método‎ > ‎

Nova visão sobre a Resistência

Nova visão sobre resistência à terapia

Fabio Veronesi

O primeiro passo é analisar a resistência em si, ou seja, enquanto fenômeno, manifestação da Natureza associada a todo movimento, nomeada como tal nas mais diversas áreas da Ciência.

Há, por exemplo, a resistência elétrica, representada pela letra grega Ω. Esta obra não é sobre resistência elétrica, mas há algo de muito interessante nela que pode servir de perfeita analogia para a abordagem que estes escritos fazem sobre outro tipo de resistência. O interessante é perceber que não pode haver corrente elétrica sem que haja resistência à ela. Quando não existe resistência ocorre curto-circuito e a corrente cresce infinitamente, o que derrete o condutor ou (supondo que pudesse existir um condutor que suportasse corrente infinita) consome instantaneamente toda potência da fonte geradora da diferença de potencial que provoca a corrente.

Ao mesmo tempo que resiste à passagem de corrente elétrica, a resistência é um dos elementos que a viabiliza. Além disso, o que chamamos genericamente de resistência elétrica são mais propriamente chamadas impedâncias resistivas, indutivas e capacitivas – elementos que impedem a passagem da corrente – resistências, bobinas e capacitores: lâmpadas, chuveiros, motores, televisores, computadores, etc. Ou seja, a resistência é que dá função e sentido à corrente elétrica. A resistência é a finalidade para qual utiliza-se a eletricidade.

Por esses fatores percebe-se que a resistência resiste (obviamente), mas não é contra a corrente. Pelo contrário, a resistência viabiliza e dá sentido à existência da corrente. Corrente e resistência são coexistentes, complementares, integrantes de um circuito elétrico cuja finalidade é produzir trabalho transformando energia elátrica em outros tipo de energia: mecânica, térmica, luminosa, etc.

Tudo o que acima se constata sobre o fenômeno da resistência elétrica também é válido para o tipo de resistência à qual esses escritos querem dar especial importância: a chamada resistência à terapia – primeiro nomeada e descrita por Freud, objeto de estudo e atenção de todos os grandes nomes que desenvolveram e aprimoraram metodologias psicoterapêuticas ao longo do séc. XX.

A resistência é um fenômeno inerente a todo processo terapêutico. Por isso não há nada de errado em haver resistência à terapia, pelo contrário: se há resistência é porque há terapia. A resistência é um indício de que a terapia está acontecendo.

A resistência sempre age através do inconsciente. Quando se consegue enxergar – no sentido de tornar consciente – uma manifestação da resistência, ela passa a utilizar outra.

A resistência tem inteligência própria. Ela elabora estratégias de ação cuja finalidade é boicotar o processo de auto-conhecimento e transformação da personalidade. Sua lógica pode ser simples como em atrasos e faltas, grande preguiça de ir para a sessão, sono, etc. ou complexa como no caso da transferência. Essa inteligência, por exemplo, elabora discursos contrários aos que a própria pessoa disse sobre si mesma a momentos atrás, porque essas frases que saíram “sem pensar”, “mal ditas” ou “ que não queriam dizer exatamente aquilo”, quando analisadas em terapia, criaram a possibilidade de provocar um salto no conhecimento sobre si. Se a pessoa continuar no movimento de perceber o que ela mesma disse, irá provocar uma mudança na sua personalidade. Antes que seja tarde, a resistência cria frases-armadilha que vão contrariar não de forma aberta, franca, direta o que foi dito antes, mas de forma indireta, que necessita de uma ou duas conexões com outras coisas para chegar à contrariedade do que foi dito antes. A omissão do terapeuta em revelar tais conexões é o que a resistência precisa para implantar sua âncora de dúvida.

São muitas e diversas as estratégias da resistência e é preciso que o terapeuta esteja atento a elas. Não só quanto ao terapeutizante como a si mesmo através da consciência de que o terapeuta também resiste à terapia, visto que a terapia do outro também é sua, ou melhor, também mexe consigo, também afeta seu processo terapêutico.

