Protagonismo Estudantil e transformação do território:
uma experiência de educação para o desenvolvimento sustentável na EMEF Virgílio de Mello Franco
Introdução
A Agenda 2030 da ONU (Organizações das Nações Unidas) é um conjunto de objetivos e metas a serem alcançadas em todo o planeta, visando construir sociedades sustentáveis, pacíficas, prósperas e equitativas. Ela se divide em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em diversos âmbitos de ação: educação, saúde, ecossistemas, cidades, equidade de gênero, erradicação da pobreza etc.
Para serem alcançados, os ODS exigem a parceria entre organismos internacionais, governos e sociedade civil, em nível global, nacional e local. Também requerem mudanças de comportamento, de pessoas e instituições, visando formar cidadãos “agentes de mudança direcionada à sustentabilidade”, a partir de “conhecimento, habilidades, valores, atitudes que lhes permitam contribuir para o desenvolvimento sustentável” (UNESCO, 2017, p. 6).
Para ajudar nesse processo, é muito importante desenvolver uma Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS), pautada em uma “pedagogia transformadora orientada para a ação, que apoie a autoaprendizagem, a participação e a colaboração; uma orientação para a solução de problemas; inter e transdisciplinaridade; e a conexão entre aprendizagem formal e informal” (UNESCO, 2017, p. 7).
O Currículo da Cidade de São Paulo incorpora os ODS como temas inspiradores, capazes de “dialogar com a dinâmica e os dilemas da sociedade contemporânea, de forma que as novas gerações possam participar ativamente da transformação positiva tanto da sua realidade local, quanto dos desafios globais” (SÃO PAULO, 2017, p. 35).
Dialogando com esta inspiração, a EMEF Virgílio de Mello Franco desenvolveu entre 2021 e 2022 o Projeto Prototype City São Paulo, uma parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), consulado britânico, Espaço Alana e ONG CoCriança. O projeto consistiu em mobilizar estudantes do 9º ano para pensar soluções para problemas locais do território onde a escola se localiza, no Jardim Pantanal, periferia leste da cidade de São Paulo.
O resultado foi a intervenção chamada “Rua das Crianças”, que revitalizou um espaço em frente à escola, que antes era usado apenas para descarte de lixo. Agora, instalou-se uma praça ampla, colorida, com espaço para brincar, se reunir ou simplesmente passar uma tarde, garantindo a reocupação do espaço público nesse contexto que se encaminha para o fim da pandemia de COVID-19.
Além de servir como exemplo de parceria em nível local e internacional, conforme preconiza a ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação), o projeto também permitiu o desenvolvimento de competências-chave para a sustentabilidade e o alcance de objetivos específicos ligados às ODS 4 (Educação de Qualidade) e ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis).
O contexto local
O bairro onde se insere a EMEF Virgílio de Mello Franco, o Jardim Pantanal, está localizado na periferia leste da cidade de São Paulo, área de várzea do Rio Tietê. A população sofre com enchentes em época de chuva, falta de saneamento básico, moradias ainda irregulares. Ao mesmo tempo, a comunidade possui enorme potencial humano, com diversas mobilizações no campo das artes, regularização fundiária, cultura, assistência aos mais necessitados. Tudo isso foi bastante marcado pela pandemia de COVID-19, incluindo a relação entre escola e comunidade. Projetos foram paralisados e a região sofreu muito com a mortalidade advinda do coronavírus. A escola fechou as portas e afetou a aprendizagem dos nossos quase 800 alunos.
Foi a partir desse contexto, ainda em 2021, que surgiu a possibilidade de parceria entre a escola, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o British Council, a ONG CoCriança e o Espaço Alana, no Projeto Prototype City, que promove intercâmbio em arquitetura e urbanismo, centrado em colaboração internacional, com o objetivo de construir intervenções urbanas nos territórios, com a participação de seus moradores. Para a escola, foi a oportunidade de retomar o diálogo com a comunidade e o território e abrir-se para inovações em nível pedagógico e curricular.
O projeto consistiu em diversas oficinas nas quais os estudantes desenvolveram mapas afetivos, construíram maquetes, fizeram passeios pelo território ao redor da escola, refletiram sobre ODS, conversaram e sensibilizaram a comunidade etc. Como resultado, pensou-se em uma intervenção relacionada a um dos problemas identificados no bairro: a ausência de espaços de lazer, principalmente destinado às crianças.
