Nesta página, reunimos trabalhos acadêmicos desenvolvidos no âmbito do nosso grupo de pesquisa, incluindo teses de doutorado, dissertações de mestrado e monografias de graduação. Os textos estão disponíveis em formato PDF para facilitar o acesso e a leitura.
"Antiespecismo e formação de professoras: um fazer inventivo com diários de campo" de Ana Luiza Mello.
O especismo é a opressão que os seres não humanos sofrem por pertencerem à outra espécie. É um fenômeno multifatorial e interdependente de outras formas de dominação, como o colonialismo, o racismo, o machismo e o capitalismo. Entre os muitos espaços em que essa opressão é produzida e ensinada, estão as instituições de educação, como a escola e a universidade. Esta tese, por meio de uma pesquisa-intervenção e em companhia dos diários de campo, procura destacar como a formação de professoras ajuda a reproduzir lógicas especistas que irão ressoar na escola básica e na vida. Busca também dar a ver de que maneiras a formação inventiva pode forçar o pensamento a perceber e questionar o especismo, forjando brechas para produzir modos outros de ver os animais não humanos, modos em que estes não sejam tidos como objetos de propriedade, expostos à exploração de seu corpo e à privação de sua liberdade. O que move uma formação inventiva é a aposta em fazer problematizações, para desaprender aquilo que nos conforma e nos imobiliza. Como ainda utilizamos a cultura e nossos valores coloniais para romantizar e justificar a violência e exploração de outros seres? Que dispositivos estão envolvidos na captura da empatia, do encantamento, dos devires e na promoção da dominação? Estas e outras tantas questões explicitam os eixos de análise e de intervenção, atravessando a produção da pesquisa que, pode-se dizer, trata-se de uma “tese militante” antiespecista, um desdobramento de um modo de estar no mundo e de dar visibilidade às outras possibilidades de se relacionar com os animais. A proposta assim é problematizar como certos conceitos especistas são reproduzidos, naturalizados ou questionados na formação de professoras, mantendo lógicas que legitimam um modelo de exploração, dominação e morte de incontáveis seres, humanos e não-humanos, para, com efeito, inventar modos antiespecistas de formar professoras.
"Teatro com e na velhice" de Líbia Busquet.
Esta tese é tecida na relação estreita com atrizes e atores velhos para acompanhar processos e subjetivações dos sujeitos participantes de cada cena e oficina, dando a ver o teatro e seus atravessamentos com e na velhice. Com este campo de análise e de intervenções, que liga velhice e teatro, quatro eixos foram pensados durante a escrita da tese: teatro, velhice, oficinas e cuidado de si. Há cenas constituídas na interface com a experiência direta com os intercessores, a saber: Cora Coral Coralina, em 2015; encontros remotos com o grupo Maturiarte, 2022; ensaios e montagem da peça Confusão no Convento das Flores, 2023; e Oficinas Inventivas de Teatro com e na Velhice - OFITV – e Coro e Cena, em 2024. Ao acompanhar as cenas, trazidas entre sinais, a pesquisa investiga a relação entre teatro, velhice e seus corpos. Para tanto, o método da cartografia, na perspectiva de Gilles Deleuze e Felix Guattari, funcionou como dispositivo para acompanhar os movimentos e pode acionar o campo de forças dos trabalhos entre teatro e velhice. O texto da tese é costurado por meio de marcações do próprio teatro e, também, de diário de campo produzido no encontro direto com os ensaios e as experiências entre velhice e teatro. Há autores e teatrólogos que ajudaram a tecer esta pesquisa, tais como Augusto Boal, Constantin Stanislavski, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Virgínia Kastrup, Rosimeri Dias, Simone Beauvoir, Silvana Tótora, Cora Coralina, Conceição Evaristo, Manoel de Barros, entre outros. Ligar teatro e velhice com seus corpos para fazer expandir existências: esta foi a dimensão expansiva da vida e da transformação de si e de mundos com o teatro, como uma aposta em um movimento sendo construído, em trânsito, deslocando e desterritorializando modos de pensar e de viver, forjando processos de subjetivação.
" Teatro e saberes em cena: o que há no fazer teatral no chão de uma escola pública de Ensino Médio? " de Líbia Busquet.
