Guerreiras de Natureza, v. 3 da coleção Sankofa. Nanci Valadares[1]
Há aproximadamente seis décadas atrás, o magistral Nelson Rodrigues ao ver no palco, a diáfana Cacilda Becker nos braços do negro Otelo, sentenciou que o ator Abdias Nascimento era de fato o único negro no Brasil, com isso querendo dizer que não conhecia ninguém além dele, que se proclamasse orgulhosamente, como pertencente à raça dos escravizados. Aqui coincidia o tempo das iniciativas autóctones em prol da igualdade racial, como a Convenção Nacional do Negro, realizada no Rio de Janeiro e o Teatro Experimental do Negro. Naquela década, entre os anos quarenta-cinquenta, o censo demográfico excluía o item “cor”. No início dos 70, provocado por cientistas sociais que lamentavam a lacuna, o IBGE ofereceu à população, numa Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (PNAD), a sua autodefinição espontânea quanto à cor. Das respostas a esse quesito resultaram dezenas de matizes como azeitona, pretinho, pardo, marrom, roxinho e outras tantas objetivações numa clara expressão do grande prestígio que denota a cor branca por oposição à simples acepção de preto. Hoje quando a Coleção Sankofa organizada por Elisa Larkin Nascimento lança “Guerreiras de Natureza”, Mulher Negra, Religiosidade e Ambiente (São Paulo: Selo Negro, 2008) dedica a todos os brasileiros o capital plural de nossa memória coletiva, somando-se à preservação da matriz africana na formação social brasileira. O estudo da origem dos negros do Brasil e do sentido e da extensão cultural de costumes, padrões de comportamento e valores mantidos na diáspora africana, requer além do investimento público e privado em pesquisa, a preparação superior de homens e mulheres que se dediquem a essa tarefa em nome de todos os brasileiros. Considerando-se a riqueza do Brasil a sua imensa biodiversidade, a multiplicidade de suas gentes projeta-nos para o futuro de um mundo globalizado e de hegemonia compartilhada. Em Gana, quando se apela ao ideograma Sankofa, o olhar se volta ao princípio das coisas para a sábia ordenação das ações no presente, preparando o salto para o devir. Seguindo-se a Cultura em Movimento: matrizes africanas e ativismo negro no Brasil e A Matriz Africana no Mundo, o terceiro volume da Coleção Sankofa propõe-se a reunir alguns dos mais pertinentes trabalhos de pesquisa, observação e reflexão sobre o delicado tema do papel reservado a mulher negra no Brasil. Neste volume, os mais ilustres representantes da tradição africana no Brasil se debruçam no panteão dos mitos africanos e sua perpetuação na diáspora no Brasil, para retornar às condições presentes de marginalização das famílias chefiadas por mulheres, na análise da inesquecível Lélia Gonzalez, alçando vôo até a projeção de um novo papel para a mulher negra brasileira. O olhar que se volta ao passado convida a uma visita ao mundo mítico em oposição às sociedades históricas onde o tempo se desdobra inexoravelmente na cronologia dos fatos e atos humanos. Na memória histórica, as efemérides descrevem vitórias de povos contra a subjugação por outros ou conquistas sob a ação exemplar de líderes e demiurgos. Não há espaço para o erro e o fracasso já que o indivíduo surge ao mesmo tempo como narrador e profeta. No contraponto, Sueli Carneiro e Cristiane Cury lembram o tempo cíclico do mundo dos orixás que redime os indivíduos de origem africana (ou não) de sua inadequação social, no período pós-Abolição, ao passo que lhes oferece a adoção de uma dimensão simbólica superior, de origem divina. Esta opção coletiva carrega o dom de reintegrá-los à sua própria natureza e a um papel social definido. Pois posto sejam pouco numerosos os orixás que sobreviveram à escravidão no Brasil, suas manifestações são inúmeras, de modo, que por combinação, permite-se a ressignificação arquetípica da singularidade. Os inúmeros aspectos da natureza humana decorrentes da natureza divina desenham traços psicossociais que descrevem, com bastante fluência, as características principais de cada indivíduo, que com eles então se podem re-identificar. Helena Theodoro divisa uma teogonia dos deuses que tudo criaram desde a natureza, a terra (aiyê) e o além (orum), ao espírito feminino das águas, ao homem e à mulher, desde sempre envolvidos numa contradição permanente, numa luta dinâmica que move o universo das coisas. José Flávio Pessoa de Barros e Maria Lina Leão Teixeira, por meio de uma vasta pesquisa de campo sobre o conhecimento e a utilização de ervas e espécies vegetais, lembram a bendição para a cura por meio das folhas: “kosi ewe, kosi orisa”—sem folhas não há orixá. Aqui o livro se aproxima da questão atual do meio-ambiente e, sem anacronismo, relembra o amor à natureza explicitado pelos rituais de caboclo e à lembrança étnica-linguística da matriz indígena, per se, e enquanto sincretismo com os rituais de Umbanda, Candomblé de Caboclo e Jarê. As vozes sem precedentes dos kariri-xoco e fulnio misturam-se às linguagens secretas dos negros bantos, que segundo Dandara, constituía a principal etnia trazida para o Rio de Janeiro, junto ao conhecimento das florestas de Angola e do Congo, por cuja arte, ajudaram a reconstruir a Floresta da