Leio, logo penso!

Ler. Colher palavras. Armazená-las nos silos da memória. Colher palavras das profundezas do nosso dicionário íntimo, que chamamos alma.


DICAS DE LEITURA

Resenhas de Sandra R.S. Baldessin

Mia e eu: encontros no texto

 

Surpreendo-me completamente apaixonada por Mia Couto. Mais que isso: estou apaixonadamente surpresa com as janelas que sua prosa poética abre para o leitor. Não me lembro exatamente quem disse que todo grande escritor funda novamente a linguagem, mas, quem o disse falava desse escritor moçambicano. Mia, que se chama Antonio, mas, por se entender gato, na infância, acabou por incorporar o apelido.

Mia Couto é biólogo e professor; já foi militante político, porém, hoje, só luta com palavras, e que palavras! Sua escrita volátil revela uma verdadeira reverência para com a linguagem, um respeito ímpar pelos dialetos e pela comunicação inventada por suas personagens.

O primeiro contato com sua obra foi através de “A varanda do Frangipani” (1999), texto delicioso, uma escrita plena de voz, de intensa oralidade, que, sem a pretensão de fazê-lo, resgata poeticamente as tradições orais africanas. Desse livro, carrego comigo a forte impressão dessas palavras: “Hoje eu sei: África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa: enchendo-nos de alma.”

Depois de “A varanda do Frangipani”, li “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” (2003) – e conheci Juca Sabão, personagem inesquecível que me sussurrou, nas horas silenciosas de leitura, verdades profundas, perfeitamente inseridas no contexto de uma história fantástica. Pela boca de Juca, ouvi que “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos.”

Finalmente, cheguei ao que considero o mais expressivo de seus livros: “O último vôo do flamingo”. Nesse texto, mais do que nunca Mia Couto explora a linguagem até as últimas conseqüências. Em alguns momentos, lembrou-me Guimarães Rosa, por exemplo, com a criação do verbo sozinhar-se; e a poesia, ah, a poesia permeando a prosa, fluida e sensitiva:  “Em fins de tarde, os flamingos cruzavam o céu. Minha mãe ficava calada, contemplando o vôo.(...) Tudo, nesse momento, era sagrado.(...) Para ela, os flamingos, eram eles que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.”

“O último vôo...” respira memória e imaginação, mescladas numa linguagem alquímica. É como se o escritor estivesse revisitando lugares seus conhecidos, levando as personagens a percorrerem caminhos dantes trilhados por ele mesmo, a beberem nas fontes da sua própria experiência. E ao leitor só resta o pasmo: que mundos, que homens, não se constroem com palavras!

Mia criou um texto transbordante de corpo, clivado de memórias e através do qual o leitor mesmo se reinventa. Talvez, essa fascinação de que estou vítima por obra de “O último vôo...” se relacione com o fato de que o sentido do tempo tem uma importância fundamental no texto, o Tempo surge quase como uma personagem que domina a cena, enquanto também possui os corpos das outras personagens, e, claro, o nosso: “O corpo é feito de tempo. Acabado o tempo que nos é devido, termina também o corpo.”

Que haja tempo para se ler Mia.

   

 

 

 

Ana: mito e memória

 

Ana Joaquina Jansen Pereira. Esse é um nome desconhecido para a grande maioria dos brasileiros, porque, quando se estuda e se ensina História do Brasil o foco se concentra, sobretudo, na história dos homens brasileiros, a história oficial que cabe na grade curricular. Mesmo os inúmeros livros, publicados a partir da década de 90, abordando a história das mulheres no Brasil têm a circulação restrita aos meios acadêmicos. 

Por outro lado, a Literatura tem dado uma grande contribuição para que algumas figuras femininas legendárias se tornem mais conhecidas dos brasileiros, e foi através do romance da escritora maranhense Rita Ribeiro que conheci Ana Jansen.

Ana Jansen viveu durante o reinado de D.  Pedro II e Rita Ribeiro debruçou-se sobre imensas pilhas de documentos e teses que analisam essa época para construir uma ficção calcada num impecável pano de fundo histórico. Essa Ana, mulher plena de si mesma, tornou-se conhecida como Rainha do Norte e do Nordeste do Brasil – marcando sua presença nos cenários sócio-políticos maranhenses que, na época, era uma das províncias mais importantes do império.

Em torno da personalidade poderosa e do comportamento arrojado de Ana Jansen foi elaborado todo um folclore, que Rita Ribeiro utiliza habilmente na construção de sua trama. Quem foi Ana Joaquina Jansen Pereira? Rita entrega a narrativa à voz de um poeta  - e quem mais cantaria tamanha musa?

Na noite quente de São Luís passeia um poeta e sua poesia evoca a imagem de uma mulher que se sabia inteira e que extraía dessa sublime consciência de sua integridade o seu poder, exercitado em todas as outras áreas de sua vida. O poeta se infiltra no espaço mágico da memória e tece aos nossos olhos o fantasma presentificado de Ana: a bela mulher trajada em negro, o decote audacioso revelando o adereço de ouro e diamante: seu brasão rebrilhando entre os seios.

