A vida adulta é, inevitavelmente, um território de despedidas. E não falo apenas dos lutos que envolvem a morte de pessoas queridas, mas também dos lutos silenciosos e simbólicos: sonhos que não se concretizaram, papéis que deixamos de desempenhar, versões de nós mesmas que já não fazem mais sentido.
São as despedidas das ilusões da juventude, da vida que imaginávamos ter aos 30, 40 anos… ou daquela expectativa de que tudo seguiria exatamente como planejado. Crescer, afinal, tem um custo emocional. É como se, a cada fase, precisássemos deixar para trás algo que um dia foi importante para abrir espaço para o que está chegando. Na vida adulta, esses lutos ficam mais evidentes porque temos mais consciência.
A queda das idealizações pode ser dolorosa o trabalho dos sonhos que não aconteceu, o relacionamento que não se manteve, a amizade que se distanciou, a energia ou o corpo que mudaram com o tempo. Cada uma dessas perdas exige de nós uma pequena (ou grande) reinvenção. E, no entanto, muitas vezes resistimos.
Tentamos manter tudo como sempre foi, como se o apego ao passado fosse capaz de nos proteger. Mas essa é uma armadilha: o esforço de segurar o que já não cabe pode nos impedir de viver o que realmente está disponível agora. Na terapia, muitas mulheres chegam carregando esses lutos invisíveis, sem nomeá-los.
Quando finalmente os reconhecem, percebem que o luto simbólico não é apenas um encerramento — é também uma transição. A “morte” de um papel, de uma fase ou de uma versão de si mesma abre espaço para o nascimento de outra.
E, embora seja desconfortável, é justamente nos vazios e recomeços que encontramos a oportunidade de nos reconstruir com mais verdade. Aprender a se despedir é, paradoxalmente, um gesto de amor consigo mesma.
É dizer: eu me permito seguir. 🌿
Com afeto,
Psi. Ana Cecília Coelho - CRP 11/09960