VAGAS DA POESIA

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                                                 BEM VINDO AO MEU TOSCO MOSTRUÁRIO
                                                                POÉTICO NA INTERNET
 
 
 
 

     

E ONTEM EU QUIS UM POEMA QUE NÃO PUDE CONCEBER

                       (ODE TOSCA A IBERÊ CAMARGO)

 

 

Ontem a paisagem

Do aroma da noite

Fecundou em mim

Um tênue fluxo dum poema.

 

 

Este fluxo carregava nas casamatas do ventre

A estrada para uma humilde hossana

A Iberê Camargo:

O mestre máximo do pincel

Que reinterpreta visceralmente

A visual realidade

Que, á primeira análise,

Se mostra vivente, a inconteste claridade incólume do sempre!

 

 

Ah, ontem á noite,

O meu ser de remendo

Quis enaltecê-lo,

Reverenciar-lhe o apurado e peculiar olhar

De transcendente acuidade,

Lançado sobre o aparente cenário em equilíbrio:

Para o geral ver,

Cegado pela síndrome de Narciso,

Completamente equacionado

Pela Matemática do humano tempo conciso.

 

  

 

Ah, como idolatro este olhar

Congênere da Ametista

Pois dirime a embriaguez:

Embriaguez que a insidiosa superfície

Do mundo externo impõe á vista

De um modo que bloqueia

Tão sutil e plenamente

O livre perceber que brota das mentes hominídeas,

Porque estas ancoram,

Embora inconscientemente,

Seu alado veleiro

No indestrutível porto da sageza

Do ecumênico solar desejo!

 

 

 

Então ele fita claramente

O incessante novelo de conflitos

Progredindo-se por debaixo da derme

Do onipresente embuste eloqüente, corrosivo!

E depois que se alimenta deste drama,

Um universo em contínuo colapso,

Vivenda em chamas,

Devolve-o íntegro, desprovido de sofismas:

Rebento do incorruptível imaginário antropofágico!

Sim, a AMETISTA EXPRESSIONISTA

Faz com que o rosto da verdadeira humana estética

Seja revelado:  

Sem o adorno da airosa flor do eufemismo

E sem a indulgência que emana

Da mão estendida pela cênica sensatez residida

No alegre tremular da bandeira da trégua

Entusiasticamente anunciada, bramida!

 

 

  

 

Ah, entretanto,

O poder de captação de Iberê

É muito mais ancho:

É capaz de nos expor

Toda a densidade da latitude

Contida na pungência da tristeza,

Escondida na álacre corpulência

Do rosto de uma pessoa-oceano.

 

 

Não, eu não pude compor o tão sonhado poema:

Melancolicamente,

Naufraguei-me no mar da cara empresa.

 

 

 

Ah, tenho raiva, tenho pena

de  não ter podido seguir a sua feérica estrela:

Não erigi versos brancos

Nem versos que sorvessem

Da fonte onde deitam

A rima pobre e a opulenta.

  

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

             EU DESEJO UMA VIAGEM SERENA Á MINHA AVÓ

               (EM MEMÓRIA DE BEATRIZ BARBOSA MENEZES,

                 MINHA AVÓ BEATA)

 

 

Caso haja chegado o momento,

Eu desejo que a senhora parta serena e sem padecimento:

Impiedosa, a vida já lhe impôs

Muitos flagelos e descontentamentos.

 

 

Como fora abnegada:

Privava-se dos alimentos

Para que a seus filhos

Não faltasse nada. 

 

 

Como fora abnegada:

Com a muralha do pesar

Sobre suas costas,

Por ter perdido sua primogênita

Princesa de Ébano,

Ajudara a cuidar da prole desta,

Recebendo como recompensa

A rosa da ingratidão

Mais seca, mais perniciosa e mais pérfida!

 

 

Amara hermeticamente

Habitantes do planeta dos vórtices violentos:

Um prisioneiro da bebida

E um escravo do ígneo temperamento;

Perdera-os para seus destinos turbulentos.