O método ABCΨΣ trabalha com um novo paradigma sobre o fenômeno da resistência à terapia, que resulta numa mudança técnica sobre seu manejo: a resistência não é considerada uma grande inimiga a ser vencida durante o processo terapêutico - que é a visão encontrada na quase totalidade de técnicas, podendo ser chamada de visão clássica – adotada por Freud, Lacan, Reich e que permanece mesmo nos métodos mais contemporâneos como a Somaterapia de Roberto Freire.

Esse novo paradigma vê na resistência uma voz de fundo dizendo: “não quero me transformar, quero me conservar”. Nesse sentido pode ser entendida como parte de nossa autoestima. Sua coerência está em lembrar que mudança significa modificação na estrutura que temos para nos defender do sentimento de emoções ruins, negativas. Defesa construída a duras penas, na base da tentativa e erro, tentativa e acerto, utilizando nossos melhores talentos inatos para descobrir jeitos de ser, padrões de resposta, contenções musculares, que conseguiram da forma mais eficaz atravessar as mais difíceis fases de nossa vida sentindo o mínimo possível as emoções ruins que explodiam no centro do nosso ser. A resistência diz sobre não querer mexer na zona de conforto, diz sobre o medo de perder essas defesas e acontecerem dificuldades semelhantes as do passado.

Na visão do método abcpsigma a resistência não tem que ser combatida, mas conquistada. Ou seja, trazida para o lado das forças pró-transformação. Esse passo permite de maneira surpreendente que a mudança aconteça de forma simples: na vida, no cotidiano, como se não fosse mais estranho ser desse jeito novo, como se sempre tivesse sido assim ou como se voltasse a ser o que realmente se é. Essa união entre forças psicossomáticas pró e contra o processo terapêutico é possível pelo entendimento de que a resistência diz sobre a necessidade de elaborar novas estratégias de defesa para bancar a mudança de jeito de ser. Novas estratégias para poder jogar fora velhas formas de ser. A resistência precisa ser convencida sobre nossa capacidade de defender a parte frágil do ser - aquela que se magoa, frustra, derrete de amor, tem medo, vergonha, para poder jogar fora as conhecidas e mais do que testadas antigas formas de proteger esse ser frágil. No fundo a resistência provoca com sua influência uma mudança que, se acontece (se conseguimos ultrapassar as armadilhas da própria resistência), tem mais chance de conseguir permanecer, de não retroagir para antigos padrões. A resistência é como um teste que mede a capacidade de transformar-se. Nessa nova visão, se não ultrapassamos certo momento de resistência de um processo terapêutico é por ser melhor para nós não ultrapassá-lo. Isso precisa ser respeitado. Não combatido. É preciso dar mais atenção a esse nó. Ele não desatou e, sem isso, é melhor não provocar mudanças de caráter.

Ter visão autogestiva, nesse ponto muito peculiar, significa ser um terapeuta capaz de perceber que a resistência pode estar certa em segurar o processo de transformação naquele momento, no que se refere à saúde psíquica do terapeutizante. Mais que isso, a resistência pode estar mostrando que a limitação em ultrapassar esse ponto é do terapeuta ou de sua técnica. O terapeuta precisa ser suficiente humilde para saber ouvir que a resistência do terapeutizante dá indicativos sobre como desatar os nós do processo terapêutico. O terapeuta precisa estar atento ao fato de que ao resistir, se justificando, o terapeutizante apresenta na mesma fala, os argumentos que comprovam aquilo que ele quer contrariar. Ao tentar negar o que havia dito antes, a resistência reafirma esse dizer. A resistência apresenta o melhor caminho a seguir, na verdade o único pelo qual o terapeuta irá conseguir passar se quiser seguir encaminhando o processo terapêutico.