O poeta conta a história de uma lutadora arrojada que, nascida rica, ficou na miséria, mas, firmada em seu orgulho e força, acabou se transformando no maior líder do Partido Liberal (que fazia oposição ao Império), sendo considerada, muitas vezes, como um inimigo inexorável. “...mulher apaixonada que nunca abdicou de viver plenamente sua afetividade e sua sexualidade...Maldita ou abençoada por todos os deuses? Carismática ou despótica?

Enquanto mulher e leitora, o que mais me atraiu na figura de Ana Jansen é o fato transparente de que para assumir uma posição relevante no contexto político e social de sua época ela não admitiu que sua vida fosse cindida em compartimentos estanques, comportamento padrão entre as mulheres contemporâneas, particularmente aquelas que alcançam êxito em suas carreiras. Não havia uma Ana dividida em função dos papéis sociais que desempenhava, antes, havia uma mulher que se impunha como tal em tudo que fazia, não aceitando ser paráfrase de si mesma, por isso Ana Jansen foi uma mulher de poder.

Ao desvendar Ana, me lembrei do poema de Edmilson Pereira: “A mãe que nos teve /é nossa filha/(...) ela pôs nosso umbigo /sob as rosas/ na porteira/ A beleza em nós é forte.”Ana se identifica com um inquietante arquétipo feminino: o das mulheres que se guiam pela paixão, cuja sensualidade seduz e apavora aqueles que convivem com elas.

Nas palavras de José Louzeiro, que apresenta o romance, Ana Jansen se mostra como a rainha que “...em nome do poder e da glória, negociou um lado da alma com Eros e o outro com Satanás.” O último representando o ódio e a morte, que também a seguiram de perto.

Eros e Tanatos compondo uma sinfonia entranhada na pele - hoje feita de letras e memória, de uma brasileira admirável.

 

*Ana Jansen, romance de Ana Ribeiro. Editora Record, 2000.

 

 

Múltipla Leila

Leila Míccolis transita no universo da linguagem, ora em prosa, ora escrevendo para a televisão, rádio, cinema ou teatro, mas sempre preservando a música do texto, o potencial rítmico da palavra.

A Leila Míccolis roteirista de televisão assina a co-autoria de uma das mais belas obras da teledramaturgia brasileira: a novela “Kananga do Japão”, exibida entre 1989/1990. A Leila militante pela Literatura Brasileira é a idealizadora e coordenadora do projeto “Poetas Brasileiros: quantos somos”, abrangente pesquisa que mapeia a produção poética do país nos últimos 27 anos.

A Leila multimídia é fundadora e editora, juntamente com Urhacy Faustino, do Blocos Online, considerado um dos sites mais importantes do mundo pela UNESCO. Justiça seja feita: Leila Míccolis é ímpar, é múltipla. Essa pequena introdução não dá a medida do seu talento.

Sobretudo, a isca que desejo lançar aos leitores se concentra na poesia de Leila. Gosto de sua poesia, da voz que se desprende das palavras e cria imagens-bailarinas diante dos olhos. Gosto do jeito como sua poesia não se recusa à carne, não se limita a temas, mas se entrega como entidade aberta ao mundo.

A poesia de Leila se oferece ao leitor em sua face de labirinto: quando a saída parece fácil, repentinamente descobrimos que há ali um espelho e não exatamente uma passagem.

Por exemplo, no poema “Crescimento”: “Hoje faço oito anos/e aproveito para ser terrível/enquanto posso matar pássaros/ou afogar gatinhos./Depois vão proibir minhas maldades/e me restringir/aos filmes de guerra./”

O poema dialoga com “Meus oito Anos”, de Casimiro de Abreu. E, embora as diferenças de forma e lírica sejam patentes, prevalece a mesma nostalgia que, em Casimiro, está relacionada ao que se perdeu; em Leila, fala de como nos perdemos. A poesia de Leila é assim: aquilo que aparece na superfície do poema aponta para uma fala mais profunda, uma fala solitária, mas que a distingue da massa anônima.

Outro elemento marcante na poesia de Leila Míccolis é o poder de condensar as idéias, de elucidar uma faceta da realidade através do seu verso ágil, como poema “Eletri/Cidade”: “Na brutalidade do dia a dia,/ troque os choques de 1.000 watts/
pelos vates da poesia.”

Ainda, o poema “Nostalgia”: “Ainda há marcas do nosso idílio:/pegaste doença/e eu peguei filho.” Um poema que, desde a fala mais profunda da poeta, expõe o poder que a memória tem de encantar o passado para que possamos sobreviver a ele.

Há muito mais. Porém, conforme reza o ditado, estou aqui para ensinar a pescar, e não para fornecer os peixes. Assim, quem quiser saber mais sobre Leila Míccolis procure informações sobre seus livros no linque:

 http://www.blocosonline.com.br/sites_pessoais/sites/lm/leila/leilad01.htm

 

 

 

 

Justiça Poética II

 

Ser poeta é duro e dura

                                                                       e consome toda

                                                                       uma existência.”

