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SOBRE A PINTURA DE RUI MELO 

 

 

        Ver o Rui Melo entregue, sem quaisquer reservas, aos seus primeiros contactos com as cores, às tentativas de as dispor esteticamente na tela, à sua própria surpresa perante o comportamento, imprevisível da matéria, à forma – digamos que realista – como organizava as suas primeiras paletas, foi o poder fruir de momentos encantatórios que, ainda hoje, retenho como lição sobre o que é isso de ser artista, crescendo. Rui Melo, sem pensar nisso sequer, quando me dava o privilégio de poder ver, num ambiente de intimidade muito amiga e, da parte dele, muito tolerante, ensinava-me, de forma intuitiva também, que nascer com a pancada de artista não é o suficiente para o ser; que o talento, se preguiçoso também não dá; e a imaginação descontrolada pode dar, aquela de «uma no cravo, outra na ferradura». Está provado que talento e imaginação, sem transpiração, conduzirão, quando muito, a um caos de futilidades.

        Até frequentar a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, as exposições de Rui Melo mostraram-nos a lógica de um caminho percorrido com um fôlego límpido, seguro, meticuloso, subindo, subindo sempre, mostrando uma apetência cada vez mais definida por um entendimento de Pintura – um entendimento prático, quase nada teórico – e que o foram recomendando a espaços cada vez mais internacionais, nomeadamente europeus e americanos.

        Mas nada disto foi meteórico, nem sequer repentino. Pelo contrário. Foi a transpiração aliada ao talento e à imaginação, sem qualquer preconceito perante essa forma de dominar o espaço da tela.

Rui Melo sabe deste domínio, conquistando. Em cada quadro, torna-se sempre mais visível a harmoniosa distribuição cromática, mesmo quando recorreu ao figurativo. A lava dos Biscoitos, por exemplo, é duma negridão ostensiva e o seu contraste com a inconstância das cores do mar e do céu não passou despercebido. Quase nos sentimos dispostos a esperar que anoiteça. Lembro sempre o arrepio desse negro franjado de espuma branca e de um mar perdido em azuis que chegavam ao céu.

        Mas, ainda mais a meu gosto, as suas experiências com cartão «kapeline». A sua curiosidade vai ultrapassar a condenação sumária de tal material. Ele vai autopsiá-lo, arrancando-lhe a pele de um dos lados. Perante a delicada camada de músculos moles, vai talhá-los ao jeito de goiva, devolvendo-nos uma espécie de pauis marinhos, a que não faltam juncos e musgos. Mais do que a sua captação do inefável plástico, surpreendeu-me a capacidade de enobrecer, em termos de linguagem estética, materiais susceptíveis de serem considerados lixo. E não se trata de qualquer favorecimento à reciclagem. O material sedu-lo enquanto matéria e é essa matéria que ele valoriza utilizando e recriando. Das experiências sucedidas – e sempre na pesquisa de outros materiais e de expressões com objectivos pré-definidos – Rui Melo andou também (e anda) nos espaços da ficção arquitectónica e plástica, criando-os para representações teatrais específicas. Se se tem que enaltecer, mais uma vez, o seu gosto estético, não se pode deixar de apreciar a noção exacta do que é um espaço cénico, envolvido pelo cenário e este com a monumentalidade necessária para ilusionar o espectador, fazendo-o acreditar numa realidade do faz-de-conta.

        Antes de frequentar a Faculdade de Belas Artes, Rui Melo conquistara já os códigos específicos da Pintura e reescrevera uma «gramática plástica» pessoal, de forma que o seu «discurso» pictórico fosse entendido no seu conteúdo universal. Sem se deixar algemar a nenhum dos «discursos» que foi explorando, a sua evolução, sobretudo a qualitativa, foi sempre uma constante. E sempre são notórios a sua meticulosidade, o seu perfeccionismo e, até, os seus objectivos. Ele sabe que não sabe pintar. Isto é: ele sabe que é pintando que aprende; que é aprendendo que pinta; tudo contínuo e em continuado. Ele ainda está longe dos compêndios, dos abecedários, das fórmulas químicas para a preparação das telas, dos segredos óbvios sobre mistura de pigmentos e definição de paletas. Fez tudo isso sem aval académico. Até que, um dia, teve de ser.

        E foi. Mais uma vez, Rui Melo surpreende. Surpreende, porque sabendo tanto, aceita a sua condição de caloiro, reaprendendo o alfabeto da expressão plástica. Aproveitou o tempo da Escola para reconfirmar o que já firmara, mas, sobretudo, para readquirir conhecimentos que se prendem às mais vanguardistas expressões plásticas. As técnicas são diversificadas e múltiplas. As objectivas fotográficas, por exemplo, vão permitir-lhe uma aproximação, muito válida, aos processos da digitalização. No entanto, nunca enjeitou aquilo que, eventualmente, poderia ser-lhe fastidioso e sem proveito, como as aulas de desenho. O Rui Melo tem também essa vantagem sobre o potencial de muitos outros artistas plásticos: sabe desenhar. Qualquer quadro do Rui mostra o harmonioso domínio da forma, tanto com o lápis como com o pincel.

        O Rui Melo, que regressa da Faculdade de Belas Artes, afinal, não é o mesmo. Terá, de alguma forma, perdido a inocência da expressão plástica, perante a abundante, cúmplice e promíscua carga informativa, regulada e reguladora de opiniões, de materiais, de técnicas e, sobretudo, de saberes. Com certeza, não deixaram de lhe dizer que Van Gogh tinha uma predilecção especial pelo amarelo e que, só por acaso, descobriu que o roxo seria a cor da sombra sempre que o amarelo fosse tocado pela luz solar.

