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Trabalho em rede aumenta rendimentos da agricultura familiar

Para pesquisador, sucesso das pequenas propriedades produtoras de leite baseiam-se na reciprocidade do desempenho socioeconômico da agricultura familiar.

  
Divulgação/EcoAgência    
Produção de leite tornou-se uma boa alternativa para as pequenas propriedades.


Por Cláudia Dreier, jornalista

Contrapondo a tese econômica de que agricultura familiar está em processo de extinção, Rubens Wladimir Tesche demonstra o sucesso das pequenas propriedades produtoras de leite. “A reciprocidade do desempenho socioeconômico da agricultura familiar” foi tema da palestra Ecologia na Cultura no mês de junho. Com entrada franca, o evento mensal é uma parceria da Fundação Gaia e a Livraria Cultura de Porto Alegre.

Para Tesche, três ações caracterizam a reciprocidade, herdada das práticas camponesas trazidas pelos imigrantes: ajuda mútua, manejo compartilhado e comercialização conjunta. “Ao atuarem em redes ou associações, os produtores aumentam sua renda, seu patrimônio e qualidade de vida” afirma ao mostrar os resultados de sua dissertação de mestrado realizado no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS. Os dados da pesquisa foram coletados no Noroeste Gaúcho, conhecido como Região das Missões.

Evolução agrária

As Reduções Jesuíticas, além de nomearem os municípios da área de estudo, foram o berço da pecuária gaúcha criada nos campos. Mais ao norte, entre Ijuí e o rio Uruguai, a paisagem diferenciava-se, com a presença das matas que permitiam o extrativismo da erva-mate pelos índios.

Pelo Tratado de Madri, a Coroa Espanhola entregou a Portugal o território das Missões. Após as Guerras Guaraníticas e a expulsão dos jesuítas, o rebanho permanece nas pastagens multiplicando-se livremente. O tesouro da região passa ser a carne para o charque e o couro, conduzidas pelo Caminho das Tropas até chegar à província de São Paulo.

Em 1890, ocorre a segunda etapa da colonização: colonos passam a ocupar as terras com mata nativa, entrando em conflito com os índios. A partir do desmatamento, as lavouras seguem o sistema campesino visando primeiro a subsistência e depois, o comércio.

Com a Revolução Verde, as regiões de pradarias, com solos ácidos, foram corrigidas com calcário e passaram a ser agricultáveis. As costumeiras práticas européias de lavração degradaram o solo. Crises de produtividade e menor lucro por hectare tiveram origem na década de 80, culminando nos anos 90. Os agricultores passaram, então, a buscar produtos que agregassem um maior valor ao seu trabalho.

Bacia leiteira

A produção de leite tornou-se uma boa alternativa para as pequenas propriedades. Segundo Tesche, três motivos combinados permitiram que a região viesse a ser uma grande bacia leiteira: nova tecnologia de industrialização e embalagem, o sistema de transporte e as características do solo e do clima locais.

Produzir gado leiteiro direto na pastagem, adotando o sistema de pastoreio, é estratégico para a agricultura familiar. “Tal produção atende a uma demanda contínua, estando inserida na rotina da pequena propriedade. Se, além do meu consumo familiar, me sobram apenas 50 litros diários para vender, eu construo uma rede que atenda a coleta mínima da empresa totalizando 200 litros, por exemplo.” 

Alguns fatores influenciam na formação das redes: parentesco, vizinhança, compadrio e amizade. As conexões entre as redes facilitam o acesso às políticas públicas e, também, propiciam a inserção nas questões comunitárias. Tal modelo urbano-cultural estimula uma maior preservação do meio ambiente, pois o agricultor familiar tem na pequena propriedade seu local de vida, e constrói de maneira coletiva as melhorias da comunidade onde está inserido.

Modo de vida

No final da palestra, muito aplaudida, Tesche afirma que a reciprocidade é um fator de resistência de uma categoria social, a agricultura familiar.  Os dados apresentados contestam muitos autores, que insistem em afirmar que tal categoria tende a se extinguir. Tesche questiona como será mantido o vínculo de cooperação nas novas gerações que apresentam uma redução de filhos, acesso à televisão e às escolas urbanas.

“Mesmo com a diminuição drástica da população rural, a agricultura familiar resiste e continua produzindo sua comida”, afirma baseado em uma pesquisa feita por ele. Com dados coletados em 36 municípios da região do Noroeste Gaúcho, nos quais estão incluídas 903 famílias, ele provou que 70 por cento dos alimentos que o agricultor põe na mesa são produzidos por ele, na sua terra.

O individualismo da tecnologia também representa uma ameaça para a reciprocidade no futuro. Outro risco da agricultura é buscar subsídios na indústria de adubos químicos a base de NPK, nitrogênio, fósforo e potássio. “Esses elementos possuem uma produção finita, o melhor é praticar a agroecologia que perdura por estar baseada na reciclagem dos nutrientes e no equilíbrio do solo”, recomenda Tesche.

Em julho o Ecologia na Cultura traz o tema “Yoga e sustentabilidade”, visando estimular uma prática que desafie as dualidade cotidianas, sustente o contentamento e construa uma interação entre a ecologia e a sustentabilidade, tanto em nível pessoal como no todo.  O evento acontece na terça-feira, dia 13 de julho, tendo como palestrante o comunicador e professor Henrique Raizler. A palestra promovida pela Fundação Gaia inicia às 19h30min, no auditório da Livraria Cultura de Porto Alegre, e tem entrada franca.

 

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