   

 

Sempre tivera de trilhar a alameda de Caetana:

Testmunhara o crepuscular da luz dos pais;

O crepuscular da luz dos seus irmãos;

O crepuscular da luz da sua primeira filha;

Encontrando na mais nova

A estrada para uma existência,

Apesar das dolências emocional e física,

Um pouco mais duradoura, leniente, tranquila!

 

 

Aqui, sentado sobre o divã dos meus pensamentos,

Contemplo a constelação das estrelas

Da glória, da imponência, da grandeza e do orgulho

Pairarem sobre o seu firmamento de sentinela da labuta:

A quituteira, a lavadeira, a engomadeira,

A fibrosa e teimosa mulher guerreira,

Todas a formar o mais majestoso sol da decência.  

 

 

 

Caso haja chegado o momento,

Vá serena e em paz,

Filha da nação dos bantos.

Vá em paz e serena,

Minha Jóia Pequena!

 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

 

                      A SEMÂNTICA DO ESCURO

 

 

 

Avatar sem girassol

Em que o vácuo da claridade prepondera:

O reino da contraluz,

Ao subjugar-nos com o seu viço

De leonina fera,

Faz com que tenhamos o insólito poder

De não estacarmos a nossa visão

Na dimensão da epiderme do oculto,

Mas de forçarmos o olhar

A viajar para muito além

Das vísceras da cratera,

Jacentes ainda no átrio do mundo.

 

 

Confinado na órbita

Do breu de orvalho,

O pensamento deixa

De ser a inane rocha

E passa á condição de fluxo:

Eterna queda d’água harta

Em mágico plenilúnio.

 

 

Leve e sem abrir mão

Da sua índole inconsútil,

O pensamento, ao despir-se

Da armadura enclausurada

No dna do universo fabricado,

Deixa pulular,

Em seu solo recém libertado,

A flora do Nirvana da razão

Quando sob o soberano jugo

Da óptica betúmica imensidão.

 

 

 

Então, sob o manto do visual negrume,

A percepção apura-se

Pois se dissolvem as onipresentes mentais brumas

E a verdadeira cromática da claridade,

Triunfante, assoma e todo o córtex invade

Como se fosse a glória da metástase!

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

                SÁDICO BEBEDOURO DA VIDA NASCENTE

 

 

O bebedouro quer sorver o viço das crisálidas

O bebedouro não sabe o que é sentir afeto, amor, saudade

O bebedouro quer ter o gozo de ver a pomba arder em chamas

O bebedouro quer provar de sua matéria carbonizada, desnuda,

                                                                                            Sombra]

                                                                                         

 

 

O bebedourouro quer libar centenas

O bebedouro quer libar alguns milhares

O bebedouro quer sugar todo o sumo de miríades e miríades

Do sempre leniente e revitalizante jardim da mocidade

 

 

O bebedouro já digeriu completamente os dois últimos oceanos

O bebedouro quer mais e desconhece o vocábulo satisfação

O bebedouro quer contemplar de novo um mar morto em efusão

 

 

O bebedouro anseia sentir em seu palato o gosto do vil-metal

O bebedouro anseia sentir em seu olfato o olor do vil-metal

O bebedouro quer transmudar sangue em ouro dezoito quilates,

                                                                                       Jóia-Vitral]     

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

                           A EXPEDIÇÃO DA PALAVRA                        

 

 

O engendro engendra a pedra

A pedra pedra a escolha

A escolha escolhe a relva

A relva relva a aventura

A aventura aventura-se na caverna

 

 

A caverna caverna o quadraçal

O quadraçal quadraça o granito

O granito granita o alimento da História, o desconhecido

O desconhecido desconhece o ódio contra o desejo

 

 

O desejo deseja o idílio

O idílio idilia o clarão

O clarão clareia a vitória da irmanação

A irmanação irmana-se á celebração

A celebração celebra a desgraça

A desgraça desgraça a solitária

A solitária solitaria a miséria

A miséria miseria o esquife

O esquife esquifia a opressão        

A opressão oprime a tranca

A tranca tranca a paixão

A paixão apaixona-se pelo tecer do cérebro

O cérebro cerebra o criatório da mente

O criatório cria a chama

A chama chama a mão

A mão manipula a caneta

A caneta caneta a mágica

A mágica chamada PALAVRA. 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

                         POEMA DA SOLIDÃO REAL                       

 

 

 

 Insônia se apodera do meu corpo:

O dormir se torna rarefeito, trôpego.