Nauro Machado

 

Nesse segundo artigo da série Justiça Poética quero trazer à memória o nome do poeta maranhense Nauro Machado. Sua obra já foi analisada com brilhantismo pelo também poeta e ensaísta Ricardo Leão, portanto minha intenção é repassar impressões pessoais sobre a poética de Nauro, muito mais ligadas ao efeito que sua poesia produz em mim do que a teorizações literárias.

A poesia, em Nauro, não surge como o fluxo de inspiração irradiado de um poder divino (theia dunamis). Antes, suas entranhas são seu oráculo.  Sua poética é endógena e, particularmente, impressiona-me o fato de que alguns poemas parecem surgir de uma auto-vivissecção, como se Nauro dissecasse as suas emoções, seus questionamentos sobre a vida, o ser e a linguagem, traduzindo-os em versos plenos de angústia: “Pode alguém perceber alguma coisa/ do que a vida vai sendo, inconsciente?”

Assim, parece-me que a poesia de Nauro padece da angústia de renomear o homem e a vida na esperança, que já nasce frustrada, de recuperar algo que se perdeu sem nunca ter existido: “Por que, então, brado aos céus deste infortúnio,/estou passado no presente que une/o meu futuro ao em mim perdido e morto?”

É preciso ressaltar, ainda, a musicalidade de Nauro Machado, a propriedade de bailar que seus versos possuem. Os poemas desenham imagens à moda dos gestos precisos de uma bailarina. É tudo tão denso, e ao mesmo tempo tão impalpável, que o leitor mais distraído corre o risco de ser lançado ao desenlace do poema antes de captá-lo em sua inteireza, percebê-lo em sua autenticidade orgânica.  

Justiça seja feita: Nauro Machado representa o que de melhor há na poesia brasileira contemporânea, como tão bem expressam os versos de A rocha e a rosca: “ Em ser outro já decido/o que me faz de nenhum:pisar a dor do resíduo/no elemento mais comum,/negando-me ao indivíduo/no povo completo em um.”

 

Sugestão de Leitura:

Nau de Urano – Antologia de Sonetos. Ed. Siciliano 2002;

Melhores Poemas – Seleção de Hildeberto Barbosa Filho. Editora Global, 2005;

Pão maligno com miolo de rosas. Edição do autor, 2004;

A rocha e a rosca. Edição do autor, 2003.

 

 

A História do Rei Transparente

Acabo de reler o instigante livro da jornalista Rosa Montero: “A História do Rei Transparente”. A autora é, hoje, uma das mais aclamadas escritoras da Espanha.

A ação se desenvolve num conturbado momento histórico: final do Século XII e início do Século XIII; período marcado pelas lutas internas do catolicismo romano, que, com a violência que posteriormente resultou na Inquisição, resistia a quaisquer questionamentos que pudessem ameaçar sua dominação. As vozes dissonantes, como as dos cátaros, eram imediatamente classificadas como heréticas, e a perseguição promovida pelo papado culminava em enormes fogueiras.

Para contar essa história, Rosa Montero elegeu uma personagem que, naquele contexto, estava relegada ao silêncio: uma mulher. Leola, uma adolescente de 15 anos, se revolta contra a miséria e a violência do mundo feudal e decide adotar uma personalidade masculina.

Leola rouba a armadura de um soldado morto e se transforma num cavaleiro, um “mercador de sangue”, que se aluga para lutar as guerras alheias. Assim, através do olhar de Leola, que depois conquista o título de “Senhor de Zarco”, a escritora nos desvenda os cenários da Europa Medieval.

Montero abre-nos a porta de um mundo no qual a vida humana não possuía valor algum (qualquer semelhança com a contemporaneidade não é mera coincidência); cenários que nos mostram o coração das trevas, ou, talvez, as trevas de que são feitas as almas dos homens, inclusive aqueles que convencem o mundo de que são “iluminados”.

Encontramos, ainda, a presença de algumas figuras históricas muito polêmicas: a rainha Leonor de Aquitânia e seu filho, Ricardo Coração de Leão; Bernardo de Claraval, célebre e cruel intelectual católico, fundador da Ordem dos Templários; Abelardo e Heloísa, entre outros.

Mas, não se enganem, a trajetória de Leola não é, de modo algum, a verdadeira história do livro. Tampouco a “História do Rei Transparente”, narrativa que se constrói paralelamente à de Leola.

Dentre as muitas histórias que se entrelaçam na narrativa de Rosa Montero há uma, subliminar, que se desenha nas linhas e entrelinhas do texto: a história da palavra.

Leitor algum sairá intacto da História do Rei Transparente, nenhum estará inocente diante das páginas em branco no final do livro. Nem um sequer, deixará de meditar até encontrar o significado do enigma que Montero nos propõe nas últimas linhas; e, sabemos, dessa resposta depende a nossa vida: “Quando me nomeias, já não estou.”

 

 

Mais Vivo que nunca

Seu corpo está no Mosteiro dos Jerônimos, descansando ao lado de reis e outras figuras ilustres da história de Portugal. Mas enganam-se os que pensam que ele está morto, embora a data oficial do seu óbito já tenha mais de 70 anos.

