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I Jornada de Filosofia, Arte e Estética da Unicamp

A “I Jornada de Filosofia, Arte e Estética da Unicamp” tem o objetivo de criar um espaço público e interdisciplinar de debate e troca de conhecimentos entre pesquisadores de todos os níveis acadêmicos que se ocupam dos temas e questões da Estética, da Arte e da Filosofia, e assim contribuir para o fortalecimento de pesquisas cruciais para as discussões estético-filosóficas e artísticas contemporâneas. Enquanto tal, a Jornada pretende reunir pesquisadores de graduação e pós-graduação de diferentes universidades, bem como viabilizar o contato entre estudantes e especialistas de renome nacional e internacional por meio de conferências e cursos livres. Trata-se da primeira edição de um evento que pretende ser anual e crescer cada vez mais. A jornada surge na esteira das atividades desenvolvidas pelo “Grupo de Estudos em Estética e Teoria da Arte – GEETA”, fundado em 2016 e supervisionado pela Profa. Dra. Taisa Helena Pascale Palhares, do Departamento de Filosofia do IFCH-Unicamp.

Data: 27, 28 e 29 de agosto de 2018

Local: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) - UNICAMP

Link para inscrição: https://goo.gl/forms/1OCDJZ0wQYObeJPC2


PROGRAMAÇÃO e RESUMOS

Segunda-feira (27/08)

14h00 às 16h00 - Conferência de abertura "A noção de experiência em obras de arte recentes ".

Prof. Lorenzo Mammì (USP)

Muitas análises recentes veem a arte contemporânea como um período de estagnação e repetição em relação à arte moderna. Embora o leque de técnicas e linguagens tenha se ampliado enormemente, parece ter se perdido a capacidade de construir uma história da arte, enquanto sequência narrativa dotada de uma ordem interna. A isso se acompanharia o empobrecimento da própria capacidade de experiência, no sentido benjaminiano de capacidade de construir narrativas e descrições a partir de fatos singulares. No entanto, muitos artistas contemporâneos relevantes, ao mesmo tempo que tematizam essa condição empobrecida, parecem elaborar estratégias para revertê-la em novas formas de experiência e de história. Pretendo mostrar alguns exemplos em artistas relevantes da atualidade

16h30 às 18h30 - Comunicações (mediação: Taisa Palhares)

Éder Aleixo (IA/Unicamp) - "O olhar japonês de Vincent van Gogh"

Vincent van Gogh teve sua obra estudada insistente por diversos autores renomados da História da arte, entretanto acredita-se que alguns aspectos de sua obra foram negligenciados em virtude das bases eurocêntricas na quais a disciplina se desenvolveu. Um desses aspectos é a relação do pintor holandês com a arte japonesa, da qual além de entusiasta era colecionado. Buscou-se então olhar para sua produção, especificamente entre 1886 e 1890 período de maior aproximação com o modelo artístico japonês, segundo os conceitos inerentes a arte japonesa estética e filosoficamente e também segundo as convicções do artista sobre ela. Discutira-se então quais os impactos desse modelo na atmosfera de sua produção.

Isabela Salinas (IFCH/Unicamp) - "Modernidade e tradição em Amedeo Modigliani"

Embora frequentemente vinculado ao ambiente internacional da “Escola de Paris”, o artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920) será retomado e exaltado, durante o regime fascista na Itália, por diferentes grupos, como um modernista italiano por excelência. Nos interessa apresentar a vinculação de Modigliani pela crítica de arte ora ao ambiente francês, ora ao ambiente italiano, buscando compreender a construção do sentido de 'modernidade' e de 'tradição' em suas obras. Buscamos entender como as diversas leituras sobre a produção de Modigliani sustentam diferentes projetos de modernidade, conceito que ainda está longe de ter um significado positivamente determinado.

Juliana Siqueira (Unifesp) - "Considerações sobre a crítica de arte de Charles Baudelaire"

A apresentação proporá uma leitura da crítica de arte de Baudelaire intitulada "Salon de 1859", no qual encontram-se expostos alguns dos conceitos fundamentais para formação e compreensão da estética moderna. A discussão passará pelas formulações de Baudelaire dos conceitos de artista, público e da própria arte (por exemplo, sua inversão das ideias de Bom, Belo e Verdadeiro), frente aos preceitos da estética precedente. Além disso, se dará centralidade à sua conceituação de "Imaginação criadora", a qual, acredita-se, ganha importância fundadora não somente para o julgamento e crítica de obras singulares mas também para a reflexão filosófica a respeito da passagem para a vida na modernidade.


19h00 às 21h00 - Palestra "A atualidade do fim da arte".

Profª. Taisa Palhares (Unicamp)

A palestra pretende analisar as diversas formas de manifestação da questão do “fim da arte” desde Hegel, com o intuito de avaliar sua atualidade teórica para compreensão da produção artística contemporânea.


