Cinema + filosofia “dá rock”?
Resposta SIM (parte I - implicitamente):
Esta primeira parte da resposta sim é implícita porque retrocedendo um pouco mais longe no tempo, chegando à época de escola, de adolescência, posso citar algumas experiências fílmicas marcantes que tive, como quando assisti “O óleo de Lorenzo” de George Miller, “Sociedade dos Poetas Mortos” de Peter Weird, “Carlota Joaquina” de Carla Camuratti, “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos ou “O Nome da Rosa” de Jean-Jacques Annaud. Todavia, naquele momento, talvez eu não tivesse a percepção do caráter filosófico de tais eventos. É verdade também que naquela época (anos de 1990) não havia a disciplina de filosofia na grade escolar, mas através de aulas de história, geografia, português ou literatura nós éramos levados a refletir, problematizar, argumentar, contextualizar… enfim, algo próprio, mas não exclusivo da atividade filosófica! Outro aspecto digno de nota é que o simples fato de se “assistir um filme durante a aula” era por si só emocionante. Mas hoje percebo quão ricas eram essas oportunidades.
Resposta SIM (parte II - explicitamente):
Agora, de forma mais explícita, a percepção de que “filosofia + cinema ‘dá rock’” ocorreu, por certo, no início de minha formação acadêmica, quando cursava filosofia na UCDB (nossa universidade católica da Cidade Morena) onde assistimos e discutimos - através de aulas ou projetos como o “Gotear da Filosofia em Terras do Oeste” - filmes tão variados como “O Carteiro e O Poeta” de Michael Radford, “Metrópolis” de Fritz Lang, “O Pagador de Promessas” de Anselmo Duarte, “A Marvada carne” de André Klotzel, “Tanga (Deu no New York Times?)” do Henfil, “A Montanha dos Sete Abutres” de Billy Wilder, “Dodeskaden” de Akira Kurosawa ou mesmo “A Tristeza do Jeca” de Mazzaropi (só para citar alguns que me vem à memória neste instante) para depois debatermos com colegas e professores como o Josemar de Campos Maciel, José Moacir de Aquino e Aparecido Francisco dos Reis. Por certo que buscávamos extrair conceitos filosóficos abstratos depois da fruição estética, mas o simples fato de assistir estes filmes era, novamente, por si só emocionante.
Outras duas aventuras cinéfilas existencialmente gratificantes e dignas de menção porque, de alguma forma, relacionaram filosofia e cinema foram o “Cine Sofia” e o “Cine Yamada”. A primeira ocorreu em parceria com o “Centro de Atenção Psicossocial AD” e permitiu que eu pudesse assistir e debater inúmeros filmes com seus pacientes. Já a segunda se deu entre amigos fraternos, com os quais compartilhamos ótimos momentos - de filmes, de prosa e também de ceia. Nesses eventos curtimos filmes como “O Homem Elefante” de David Lynch, “Ran” e “Os Sete Samurais”, ambos de Akira Kurosawa, “Solaris” de Andreï Tarkovski, “Um conto chinês” de Sebastián Borensztein, “Limite” de Mário Peixoto, “A partida” de Yojiro Takita, “It’s all true” de Orson Welles, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet, “O Cão Andaluz” de Luis Buñuel, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha… (entre tantos outros!).
Nesses encontros e em outros tantos que participei: por exemplo, quando em alguma férias paulistana, assisti “Anjos exterminadores” de Luis Buñuel na PUC-SP e o curta “O Oitavo Selo” de Tomás Creus na FUNARTE-SP; ou outros encontros ocorridos por aqui mesmo em Campo Grande, a exemplo do projeto “Ágora” da UFMS, coordenado pelo professor Weiny César Freitas, o qual permitiu assistirmos e debatermos "Fahrenheit 451” a partir da versão mais recente de Ramin Bahrani no Memorial Apolônio de Carvalho.
Pois bem, em todos esses eventos havia algo metodologicamente em comum: primeiramente assistíamos o filme - presencial e conjuntamente - e depois debatíamos. Este ritual era quase sacro! Da mesma forma, quando já exercendo a docência na Escola Estadual Hércules Maymone, pude repetir tal percurso com os estudantes (especialmente em uma época em que a disciplina de filosofia contava com duas aulas na grade curricular; isto durou até 2008 em Mato Grosso do Sul) ao apresentar vários destes filmes por mim já saborosamente experimentados nas sessões cinéfilas da vida mas que eram, quase sempre, algo inédito para aqueles jovens cidadãos!