        E nem mesmo estas trivialidades Rui Melo descurou. Continua a respeitar o princípio de que a sabedoria é uma prática porfiante e porfiada, sem meta alcançável.

        Mas, o que pinta Rui Melo? Poderíamos filosofar sobre a estética significante das suas manchas abstractizantes e sentir-nos-íamos satisfeitos por conseguirmos envaidecer o nosso ego artístico. Mas tanto quanto percebo, o abstractismo de Rui Melo não tem a função redutora de nos deixar amolecer pelo que o abstracto tem de indecifrável. Não é só com isso que os quadros do Rui nos seduzem. O que seduz é apreender o equilíbrio entre volumetria e ausência dela, no duelo saudável entre luz e sombra. Aliás, uma das fases mais sedutoras da pintura de Rui Melo aposta em paisagens inlocalizáveis e indefiníveis, mas onde luz e sombra se digladiam para se afigurarem em luminosidades subterrâneas, assim como momento genesíaco da separação das trevas e da luz, ou, porque foi essa a minha impressão inicial, a luz uterina do encanto. A fase dos azuis confirma esse jogo entre o claro e o escuro, o som e o silêncio, o etéreo e o palpável, o odor que se deixa tocar para que se cumpra a paleta dos sentidos.

        Se falarmos de sentidos, teremos de falar de sentimentos; se de sentimentos, teremos de falar de afectos. Não sei se é defeito ou qualidade, mas a pintura de Rui Melo desestabiliza apaziguando; serve-se dos sentimentos para provocar emoções; através da abstracção, disciplina a estética da nossa relação com a obra de Arte. E fica com a mesma força lírica da poesia.

        Parecem-me ser estes os princípios temáticos que movem Rui Melo; se calhar até, a filosofia que o anima. De resto, não o entendo a reinventar signos e símbolos de interpretação labiríntica; a dar aos enigmas o sortilégio dos sorrisos; a complicar a simplicidade da pintura, para justificar o por que pinta. Aliás, Rui Melo é um substantivo das transparências. Não precisa de recorrer a truques e a adjectivos para apelar ao olhar.

        Mas, agora, se tivesse de desenhar um percurso sobre o mapa da vida, referindo o que Rui Melo já cumpriu, penso ser realista se disser que tudo está no princípio. Ele tem muito para fazer, aprendendo; para aprender, fazendo. Assim, garantirá que a sua busca pela perfeição será um trabalho persistente, respeitando os silêncios da paciência, ousando desafiar, com humildade, a alva virgindade da tela, tal como Penélope, que não desistiu de Ulisses, tecendo e destecendo o seu tapete de esperança. Ela sabia que a chegada de Ulisses era sinónimo de perfeição e que esta, há muito, ultrapassara o lado mítico da Arte. Por isso, um artista, nunca pode desistir de sonhar.

 

ÁLAMO OLIVEIRA

 

IN:Jornal “DIÁRIO INSULAR”- Suplemento “Vento Norte”22 de Junho de 2006

 

  

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Para o Rui Melo

 

No campo ilimitado da intervenção artística que o séc. XX proporcionou, vemos o jovem artista num saudável jogo exploratório, como de um pêndulo oscilante se tratasse em busca de sentido e espaço de identidade.

Dá gosto vê-lo navegando no plural labirinto da interdisciplinaridade, manipulando recursos tradicionais ou tecnologias de onde sobressai o computador num entendimento estético que o seu tempo lhe permite e lhe propõe.

Da fotomontagem dos seus auspiciosos auto-retratos gráficos ao tributo prestado à pintura antiga, numa salutar viagem de reconhecimento aos seus dilectos antepassados Bosch, Tiepolo, Géricault, e outros, em “flashbacks”, fragmentos da memória que o alimentam, sem perder neste perscrutar retrospectivo o pulsar da contemporaneidade.

Neste olhar para trás, ganha balanço para novas viagens ao sabor de uma aventura que o leva a mergulhar no plasma delirante da matéria líquida (oh! Como eu me reconheço aí também), deixando que a imaginação da matéria o deslumbre e o conduza à porta do caos sensível – esse mistério de delírios que os fluidos revelam – e aí saber parar a tempo; o que aconteceu contigo na série de trabalhos que se seguiram com as figuras recortadas, contidas e suspensas no silêncio raso da tela.

Não surpreende que uma nova investida nasça da experiência de contrários e remeta o artista para uma assumida relação com o conflito, agora já não só no plano formal, mas também no campo semântico, na série do conjunto de imagens a que chamarei paisagens foto-mecânicas e onde o “ruído” reaparece mais problemático, mercê de uma vontade de provocar, de impor objectos heteróclitos na paisagem (?) suscitando um confronto gramatical da mais complexa solução plástica.

A aventura prossegue em felizes fotocomposições em faixa contínua onde se desenrolam instantâneos arquitectónicos, anatómicos ou de design e se colam e repetem em frisos longitudinais, de um raro equilíbrio e beleza formal.

Resta-me augurar a Rui Melo um futuro promissor – não sem antes lembrar-lhe a necessidade de ciclos de silêncio e reflexão após cada etapa deste peregrinar – a fim de cimentar as propostas de um discurso estético que tantos desejam se torne constante e duradouro.

 

José Nuno da Câmara Pereira

 

IN: catálogo da Exposição de Dezembro de 2003, Palácio dos Capitães Generais, Angra do Heroísmo