 

 

Insônia se apodera do meu corpo:

Imagens de abismo escravizam a mente sem seguro porto.

 

 

Insônia se apodera do meu corpo:

A sala reina vazia, a cozinha reina vazia, o quarto reina vazio,

A varanda reina vazia, a minha pessoa reina vazia.

Enfim, reina o vácuo como habitante imperioso.

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

                   COMEDORES DE SOBRAS

 

 

 

No penúltimo halo da antemanhã,

Pessoas saem de seu humilde viveiro

Para buscar o combustível do corpo

Em um quase longínquo desterro.

 

 

E, ao chegar a seu destino,

            A feira,

Esperam pacientemente

O ocaso da efervescência

Da harmonia desarmônica

Dos sóis de quem vende e de quem compra.

 

 

 

Então, quando advém a hora ansiada,

Afluem sôfregas ao encontro do tapete

De frutas, legumes e verduras

        Que cobre o chão

Onde, sob os afagos rudes do dia-a-dia,

Rodas, sapatos, pés desnudos ou de sandálias

Apressada e inescrupulosamente pisam.

 

 

Ah, e como a fome delas

               É canina e ao mesmo tempo conformista:

Um ancião desempregado

Amaina o vácuo em sua barriga

Com uma suculenta manga dormida.

Ah, quando alguém se depara

Com a horrenda fronte da fome

  ------ Sentada no trono de sua opulência ferina ------

Deslinda que o nojo é luxo;

Não uma alameda a ser seguida.

 

 

 

 

 

Algumas, ao regressar a seu ninho,

Comutam refugo em lucro:

O que na feira era lixo;

Na carente vila de casebres

É auspicioso fruto rentável, celeste, divino.

 

 

No entanto, para a hoste de grisalhas

Barbas engravatadas e garbosas,

Este paraíso da lídima e visceral miséria

É nada mais que um moribundo resquício

De seu passado sem rosas e azaléias.

 

 

Não, mas estas pessoas:

Estas pessoas sabem

Que a miséria cintila até o ponto

Em que assoma a dor nas vistas;

Que ela é viva, concreta, fenece, fere,

Queima e alucina.

E ela o faz de inúmeras maneiras:

Maneiras que a mais poderosa verve

Nunca sequer imagina.

 

 

Sim, todavia alheias aos mais atrozes sofismas,

Elas prosseguem crentes na vida:

Sempre a segurar a ponta do rabo

Daquilo que crêem ser a esperança,

Apesar do crepúsculo, das mazelas,

Das chagas em abundância,

Da dor, da amargura e da desabonança!

Enfim,  elas prosseguem,

Mesmo com o mar infinito de desamor,

De inclemência, da ausência de ternura

E do culto da sentimental distância.   

Sim, estas belas pessoas continuam a hastear,

Embora não saibam,

O estandarte do vislumbre de uma vindoura era magnânima.

  

  JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

                                                 ANABIOSE DA PAIXÃO

 

 

Enquanto ergue-se em mim

Um monólito de bem-querência á solidão,

Lá fora a rua é quase calmaria

Pois o rádio ---- ainda que

Ligado ---

Ajuda a compor o quadro

Do augusto mutismo altruísta, sereno,

Sábia atmosfera de reflexão recrudescendo.

 

 

Após tantas e tantas esperas

Pela ignescente e fulgurosa

Aurora boreal, sem

Que houvesse uma sequer

Negativa ou positiva resposta,

Apaguei a chama da esperança:

Cerrei-lhe a porta!