O entorno da escola foi o lugar escolhido para a intervenção. Em parceria com arquitetos brasileiros e ingleses, cujo diálogo foi mediado pelo British Council, órgão consular da Inglaterra no Brasil, foi sendo pensada uma estrutura que revitalizasse a calçada da rua da escola, transformando-a em uma “Rua das Crianças”. Ao final, a calçada que antes era utilizada como depósito de lixo, se tornou um agradável lugar de encontros para a comunidade que vive no entorno.
Destacamos a seguir três características do Prototype que dialogam diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável:
Metodologias Ativas para uma Educação de Qualidade (ODS 4)
O projeto aconteceu em 4 etapas. Na primeira, de aproximação, os estudantes desenvolveram atividades voltadas a desenvolver um olhar crítico sobre o entorno. Iniciaram, em 2021, com a construção de mapas afetivos, identificando no território lugares que gostam ou não, pontos positivos e negativos do entorno onde moram. A partir daí, identificaram-se diversas demandas para futuras intervenções. Uma delas dizia respeito à qualificação do espaço do entorno da escola.
Na segunda etapa, as mediadoras desenvolveram dinâmicas em sala para despertar a cooperação e o interesse do projeto nos educandos. Eles foram levados a um passeio pelo território para apreciá-lo de modo crítico, identificando problemas e possibilidades de intervenção. De volta à sala de aula, puderam dar margem à imaginação e construir protótipos em forma de maquetes e desenhos de como imaginavam que poderia ser uma intervenção no entorno. A criatividade, portanto, contribuiu para uma abordagem problematizadora do território e a definição da intervenção: uma revitalização da calçada da escola, na Rua Erva do Sereno, com o intuito de transformá-la em espaço de lazer para adultos e crianças.
A terceira etapa foi de argumentação criativa e mobilização para viabilizar a intervenção. Os estudantes foram incentivados a pensar os prós e os contras das ideias mobilizadas, sensibilizarem-se em torno das demandas do território em relação às infâncias, o papel das ODS na perspectiva de uma comunidade sustentável. Enquanto isso, os arquitetos envolvidos no projeto já colocavam em prática as ideias propostas e construíam o protótipo da intervenção. Esta etapa encerrou-se com uma grande reunião entre estudantes, educadores e comunidade, visando apresentar as propostas criadas e recolher mais sugestões.
Chegamos, assim, na quarta etapa do projeto: intervenção e celebração. Foi uma etapa mais difícil e demorada, pois demandou diálogo com o poder público. A Subprefeitura de São Miguel foi convocada para autorizar a intervenção e, depois de muitas idas e vindas, o projeto foi autorizado. A construção do espaço demorou em torno de 30 dias, entre os meses de maio e junho de 2022. Ao final, os estudantes ocuparam a agora Rua das Crianças com uma celebração do percurso realizado.
Ao analisar o percurso metodológico do projeto, identificamos o uso de metodologias ativas da aprendizagem, pensadas para favorecer a construção de relações cooperativas, empáticas, críticas e criativas, visando desenvolver nos educandos o senso de responsabilidade e cidadania. Junto com os educadores, eles foram sujeitos do processo, e isso garantiu aprendizagens de qualidade e uma intervenção capaz de modificar o território e a relação entre escola e comunidade.
Abarcou-se, portanto, os objetivos de aprendizagem relacionados à ODS 4 (Educação de Qualidade): objetivos de aprendizagem cognitiva, com a construção, por parte dos educandos, do entendimento sobre a possibilidade de que ajudem a construir um mundo mais sustentável e equitativo; aprendizagem socioemocional, em que os educandos foram capazes de motivar uns aos outros e aproveitar melhor a oportunidade educacional; e aprendizagem comportamental, com a mudança de postura em relação ao território e o empoderamento dos adolescentes em função de transformações necessárias na comunidade.