Terça-feira (28/08)

8h30 às 12h30 - Minicurso "Apresentação da verdade e método desviante". Prof. Francisco Pinheiro Machado (Unifesp)

O presente minicurso propõe uma leitura do "Prefácio epistemo-crítico" do livro "Origens do drama Barroco Alemão" de Walter Benjamin, buscando explicitar o modo como constrói uma noção de crítica de arte como apresentação da verdade que segue um método desviante. Trata-se ainda de confrontar estas noções com a apresentação que faz das peças do teatro barroco alemão (Trauerspiele).


14h00 às 16h00 - Comunicações (mediação: Prof. Francisco Pinheiro Machado)

Fernanda Ramos (IFCH/Unicamp) - "Walter Benjamin, arte e história"

O presente trabalho pretende investigar a aproximação do percurso intelectual de Walter Benjamin (1892 – 1940) com a história da arte desde os anos iniciais de sua carreira, principalmente no que diz respeito à obra de Alois Riegl e em que medida tal aproximação influenciou o pensamento de Benjamin sobre a teoria da arte, até seus anos finais, e a produção de uma sociologia da arte, ou de uma teoria materialista da cultura, como trata em suas obras tardias. Além disso, a partir do diagnóstico realizado por Benjamin sobre a situação dos estudos acerca da arte e da cultura do início do século XX, pretende-se elaborar a crítica que o autor faz ao método formalista de Wölfflin em contrapartida à influência da Escola de Viena de história da arte em sua teoria materialista da cultura, especialmente o estudo "A arte industrial tardoromana" de Alois Riegl, enquanto crítica à história da arte tradicional. Para isso, percorrerei textos biográficos do autor, além dos textos nos quais Benjamin discute história da arte. Entretanto, além disso, tentarei delinear em qual medida a crítica à história da arte trata-se da crítica que o autor faz à própria filosofia da história.

João Rampim (IFCH/Unicamp) - "Tatilidade, cinema e experiência em Walter Benjamin"

Trata-se de reconstituir o diagnóstico de Walter Benjamin sobre a mudança no modo de percepção coletivo de seu tempo, a qual remete à preponderância da tatilidade no aparelho perceptivo humano, remonta a transformações concretas ocorridas na realidade social e encontra no cinema uma expressão característica. Destacaremos a compreensão benjaminiana do cinema como indicador artístico de tais transformações, ressaltando especialmente o fator do choque que sua forma compartilha com a vivência no ambiente citadino massificado. Buscaremos explorar uma tensão que perpassa essa questão, e que surge quando comparamos a significação do cinema nos ensaios “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” e “Sobre alguns temas em Baudelaire”: seria o cinema capaz de funcionar como veículo de experiência (Erfahrung), ou seu escopo de atuação se reduz apenas ao reino da vivência (Erlebnis)?

Lucas Souza (USP) - "Walter Benjamin e a modernidade: sentido da recusa da modernité de Baudelaire"

Ao desenvolver o conceito de modernidade na terceira seção do ensaio "A Paris do Segundo Império na obra de Baudelaire" (1938) Walter Benjamin recusa sumariamente a concepção de modernité desenvolvida pelo poeta francês: "não vai fundo à questão", é seu juízo final. Por outro lado, viu nos escritos de Charles Baudelaire a expressão de certa constelação histórica do capitalismo tardio a que chamou die Moderne - a modernidade. Tal ensaio, já mal recebido pela redação da Revista do Instituto de Pesquisa Social, será novamente posto em questão quanto ao encaminhamento dado por Benjamin em sua recensão ao escritor francês. A presente comunicação visa relativizar, não tanto a recepção pelo Instituto, mas a crítica dirigida a Benjamin na composição de um conceito de modernidade a partir de Baudelaire, tantas vezes retomada pelos comentadores. Com efeito, busca-se evidenciar o sentido da recusa da modernité baudelairiana a favor de um conceito próprio de modernidade, mostrando como esse empreendimento retoma motivos teóricos do projeto sobre as "Passagens", desdobrando-se até o exposé desse projeto escrito em 1939.


16h30 às 18h30 - Palestra "Sobre o conceito de Wahrnemung em Walter Benjamin".

Profª. Carla Damião (UFG)

Trata-se de especular sobre o sentido de aisthesis como Wahrnemung no ensaio sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica de Benjamin. Essa reflexão supõe o uso da palavra por Kant, em relação com os de Sinnlichtkeit e de Empfindlichkeit. Esses três termos em alemão, respectivamente traduzidos por percepção, sensibilidade ou sensualidade e sensibilidade ou sentimento, tornam-se eventualmente compostos, como Sinneswahrnehmung, isto é, como percepção sensorial. Partiremos de vários fragmentos de juventude nos quais o conceito é referido em conjunção com o de signo e de símbolo. A intenção é indicar a complexidade do conceito como forma de diferentes tipos de percepção, seja nos escritos sobre a infância, sobre a recepção da obra de arte reprodutível ou da modernidade em seu aspecto social e material.