Preferi o porto seguro do vácuo

A prosseguir contumaz

Em minhas andanças

De exitoso náufrago.

 

 

Porém a voz da minha consciência

Diz que é cedo demais

Para eu relaxar,

Me deixar entregar ao embalo

Dos hartos e meigos braços

Do réquiem do apaziguamento

No mar da expansão engolfado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bem da verdade,

Ela me alerta:

Diz a mim que o náufrago

Não se dirigiu ás estâncias

Do reino do Morfeu perpétuo.

Não,

Ela me diz que ele escapou

Das garras do limbo da letargia eterna

No momento em que minha visão-caminho

Singrou o caminho da jóia

Divagativamente

Ametista-Névoa

Que no meu jardim aflorou áquela hora.

 

 

Sim, um copo-de-leite roxo

Libertou-me, de novo,

Do cárcere da benfazeja embriaguez voluntária.

 Sim, um copo-de-leite roxo foi o suficiente

Para revelar que o crepúsculo

Definitivo da chama, na verdade,

Era o ouropel da morte:

O coma, o coma!

 

 

Ah, mais que dolente engodo:

Agora é que descubro

Que meu monólito de bem-querência á solidão

É um dantesco absurdo!

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

                                A FRIEZA DOS MECENAS

 

 

 

 

O sol da hossana ao telúrico conhecimento

Não quer mais iluminá-lo intensamente:

Sonha, ao contrário, sequiosamente

Em vê-lo sucumbir,

De maneira lenta, estertorosa e pungente,

De fome, de banzo, de sede.    

 

 

Ele se cansou de ser

A ponte para a mágica

Popular verbena:

Não quer mais

Que o povo

Faça reverência

Á sua gênese, ás suas raízes,

Aos laboriosos agentes

Que nos lavraram e nos esmerilaram

A mente da Terra do regaço quente.

 

 

Contudo,

Algumas filhas

Da sofrida feérica Argila

Suplantaram a castração da vontade:

De posse da chama da onipotente tenacidade,

Fazem florescer edens da resistência

Ás nuvens promotoras do genocídio

Que alveja o nobre bailado.

 

 

O bailado carpe,

Em fluxos de veemência,

Um mar de tristeza tão funda

Que aflora, em quem o contempla,

Lágrimas de pena, dor, impotência! 

 

 

 

Não,

Mesmo trôpego

E sem dínamo financeiro,

O bailado não entra na rota

Do influxo:

Ainda que corra

O risco de ser repasto da recôndita piranha,

Teima, chora, foge, luta

E não se rende nunca!

Rende-se: entrega-se

Ao Frevo, ao Reizado,

Ao Maracatu, ao Xaxado,

Ao Coco, á Chula,

Ao Congado, ao Bumba-meu-boi,

A magia da nossa telúrica Dança.

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 
 
 
 

                             A SOFREGUIDÃO DO NÃO-POETA

 

 

 

Quero ser um artesão de palavras:

Duras, dúcteis, viscosas, herméticas,

Diáfanas, sinceras, profundas, singelas, iluminadas.

Eu quero é ser poeta

Pois este erige contínuas miríades de estrelas

Sobre o céu de eternas noites enluaradas!

 

 

Quero poder afluir,

Quando me der na telha,

Ao feérico lago da espontânea

Língua do povo:

E, ao libar da sua água,

Expelir-lhe as impurezas,

Que são as chagas, as mazelas,

O carcereiro da igualitária opulência,

Para deixar que viva livremente

O florescer incontinenti

De castelos e mais castelos

Da alacridade e dos felizes sortilégios

Que emanam do eufemismo

Da escrava gente.