Fernando Pessoa, o grande poeta português, completa 120 anos no mês de junho.  Uso o verbo no tempo presente, pois sua poesia o mantém mais vivo que nunca. A importância de Fernando Pessoa para a Literatura universal é fato consumado: sua obra foi traduzida para quase todos os idiomas conhecidos, e também para o braille, e a melhor crítica literária o considera um dos mais representativos poetas do século XX.

Sua poesia é marcada pela própria reflexão poética, explicitamente voltada para si mesma. Fernando Pessoa e todos os seus outros eus, já que o grande poeta português descobriu o sublime mecanismo de “outrar”, de fragmentar-se em muitos sem perder seu potencial criativo, é figura misteriosa. Seu fascínio pelo misticismo, pela possibilidade de desdobrar-se em outros, é apenas uma das faces desse mistério.

Ao todo, Fernando Pessoa “outrou-se” em 72 personagens, entre os quais os mais conhecidos são Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, que, através da escritura poética, tentaram “ser tudo de todas as maneiras”.

Quero lembrar Fernando Pessoa no mês de junho, seu aniversário. Brindar a alegria de conhecê-lo. Prestar tributo à sua memória através da leitura dos seus poemas. Sua força criativa possuía tal intensidade que precisou inventar vidas e mundos para contê-la. Ou para extravasá-la, e aí também residem os seus enigmas.Hoje, ao abrirmos um de seus livros, entendemos como é verdadeira a sua declaração: “a emoção intensa não cabe na palavra, tem que baixar ao grito ou subir ao canto... É isto a poesia: cantar sem música.”

É preciso mencionar Fernando Pessoa, cuja poesia engrandece o idioma que nós, brasileiros, usamos cotidianamente. O poeta que afirmou que sua pátria é a Língua Portuguesa. É preciso ler os seus poemas em voz audível, cantar sem música, para nos lembrarmos que ele se nega a morrer. Afinal, o que pode a morte contra a poesia? Num de seus poemas mais conhecidos, “Navegar é preciso”, o poeta revela: “Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso./ (...) /Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha.”

Fernando Pessoa cumpriu a profecia dos seus versos. Sua história é patrimônio da humanidade, sua obra é legado da nossa língua.

 

 

 

                                                                        

Enigmas da Culpa

 

Acabo de ler o livro Enigmas da Culpa, de Moacyr Scliar, que integra a Coleção Filosófica, da Editora Objetiva. Um livro que fala a nós todos, pois ninguém está livre desse sentimento.

Scliar, médico e escritor gaúcho, foi muito feliz na escolha de tema tão complexo. Sua análise prima pela interdisciplinaridade, já que o autor foca o assunto sob diversos ângulos: histórico, filosófico, psicanalítico e religioso.

O ponto alto do livro está no fato de que o autor se coloca como personagem, inserindo-se pessoalmente na discussão e criando um clima de cumplicidade com o leitor.

O ensaio sobre a culpa, se é que se pode chamar assim, está fundamentado sobre uma pesquisa ampla, que contemplou áreas específicas do conhecimento humano. Mas isso não significa que Moacyr Scliar adota uma linguagem complicada; pelo contrário, optou pelo tom de diálogo bem-humorado que, em alguns momentos, tende à ironia.

Scliar observa a culpa desde os contextos sócio-culturais e religiosos marcadamente presentes nas várias comunidades humanas. Começa falando de sua experiência pessoal, do plano íntimo para o plano global, e essa estratégia narrativa influencia a dinâmica de convivência leitor/livro.

No decorrer da leitura, lembrei-me de uma frase da personagem do conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa: “De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto no meu foro.” Sem pretensões “auto-ajudantes”, Scliar nos ensina a encontrar uma resposta para a pergunta angustiada da personagem que protagonizamos em nosso cotidiano.

Afinal, desde muito pequenos somos submetidos a uma espécie de aprendizado involuntário da culpa, e o sentimento acaba se tornando parte de nós. Colecionamos culpas como quem coleciona figurinhas na infância: culpados por deixar os filhos na escolinha; culpados se não deixamos os filhos na escolinha e vamos à luta para garantir o futuro desse mesmo filho. 

Há aqueles que se sentem culpados por degustar um sorvete, um tablete de chocolate, o chopp gelado, o costelão. Haja penitência para tantas calorias!

O escritor gaúcho diz que sua intenção com o livro é lançar luz sobre nossas culpas, sejam elas reais ou imaginárias. Segundo Scliar: “A culpa iluminada é a culpa domada. Iluminado, o dedo acusador da culpa deixa de ser um algoz para ser simplesmente um dedo, parte do nosso corpo, parte da mão que nos faz humanos.” A assertiva de Scliar não instiga à complacência, mas convida à responsabilidade.

Sem a prepotência de passar receitinhas para todos os males, Moacyr Scliar nos ensina, mais uma vez, que errar é humano e responsabilizar-se por encontrar uma saída no labirinto da culpa... também.

 

 


“Todas as manhãs do mundo”

Sempre acreditei que ler nos permite inventar outra vez o mundo. Tempo e espaço se dissolvem nas histórias, permitindo que atravessemos os portais dos séculos, as barreiras geográficas e físicas, e ingressemos na dimensão criada pela leitura, desfrutando de todo seu poder transformador.

