O texto é extraído da carta do Superior Geral, Pe. João Batista Zaupa, escrita depois de sua visita canônica ao Brasil, publicada no Suplemento do “Il Bertoniano”, Nov-Dez. de 1922, às páginas 115-118.
TIBAGI A última casa que visitei foi Tibagi, a primeira fundação estigmatina no Brasil. Saí de Castro com Pe. Pelanda às 12,30 horas do dia 13 de novembro de 1922 em um Ford. Chegamos às 17,30. A viagem foi emocionante para mim, pois eu não estava acostumado a certas posições oblíquas do corpo. Devido ao terreno tortuoso que compõe a estrada, parecia-me a cada instante que o carro fosse tombar. As descidas foram freqüentemente feitas a pé, a fim de diminuir o peso do veículo. Uma e outra vez o empurramos para ajudar o motor, que bufava em forma de vapor.
Chegamos a nossa casa sem nenhum incidente grave. Ao habitual bater de palmas, que substitui o toque da campainha, apareceu para abrir a porta Ir. Valzacchi com um par de óculos grandes, colorido, com roupas imundas como um motociclista depois de uma longa viagem por estrada poeirenta.
Ao se deparar com um padre jovem acompanhando Pe. Pelanda, julgou à primeira vista, através de suas lentes especiais, que eu fosse o segundo padre tão esperado, acolhendo-me com grande expansão de alegria. Imaginem seu desapontamento e certa desilusão quando me reconheceu, sabendo que viera sozinho. Cônscio, porém, de sua dignidade, como único presente na casa (Pe. Henrique encontrava-se em viagem pelo sertão), num piscar de olhos limpou e colocou em ordem o refeitório, cujas paredes e o teto ele estava pintando. Preparava a recepção ao Superior Geral, conforme o recado que havia recentemente recebido do sertão. Não somente à chegada, mas depois também, desempenhou com muito louvor o senso de cuidadosa hospitalidade, fazendo-se de cicerone, especialmente no seu jardim botânico e zoológico.
A cidade de Tibagi é sede de comarca que compreende três municípios. Tem cerca de 700 habitantes. Está situada a 730 metros sobre o nível do mar. A seus pés corre o rio homônimo, grande e bonito como o Ádige, mas sem ponte. Possui um grupo de casas rodeando a igreja, que fica isolada, tendo à frente um grande gramado, onde se vê de vez em quando, pastando tranquilamente, cavalos e bois. Depois da igreja, a construção mais saliente é a escola municipal (faltam telefones e telégrafos). Atualmente projeta-se a instalação da iluminação elétrica.
A paróquia de Tibagi, ereta em 1847, compreende os três municípios da Comarca com exceção de uma pequena parte. A superfície é de cerca de 38.000 quilômetros quadrados com a população de 45.000 habitantes. Pouco mais de um terço é relativamente povoado; o restante ainda deve ser explorado. Os brasileiros formam quase a totalidade dos habitantes; há um pequeno grupo de polacos, e mais recentemente, outro de italianos.
Existem três mil índios, divididos em núcleos de 100 a 200; eles recebem o batismo e alguns se casam na igreja. Um deles, educado em nossa casa pelos primeiros padres, retornou à vida da selva; ensina seus companheiros a ler, escrever e a aprender um pouco de catecismo. Para a evangelização sistemática desses índios se requer, além de pessoal, muito dinheiro.
A população é muito dispersa e mora ordinariamente em casas de madeira. Ocupa-se especialmente da criação de animais e da colheita de mate. Há uma riqueza imensa de madeira, que fica inutilizada por falta de meios de transporte. Muitas vezes a madeira é queimada para abrir roças. A paróquia pertence à diocese de Curitiba e está regularmente confiada ao nosso Instituto. Faz divisa com a de Castro a 66 quilômetros. A igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, foi reformada recentemente, provida de iluminação a gás acetileno e de um harmônio.
Além da cidade de Tibagi os centros mais importantes da paróquia são: São Jerônimo, município com 700 habitantes; Reserva, também município, com 250; Caeté com 250 e Jataí com 200. A nossa casa paroquial, o pomar e o terreno anexo formam um quadrilátero de 55 por 110 metros. Por causa do rio, a posição é maravilhosa. A casa possui água encanada nos principais cômodos e é iluminada a gás acetileno. Distante da residência, cerca de quarenta e cinco minutos, está o “potreiro” da missão, onde atualmente pastam uma dúzia de cavalos.
A principal ocupação dos padres, sem dúvida, são as viagens pelo interior, cerca de seis por ano, com a média de trinta dias de duração cada uma. As várias etapas do missionário são anunciadas por avisos, ao menos um mês antes. No dia e local determinado ele encontra, reunidos, muitas vezes a custo de grandes sacrifícios, os que desejam utilizar-se de seu ministério, para batizados, casamentos, primeiras comunhões, confissões.
É fácil intuir os graves inconvenientes que ocorreriam com a modificação do itinerário. A viagem empreendida por Pe. Henrique no dia 04 de novembro e terminada no dia 07 de dezembro, compreendeu um percurso de 550 quilômetros, divididos em 25 etapas, distantes uma das outras no mínimo oito quilômetros e no máximo 54. Nessa viagem foram feitos 511 batizados e 57 casamentos. Naturalmente, o número de batizados e casamentos por ano na paróquia depende da freqüência das viagens pelo interior.
As viagens apostólicas, feitas sempre a cavalo e em companhia de um sacristão, certamente exigem espírito de sacrifício, sobretudo para saber adaptar-se à comida e alojamento. Porém, além das consolações que Deus dá a quem trabalha pela sua glória, não faltam, acredito, certos aspectos interessantes mesmo do ponto de vista humano.
Além disso, o estilo de vida, comparado com outros, comporta responsabilidade mais limitada e encontra menores dificuldades de ordem social e moral. Posso afirmar que o Venerável Fundador julgaria tal trabalho totalmente conforme o fim do Instituto, e não acima das forças ordinárias dos seus filhos, tendo em vista, especialmente, o particular auxílio que Deus promete, como “graça especial da nossa vocação”.
Também para os que permanecem na sede da paróquia há campo suficiente para um trabalho contínuo e profícuo, sobretudo podendo fundar uma obra qualquer para a juventude a fim de bloquear a ação dos protestantes. Estes, atualmente, não são muitos na paróquia (cerca de 150), mas é quase mensal a vinda de um ministro com a finalidade de propaganda, e já se fala em projeto de estabelecimento no lugar.
Antes de concluir o relatório da nossa missão, seja-me lícito manifestar toda a admiração pelo espírito de sacrifício e pela vida de abnegação dos fundadores da primeira casa Estigmatina no Brasil e de todos os seus sucessores, entre os quais merece especial atenção Pe. Zanetti, pela afeição e amor que demonstram à Congregação.
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