O tema da responsabilidade social tem sido foco de debate na atualidade por vários segmentos da sociedade, especialmente por pessoas e organizações ligados às ações do terceiro setor. Penso que devemos fazer algumas perguntas para adensar o contexto deste debate. O que significa ser responsável socialmente? Será considerada responsabilidade social o fato de um empresário ou pessoa, distribuir cestas básicas para famílias pobres em datas festivas? A lojinha da esquina que doa 20 camisetas para o time do futebol de determinada organização social está desempenhando uma ação de responsabilidade social? A resposta para estas perguntas é NÃO. Para ser responsável socialmente não basta doar cestas básicas e camisetas para populações pobres. Tão pouco é responsável socialmente o empresário que apenas destina os restos do seu restaurante para o “sopão” preparado pela comunidade paroquial e distribuído aos mendigos. Esta perspectiva está permeada pela visão ultrapassada característica do assistencialismo social, marcante por muito tempo nos nossos projetos. São ações emergenciais e paliativas, que atacam somente os efeitos mais visíveis do problema e na maioria das vezes não busca as suas raízes fundamentais. Ainda faz parte desta perspectiva a noção de “doação” motivada somente por interesses políticos, sentimentais ou valores individuais. Ao contrario desta, a perspectiva que deve prevalecer é a do investimento social. Nesta perspectiva a empresa ou pessoa interessada em colaborar com o desenvolvimento social estabelece parceria com organizações sociais em projetos específicos. Entre a empresa e a organização executora predomina uma relação de confiança, com interesse em projetos que tenham impacto na mudança da estrutura social, quando será valorizado o desenvolvimento do potencial humano das pessoas envolvidas. A perspectiva do investimento social está muito relacionada a crença na mudança das estruturas sociais, ou seja, implica em acreditar que os beneficiários dos projetos sociais tem direitos fundamentais tolhidos e que precisam ser satisfeitos. A principal motivação para o investimento social deve ser o reconhecimento do direito natural – e constitucional – das pessoas em terem oportunidade de melhoria na sua vida. Esta motivação deverá superar os nossos valores pessoais (religiosos ou sentimentais) no momento da decisão em colaborar com determinada organização do terceiro setor. A perspectiva do investimento social privilegia a questão do direito social que nunca poderá ser negado aos cidadãos, ao contrário da “doação” que encontra fundamentação somente na fragilidade dos nossos sentimentos. Ser responsável socialmente implica em engajar-se nas ações que tenham a perspectiva do investimento social. Ações que tenham compromissos firmados em sólidos projetos sociais desenvolvidos por organizações competentes. As organizações do terceiro setor precisam de apoio financeiro para inúmeros projetos e experiências na área do desenvolvimento social. Ao final deste pequeno texto é muito importante destacar que a responsabilidade social em nada diminui a responsabilidade do Estado na formulação de políticas sociais e na garantia de direitos. O Estado é o responsável primeiro no desenvolvimento de projetos e políticas sociais básicas que atendam os direitos fundamentais do cidadão. A responsabilidade social converte-se numa ferramenta adicional de financiamento de projetos que visam à redução das desigualdades sociais dos milhões de brasileiros que vivem na miséria. Ao mesmo tempo em que possibilitam para estes cidadãos a clareza da necessidade da sua participação nas estâncias democráticas, as quais lhe permitirão exigir dos órgãos governamentais os direitos conquistados.
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