Este é o sentimento que prevalece após a leitura de “Todas as manhãs do mundo”, do escritor francês Pascal Quignard. Conheci sua obra através do filme de mesmo título e, encantada, procurei incansavelmente a versão brasileira de “Tous les matins du monde”, publicada pela Editora Rocco, com tradução de Pedro Tamem.

A história se passa em 1650, na França artificial de Luis XIV, período marcado pelo culto à moda e à aparência, enredo que já nos leva ao paralelo com a contemporaneidade.

Sainte-Colombe, protagonista da história, é o maior violista da França, mas a perda da mulher desencadeia um processo de exílio voluntário, durante o qual ele se dedica obsessivamente ao estudo da viola de gamba, revolucionando o próprio instrumento, ao qual acrescenta mais uma corda. O livro também conta a trajetória do seu famoso e único discípulo, Marin Marais, que acaba por receber os louros como o gênio da renovação da viola de gamba.

Mestre no seu ofício, Quignard é dono de suas palavras e sabe usar a linguagem para contar suas histórias com maestria. “Todas as manhãs do mundo” é um livro sobre o ato de aprender. Sobre a dor e a solidão que envolvem o processo de “ser”; sobre a aprendizagem daquilo que é essencial e íntimo, e que se desenvolve até que a verdadeira música interior seja liberada. É um hino ao silêncio radical que se faz música, que se faz literatura.

Pascal Quignard nasceu em 1948, e foi considerado autista até certa etapa de seu desenvolvimento. A criatividade corre nas veias de Quignard, que também se dedica às artes plásticas e à música, além da literatura. Sua escritura se caracteriza por mesclar ficção e reflexão, o que não é de estranhar, já que o autor é formado em Filosofia.

Pascal Quignard é reconhecido como o melhor escritor francês da atualidade, e, infelizmente, é pouco lido no Brasil. Em terras brasileiras os leitores influenciados pela mídia burra, que promove os bestaselleristas sem conteúdo, acabam não conhecendo o que de mais importante tem sido publicado não só pelo mundo afora, mas inclusive no próprio país.

Leiam o livro e assistam ao filme, de beleza ímpar, já que traz a intensidade da música barroca de Sainte-Colombe. Enquanto é dia, pois “todas as manhãs do mundo são sem volta e não se pode recuperar o tempo perdido".

 

 


 

        NOTRE DAME DE PARIS           

 

Recentemente, assisti ao dvd do Musical Notre Dame de Paris, releitura belíssima do romance histórico de Victor Hugo, que se popularizou com o nome de “Corcunda de Notre Dame”. < namespace="" prefix="o" ns="urn:schemas-microsoft-com:office:office" xml="true">

O musical promove um resgate do espírito da obra de Victor Hugo, publicada em 1831. Notre Dame de Paris já foi alvo de várias versões cinematográficas e montagens teatrais, e se converteu até mesmo num desenho infantil de enorme sucesso, embora o escopo da obra não se preste a tal interpretação.

O livro é um clássico mundial que nos apresenta algumas das milenares questões que se impõe à sociedade ao longo dos séculos, portanto, o musical, embora ambientado na Paris de 1482, nos fala de conflitos que marcam a contemporaneidade: a problemática da intolerância, da desigualdade social, da exclusão.

Sobretudo, Luc Plamondon (letras das canções) e Richard Cocciante (músicas), responsáveis pela adaptação do texto, conseguem captar e transmitir o sentido que alicerça a obra Notre Dame de Paris: a dimensão filosófica que revela a paixão como forma de olhar o mundo.

O romance retrata a história da linda cigana Esmeralda, cujo destino trágico se entrelaça com o de três homens cuja paixão ela desperta com sua dança e seu canto: Quasímodo, Frollo e Phoebus.

Quasímodo é o deformado sineiro da catedral de Notre Dame. É escravo de Frollo (o orgulhoso arquidiácono da catedral e a maior autoridade de Paris), que o recolheu ainda criança. Quasímodo vive numa solidão atroz, encerrado na torre da catedral e tendo por companhia os acordes das campanas. Sua deformidade física é considerada uma marca do demônio, e o torna alijado de qualquer possibilidade de convívio humano. Entretanto, Quasímodo é um homem de grande sensibilidade e, através dessa personagem, V. Hugo antecipa a discussão da dualidade essência/aparência, tão presente em nosso tempo.

O amor de Quasímodo pela cigana Esmeralda se diferencia da paixão que Frollo e Phoebus sentem por ela; trata-se de um amor apaixonado e pleno de desejo, mas que não a toma como objeto. Ou seja, ele se deixa consumir pelo sentimento, mas não permite que esse sentimento o autorize a consumi-la. Nessa interpretação reside a chave para que compreendamos Esmeralda e seus símbolos, em plenitude.