A transformação do território em uma comunidade sustentável (ODS 11)
Destacamos também na metodologia do projeto uma preocupação constante em qualificar o olhar dos educandos para o seu próprio território, lugar de moradia, vivência, experiências sociais diversas. O objetivo foi despertar em cada estudante o desejo de modificar situações negativas que marcam sua relação com o território. Nesse sentido, a intervenção “Rua das Crianças” conseguiu abarcar a possibilidade de intervenção diante de um problema – a ausência de espaços de lazer para crianças e adolescentes – enquanto desenvolvia nos adolescentes suas capacidades de avaliar situações, propor soluções, colocar-se na defesa de projetos sustentáveis e cocriar comunidades mais inclusivas e seguras.
Nesse sentido, o projeto dialoga diretamente com os objetivos de aprendizagem associados à ODS 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis, cujo principal objetivo é tornar as cidades e assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. OS estudantes foram levados a entender as necessidades físicas, sociais e psicológicas humanas básicas e como isso é contemplado em seu território (aprendizagem cognitiva); foram incentivados a utilizar a própria voz para “identificar e utilizar os mecanismos de participação pública nos sistemas de planejamento local” (aprendizagem socioemocional); e a “planejar, implementar e avaliar projetos de sustentabilidade baseados na comunidade” (aprendizagem comportamental).
A colaboração local e global para uma sociedade sustentável (ODS 17)
Por fim, destacamos a diversidade das instituições e organizações envolvidas no projeto como um modelo a ser seguido no que diz respeito à busca por “fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável”, conforme preconiza a ODS 17 – Parcerias e Meios de Implementação.
O Prototype City é um projeto já desenvolvido em outras cidades do mundo, financiado pelo British Council, que foi apresentado à EMEF Virgílio de Mello Franco pelos parceiros do Espaço Alana, com quem a escola já mantém parcerias em nível local. A partir do diálogo antes estabelecido, fomos procurados pelo IAB e a ONG CoCriança para verificar a possibilidade de colocá-lo em prática. Ao dialogar com os professores da escola e equipe gestora, decidimos por aderir ao projeto, cujo potencial nos pareceu muito grande dado o contexto em que vivemos, de retomada das relações com o território nesse momento da pandemia de COVID-19.
Todo o projeto foi executado tendo em conta a parceria dos educadores da escola (professores e equipe gestora), os educandos e seus pais e responsáveis, as diversas instituições que compõem a parceria, fazendo uma ponte entre Brasil e Reino Unido. O modo como esta parceria foi concretizada, a qual deixou de ser apenas local e atingiu um patamar, ao menos, intercontinental, tem um potencial pedagógico imenso tanto para as instituições envolvidas, que adquirem capacidade institucional de replicar a experiência, como para as pessoas envolvidas.
Os estudantes tiveram a oportunidade de compreender a “importância de parcerias globais entre múltiplos atores e a responsabilidade compartilhada para o desenvolvimento sustentável” (aprendizagem cognitiva); foram capazes de “criar uma visão para uma sociedade global sustentável” (aprendizagem socioemocional); também desenvolveram a capacidade de tornarem-se agentes de mudança em função da criação de uma sociedade global sustentável e “contribuir para facilitar e implementar parcerias locais, nacionais e globais para o desenvolvimento sustentável” (aprendizagem comportamental).
Considerações finais
Ao fazer uma retrospectiva desta rica experiência pedagógica, percebemos que os sujeitos do processo – educadores e educandos – tiveram uma oportunidade única de desenvolver uma série de competencias-chave para a sustentabilidade, conforme preconiza a Organização das Nações Unidas. Ao final do projeto, os envolvidos se mostram mais capazes de compreender e avaliar diferentes cenários de futuro, analisar sistemas complexos, negociar valores e princípios em função de projetos sustentáveis, colaborar na resolução de problemas locais e globais, questionar normas e opinar sobre o território, refletir sobre seu papel na comunidade e na sociedade, aplicar diferentes marcos na resolução de problemas (UNESCO, 2017, p. 10).
O término do projeto Prototype City, portanto, é apenas o começo para a EMEF Virgílio de Mello Franco. O próximo passo é repensar formas qualificadas de ocupação do espaço revitalizado e batizado de Rua das Crianças, junto com os educadores e educandos, visando ampliar as aprendizagens em todos os níveis e modalidades, contribuindo para a transformação local e global.
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