 

 

 

Quero degustar

O vinho tinto da galharda palavra

A fim de homenagear a imponência

Que cimenta os mínimos e máximos halos

Da natura realeza.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quero ser condigno

Quero ser acuidade e sageza

Quero ser humildade, vivacidade, gentileza

Quero ser feiúra e esbelteza

Quero ser a inane importância

Quero viver perpetuamente

                                          [ No jucundo reino

                                             De ingenuidade

                                             Das crianças

Quero ser ventania, poesia, proximidade, distância

Quero ser o instante

                                [No qual se encerra o segredo

                                 Da segurança, da solidão, da tristeza,

                                 Do medo, da coragem, da alegria,

                                 Da repreensão, da recompensa, do desejo

Quero ser a imensidão

Quero ser pequeneza

Quero ser a imperfeição em evidência

                                                              [Pois a perfeição

                                                               É um atroz sofisma

                                                               Da humana cabeça

Quero ser a multidão

Quero ser o átrio do sol solitário da certeza

Quero ser a rocha, a rosa, o rouxinol, o girassol, a orquídea, a açucena

Quero ser a ametista, poeta em perene florescência!       

 

 

 

 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
 
 
 
      

                              A INOMINÁVEL BELEZA

 

 

 

Um homem contempla-me fixamente

Um homem empreende passos até mim

Um homem aperta-me a mão

Um homem a oscula com temerária e sincera sequidão

Um homem vislumbra em mim,

Perdida na galáxia do outrora,

Que nunca mais volta,

A amada constelação da glória

De saber-se gente sóbria.

 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

   

  ESCRIBIR EN  CIELO DE AMARGURA

 

 

 

 

Sou aquele que bivaga sobre gases de desejo e lágrimas de Concreto

Sou aquele que jaz na cama da ultra-abstrata fome absoluta

Sou aquele que sempre fica á margem do pleiástico santuário

Sou aquele que carrega sobre o dorso do cérebro inúmeras

Chagas de inépcia

Sou aquele que a monótona verbena perpétua encarcera

Sou aquele cuja estrada é pavimentada pelo vórtice da miragem

Finalmente eu sou aquele que sempre está fadado a interromper

Sua viagem.    

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA                       

 

                            CÓRREGOS DE EPIFANIA               

 

 

 

Sinto Frida Khalo

Passear pela pradaria dos meus pensamentos:

Na tela de mim,

Ela pinta uma mulher sem rosto

Que faz verter sangue

Das tetas cor de rubro.

 

 

E do fluido vividamente vermelho

Assoma e fulgura

Um cavalo radiosamente negro

A trotar airosamente ligeiro.

 

 

Ele é um corcel

Que viaja sob o signo

Da velocidade da luz:

O colossal e galhardo quadrúpede

Traz impresso sobre o seu rutilante lombo

A imagem de uma velhaca águia gigante voando.

 

 

Ela, a águia,

Expele vórtices de fogo

E sorve o betúmico oceano caudaloso;

Ela, a águia,

Semeia espigas de ouro,

Colhendo para si o alcoólico dínamo suntuoso

E fomentando a fome para o infausto povo;

Ela, a águia,

E as outras magnas aves de rapina

Subjugam o mundo vivaz, pleno, maravilhoso

E deixam como legado

O caos, o crepúsculo, a dantesca mansão do vácuo para todos.

 

 

 

 

 

Ah, mas eu só pude sentir                                                  

A supernova do nosso milenar planetário

Quando a Frida Khalo

Fez da minha viagem

Á inefável esfera dos sonhos

Seu mais belo, eloquente e audacioso quadro novo. 

 

 

 

 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

 

 

 

 
 

                                        A NÉVOA DE PANDORA

 

 

Assentadas na colina pênsil sobre a selva de pedra,

Pessoas lançam seu olhar ao firmamento

E vêem numa marcha frenética

Se aproximar delas a sádica névoa do tormento.

 

 

Os olhos transidos,

Como a injetar um ânimo febril no cérebro,

Esquadrinham particularíssimas congostas

Onde sabem que afloram escaninhos seguramente sombrios.

 

 

Alheia a tal ardil,

A névoa desprende de si

Diminutos cilindros de chumbo que descerram

Escarlates cataratas sem calma ou fecundam

Sementes, flores, florestas, floras do crepúsculo.