Frollo, sacerdote de Notre Dame, pertence a Deus, que, teoricamente, retribui sua pertença com a autoridade que lhe confere. Esmeralda ameaça essa autoridade, já que simboliza o caos da liberdade da qual ele abdicou em troca do poder. O sacerdote de Notre Dame deseja subjugar a cigana, possuindo-a e, assim, tentando destruir o poder que seu próprio desejo - sua humanidade -  ainda exerce sobre ele, e da qual a cigana o faz ficar inteiramente consciente.

Phoebus, por sua vez, é o capitão dos arqueiros, o cavaleiro valente e “belo como o sol”, a quem Esmeralda entrega o seu coração. Phoebus é a antítese de Quasímodo, personagens representativos da dualidade aparência e essência. Para o capitão, Esmeralda é um objeto desfrutável, ele tem o direito de possuí-la, pois ela vem de estratos sociais inferiores, é serva. Ele não compreende que a cigana simboliza uma liberdade que está inteiramente fora do seu alcance; quando atina com essa verdade, Esmeralda passa a ser vista como uma ameaça, uma “bruxa” que o traz sob conjuro. 

Assim, Esmeralda simboliza, sobretudo, a liberdade. Frollo e Phoebus encarnam os homens subjugados àquilo que lhes confere poder: presos ao êxtase da dominação voluntária, fundamentada na aparência das coisas. Qualquer semelhança com o modelo social vigente neste bárbaro século XXI não é mera coincidência.

Quasímodo, retrato da exclusão e de tudo o que nossos olhos não querem mirar, sabe que a cigana Esmeralda é a liberdade – ele a descreve como um pássaro que estende as asas, pronto para voar. A sua paixão é mágica e verdadeira, pois não quer “possuir o objeto” do seu desejo, mas fundir-se a ele, ser um com ele. Ele mergulha no deslumbramento erótico que Esmeralda produz, sem medo, sem reservas, pois é o único que não tem nada a perder.

Parece-me que a suprema lição de V. Hugo é justamente essa: a liberdade e o amor pertencem àqueles que não têm nada a perder. O musical Notre Dame de Paris consegue traduzir, em danças e cantos, essa verdade.

           

 

 

 

 

 


 Antonio Mariano

 

Imensa asa sobre o dia

 

Ouvi, certa vez, a afirmação que é mais fácil escrever um romance ou novela do que um conto. Concordo. Escrever um conto que consiga se apropriar das estruturas narrativas e, através delas, produzir um efeito singular no leitor não é tarefa fácil. E, observem, o termo ‘tarefa’, nesse caso, é muito pertinente.

Antonio Mariano, escritor paraibano, poeta consagrado, com seu Imensa asa sobre o dia, livro de contos que integra a Coleção Tamarindo, revela-se um excelente contista.

Imensa asa sobre o dia reúne 13 contos; os protagonistas de todas as histórias são nomeados Jailson, pelo autor. A paixão pela origem dos nomes me obriga a referir que, se Jah é o nome de Deus, as personagens de Mariano trazem o estigma de todos os filhos de Jah: a inexorabilidade da condição humana.

Particularmente, (já que sou viciada em Tchekhov – supremo mestre de todos os contistas - e em Cortazar, seu discípulo) observei que Mariano demonstrou, já nesse primeiro livro de contos, a característica principal de um contista com potencial para se destacar entre seus contemporâneos: seus contos possuem o delicioso caráter de jogo.

Essa função lúdica presente nos contos de Mariano se revela em toda sua expressividade no conto A construção do silêncio. O enigma doloroso da convivência humana surge no jogo de ‘gato e rato’ estabelecido entre o pai e o filho. O conto se dá justamente no momento em que as mentiras essenciais que sustentam essa delicada relação se tornam insuficientes, no instante limiar em que “é tarde para desistir”, como a própria personagem observa.

Aliás, o sentido de compreensão tardia de coisas fundamentais para a sobrevivência das personagens permeia todas as histórias e esse fator contribui para ampliar a imagem de jogo presente nos contos. Em Seguindo Alice, sobretudo, a crueldade embutida no conceito de ‘tarde demais’ se cumpre plenamente.

Assistimos as personagens se movimentando no tabuleiro labiríntico que Mariano construiu especialmente para elas e tentamos adivinhar se atinarão com a saída. Ilusão vã que alimenta os filhos de Jah.

Desde as pequenas mazelas até os grandes crimes e insuportáveis alvoroços da alma e do corpo, tudo que é comum ao homem está presente nos Jailsons de Antonio Mariano.

Destaco, ainda, dois dos contos mais instigantes da coletânea: O poeta e O dia em que comemos Maria Dulce. Em O poeta Mariano recupera um desejo surrealista: a possibilidade de viver como poeta, de poetizar a vida, ainda que jamais tenhamos escrito qualquer verso. Um pacato e invisível funcionário público enlouquece (ou chega à razão suprema) e se declara, irreversivelmente, poeta. O conto, em sua aparente simplicidade, revela a condição marginal do poeta e da poesia na sociedade contemporânea.

O dia em que comemos Maria Dulce foge ao realismo presente em todos os outros contos. Mariano utiliza recursos do gênero fantástico-maravilhoso para nos conduzir numa viagem insólita ao reino da fome e das pulsões inimagináveis: “Podia sentir o mormaço do corpo dela... O hálito que era como o bafo de um bolo assando, uma porção de caramelo saindo pelas bordas do tacho, um pudim fumegante, um doce de leite dando o ponto. (...) Minha boca encheu-se d’água.”