Neste sentido, para exemplificar sem ser repetitivo, vou citar apenas filmes exibidos e debatidos presencialmente no Hércules Maymone que ainda não foram mencionados neste singelo depoimento, sendo eles: “Perfume de Mulher” de Martin Brest, “Mississipi em Chamas” de Alan Parker, “A Revolução dos Bichos” de John Halas e Joy Batchelor, “Veja esta canção” de Cacá Diegues, “Patch Adams - O Amor é Contagiante” de Tom Shadyac, “Capitão Fantástico” de Matt Ross (neste dia contamos com a participação especial de acadêmicos do curso de filosofia da UFMS que participavam do “pibid” sob orientação do professor José Carlos da Silva), “Balão Branco” de Jafar Panahi, “A Noite Americana” de François Truffaut, “Zorba, o Grego” de Michael Cacoyannis…
Todavia, eis que se apresentou para nós, humanidade, a assombrosa pandemia de covid-19, com consequências catastróficas imediatas: quase 6,5 milhões de mortes no mundo até o momento em que escrevo este texto (segundo dados da Universidade John Hopkins; cf. https://coronavirus.jhu.edu/). Além de outras tantas de gravidade importantíssima como, por exemplo, os prejuízos trazidos à formação educacional de 1,5 bilhão de crianças e jovens (segundo dados da UNESCO; cf. https://pt.unesco.org/covid19/educationresponse/globalcoalition). Assim, a partir do início de 2020 muitas questões, algumas por dever de ofício, outras por dever de cidadão, surgiram e continuarão em nossa pauta, certamente, por muito tempo.
Nesse sentido, como foi bem colocado pela Comissão internacional sobre os futuros da educação da UNESCO: “il est évident que nous ne pouvons pas revenir au monde d’avant” (que em bom português significa “é evidente que nós não podemos retornar ao mundo de antes”; cf. https://en.unesco.org/sites/default/files/leducation_dans_un_monde_post-covid-neuf_idees_pour_laction_publique.pd f). E isto eu já discutia, desde o início da pandemia, com meus colegas profissionais da educação, acreditando que seria impossível retornarmos ao status quo. Posto isto, devemos frisar que no Brasil, além destas questões de caráter mundial, estamos no processo de implantação do chamado Novo Ensino Médio, o qual se volta, por exemplo, para questões como letramento digital e protagonismo juvenil e que, além de permitir, exige audácia para que surjam novas possibilidades pedagógicas.
Pois bem, no contexto de escolas fechadas presencialmente para a comunidade naquele momento, o difícil ano de 2020, pensei se não seria possível utilizarmos de alguma forma os recursos então disponíveis para possibilitarmos a vivência de assistir e debater filmes. Para tanto, deveríamos nos reinventar (frase das mais ouvidas durante esses últimos tempos não é mesmo?), nos adaptar! A ideia era de que se fosse possível assistir um filme e bater um papo depois com nossos estudantes já seria uma vitória. É claro que um simples “bate-papo” poderia ser muito rico, pedagogicamente falando, mas naquele instante essa nem era a principal motivação, pois a própria experiência narrativa e estética de ver um filme e depois conversar com outras pessoas poderia ser importante existencialmente para nossos educandos.
Entretanto, para efetivar tal intento, primeiramente, era necessário encontrar meios de tornar possível tal proposta. Ocorre que, mesmo sendo leigo no uso de recursos tecnológicos, felizmente, pude obter a imprescindível ajuda de colegas como a Jane Padilha, a Adriana Barbosa, a Fabiana Neves, o Willian Cavalari, o Renato Lima, o Haristom Willy e o Márcio Ponciano, aos quais aqui agradeço publicamente. Isto possibilitou que pudéssemos criar a seguinte metodologia: cada pessoa iria assistir prévia e individualmente o filme para depois debatermos sobre o mesmo, agora sim, coletivamente, mas de forma virtual, através do Google Meet. Eis que assim nasceu o projeto “FilosoFilmando”!
É preciso dizer, neste momento, que para mim esta seria uma experiência desafiadora: pela falta de intimidade com os recursos tecnológicos, pelo ineditismo da situação, pela falta de uma metodologia estruturada e testada… enfim, confesso que não pareciam pequenos os desafios, todavia, para minha surpresa, aos poucos, foi naturalmente surgindo um caminho, uma forma e um roteiro que se consolidaram.