Em contrapartida a esse “elogio à resistência” cabe tecer as limitações da resistência. A mudança acontece com o novo. Mas, o que é esse “novo”? Pergunta e quer saber a resistência, para uma mudança com segurança. Nesse ponto é que não se pode dar ouvido à resistência, caso contrário a mudança nunca ocorrerá. Mudar é um pulo no escuro. Não há como mudar sem correr risco. Não há mudança com garantias. Mudar é retomar a mais ancestral forma humana de aprender: tentativa – acerto/erro, sucesso/fracasso, prazer/dor, tentativa, tentativa, ... Foi assim que a Humanidade evolui. É assim que uma criança aprende rastejar, engatinhar, andar, falar, brincar, estabelecer relações, desenvolver “jeitos de ser”. Arriscando ser o que não somos é que aprendemos novas formas de ser. Arriscando ser o que não somos. Isso quer dizer uma gama infinita de possibilidades de ser. Não adianta buscar saber antes o que é o novo. A resposta da pergunta: “o que é o novo?” é: não sei!, porque se soubesse não era novo. Não se alcança o novo antes de vivê-lo. Tudo que já sabemos sobre o que (achamos que) somos ou que (achamos que) os outros dizem que somos não serve para nos dar uma possibilidade do que seremos caso transformemos nosso “jeito de ser”. É preciso coragem para viver o novo. A resistência é covarde. Não pode ser guia nessa empreita. Precisa ser acolhida, acalmada e levada pelas mãos determinadas de quem tem certeza de que quer o novo, seja como for. Porque um novo jeito de ser é trampolim para outras possibilidades de ser e novas estratégias de sobrevivência psicossomática vem do acesso à diversidade de formas de ser e se relacionar e ao restabelecimento da criatividade e do prazer de ser quem se é. A coragem nasce do prazer do salto, sensação de atirar-se, perder o controle e, ao mesmo tempo, do limite em suportar permanecer como se é, ficar onde se está.

Finalmente é preciso dizer que a nova perspectiva que se abre quando deixamos de ver a resistência à terapia como inimiga serve tanto para quem está fazendo terapia como para quem não está. Com isso quero declarar, enquanto terapeuta, total respeito por quem não quer fazer terapia. Há uma estabilidade egóica da qual o outro não quer ou mesmo não pode abrir mão naquele momento. Simples assim. Tanto quanto é claro o fato de que a própria pessoa é quem arca em primeira instância com o ônus e o bônus de não querer transformar-se.

Não acredito que alguém tenha que fazer terapia, pois ela é sempre movida por força própria. Só há a possibilidade de alguém querer fazer terapia. A terapia não se inicia na primeira seção, quando terapeuta e terapeutizante se encontram e trabalham juntos pela primeira vez. Ela se inicia muito antes, quando a pessoa decide fazer terapia e toma a atitude de procurar um terapeuta. Geralmente as pessoas que iniciam uma terapia, estão também tomando outras atitudes que demonstram uma busca de modificar-se, melhorar de saúde, tratar-se, etc. Quem move a transformação decorrente da terapia é sempre e tão somente o próprio terapeutizante. Cabe ao terapeuta ajudar a iniciar e estabelecer o movimento terapêutico que pode ser provocado por essa força de vontade do terapeutizante e, em certos momentos do trabalho, ter o cuidado de não atrapalhar o processo terapêutico em andamento.

Achar que todos devem fazer terapia é uma projeção da dificuldade pessoal em fazer a própria. Quem sabe se o outro vencer sua resistência, não seja mais possível para mim vencer a minha? Reafirmar a dificuldade do outro em encarar um processo terapêutico para transformar em sua vida cotidiana aquilo que ele reclama, cria anteparo para esconder a minha dificuldade de fazer o mesmo. Tento convencer o outro porque não consigo vencer a mim mesmo. Mais uma estratégia da resistência.

© Copyleft: Cópia livre desde que respeitada a autoria.
Não permito alterações do conteúdo ou uso para derivar outra obra.
Comercialização só com minha prévia autorização.
Obra registrada na Creative Commons by Fabio Veronesi
Comments