E mais não digo. Leiam o livro.

 

 


 

 

   PARA RESGATAR O QUE NÃO PODE SE PERDER

 

Estava pesquisando sobre livros que abordam as demências ligadas ao processo de envelhecimento quando este título surgiu: Encontro com Flô (Edições SM, 2006). Ora, porque uma obra voltada ao público infanto-juvenil constaria de uma bibliografia tão específica? Curiosa, procurei saber mais sobre o livro e logo me vi interessada na leitura. Bendita decisão!

Encontro com Flô, escrito pela professora e psicóloga argentina Laura Escudero, conta uma história deliciosa, elaborada com carinho e cuidado pela linguagem. Traz para o universo da adolescência um dos temas mais importantes da atualidade: a convivência com familiares vítimas do Mal de Alzheimer.

Julieta, uma adolescente de 13 anos, vive com seus pais e o irmão mais novo num pequeno apartamento. De repente, o mundo de Julieta fica de pernas para o ar: a avó Flora, doente de Alzheimer, precisa vir morar com sua família, pois a Tia Raquel, que sempre cuidara da avó, está enferma e não poderá fazê-lo por um tempo.

A mãe pede que Julieta tenha paciência, pois a Vó Flora precisa ficar em seu quarto, já que não há acomodações suficientes na casa. A princípio, a menina se angustia com a possibilidade de ter o seu refúgio invadido por uma quase estranha, que sequer se lembra direito o nome da neta, pois passa a chamá-la de Anita, o nome da irmã que prevalece em sua memória deteriorada.

O livro, além de sua beleza literária, enfoca um dos mais graves problemas enfrentados por muitas famílias na vida real. Portanto a ficção, nesse caso, cumpre um papel fundamental ao abordar temas como as relações familiares em face de um conflito não tão raro, já que no Brasil existem mais de 500 mil pessoas com essa doença.

Acredito que o ponto chave da novela se encontra no resgate da memória autobiográfica, que se desenha à medida que a menina Julieta passa a se interessar pelas histórias da família evocadas pela presença da avó Flora, Flô, como a chamavam quando criança.

O elo de contato entre Julieta e sua avó são as cartas escritas por vó Flô para a irmã, Anita, que nunca foram postadas. Atendendo ao pedido da doente, Julieta começa a lê-las em voz alta, e Vó Flora a identifica com Anita. A partir dessa identificação, Flora reaviva a chama das lembranças de infância, o que permite manter sua identidade.

Assim, se estabelece entre as duas uma relação criativa, terapêutica, de intensa troca afetiva, que influencia grandemente na qualidade de vida da avó, ao mesmo tempo em que amplia a percepção de mundo da garota.

O livro possui uma delicadeza que define como deveria ser o cuidado com os pacientes de Alzheimer, além de mostrar a necessidade de construir pontes sólidas para o encontro das gerações.

Julieta, transformada em cuidadora, através de suas narrativas convoca Vó Flora ao presente, enquanto a presença da avó conduz a menina numa visita ao passado, que influenciará definitivamente o seu futuro. 

 

 

 


                                                           

 

DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS

 

Gabriel Garcia Márquez é dos autores que mais me cativam, portanto, já li e reli sua obra e nunca paro de me surpreender. À parte a opinião pessoal, sua importância para a narrativa hispanoamericana é inquestionável. Dentre os romances que compõem sua obra, três deles são verdadeiramente fascinantes: Cem anos de Solidão, O amor nos tempos do cólera e Do amor e outros demônios. Difícil nomear qual dessas obras tem mais vigor literário, mas a última revela-nos uma espécie de ética amorosa que permeia todos os seus livros, e, nesse texto, assume características ideológicas.

Sob o aspecto formal, Do amor e outros demônios se constrói no contexto da realidade mágica, tão bem engendrada por Garcia Márquez. A obra se faz numa espécie de intervalo entre a realidade das personagens, que pode ser banal, e o ambiente mágico criado pelo autor através do uso magistral da linguagem. Talvez, seja esse o aspecto mais fascinante do texto.

Os temas centrais do romance são o amor e seu maior oponente: a intolerância; nesse caso, partindo da igreja cristã. O livro nos conduz a uma época em que a Igreja, enquanto instituição possuía enorme poder político e sócio-cultural, orquestrando toda vida em sociedade.

O livro nos conta a história da doce Sierva Maria de todos los Angeles, nascida em berço de outro, filha da nobreza. Sierva Maria, fruto de uma relação de desamor e indiferença cresce sem o afeto dos pais, criada entre os escravos, por uma antiga escrava da casa que fez o parto de sua mãe:

“Por ordem de Dominga de Adviento as escravas mais jovens pintavam-lhe a cara com fuligem, penduravam colares de candomblé por cima do escapulário do batismo e ajeitavam-lhe o cabelo, jamais cortado, que atrapalharia o caminhar não fossem as tranças de muitas voltas que lhe faziam todo dia. Ela começava a florescer numa encruzilhada de forças contrárias (...) Seu modo de ser era tão misterioso que parecia uma criatura invisível. Assustada com tão estranha condição, a mãe lhe pendurava uma campainha no pulso para não perder o seu rumo na penumbra da casa.

