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A TIPOGRAFIA NA SOARES DOS REIS

          

SALA DE COMPOSIÇÃO DA "VELHA" SOARES DOS REIS



Outubro de1986, início da minha actividade docente na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis. Sou admitido como técnico de tipografia na especialidade de compositor tipógrafo para leccionar nos cursos unificados do ensino diurno. Na primitiva sala de composição repleta de cavaletes com caixas de tipos e corpos diversos, vou ensinar aos alunos dos 7.º, 8.º e 9.º anos, técnicas tipográficas (trabalhos oficinais) onde a componente tipográfica era complementarizada com o ensinamento de outras técnicas como sejam, a execução de gravuras a linóleo, elemento que era adquirido em papelarias especializadas e depois com a utilização de umas goivas (pequenos buris) onde primeiro o aluno desenhava sobre papel vegetal o elemento a reproduzir e que era colocado por cima de um químico e depois escavado até obter o relevo necessário para a respectiva impressão. As gravuras a executar eram fundamentalmente para o máximo de duas cores, pelo que teriam que ser feitas duas placas de linóleo, depois de previamente definidas eram coladas sobre bases de alumínio ou madeira com o objectivo de ficarem à mesma altura do tipo a empregar.

Após uma prévia aprendizagem da caixa, muito rudimentar pois o único objectivo era o
aluno conseguir compor uns pequenos textos para juntar ás gravuras executadas para depois serem impressas num prelo manual, todo este tipo de trabalho muito minucioso e trabalhoso era executado por um grupo de mais ou menos 10 alunos que enchiam a sala de composição com uma alegria e vivacidade que nos contagiava, o interesse deles era enorme o que me permitia superar o cansaço, esta área como já exemplifiquei requeria muita aprendizagem e era evidente que eu não tinha tempo suficiente para lhes transmitir conhecimentos mais profundos e mesmo tal não seria muito necessário pois a maioria no futuro não partia para as Artes Gráficas, regra geral tinha que finalizar o trabalho de cada um, verificar justificações, definir a chapa, colocar o linóleo sobre uma base e amarrar as composições. Depois de previamente se ter tirado uma prova era feita uma leitura (revisão tipográfica) seguindo a regra da sinalética usada (simbologia).

SINAIS USADO NA CORRECÇÃO DAS PROVAS

Era depois impresso o trabalho num prelo manual e por vezes num outro cilíndrico, as cores a utilizar eram escolhidas pelos alunos e eram normalmente feitas umas seis a oito impressões, ficavam depois com um exemplar e os restantes eram guardados em arquivo, outros pediam-me para compor uns cartões de visita o que por vezes o permitia.


PRELO AUTOMÁTICO MANUAL



   PRELO MANUAL CILÍNDRICO

Por fim, depois do trabalho finalizado, tinha que ser muito bem limpa a chapa ou forma, usando para o efeito petróleo ou gasolina branca e com uma brosa (escova) era bem esfregada nos tipo e em outros elementos de composição. Depois de tudo bem limpo e seco com uns desperdícios (restos de panos para limpezas industriais), todo o material  teria que voltar a ser guardado nos respectivos sítios. Ora era aqui que tudo se complicava, como atrás referi a aprendizagem da caixa era feita de uma forma pouco informal, para comporem os seus textos manuscritos deixava-os olhar para uma folha impressa com o esquema da caixa tipográfica para tirarem os respectivos caracteres,



                                                                   CAIXA TIPOGRÁFICA


como devem imaginar era um trabalho bastante demorado, para os colocar novamente nos respectivos lugares (caixotins), se eu não estivesse a verificar, pegavam numa qualquer quantidade de linhas e distribuíam-nas em qualquer outro lugar da caixa, ora o que acontecia é que as caixas ficavam totalmente "empasteladas" quer dizer, não lendo a palavra ou linha a distribuir, por exemplo um "a" ia ser colocado num outro caixotim e assim sucessivamente, o mesmo acontecia com a caixa baixa (minúsculas), por vezes colocavam-na nos caixotins da caixa alta (maiúsculas), no caso concreto ainda menos mal se o tipo a distribuir fosse corpo (tamanho) 8 e fosse distribuído numa caixa de corpo 12 pois facilmente ao compor de novo se notava a respectiva diferença, o mesmo não acontecia num tipo de corpos iguais, independentemente de ser, branco, médio, negro ou itálico.




