2. Música na rádio: o mesmo que publicidade?
Se, por hipótese, a mesma filosofia for aplicada aos noticiários então, passaremos a ouvir apenas uma notícia depois dela ter surgido num considerável número de outros órgãos de comunicação. Ou seja, só depois de insistentemente repetida algures, é que aparece no noticiário de uma rádio. É evidente que isto é um absurdo. Se para as notícias o critério passa pela novidade e pela complementaridade - neste caso informativa -, o que levará os estrategos radiofónicos a adoptarem uma filosofia inversa em relação à música?
Provavelmente, no caso da rádio, a música é vista como uma entidade de características bastante diferentes das notícias e muito próxima da publicidade. Tal como nos anúncios,a música tem uma frequência de repetição muito alta - uma faixa musical pode passar durante meses sucessivos -, enquanto nas notícias a frequência é relativamente baixa.
Nesta máquina de repetição que é a rádio , música e publicidade aproximam-se cada vez mais. Para ter publicidade "no ar" o cliente paga. Será que para ter música "no ar" a editora paga? Penso que não, apesar de serem conhecidos alguns "escândalos" deste tipo nos Estados Unidos da América. No entanto, não ficaria espantado se tal acontecesse no futuro ,tendo em conta a actual tendência de tratar a inserção da música, numa grelha radiofónica, com regras semelhantes às da publicidade. E esta é uma das chaves da questão: a filosofia de passagem de música numa rádio está mais próxima da das notícias ou da da publicidade?
Se a lógica for a das notícias , dos comentários, existe lugar para o novo, para a diferença, para a surpresa, para a descoberta; se, pelo contrário, for a da publicidade, o leque de escolhas será reduzido e a insistente repetição a regra dominante. Se esta última hipótese se consolidar, cada vez mais o dinheiro assumirá um papel determinante em prejuízo da estética. Cada vez mais a música será apenas um produto de consumo e menos um bem com algum valor cultural. E , se ainda , se lhe reconhecer alguma mais-valia cultural,ela estará subordinada ao valor de mercado.
Cada vez mais a liberdade de expressão nos grandes meios de comunicação, neste caso a da música, se limitará a quem tem poder económico.
A Crónica de José Pedro Gomes, intitulada "Rádio Perfeita", transmitida já há alguns anos (28 de Abril de 2004) na rubrica Cromos da TSF, é uma boa ilustração desta reflexão.
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