Programação das Palestras e Minicurso
Nesta página encontra-se o resumo de cada palestra e do minicurso que serão apresentados durante o Encontro, assim como uma breve biografia de cada apresentador.
Ademais, ao fim desse página encontra-se o detalhamento do lançamento de um livro de um colega nosso do Programa de Pós-Graduação de Filosofia, lançamento esse que irá ocorrer em paralelo com uma das palestras.
As datas e salas de cada palestra, do minicurso e do lançamento do livro estão listadas na programação geral do evento, que pode ser encontrada na página da Programação.
Minicurso
Profª. Drª. Jéssica Kellen Rodrigues (UNICAMP)
Jéssica Rodrigues é Professora e pesquisadora de Pós-doutorado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (2024) com a pesquisa "Teorias críticas da raça e o ensino da história da filosofia como base para uma pedagogia engajada enquanto práxis política". Doutora em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da mesma instituição, com a tese intitulada "As noções de movimento e de criação divina na filosofia de Descartes: Uma leitura não ocasionalista", defendida em agosto de 2023. Mestra em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas, com a dissertação "Metafísica e matemática: A relação das ideias evidentes da intuição e o fundamento primeiro do conhecimento na filosofia cartesiana", defendida em setembro de 2018. Licenciada em Filosofia pela Universidade Federal de Lavras, onde desenvolveu o trabalho de conclusão de curso com o tema "A verdade do cogito no sistema cartesiano" em 2015. Atualmente, é membra do Grupo de Pesquisa Metafísica e Política (GPMP), do Grupo de Estudos, Pesquisas e Escritas Feministas (GEPEF), do Grupo de Estudos Luiz Gama e do Physis - Centro de Pesquisa sobre a História da Filosofia da Natureza. Seus temas de interesse incluem Filosofia e Raça, Teoria Crítica da Raça, Feminismos, Feminismo Negro, Filosofia Moderna, Descartes e o Cartesianismo, História da Filosofia da Natureza, Filosofia e Psicanálise e Ensino da Filosofia.
Contato: jessicakellenrodrigues@gmail.com
Neste minicurso pretendo investigar os caminhos da filosofia acadêmica no Brasil, desde o marco histórico da “Missão Francesa”, no início do século XX, até as investigações contemporâneas que incorporam os marcadores sociais da diferença como categorias fundamentais de reflexão filosófica. A filosofia brasileira, inicialmente estruturada sob a égide do estruturalismo e do cânone europeu, foi atravessada pelas tensões sociais e políticas que se manifestam nas esferas de gênero, raça e classe, e que deslocaram a reflexão filosófica para além das aulas “tradicionais” de filosofia. Assim, emergiram vozes que, situadas na encruzilhada entre a filosofia e a multidisciplinaridade, tencionaram a própria definição da atividade filosófica. Pensando nisso, o curso propõe pensar a filosofia tanto em sua vocação universal de interrogar o real quanto em sua capacidade de resistir, reinventar-se e abrir espaço para vozes silenciadas, novos temas e métodos. Nesse percurso, busco debater como a filosofia acadêmica brasileira enfrenta o desafio de compatibilizar o devir histórico-social com a aspiração pela perenidade, configurando-se como campo em disputa e em constante reelaboração.
Estrutura do minicurso:
Dia 1:
Módulo I:
Origens e Institucionalização;
A Missão Francesa e o processo de consolidação da filosofia acadêmica no Brasil;
O papel do estruturalismo e da formação europeia no desenho do pensamento filosófico inicial;
Tensões entre universalismo filosófico e contexto nacional.
Módulo II:
Filosofia, sociedade e marcadores da diferença;
As categorias de gênero, raça e classe como eixos de reflexão filosófica;
A exclusão e o silenciamento de grupos étnicos na tradição filosófica brasileira;
A inserção de perspectivas críticas a partir de outros campos do saber (educação, sociologia, política e outros).
Dia 2:
Módulo III:
Filosofias da Raça;
Lélia Gonzalez e a filosofia da Amefricanidade;
Sueli Carneiro e a crítica filosófica ao epistemicídio;
Neusa Santos Souza e as intersecções entre subjetividade, raça e opressão;
Abdias do Nascimento e a filosofia da negritude no Brasil;
Nego Bispo e o pensamento quilombola como filosofia do comum.
Módulo IV:
A filosofia em disputa: métodos, questões e transformação do real;
O retorno da filosofia ao real: crítica aos métodos tradicionais e busca de novos horizontes;
O diálogo com movimentos sociais e a abertura de novos espaços de legitimidade filosófica;
O desafio da compatibilização entre historicidade, resistência e universalidade;
Perspectivas para o futuro da filosofia acadêmica no Brasil.
