Logo no início do livro Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés fala sobre o resgate da vitalidade feminina. Ela descreve esse processo como uma escavação “psíquico-arqueológica” — como se precisássemos explorar camadas profundas de nossa história interna para reencontrar partes esquecidas de nós mesmas.
Gosto de pensar nisso como adotar a postura de uma pesquisadora de si: alguém que vive com atenção, curiosidade e presença. Em vez de apenas reagir aos acontecimentos, essa mulher observa, coleta informações, faz perguntas e investiga as origens de seus sentimentos e escolhas. Esse olhar investigativo não é distante nem frio — é compassivo, interessado e comprometido com o próprio florescimento.
No cotidiano, ser pesquisadora de si envolve pequenas e constantes práticas. É aprender a nomear o que se sente — perceber que “estou irritada” não é a mesma coisa que “estou magoada”, e que essa clareza muda a forma como reagimos.
É fazer perguntas certas para si mesma: “Por que essa situação me incomoda tanto?” ou “O que, de fato, eu preciso agora?”. É ler o cenário interno e externo, entendendo que às vezes o incômodo não é com a pessoa diante de você, mas com algo mais profundo e antigo. E, a partir daí, é decidir se posicionar de forma assertiva, quebrando padrões e abrindo espaço para que os nós da sua vida comecem a se desfazer. Esse processo não significa viver imune às quedas ou crises. Elas continuarão a acontecer.
A diferença é que, ao fortalecer esse olhar investigativo, criamos um eixo interno mais firme, que nos mantém de pé mesmo em meio a tempestades. É como ter raízes profundas: o vento pode balançar, mas não arranca. Na psicoterapia, esse movimento ganha ainda mais potência.
A cada conversa, você vai se apropriando da própria história, das decisões que toma e da vida que deseja construir. É um aprendizado contínuo sobre como ser autora e protagonista, não apenas espectadora. E aqui gosto de lembrar um antigo texto egípcio que diz: “Nós somos a barca, o remo e o barqueiro.”
Ou seja, não apenas viajamos pela vida — nós a conduzimos. Há muito que pode ser feito para que possamos nos sentir, de fato, condutoras da nossa própria existência.
E você? Já parou para se observar como uma pesquisadora de si mesma? 👁️🗨️
Com afeto,
Psi. Ana Cecília Coelho - CRP 11/09960