Aos doze anos (convém observar que é justamente a idade em que as meninas costumam menstruar) é mordida por um cachorro louco, e o marquês, seu pai, ao se dar conta do abandono ao qual relegara a filha, recorre a todo tipo de ajuda para salvá-la, submetendo a feiticeiros, curandeiros e bruxas. Estes fatos chegam ao conhecimento do Santo Ofício, que pressiona o Marquês a internar a filha no convento de Santa Clara, onde, supostamente, Deus mesmo se encarregaria da menina.

Cabe lembrar que “cão” é termo usado para designar o diabo e Sierva María é considerada possuída por forças malignas. Assim começa o seu martírio e o seu êxtase. Diariamente é visitada por Cayetano Delaura, o padre incumbido de exorcizá-la e que com ela viverá uma paixão plena de luxúria e tormento:

“Não se fartaram de falar sobre as dores do amor. Esgotavam-se em beijos, declamavam chorando com lágrimas copiosas e versos de namorados, cantavam um ao ouvido do outro, revolviam-se em pantanais de desejo até o limite de suas forças: exaustos mas virgens. Pois ele decidira manter o seu voto até receber o sacramento, e ela aceitou.”

Cayetano se encanta com Sierva María e passa a maior parte de seu tempo ao lado dela, ambos profundamente envolvidos num clima de grande sensualidade. Mas, paralelo ao encantamento da paixão, surge a culpa, inexorável, que o leva a flagelar-se, até que, castigado pelo bispo é encaminhado a um leprosário. Separados, Cayetano deseja contrair a lepra e morrer, enquanto a menina é submetida a sofrimentos indescritíveis, com a finalidade de libertá-la da possessão demoníaca.

Gabriel Garcia Márquez nos fala de Amor sob a ótica da possessão, um amor livre de qualquer prisão cultural ou religiosa, e que se cumpre no erotismo lírico:

Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto ela convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos.

“Do amor e outros demônios” é leitura imprescindível no contexto geral das obras de Garcia Márquez.

 

 

Clarice, a bruxa substantiva

 

Clarice Lispector é uma das mais intensas vozes da Literatura Brasileira.  Embora nascida na Ucrânia, sua pátria, desde sempre, foi a Língua Portuguesa, que ela amou e conheceu intimamente, apropriando-se dela para escrever a vida.

Obviamente, esse espaço não permite que nos debrucemos, juntos, sobre o texto de Clarice, tampouco que se construa uma visão geral sobre sua intrigante obra. Apenas, lanço a isca para pegar leitores, apontando a originalidade do texto clariceano, a sua enorme capacidade de captar o instante fugidio e revelador e o seu talento incomparável para se aproximar literariamente desses momentos e transformá-los em palavras.

Por falar em palavras, tudo em Clarice se movia na busca de uma linguagem que pudesse expressar a vida em sua magnitude. A intensidade dessa busca muitas vezes se mudava em angústia, e Clarice se perguntava: “Eu queria escrever um livro, porém, onde estão as palavras?”

Assim, parece-me que Lispector escrevia contra as fronteiras que a linguagem lhe impunha, contra a limitação da própria palavra, que se lhe oferecia desgastada. Entretanto, mesmo insuficientes para o que ela desejava exprimir, foi com palavras que Clarice inaugurou outra vez o mundo, as pessoas e as relações.

Quero destacar uma vertente que me interessa particularmente na obra de Lispector: a imagem da mulher. Clarice ousou, através das suas personagens obsessivas, desencantadas, desejosas, promover uma ruptura com o antigo imaginário feminino presente na Literatura Brasileira, para, em seguida, transpondo os cânones tradicionais, construir uma outra mulher. As mulheres de Clarice: Lori, Aurélia Nascimento e Macabéa, ressignificam o feminino.

Na obra de Clarice o corpo da mulher surge como um espaço político, através do qual podemos discutir as relações de gênero, a mercantilização do erotismo, a hierarquização, a exclusão, a configuração do corpo feminino como um ideal midiático eternamente inatingível, que, entre outras coisas, exacerba o consumismo. 

A mulher feita de palavras presente na literatura de Lispector é mais que corpo vivente: é um corpo-que-sente, corpo-que-pensa, corpo-que-recorda, corpo-que-imagina.  Uma mulher que perturba, pois se mostra como uma entidade aberta, não um sistema fechado, útil por suas funções biologicamente determinadas, fato que Clarice questiona o tempo todo.

Lispector costumava dizer que “escrever é aceitar o risco”. Parafraseando sua declaração, convido-os a aceitarem o risco de mergulhar em Clarice, mediados pela leitura de sua obra.

Fica como sugestão a leitura de “Aprendizagem ou o livro dos prazeres”; “A hora da estrela” e  “Via Crucis do corpo”.

 

Sandra R. S. Baldessin.

 

 

Saiba mais sobre Clarice