CASOS DE SUCESSO

Os casos de sucesso na meliponicultura geralmente não nos dão uma real dimensão da importância econômica dessa prática para as comunidades rurais do interior do Brasil. Uma vez que a produção de mel das abelhas sem ferrão é pequena, sempre se espelha na produção das abelhas africanizadas a título de comparações. Enquanto uma colônia de abelhas africanizadas produz de 30 a 50 quilos de mel por ano, as espécies melhores produtoras, dentre as sem ferrão, produzem em torno de 4 a 6 quilos de mel por ano. Portanto, como comparação parece covardia, pois é óbvio que as abelhas africanizadas produzem mais e, desta forma, fica claro que um meliponicultor com poucas caixas não teria como se sustentar com a baixa produção esperada.

Só que sob o ponto de vista econômico, a análise não deve ser feita assim de forma tão simples. Diversos fatores antes devem ser considerados: a) o preço do mel das abelhas sem ferrão; b) os custos de montagem da infra-estrutura, c) os custos de manutenção e segurança, d) o peso econômico da produção no orçamento anual.


Preço do mel das abelhas sem ferrão: Muito se fala de mel a R$ 60,00, R$ 80,00, R$ 120,00 o litro. Numa escala doméstica e dependendo da região isto é perfeitamente possível. Mas numa escala de produção maior, 1 tonelada por exemplo, tais preços não se sustentam, Tem a ver com a lei da oferta e da procura. Mas se considerarmos o preço a razoáveis R$ 20,00/quilo (ou R$ 25,00/litro) que é o quanto a Meliponina paga aos produtores, este valor fica bem acima do quanto se paga ao produtor pelo mel da abelha africanizada, em torno de R$ 2,00 a R$ 3,00/quilo, dependendo do preço do dolar, já que este mel é uma commoditie.


Montagem da infra-estrutura: Além das caixas, que são bem mais simples do que as das abelhas africanizadas, um meliponicultor precisará de uma espaço pequeno onde possa criar as abelhas, que é o meliponário, macacões e mascaras, que podem ser dispensadas dependendo das espécies criadas, e utencílios de manejo, como formões, espátulas, etc. No caso das abelhas africanizadas, seriam necessárias, caixas especiais, vestimentas especiais como macações, mascaras, botas e luvas, uma área distante e ampla para a colocação das caixas, que seria o apiário, e ainda todos os equipamentos de extração de mel, como centrifugas, entre outras.


Custos de manutenção e segurança: No caso das abelhas africanizadas, além da manutenção de todos os equipamentos necessários tem ainda a questão de segurança. Os apiários devem ser montados longe das áreas de moradia e de transito de pessoas e animais. No caso das abelhas sem ferrão elas podem ser criadas no quintal dos sítios e fazendas. Isto permite uma maior participaçam dos jovens e das mulheres sem comprometer outros afazeres domésticos.


Peso econômico da produção: A meliponicultura deve ser uma prática complementar às atividades produtivas, jamais como atividade unica. Numa escala doméstica, um meliponário de 50 colônias por família já seria o suficiente para gerar uma boa renda. Porém, muitas pessoas começam a criar com uma expectativa de terem uma renda rápida e isto não acontece. É necessário disciplina e persistência. Na média, uma boa produção só começa com 3 anos de criação. Dois casos de sucesso ilustram bem esta realidade:


1o Caso - Zequinha Laboral é um trabalhador como a maioria da sua comunidade - Buritizinho, município de Belágua. Analfabeto, não pôde participar das oficinas de treinamento no manejo das abelhas, mas encarregou o seu filho para esta tarefa. Isto foi em 2006/2007.

Infelizmente o seu filho não se afeiçou com as abelhas e o Zequinha ficou sozinho com as caixas recebidas pelo Projeto Abelhas Nativas. Outros moradores da comunidade que também participaram dos treinamentos também foram abandonando a atividade aos poucos a ponto de ficar somente o Zequinha, criador solitário, com as suas caixas de abelhas tiúba.

Porém o Zequinha persistiu. Como não sabia ler, sempre contava com a orientação dos técnicos que geralmente apareciam a cada 2 ou 4 meses. E assim ele foi aprendendo sozinho. Muitas caixas foram perdidas por causa de divisões mal feitas, mas uma coisa que ele sempre fez foi dividir as melhores colônias produtoras e não trazer para o meliponário ninhos selvagens do campo.


A tabela acima mostra a evolução da produção e o ganho do seu Zequinha

Observe que em 2007 a produção foi zero apesar dele possuir 10 caixas. Após 2 anos com uma baixa produção os resultados começaram a aparecer no 3o. ano, quando ele recebeu pelo mel o equivalente a 13 bolsas-família, o que não é pouco considerando a realidade de extrema pobreza da região. Para este ano há a previsão de que ele receberá 26 bolsas-família com apenas 20 caixas. Se tudo correr bem, no próximo ano, chegando a 50 caixas, sua renda chegará a R$ 3.000,00/ano, ou 60 bolsas-família.Considerando a possibilidade do seu Zequinha comercializar ainda o pólen e a cera, a sua renda, no mínimo, dobrará.

O sucesso do Zequinha está atraíndo novamente os antigos interessados que abandonaram o projeto logo no início.



2o. Caso - Seu Carlos é um lavrador da comunidade de Limoeiro, município de Viana, Baixada Maranhense. Tem uma certa instrução e junto com a família cria abelhas africanizadas. Em 2006 ele recebeu o benefício de um projeto do governo estadual com a instalação de um meliponário completo com caixas povoadas de abelhas tiúba. Porém, eles não tiveram nenhuma instrução para manejar as abelhas. Em 2007 a comunidade estava com dificuldades para vender o mel de tiúba por R$ 10,00 o litro. Por isto a comunidade procurou o Projeto Abelhas Nativas oferecendo as colônias de tiúba, pois não queriam mais criar as mesmas.

O Projeto então ofereceu em comprar a produção a R$ 10,00 o quilo (R$ 12,00/litro) mas com a condição de que a comunidade continuasse com a criação, recebendo a assistência dos técnicos do projeto.

Assim, 16 famílias se agregaram à nova proposta em 2007 e hoje são 22 famílias.

A tabela acima mostra a evolução da produção e o ganho da comunidade de Limoeiro.

A partir de 2007 pagamos R$ 15,00 o quilo do mel e em 2009 chegamos a R$ 20,00 o quilo.

Observe que somente em 2010 foi que a comunidade começou a investir na multiplicação das caixas.