Bibliografia Básica:
ARANTES, Paulo Eduardo. Um departamento francês de ultramar: estudos sobre a formação da cultura filosófica uspiana. São Paulo: Paz e Terra, 1994.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. São Paulo: Schwarcz-Companhia das Letras, 2023.
DOMINGUES, Ivan. Filosofia no Brasil: legados e perspectivas -ensaios metafilosóficos. São Paulo: Editora UNESP, 2017.
FRATESCHI, Y. A. “O Universalismo de Sueli Carneiro.” Revista Dissertatio de Filosofia, p. 5-24, 2023.
GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. São Paulo: UCPA, 2018.
NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2016.
NEUSA SANTOS SOUZA. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
NEGO BISPO. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: INCTI, 2019.
Palestras
Palestra de Abertura
Profª. Drª. Nathalie de Almeida Bressiani (UFABC)
Nathalie Bressiani é professora da Universidade Federal do ABC. Fez sua formação na USP, onde fez graduação, mestrado e doutorado em filosofia, e desenvolveu pesquisa de pós-doutorado na Humboldt-Universität e no Cebrap, onde hoje coordena o Núcleo de Filosofia. Nathalie trabalha com teoria crítica e teoria feminista, tema sobre o qual vai falar nessa palestra.
Contato: nathalie.bressiani@ufabc.edu.br
O debate em torno do que ainda há de crítico na teoria crítica vêm ganhando força nos últimos anos, tanto no Brasil como fora dele. O retorno do vocabulário da contradição, decorrente de um novo diagnóstico de crise, parece inconciliável com o paradigma da crítica reconstrutiva, mobilizado por autores como Jürgen Habermas e Axel Honneth. O resultado, ainda provisório, pode ser observado na proliferação de textos que, ou bem colocam em xeque o potencial crítico da reconstrução, e buscam repensar quais seriam as bases da crítica social imanente, ou ainda problematizam a própria centralidade que as discussões metodológicas adquiriram, e defendem um retorno da teoria crítica ao seu objeto: a sociedade. Partindo de uma breve análise desse debate, o objetivo desta conferência é situar o trabalho de Nancy Fraser em seu interior. Nos afastando de leituras que a aproximam da reconstrução habermasiana, ou ainda do construtivismo rawlsiano, procurarei mostrar que a teoria crítica de Fraser pode ser melhor entendida nos termos de uma filosofia da práxis, na qual a contradição permanece presente, e é expressa de diferentes modos pelas lutas sociais – cujos contornos e potenciais se alteram historicamente. Ao fazer isso, além de discutir qual o potencial crítico dos movimentos sociais das últimas décadas, e algumas das transformações pelas quais eles passaram, pretendo discutir qual é o lugar do teórico crítico e o que pode significar sua tarefa, tal como compreendida por Fraser, a saber: promover a autocompreensão dos desejos e lutas da época.
Primeira Palestra
Dr. Rafael R. Testa (UNICAMP)
Rafael Testa atualmente é pesquisador colaborador da Unicamp. Além disso, é Bacharel, Mestre e Doutor em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, na área de Lógica Matemática. Realizou estágios de pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ), na Faculdade de Ciências Exatas e da Engenharia da Universidade da Madeira (FCEE-UMa, Portugal) e no Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE-Unicamp), onde atualmente é pesquisador associado. Possui ainda formação complementar na área da Educação, com licenciatura em Pedagogia (UAM) e especialização em Educação Especial na Perspectiva Inclusiva (Senac).
Contato: rafaeltesta@gmail.com
O ensino de Lógica no Ensino Médio é fundamental para o desenvolvimento intelectual dos estudantes, pois fornece uma estrutura conceitual essencial para identificar inferências válidas, reconhecer falácias e construir argumentos sólidos. Apesar de sua relevância, seu ensino enfrenta um desafio duplo: de um lado, a abstração dos conceitos, frequentemente abordados com uma linguagem formal densa, tende a afastar os estudantes, tornando o conteúdo árido e desvinculado de suas experiências concretas; de outro, as abordagens pedagógicas tradicionais muitas vezes negligenciam seu potencial interdisciplinar e prático, limitando o alcance e a aplicabilidade da disciplina em sala de aula.
