeiros de Felipe da Cruz e contra todos os demais credores que por todos são outras demandas com que me divirto brincando com estes meninos.

Agradeço a procuração suposto que já dela não precisava porque quando chegou (ilegível) para os credores, quanto mais para os herdeiros e por entender isso vou eternizando (otimizando) as cousas.

Saberás que teu irmão Francisco  Xavier está feito Alferes de Cavalos e nesta promoção que proximamente se espera ficará tenente.

Seus filhos José Xavier. e Manoel Xavier. , ambos tem o habito de Crsto e estão creados del Rei e não dos menos validos, estão no foro de criados particulares, suposta ainda não tem alvará, mas tem seis moedas de mesada e dois criados que El Rei lhes dá para os servir. Ambos tem praça de soldados e qualquer deles sairá por alferes do Regimento de Caiz. Deus lhe de vida, que são bons rapazes e eu sou seu amo. (amigo) e lhes devo muitas finezas suposto que (ilegível) trato.

Dona Teodora faleceu haverá dois anos, ficaram dois filhos e seu marido com quem também (não?) tenho amizade.

Saberás que o rapaz Francisco.de Paula, filho de João Baptista de Carvalho  saiu valente como os “Scipiões Africanos”, porém é mais desgraçado (ilegível) fez várias (ilegível) ultimamente.  Em uma noite, e por sua mãe Anta. (Antonia?) Bernarda se vê livre dela, pediu ao Governador de Mazagão o levasse consigo para dita praça(?), assim sucedeu e no primeiro choque que teve com os Mouros  quis ostentar tanto de valor que lhe deram três pelotadas com que o derrubaram do cavalo e o levaram, que melhor fora morto, porque depois dele estar lá 3 meses, mandando o Governador resgatá-lo e dois companheiros que com ele foram cativos, vieram os dois e ele não quis ter apostatado da religião e finalmente morreu louco furioso, parece que motivado de uma gangrena que lhe sobreveio na parte onde se circuncisou.

Mais nada de novo que memorável seja, aceita lembranças de Felipa que ahinda existe em minha companhia.

Eu moro nas casas que foram de João de Mattos, defronte do Conde de Villa Nova e na palestra que todas as noites se junta nesta minha casa e sua vem alguns amigos do teu tempo que se te  (ilegível) saudosos como é Anastacio Bernardino, e Clemente da Fonseca, o creado do Villa Nova.

Teu irmão (ilegível) da companhia está no convento(?) da Ilha(?) (.....ilegível....)  pois lhe devo o estabelecimento do meu negócio, que faço para (ilegível), mandando para lá todos os gêneros de fazendas e vindo o produto em aguardente do (Pico?) o que me deixa alguma conveniência, pois a renda do benefício não basta para o gasto que  tenho, suposto que a família é  só um criado e a Felipa.

Vê se te sirvo para alguma cousa nessa terra que para tudo o que ordenares achará a minha vontade pronta em obedecer-te (ilegível) como pode e te deseja teu irmão e sempre amigo

 

BENEDITO MANOEL EGAS JOSÉ DE CARVALHO COTRIM

 

Vai esta carta do principal Antonio de Sá(?) Benta(?) que é irmão do teu fidalgo (ilegível) consta .(....ilegível....) com o dito (...ilegível) de advertencia de renovar em todas as frotas (...ilegível....) cada vez mais.

Advirto que para isto não me vali de Francisco Xavier de couza tua, mas sim de uma Sra. casada com um amigo meu a qual é sobrinha de uma (ilegível) que está há muitos anos em casa dos (Saldendas?) e foi da criação do teu fidalgo .... ...........................................................................................e para que não te cause isto algum escrúpulo, advirto, que a tal (Sra?) é (ilegível) belíssima em geração e qualidade





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