A TIPOGRAFIA NOS CURSOS TÉCNICOS



Independentemente dos trabalhos que acima referi, outros faziam parte da componente de aprendizagem mais propriamente no início dos Cursos de Artes Gráficas, nos 10.ºs anos, além da referência histórica da Tipografia, eram ministrados conhecimentos sintetizados, apontamentos e uma abordagem sumária a todos os componentes da Composição Tipográfica, desde tipos, corpos, quadrados, espaços, a unidade base da tipometria (Quadratim), filetes, entrelinhas, tipos de composição existentes, liga metálica, material branco, regretas, quadrilongos de ferro e alumínio, vinhetas, ornatos, laminários,
gravuras e zincogravuras.



CONJUNTO DE MATERIAL BRANCO, ENTRELINHAS

Uma referência sobre a forma de compor, a utilização do utensílio do compositor (Componedor) e a caixa tipográfica eram demonstradas e consequentemente executadas umas pequenas chapas (formas) a partir do nome de cada aluno, onde lhes era possibilitado também serem eles a compor, sendo feita de seguida a passagem para a galé (área onde se pagina a composição e se amarra a forma), sendo que no final era novamente o tipo e respectivos materiais distribuídos e guardados.

Estas aulas, eram regra geral dadas em três tempos lectivos, e com um número mínimo de alunos distribuídos três, e em duas aulas semanais pelo que era insuficiente o tempo para uma aprendizagem mais profunda e consistente, mas também era compreensível que outras áreas mais actuais ocupavam a quase totalidade da disciplina do Projecto e Tecnologias, mas nem por isso eu deixava de tentar um pequeno esforço no sentido que nada escapasse aos alunos no que concerne à. disciplina.

Na primeira abordagem era também referenciado aos alunos os processos de composição tipográficas existentes, casos da primitiva composição manual, a composição mecânica (quente), monotípica e linotípica e a actual composição electrónica (frio), anteriormente fotocomposição e actualmente meios digitais ou edição electrónica.

Uma das referências mais importantes, relacionada com a composição digital, era a demonstração e posterior aprendizagem da unidade base da Tipometria (Quadratim).
Aos alunos era em primeiro lugar referenciado o que é um quadratim: Peça do mesmo metal do tipo, tendo nas suas faces o mesmo tamanho, ou sejam 12 pontos, sendo também o espaço maior de cada corpo, a sua equivalência com o sistema métrico decimal é de 4,512 mm.






                                                                     
A apresentação era fundamentada com a amostragem individualmente de cada espaço de 1 ponto até á formação dos respectivos 12 pontos, havendo sobretudo a oportunidade de o aluno estar em contacto físico com o mesmo. Esta relação com os meios digitais revestia-se de bastante interesse para quando na área electrónica na preparação da sua maqueta, havendo necessidade de empregar determinados corpos o aluno soubesse que ao colocar o corpo 24 ou 36 estava a colocar dois e três quadratins respectivamente.

Eram também feitas demonstrações dos diferentes tipos de caracteres existentes na composição tipográfica, quanto fundamentalmente à sua configuração e características,  havendo também aqui a necessidade de lhes explicar a relação com os meios digitais, pois enquanto na tipografia chamamos de tipos na electrónica referimos o termo fontes.

Para uma justificação mais entendível pelos alunos, utilizo por vezes a expressão: Estás na aula de projecto a maquetizar (criar) por exemplo: um cartaz que vai ser executado em composição tipográfica para ser reproduzido pela técnica de impressão tipográfica e onde vais utilizar determinada fonte (Times), ao chegares á sala de composição perguntas? onde está a caixa com o Times, a resposta que obténs é lógica: Em tipografia não temos Times, nem Palatino, nem Arial, conhecemos os tipos pela sua configuração, pelo seu desenho, pelo olho do caracter, ou sejam: negros, brancos, médios, cursivos, góticos, itálicos, condensados ou expandidos.


CLASSIFICAÇÃO ESTILÍSTICA MORFOLÓGICA DECIMAL

Esta classificação tipológica está ordenada em grupos e subgrupos estilísticos, relativamente à forma ou perfil dos caracteres. A ordem numérica facilita a classificação, por nem sempre o estilo prevalente ser unívoco e existirem elementos transicionais ou compósitos que dificultariam a sua designação imediata, quer em atenção às terminações das hastes, quer ao valor semântico global.