Diante desse cenário, torna-se urgente repensar metodologias que integrem o ensino de Lógica ao currículo escolar de forma significativa. Nesta apresentação, compartilho ferramentas desenvolvidas no contexto do projeto "Logibras -- Elaboração de material didático de Lógica para surdos em uma perspectiva bilíngue e intercultural" (CNPq 420284/2022-2). Iniciado com foco na criação de materiais voltados a estudantes surdos, o projeto baseia-se em estratégias pedagógicas específicas para esse público, como a pedagogia visual, o uso de narrativas e a aprendizagem baseada em projetos. Essa abordagem busca promover a participação ativa e a interação entre estudantes surdos e ouvintes, prescindindo da língua -- áudio-verbal ou gesto-visual -- no sentido de que os conceitos não se sustentam nela, mas em suportes visuais, táteis e narrativos, que funcionam como mediação principal no processo de aprendizagem. A língua, nesse contexto, assume um papel complementar, servindo como recurso de interação entre os pares, mas não como eixo central da construção conceitual. Dessa forma, evita-se a imposição de um modelo único de comunicação e amplia-se o potencial inclusivo da proposta. Esse percurso propiciou a expansão natural do foco inicial, consolidando uma proposta de inclusão em sentido mais amplo (TESTA; MORAES; BIZIO, 2025).
O projeto teve origem nas experiências do FiloLibras (IFSP-Votuporanga), iniciativa voltada à produção de videoaulas em Libras para todas as áreas da Filosofia (FILOLIBRAS, s.d.). A elaboração de uma aula de Lógica no âmbito desse projeto evidenciou os desafios particulares do ensino dessa disciplina, motivando o desenvolvimento de uma proposta específica voltada à área (TESTA; BIZIO; MORAES, 2022). A partir dessa trajetória, a apresentação discutirá os principais desafios enfrentados pelos projetos citados, os fundamentos teóricos mobilizados e as ferramentas desenvolvidas ao longo do processo, que culminaram na estruturação de um futuro em Laboratório de Ensino de Lógica no CLE-Unicamp, voltado à promoção de uma abordagem sensível à diversidade de perfis e modos de aprendizagem em sala de aula.
Referências
FILOLIBRAS. Canal IFSP-Filolibras. s.d. Disponível em: <https://www.youtube.com/ifsplolibras>.
TESTA, Rafael R.; BIZIO, Lucimar; MORAES, João A. de. Metodologias para o ensino de lógica em libras: ifsp lolibras. notas sobre o desenvolvimento de uma aula de lógica para o projeto CLE e-Prints, v. 20, n. 3, 2022. ISSN 1519-9681. Disponível em: <https://www.cle.unicamp.br/eprints/index.php/CLE_e-Prints/article/view/1615>.
TESTA, Rafael R.; MORAES, João A. de; BIZIO, Lucimar. Tecnologias para o ensino inclusivo de lógica: inovações visuais, lúdicas e interativas no projeto logibras. In: DELIBERATO, Débora; Pesquisas e trabalho colaborativo: práticas para a formação de prossionais da Educação Especial. Editora Sobama, 2025. p. GONçALVES, Maria de Jesus; MANZINI, Eduardo José (Ed.). 131148. Disponível em: <https://philpapers.org/rec/TESTPO-6>.
Segunda Palestra
Me. Guilbert Kallyan da Silva Araújo (IPUSP, UFPE)
Psicólogo Clínico (CRP 02/27050), psicanalista, Mestre em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGFil - UFPE). Coordenador do Grupo de Estudos Frantz Fanon (GEFF - UFPE).
Contato: guilbertkallyan@gmail.com
O presente trabalho aborda os limites e possibilidades da utilização de ferramentas
metodológicas advindas da Psicologia, Psicanálise e Sociologia para realização de pesquisas
sobre raça e racismo na Filosofia. A partir de uma crítica ao pretenso universalismo da pureza
da razão, apontamos que a dimensão do Ser-Negro demanda uma interlocução entre diversos
campos do saber para realização de investigações científicas que dêem conta da experiência
do sujeito e da sociedade. Apresentamos a possibilidade de utilização do ferramental analítico
da Psicologia Clínica, através do uso de narrativas singulares; da Psicanálise, através do uso
da escuta ativa e de casos clínicos; e do aparato sociológico do Materialismo Histórico-Dialético (MHD), como caminhos possíveis para estabelecimento de dispositivos teórico-analíticos para investigação filosófica. Apontamos como cada campo oferece aportes para apontamento de elementos constitutivos da composição da negrura, vista como objeto de pesquisa.