Esta dissertação problematizou ensaios, encontros e desencontros durante a pesquisa-intervenção realizada com a oficina de teatro do CEWO, no ano de 2018. Cartografa o fazer teatral, sua matéria viva, ao acompanhar os processos experienciados nos dez encontros da oficina de teatro na referida escola. A escrita do texto dissertativo acontece por meio de termos técnicos teatrais utilizados em peças, tais como ato, cena, prólogo, epílogo. Com este cenário conceitual, prático, artístico e cartográfico, este último, como proposto por Gilles Deleuze e Felix Guattari, explora relações entre teatro e educação, em diferentes tempos e práticas, apresentando essa arte como linguagem artística ligada à vida. Para tanto, as análises e intervenções destacam aspectos que aproximam o trabalho teatral desenvolvido em uma escola de ensino médio ao cuidado de si de Michel Foucault; de uma educação e teatro libertadores defendidos por Paulo Freire e Augusto Boal; da construção do personagem por Constantin Stanislavski e das diversas formas e modos de se sentir e vivenciar o fazer teatral, nos textos de Viola Spolin, Olga Reverbel, Flávio Desgranges e Ingrid Koudela, entre outros autores cujas obras conversam com o proposto pela autora. Há, inclusive, autores que ajudam a refinar o repertório teórico metodológico da pesquisa-intervenção, tais como: Andréia Oliveira, Indira Richter, Laura Barros e Virgínia Kastrup, Jéssica Prudente e Jaqueline Tittoni, sempre perspectivando o entre, de Rosimeri Dias, nas ações problematizadas, para dar a ver e falar o fazer teatral e sua processualidade no chão de uma escola básica de ensino médio.
"Como uma onda no mar: entre olhares e escritas cartográficas de uma professora de apoio educacional especializado em uma escola pública de Niterói." de Jussara Silva Cavalcante.
Esta pesquisa ensaia uma escrita cartográfica, permeada pela música e tecida por meio de uma configuração singular de pesquisa, que enfatiza a experimentação como processo, analisando seus efeitos e a produção de subjetividade emergente do entre. Com práticas e modos de perceber, sentir, aprender e desaprender, que apontam sentidos para fugir dos registros certeiros, acompanha o que se passa e o que nos passa na análise dos efeitos do encontro entre pesquisadora/pesquisa, escrita e subjetividades, denominadas como pessoa com deficiência. A ênfase, das análises e intervenções, atenta para dois momentos da experiência como professora de apoio educacional especializado (PAEE) na Escola Municipal João Brazil - EMJB, no município de Niterói, Rio de Janeiro, a saber: em 2019, com o acompanhamento educacional especializado de um jovem com transtorno do espectro autista - TEA; e, em 2020, no contexto da pandemia do COVID-19, com tessituras por entre escritas musicais experienciais forjadas com outros estudantes com singularidades diversas. É importante dizer que encontro, aqui nesta dissertação, é pensado na intercessão com Gilles Deleuze e Claire Parnet, afirmando os efeitos que se forjam entre e com outros, que também podem ser: movimentos, ideias, acontecimentos, músicas, entidades, ou seja, algo que se passa entre dois ou mais. As escritas cartográficas são tecidas nos encontros e (com)versas produzidas com e no grupo de pesquisa Oficina de formação inventiva de professores - OFIP, nos momentos de distanciamento físico e atividades remotas forjadas no contexto pandêmico vivido no presente. Há, inclusive, encontros e (com)versas com autores, tais como Fernand Deligny, Lilian Lobo, Michel Foucault, Débora Diniz, Anahí Mello, Virgínia Kastrup e Rosimeri Dias, entre outros. A dissertação se constitui por escritas cartográficas, que enfatizam a experimentação como processo e produção de subjetividade, com práticas perspectivadas pela invenção, do modo como trabalha Rosimeri de Oliveira Dias. A orientação metodológica é a pesquisa-intervenção, que possibilita fazer ver e falar, práticas instituídas e instituintes na experiência com o PAEE na referida escola, problematizando os processos instituídos e naturalizados por nós, que nos aprisiona até não conseguirmos olhar as possibilidades outras de ensinar-aprender, nos fazendo estar sempre em movimento e luta permanente. Para tanto, o texto dissertativo se faz em cinco capítulos e composto por escritas cartográficas, que poderíamos chamar ‘musical’, emergentes dos encontros e (com)versas com autores, diários, imagens, fotografias, músicas, entre outros. Com estas escritas musicais, cartografamos cinco pistas: 1 – tornar visível um campo problemático de uma educação excludente, agravado pela pandemia de Covid-19; pista 2 – pensar a formação docente, tecida entre processos implicacionais e formação inventiva; pista 3 - problematizar lógicas instituídas e forjar aberturas para práticas instituintes; pista 4 – analisar a instituição “deficiência” como produção de exclusão e o entendimento de normalidade e pista 5 - forjar uma política anticapacitista. Estas pistas tornam visíveis estes modos de forjar escritas, encontros e (com)versas com legítimos outros, singularizando modos plurais de trabalhar no presente.