Para ser breve, graças a participação de dois estudantes excepcionais, a Karen Mainardes e o Kevin Campião - ela estudante do Hércules Maymone e ele estudante da Escola Estadual Severino de Queiroz (e que chegou a este projeto por indicação do seu professor de filosofia e do meu amigo Thiago Fróes) pudemos estabelecer o seguinte formato: 1. Cada pessoa assiste previamente em sua casa o filme selecionado; 2. Cada um faz suas observações e pesquisas para serem levadas ao debate 3. Discutimos conjuntamente através do Google Meet, com as câmeras fechadas e compartilhando slides que apoiam nossas análises; 3.1. Analisamos pontos como direção, produção, interpretação, personagens, cenas e falas marcantes, contexto cultural, fotografia, valores, verossimilhança, exegese, estética…; 4. Após o término do encontro virtual, ficamos com o desafio de escrever um texto que contemple nossas impressões do processo de assistir o filme e debatê-lo (#ficaadica: na parte “Atenção, contém spoilers!” deste site você pode ler vários destes textos).
Dessa forma, até este instante, já assistimos e debatemos vinte filmes, dentre os quais posso elencar os seguintes: “Hair” de Milos Forman, “Platoon” de Oliver Stone, “Deus e O Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha, “Grandes Olhos” de Tim Burton, “Um Estranho no Ninho” de Milos Forman, “Central do Brasil” de Walter Salles, “Sinédoque Nova York” de Charlie Kaufman, “V de Vingança” de James McTeigue e nosso primeiro filme desta jornada que foi “Cinema, Aspirinas e Urubus” de Marcelo Gomes (lembrando que os nomes dos outros filmes já apareceram anteriormente neste texto, mas caso queira saber exatamente quais foram os vinte filmes assistidos, basta procurar neste site os convites dos nossos encontros).
E já que estamos falando deste singelo site, que tal explorá-lo um pouco mais hein? Se você nunca entrou no site de importantes festivais e premiações, você pode clicar nos respectivos botões e entrar nos sites oficiais do Oscar, do Festival de Cannes, do tradicionalíssimo Festival de Cinema de Gramado ou da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Mas saiba que existem outras opções neste site também para você ficar antenado: reportagens, sites dedicados ao cinema, programas sobre o assunto, podcasts….
Agora deixo uma dica super legal! Neste site do FilosoFilmando você vai encontrar links para algumas plataformas gratuitas, são elas “Spcine Play” e “Itaú Cultural Play”, através das quais você terá acesso a filmes e documentários! Em tempo, já pensou se o MEC criasse uma plataforma dessas também para disponibilizar os inúmeros filmes que são citados em nossos livros didáticos de Ciências Humanas e Sociais, Linguagens, Ciências da Natureza, Matemática, além, é claro, de Projeto de Vida?
Outro dia ouvi um comentário do professor Marco Antônio Villa que disse ter ido assistir o filme “Atirem no Pianista” do Truffaut em São Paulo imaginando que deveria se deparar com uma sala cheia devido ao horário já próximo do início da sessão. Todavia, lá chegando constatou que a sala estava vazia…
Aproveitando tal exemplo para refletir um pouco, apesar dos pesares, imagino que nós, professores, jornalistas, doutores, artistas, enfim, sociedade, devemos nos esforçar para criar condições propícias para que este universo cultural-artístico-cinematográfico possa, ainda, e quiçá mais, atingir espaços diversos, inclusive o espaço escolar (a própria escola, mas também o lar e a família de nossos jovens) pensando em dialogar desde com o estudante que necessita recuperar sua aprendizagem até os alunos com Altas Habilidades.
Para finalizar este depoimento, gostaria de registrar aqui meu elogio aos colegas da área de Matemática e Ciências da Natureza e suas tecnologias do Centro Estadual de Educação Profissional Hércules Maymone, os quais vêm se valendo neste ano de 2022 da obra fílmica enquanto recurso didático. E digo isto porque outro dia fui convidado para registrar (fotografar) os preparativos da sessão que oportunizou o filme “Interestelar” de Christopher Nolan para os estudantes que fazem o aprofundamento de seus estudos no itinerário formativo supracitado. Só para não deixar dúvidas: Sim! Os colegas estavam absorvidos - e felizes - na tarefa de estourar e organizar a pipoca para mais um dia de aula, o qual, seguramente, ficará para sempre marcado na memória de muitos - joviais professores e jovens educandos!