Tijuca. Dessa interpenetração entre os povos originais e os negros escravos que deixaram a África pelos portos de “Cabinda, Luanda, Benguela e Moçambique”, Nei Lopes evidencia, em cantigas banto-ameríndias de rituais do Amazonas, a confluência de mitos, mas principalmente dos conceitos sagrados relativos às forças da natureza dos rios e mananciais, das florestas e das árvores. Numa espécie de uma geografia mítico-descritiva, as diversas origens dos deuses dos cultos afro-brasileiros e afro-ameríndios se fazem reconhecer. Das regiões islamizadas da Nigéria e do Senegal fundem-se as tradições hauças, fulas e mandingas no culto Malê. Os iorubas nigerianos se manifestam no culto nagô, como o Omolokô e o Keto vem da nação de Angola. E há os cultos gege que devem sua tradição aos negros vindos da região do Benim e do Daomé, da Costa do Marfim e de Gana. A história dos deuses e do comportamento ético que se requer do ser humano face à grandeza da natureza e do cosmos constitui um repositório de mitos originados na África e reproduzidos nos terreiros de Candomblé e de Umbanda. Em razão das práticas rituais e da formação sacerdotal que as induz e permite, dos longos anos de aprendizagem que se seguem à iniciação das iaô e das sambas até aos cargos hierárquicos mais elevados nas roças ou nos terreiros, barracão ou casa de Candomblé, na nominação citada por José Flávio Pessoa de Barros e Clarice Novaes da Mota, a África sobrevive quase inteira no Brasil. Nesses micros-espaços, sobressai a figura canônica da mulher negra como guardiã renitente de uma unidade familiar simbólica para os ex-escravos e seus descendentes, inseridos num ambiente social mais amplo, onde se tenta por meio de todos os artifícios, relegarem ao oblívio a singularidade dessa memória coletiva e desse esforço humano universalmente digno. Após a Abolição da Escravatura no Brasil, segundo o advogado Hédio Silva Jr. os libertos, sem beira ou eira, não conseguiram se inserir nos meandros jurídicos da nova república, encontrando-se enlaçados por diversas leis que os marginalizavam. Se não podiam morar nas fazendas dos seus senhores, foram condenados à prisão por vadiagem; os iguais perante a lei obtinham responsabilidade penal na tenra idade dos nove anos, se mendigo, praticava o crime. Ao capoeira se mandava à prisão, reduto criminal também do espiritismo e do curandeirismo. Finalmente, Guerreiras de Natureza alcança o fim a que se propõe. Trata-se de encontrar o sentido pelo qual o papel da mulher negra se distancia da Senzala e do trabalho feminino doméstico e da objetivação erótica, como signos de subordinação. “A tradição dos Orixás dá aos homens pobres fundamento e destino” (Joel Rufino dos Santos) e justamente na moldura da marginalização do negro, a mulher negra se assume como líder da resistência cultural do seu povo, abrigando e protegendo aquele desenraizado da cidadania, atribuindo-lhe um sentido novo e superior pela adoção da sua origem e tradição míticas, no hiato histórico desenhado pelos séculos. Não por acaso, o primeiro culto de envergadura de que se tem notícia, a Casa Branca, surgiu ao final do Século XIX em Salvador, fundado por escravas libertas da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha, mantendo-se ainda hoje em funcionamento no subúrbio do Engenho Velho. Sua dirigente, Iyalasse Marcela da Silva (conta Deoscóredes Maximiliano dos Santos, o Mestre Didi, Asipá Alapini) era descendente direta de Iyá Nassô, sacerdotisa de Xangô, no Palácio Ioruba do Alafin Oyó, na Nigéria. Da linhagem das líderes negras, geradoras de identidade e tradição, vê-se referências para um Brasil que se quer plural e culturalmente rico, citam-se as grandes Iyalorixás e Ebomis: Eugênia Ana dos Santos, Mãe Aninha, Obá-Biyí, fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá; Menininha do Gantois; Mãe Tolekê, Iyalorixá da Cidade de Santos em São Paulo; Olga de Aleketu, mãe-de-santo de Aderbal Moreira, um dos articulistas de Guerreiras de Natureza, e sua mãe natural Éwè o Òsanyím, Beatriz Moreira da Silva, a Mãe Beata de Yemonjá. No culto, mesmo as funções domésticas exercidas historicamente pela mulher negra no Brasil e suas descendentes mestiças ou não, enobrecem-se. Agora têm o cargo de ekedes, quando cuidam dos santos e de seus sacerdotes, ou de iaefum cuidadeiras, quando acompanham os procedimentos de iniciação das iaôs, como são iabassêas, as cozinheiras que preparam as comidas celestiais para os santos que apreciam o omolocum, a farofa de azeite de dendê, o abará, o feijão preto temperado com azeite e camarão, o xinxim de galinha, o caruru, o vatapá e o acarajé, que o Brasil vende e exporta. E ao som dos atabaques rugidos ao batuque dos otum-alabê, excedem-se em graça, dançando os pontos aos Orixás. Não por acaso as mulheres negras rejeitam a mera identificação com o feminismo, elas sim, fazem a diferença entre os seres que carregam, de algum modo, a horrífica tradição da escravidão mercantil.
[1] Doutora em Ciência Política pela Universidade de Nova York; Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-Coordenadora da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
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