Kaique Henrique Silva de Jesus
Estudante do Curso Integrado de Segurança do Trabalho do IFPE-Campus Caruaru
Data: 3 de dezembro de 2023.
Dirigida e produzida totalmente por mulheres, a série Boneca Russa, da Netflix, lançada em 2019, ou de forma mais específica a primeira temporada dela, se aprofunda em temas como o autoconhecimento, a reflexão, a brevidade da vida, os vícios, as compulsões e a repetição de um mesmo dia, tema já abordado em filmes como Feitiço do tempo(ou Dia da marmota
em uma tradução direta do título original). Porém, ela traz uma novidade a essa fórmula: O foco está nos personagens e nos problemas deles, não na situação fantasiosa apresentada, mesmo que a referida preencha boa parte do ambiente em que os protagonistas agem e interagem.
O foco da obra está principalmente na vida de Nádia Vulvokov, a protagonista principal da obra, mostrando seu círculo social e seu desinteresse na vida, ela tem o hábito compulsivo de fumar muitos cigarros por dia e busca viver de modo a não ser controlada pelos outros.
Complementando a história, nos é apresentado o outro protagonista, Alan Zaveri, que tenta em grande parte da série voltar com a sua namorada, ele come doces compulsivamente nos momentos de estresse e nessa mesma situação de compulsão ele tenta ter uma vida regrada e extremamente controlada. A coexistência entre eles destacam os seus problemas e traumas, ambos pouco falados na série.
A trama se baseia no fato de que eles estão passando por problemas semelhantes apesar das suas personalidades conflitantes. Devido a essa semelhança e a certas coincidências, que não valem ser citadas para não estragar a experiência de um novo espectador da série, eles foram unidos. Na parte técnica do enredo, a atuação não deixa a desejar e tem um elenco bem variado, já a transmissão de informações acontece sem que seja necessário desassociar os personagens de sua individualidade e existência somente para emitir uma informação.
Fora do enredo, a série mostra um bom uso dos sons, das músicas e do silêncio, seja o encaixando a personalidade de um dos protagonistas ou na construção da sensação de catarse, que torna mais fácil ser afetado pela tensão, tristeza ou alegria nas cenas correspondentes. Na filmagem a iluminação não falha em trazer um ambiente real, sequer a troca dos ângulos e perspectivas que são bem dinâmicas. No entanto, o tempo das cenas é curto demais para dar mais personalidade a outros personagens que detêm uma certa relevância.
Infelizmente a linguagem não é própria para todos os públicos, o que impede uma maior visibilidade da obra para a sociedade e também não ocorre uma reflexão da obra por parte dos indivíduos. O humor às vezes tem seu brilho, apesar desse pequeno empecilho em relação à linguagem "Boneca Russa" continua sendo uma boa obra.