Da Psicologia, sublinhamos como a fala dos entrevistados trazem para o corpus das
pesquisas os elementos singulares, restritos à experiência individual e que escapam da análise
documental Aqui, a limitação posta se situa na impossibilidade de observação de dados
relacionais e estruturais, ainda que possam ser percebidos elementos nos dados. Da
Psicanálise, sublinhamos a forma como a escuta do sofrimento nos habilita dimensionar a
relação entre sujeito e sociedade, habilitando a identificação de dados da realidade que atuam
como componentes da experiência singular do Ser. Apontamos como limite deste campo, a
dificuldade em delimitar os processos que engendram componentes das afetações, ainda que
habilite observar o real a partir de um ponto focal. Da Sociologia, o MHD nos habilita a
interpelação dos dados psicológicos e psicanalíticos para compreensão dos processos tanto de
construção dos sujeitos quanto de suas realidades, objetivando estabelecer as contradições
entre Raça, Gênero e Classe, e como estas situam o Ser na relação com a materialidade
concreta. Enquanto limite, apontamos como esse método pode incorrer em análises
totalizantes, que reduzem o Ser a um subproduto das relações de classe. À guisa de
conclusão, pontuamos como cada um dos campos oferece formas de investigação e
arcabouço teórico úteis à investigação filosófica, sendo potencializadoras das pesquisas que
objetivem o estudo das contradições de raça e suas reverberações filosóficas.
Palestra de Encerramento
Prof. Dr. Lucas Angioni (UNICAMP)
Lucas Angioni é professor do Departamento de Filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) desde 1998, onde lidera o Grupo de Pesquisa MESA (Metafísica e Ciência em Aristóteles), registrado no CNPq. É Bolsista de Produtividade do CNPq desde 2001, atualmente no nível 1-B. Foi Academic Visitor em Oxford diversas vezes (desde 2007). Foi também Pesquisador Visitante em Stanford duas vezes (2014, 2015) e Professor Visitante na Eberhard Karls Universität Tübingen (2023), na Alemanha. É Pesquisador Associado do Projeto ERC-TIDA (2023-2027) na Eberhard Karls Universität Tübingen, dirigido pelo Prof. Klaus Corcilius. Escreveu diversos artigos sobre Aristóteles, publicados em periódicos como Oxford Studies in Ancient Philosophy, Apeiron, Ancient Philosophy, History of Philosophy and Logical Analysis, Eirene, Archai, Studia Philosophica Estonica, Manuscrito (e outros). Capítulos de livros também apareceram, ou estão em produção, em editoras como Walter De Gruyter, Springer, Brill, Cambridge Scholars Publishing, Akademia Verlag. Angioni é autor de diversos artigos, livros e capítulos de livros em português, com destaque para As Noções Aristotélicas de Substância e Essência (Campinas: Unicamp, 2008), sobre os livros centrais da Metafísica de Aristóteles, e Física I-II (Campinas: Unicamp, 2009, várias reimpressões), tradução com comentário dos livros I e II da Física de Aristóteles. Um projeto de pesquisa para a vida inteira consiste na tradução das obras de Aristóteles, com vários pré-prints publicados pelo IFCH/Unicamp. Uma tradução comentada de Metafísica V está em produção. Sua pesquisa atual gira em torno da teoria da explicação científica nos Segundos Analíticos de Aristóteles. Um livro sobre o objeto e a estrutura dos Segundos Analíticos de Aristóteles está em andamento, bem como outro, em parceria com Andrea Falcon e Klaus Corcilius, sobre a explicação científica do sono no tratado De Somno de Aristóteles.
Contato: angioni.lucas@gmail.com
Abordarei as dificuldades e os desafios envolvidos na pesquisa em Filosofia tal como institucionalizada nas universidades brasileiras, com ênfase ao tópico da internacionalização. Abordarei questões como o conhecido vira-latismo, a reciprocidade da interlocução, as dificuldades institucionais etc.
Lançamento de Livro
José Victor (Autor, Doutorando PPGFiL - IFCH/UNICAMP)
O livro apresenta um texto acadêmico baseado em pesquisas realizadas no departamento de ciência política durante minha licenciatura em filosofia, comparando as teorias político-filosóficas de Guerreiro Ramos, poeta, professor, sociólogo e político brasileiro, baiano, e Frantz Fanon, dramaturgo, ensaísta, médico psiquiatra e cientista social martinicano-argelino, em torno dos problemas do racismo e neocolonialismo e o desafio da descolonização e revolução nacional.
Mediação: A Definir
Convidados:
André Kaysel (PEPOL/CEMARX)
Luci Chrispim Micaela (MNU)