Quarta-feira (29/08)

8h30 às 12h30 - Minicurso "O formalismo em Kant e na crítica de arte moderna".

Profª. Rosa Gabriella de Castro Gonçalves (UFBA)

O minicurso será dividido em três blocos. No primeiro bloco será apresentada uma síntese da complexidade da noção de forma na primeira parte da Crítica da Faculdade de Julgar, atentando para os aspectos de tais noções que se tornaram relevantes para a crítica de arte formalista. No segundo bloco procuraremos examinar a interpretação que o crítico Clement Greenberg fez da estética de Kant a partir de seus próprios textos e, no terceiro, discutiremos as reações negativas à crítica formalista a partir dos anos 60.

14h00 às 16h00 - Comunicações (mediação: Adriano Januário)

Alberto Sartorelli (IFCH/Unicamp) - "A posição de Paul Klee na obra de Theodor Adorno".

Esta comunicação visa apresentar as obras do pintor suíço Paul Klee a partir da perspectiva do filósofo alemão Theodor Adorno. Os escritos de Adorno sobre estética versam muito mais detalhadamente sobre a música e a literatura; no entanto, as poucas porém valiosas considerações do autor sobre a pintura dão conta de que Klee fora um pintor moderno por excelência, um dos preferidos por Adorno, principalmente por sua negação radical do realismo e sua busca em imputar suas obras de movimento, vir-a-ser, características exemplares do modernismo artístico na pintura. Os textos utilizados na exposição serão a Teoria Estética e a Estética 1958/9, de Adorno, e os Diários e Sobre a arte moderna de Klee.

Bruna Batalhão (IFCH/Unicamp) - "Material artístico e mediação na Teoria Estética de Adorno".

A relação entre arte e sociedade, importante para qualquer estética materialista, centrou-se, na estética de Adorno, no conceito de “material musical”. O material, como afirma Adorno em ‘Filosofia da Nova Música’ (1949), por possuir “a mesma origem do processo social” e por estar “penetrado pelos vestígios deste, desenvolve-se no mesmo sentido que a sociedade real”. Desse modo, o processo social aparece no desenvolvimento imanente da arte através de uma “dialética do material musical”, segundo a tese adorniana do “material artístico [mais] avançado”. Em termos musicais, tal desenvolvimento é descrito como o de “emancipação da dissonância”. Embora alguns comentadores afirmem que o conceito de material continua a ocupar um lugar de proeminência na Teoria Estética (1970), afirmações feitas por Adorno nessa obra como a de que a “dissonância se congela em um material indiferente” e “se torna uma nova forma de imediatidade”, colocam como problema a manutenção do conceito de material e, consequentemente, o problema da mediação entre os fenômenos artísticos e a sociedade. Nesse sentido, pretendemos discutir (i) quais motivos levaram Adorno a afirmar a “indiferença” do material e (ii) como essa “nova forma de imediatidade” do material se insere no âmbito mais amplo de uma teoria estética que se pretende materialista.

Rogério Silva de Magalhães (Unifesp) - "Arte e revolta em Marcuse"

A partir de textos como “Art in the One-Dimensional society” de 1967, “Society as a Work of Art” também de 1967 e “Art as form of reality” de 1969, pretendemos investigar em que medida Marcuse considera que a arte possui potencial para transformar a realidade social sem negar a si mesma como arte. Em sua negação do conformismo da arte tradicional e da arte como decoração, Marcuse aponta o elemento político da arte: ser mais do que obra para apreciação particular em uma galeria ou museu. Se a arte não deve ser considerada mais como algo irrelevante para a vida cotidiana, que revolta ela pode promover para por fim à realidade histórica repressiva dominante?


16h30 às 18h30 - Conferência de encerramento "Espaço de jogo, espaço político: sobre a noção de Spielraum em Walter Benjamin".

Profª Jeanne Marie Gagnebin (Unicamp/PUC-SP)

Essa palestra analisa uma noção essencial na reflexão estética e política de Benjamin, a de Spielraum, tentando operar uma reconstrução do conceito em vários textos e suas implicações para uma reformulação das práticas artísticas contemporâneas, em particular ampliando o domínio dessas práticas além da concepção clássica de “obra de arte” – o que pode ajudar a situar melhor as discussões entre Benjamin e Adorno.


Agradecimentos: Waltercio Caldas, Galeria Raquel Arnaud (SP), Pinacoteca de São Paulo
Apoio: FAEPEX