 

 

Quão, quantos

Cristais, Pérolas, Seivas potencialmente producentes

Que não serão

Carmelas, fulgurantes Auroras, Auréolas,

Diamantes de lume pungente, A Ébana Florescência mais Bela...!

 

 

No entanto, em vez disso,

Ela evoca tétricas noites diurnas

Que transformam airosas rosas betúmicas

E açucênicas aquarelas européia-iorubânicas

Em cálidas sepulturas.

 

 

Finalmente,

É assim a jacarandânica câmara de gás contemporânea...

É assim a aura da vil-metálica chama...

É assim que caminha a extrordinária e magnânima civilização humana!

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 
 
      AQUARELAS DE MIM

 

 

Erijo monólitos de mim quando escrevo

Erijo exílios em mim quando escrevo

Erijo céticas catedrais de paz em mim quando escrevo

Erijo no chão de cimento da minha verve

Girassóis do mágico vento quando escrevo.

 

 

Faço do silencio interno

A mais fragorosa música quando eu escrevo

Faço da crédula e velhaca ressonância dos

Corais de zagais modernos

Estro para revelar o sabor malsão de seu mel malévolo

Quando escrevo.

 

 

Pincelo alcovas para o vácuo dormir comigo

Quando escrevo.

Pincelo AKs-47 para soçobrar os majestosos castelos da demagoga e harpíaca

Eloqüência quando escrevo.

Pincelo uma miríade de pernas sôfregas por cosmopolismo

Quando eu escrevo.

Pincelo heterônimos bidimensionais

Quando escrevo.

Degusto o sol da catarse

Ao pincelar a mim mesmo quando escrevo.

 

 

Sou disco bicromático quando escrevo.

Sou relva, revoada e guepardo quando escrevo.

Sou faca cega, lâmina de dois gumes e pedra lascada quando escrevo.

Sou água-viva, letargia e águia quando escrevo.

Sou aquarela sem pais, aquarela sem limiar e aquarela sem medo.

Afinal, quando eu escrevo,

Sou aquarela inerme, aquarela do caos, aquarela indigente:

Sem nome, sem baile, sem lápide, sem brumas ou testamento!

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA
 
 
 

                                        AUSÊNCIA                                  

 

 

 

Dirige-se velhaca em minha direção

A verdadeira semântica da sombra da tristeza:

Pesa-me, sobre o baluarte da mente e do coração,

O medo de ser tragado pelo oceano da rarefação

Da alegria; de não tê-la novamente

Como a minha eterna genética mansão.

 

 

Ela sobrepuja a porta:

Não pede licença,

A campainha não toca;

Antes galga as escadas,

Que a conduzem á minha alcova incauta.

De repente, pego-me a contemplá-la:

Contemplando-a entrar imperiosa, autocrata,

A apoderar-se do cômodo, da casa, de minha cética alma,

A partir de então, lacrimejosa, aluvião de lágrimas,

Pelas ruínas da felicidade, soterrada! 

 

 

 

Por isso, depois de ponderar muito,

Delibero:

Mergulho até as profundezas do ostracismo:

Lá fixo residência nas casamatas do silêncio

E, por tempo indeterminado,

Ainda hiberno sem esperanças

De que um dia outra vez eu seja ativo.

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 
 
 
      

 

 

                                                  POETA MINERAL

                             (ODE A JOÃO CABRAL DE MELO NETO)

 

 

 

 

 

Vicejara da sáfara, da pedra

Um girassol que se esconde

No túmulo do empedernido.

 

 

Odeia o transbordamento da cálida água:

Acha-a frívola;

Prefere a rasteira tapeçaria, o afagar

Da mão do cimento e a metálica alvenaria do parco gesto do engendro.

 

 

Pinta a grandeza da secura:

Exaltando a plasticidade que a molda;

O aquoso, mádido, translúcido e gélido fogo

Que flui na corrente sanguínea

Das estóicas coisas ou pessoas hialinas.

 

 

A poética da observação obsessiva,

Para ele,

É plena da mais sábia epifania:

Ela fica postada

No píncaro maior

Da visão cristalina, acuidosa, concisa, plástica, vítrea!