                                     NUMA AULA  
          EXEMPLIFICANDO OS CORPOS DOS TIPOS





Nos Cursos Técnicos a Tipografia incidia fundamentalmente num complemento aos projectos que os alunos desenvolviam na respectiva disciplina de projecto e dependiam bastante da respectiva coordenação (professor da área). No início de cada ano lectivo nas apresentações dos professores do Projecto e Tecnologias aos alunos era dada uma primeira exemplificação de cada área técnica que o curso possuía, assim por exemplo na Tipografia, era referido o que a disciplina lhes possibilitava e os recursos que tinham no desenvolvimento de um qualquer projecto para esta área.

Era evidente que a maioria dos projectos que os alunos elaboravam incidiam para outras técnicas de reprodução, sendo que para a Tipografia em princípio poucos projectos eram destinados, contudo era-lhes possibilitado que todos tivessem acesso a uma pequena aprendizagem fundamentada principalmente para a abordagem histórica e para um contacto pessoal com todos os materiais e meios existentes na oficina de Tipografia, assim como na elaboração de um qualquer trabalho de índole artística a partir da utilização dos tipos e outros elementos da composição.





A TIPOGRAFIA ACTUAL NA SOARES DOS REIS


Com certeza que em outros capítulos deste sitio falarei do assunto, mas contudo nunca é demais referenciar tudo aquilo que hoje podemos desenvolver com esta tecnologia do passado. É evidente que não vou falar da tipografia que ainda se produz por muitas pequenas empresas do nosso país, sobretudo na província, vou-me referir única e simplesmente à Tipografia na Soares dos Reis.
Aqui utilizamos este tecnologia no sentido artístico, estético e plástico em detrimento dos vulgares trabalhos de composição como sejam; trabalhos de fantasia ou remendagem.



TRABALHO DE COMPOSIÇÃO ARTÍSTICO
CHAPAS COM VINHETAS, EMBLEMAS, TIPOS E FILETES



Quanto à sua reprodução é evidente que utilizaremos os meios que temos e eles são sobretudo as máquinas tipográficas e prelos existentes na oficina da Escola. Contudo, é de referir e isso é transmitido aos alunos que fazem uma abordagem teórica e histórica da especialidade, que no que diz respeito à tipografia impressão, os equipamentos de reprodução não só imprimem tipos ou gravuras, mas são hoje um complemento bastante útil na execução de determinados trabalhos de offset, mais concretamente no acabamento de embalagens com cortes e vincos, assim como picotes.

É fácil de analisar que sendo a impressão tipográfica, na elaboração das suas matrizes (formas ou chapas) um processo com relevo (relevográfico) e a offset na elaboração das suas matrizes, (chapa ou transporte) um processo (planográfico), nunca em quaisquer circunstâncias poderia o acabamento final de um trabalho impresso ser finalizado por este meio.


 MATRIZ DE CORTE E VINCO
PARA ACABAMENTO DE UMA EMBALAGEM


Actualmente a composição tipográfica é ministrada aos alunos dos 11.º e 12.º anos concretamente numa primeira abordagem à tecnologia sobre, noções exemplificativas de composição tipográfica e uma breve e sumária demonstração da utilização dos meios existentes para a elaboração de determinados projectos de âmbito artístico, assim como os utensílios do Compositor Tipográfico.


GALÉ COM OS UTENSÍLIOS DO COMPOSITOR
TIPÓMETRO, PINÇA E COMPONEDOR


Feita uma pequena experiência em offset, segue-se uma intervenção na sala de composição, utilizando sobretudo os caracteres de corpos maiores, com diferentes tipos, onde aproveitando a mancha disponível no suporte, a mesma é preenchida com a execução de uma chapa ou forma onde o elemento escrito (design) é criação do próprio aluno, sendo que toda a concepção técnica final do trabalho é da responsabilidade do professor.

Finalmente, feita a respectiva composição, a chapa é transportada para a oficina de impressão tipográfica  sendo aqui feita a respectiva intervenção no sentido da reprodução desta técnica de impressão sobre o suporte já impresso pelo processo de offset (monotipia), prova de prelo.



CHAPA C/CARACTERES PARA IMPRIMIR NA MONOTIPIA (OFFSET)


IMPRESSÃO COM CARACTERES N/ VERBAIS,
 OFICINA DA "VELHA SOARES DOS REIS"




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