"Por uma formação antiespecista na escola pública" de Ana Luiza Mello.
Vivemos em uma sociedade que explora e mata animais não-humanos para manter seus hábitos mais cotidianos. Justificamos tais práticas através do nosso especismo, ou seja, da ideia de que nossa espécie é superior a todas as outras. A invisibilização da dor e da subjetividade dos animais não-humanos e a reafirmação do papel social que eles cumprem na sociedade são estratégias fundamentais para a manutenção de nossos modos de vida especistas. Para isso, diversas instituições, com suas ferramentas e estratégias, são utilizadas, sendo uma delas, talvez uma das mais importantes, a escola básica. A proposta desta tese é cartografar processos de desnaturalização do especismo no cotidiano da escola. Através de uma pesquisa-intervenção, busca destacar de que maneiras a formação inventiva pode forçar o pensamento a problematizar o especismo e forjar brechas para produzir modos outros de ver e de se relacionar com os animais não humanos, nos quais os últimos não sejam tidos como objetos de propriedade, expostos à exploração de seu corpo e à privação de sua liberdade. Seguindo as linhas dos estudos da filosofia da diferença, este trabalho traz uma aposta ética-estética-política, entendendo-a como uma atitude, como a própria prática no presente. Para isso, busca dar visibilidade aos acontecimentos do território escolar e da formação de professoras(es), analisa a contribuição da literatura infantil presente nas escolas para a manutenção ou desconstrução do especismo e, por fim, traz uma cartilha que pode ser utilizada por educadoras(es) em uma perspectiva de formação antiespecista.
"Ensaios de desnaturalização em uma experiência de educação abolicionista" de Ana Luiza Mello.
Esta pesquisa-intervenção ocorreu durante os anos letivos de 2012, 2013 e 2014 no CIEP 411 Municipalizado Dr. Armando Leão Ferreira (São Gonçalo-RJ), onde trabalho como professora de Ciências e, nos dois últimos anos, também como Orientadora Pedagógica do segundo segmento do Ensino Fundamental. Os encontros que compõe esta pesquisa também se deram em projetos no contra turno escolar, entre os quais destaco o Viveiro de Experiências, o Elos de Cidadania e o Subprojeto de Pedagogia do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID/CAPES/UERJ), no qual atuo como professora supervisora. Nesta dissertação, utilizo a cartografia, proposta por Gilles Deleuze e Felix Guattari, como método de pesquisa-intervenção. Registros em Diários de campo dão visibilidade ao cotidiano de uma pesquisa que se faz vivendo, apostando em um ethos abolicionista. Fortalecendo uma vida não assujeitada com as formas de padronização e controle e com os regimes de escravidão física e psicológica impostos aos animais, humanos e não-humanos, a partir das hierarquias instituídas. A proposta deste trabalho é problematizar a heterogestão, que acontece quando nos deixamos gerir por “outrem”, apostando na autogestão, na produção de um estranhamento, de um olhar investigativo, que se afirma na desnaturalização dos postulados, colocando a instituição e a formação nos tensionamentos da construção permanente. Desafiando nosso senso de superioridade humana e individual, produzindo coletivamente pequenos espaços-tempo de resistência, que funcionam como dispositivos produtores de outros modos de viver.