 

 

  

Não,

Ele não é exangue oceania.

Não,

Ele não é apenas a pétrea açucena que rebenta altiva.

Não,

Ele não é tão-só o penedo, o ferino espelho, o Cerrado,

A Caatinga, o Sertão sem lua nem estrelas, a acrimoniosa SINFONIA.

 

 

 

Não mesmo, meus queridos amigos.

Na verdade,

Embora ele, quando vivo, veementemente refutasse,

O líquido poeta degusta sim o lirismo:

O lirismo presente na contemplação sóbria,

Onde os indistintos matizes do invisível se realçam;

O lirismo contido na profundidade que aflora

Da imagem da viril leveza do andaluzo toureiro

Ou da acre imponência da pernambucana e betúmica cabra;

O lirismo que se denota na narrativa da fluência de um rio

Ou que se ressuma na fluidez da serena revolta

Ora dum povo severino, ora duma gente maganês,

Que ama, apesar da dureza da navalha,

Deverasmente a sua lavra.

 

 

Ah, mais do que nunca eu acredito

Que o árido bardo, compositor da ode ao sol albino,

É, de fato,

Um radioso e magnífico

Poeta lírico! 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

    

                             HORAS NOTURNAS

 

 

 

 

  Quando bate a modorra,

       reluto incançavelmente

     para não sucumbir á efêmera morte diária

      a que me impõem os contínuos breus dormentes,

      os quais me fazem jazer sobre a cama

      do esteio da velha solitude teimosa

      que comigo aporta nesta alcova nova.

 

 

  porque quero muito ficar

    ao sabor do fraternal masoquismo

         dum recente relicário

   de rios que inexplicavelmente sem sentido se esfumaçam:

                 afinal sem saber-se refluentes.

  Sem saber se exatamente poderão talvez um dia desses

             voltar á sua congênita forma.

  No entanto, eu bem sei: eles não são molas!              

 

 

 

  Ah, me pego subitamente

    afogando-me nas águas profundas do divagar

               onde alfobram o titanismo

    e seus devotados miasmas garridos.

              Entretanto, uma vez mais,

     para o quarto retorno. Me fixo na janela

     a contemplar o fluir e o refluir das relíquias fraternas

     que, na estrada saudosista da memória, perpassam lépidas.

             Sim, então, sob o peso da dor, sobre o leito, desmaio.

             Com efeito, sob o peso das águas que não jorram,

                          no catre, eu mortamero cansado!

 Cansado de olhar o rio que corre. Corre cheio de desapego:

                                    desapego ao passado ainda tão claro.                 

                            JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

 

 

 

                 O RELICÁRIO DE VIVÊNCIAS                

 

 

Ao pé da colina das Esmeraldas desvanecidas,

Contemplo o fluxo oceânico

De Sáfaras, Opalas, Ametistas, Safiras, Jades, Pérolas e Turmalinas

Fluir infrenemente em direção

A uma enigmática neblina.

 

 

Como que insólita

E miraculosamente

Minha humilde perspectiva

Abissalmente se amplifica:

Enxergo, de forma nítida,

No âmago da densa e calma

Massa gasosa de naftalina,

A sorumbática chegada,

A horrenda masmorra,

O aterrador cadafalso,

A lancinante calmaria,

A iminente, ineludível e fatal partida.

 

 

 

 

Então sôfrego

Para que as aquarelas,

Auroras, auréolas

E noites da etérea primavera

Refluam-me novamente

Ao córtex de um niilista sem cura,

Vou ao encontro da cordilheira

Das minhas chagas abertas e devolutas

Pois suplantam  toda ou qualquer agrimensura.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah, na verdade,                                                                     

Como eu gostaria de que estas lembranças

Rapidamente se dissolvessem igual a gelo

Sob o efeito do inclemente sol do Saara.

No entanto é uma leda vã ilusão sádica:

elas agem conforme fossem Antártida intacta!

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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