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CONSIDERAÇÕES SOBRE TEMAS DA CRÔNICA DE PE. ADAMI
10. O “Caso Idalina”
O caso idalina agitou social, política e religiosamente a cidade de São Paulo no início do século XX. Foi emblemático não em seu conteúdo, mas no uso que dele se fez para fins políticos e ideológicos.
Na época desdobrou-se um embate entre a Igreja católica e o movimento anarquista.
A Igreja católica se apoiava nas diretrizes da Santa Sé e buscava fortificar-se com a reforma do clero e a revitalização doutrinal de seus fiéis. Um tipo de anarquismo tinha chegado ao Brasil com a migração. Da Europa veio gente, preparada intelectual e socialmente, que aprendera a reivindicar, a fazer oposição e a defender as próprias idéias com os meios que tivesse às mãos. Foi gente que batalhou contra um sistema social e político, considerado injusto e nocivo às classes sem recursos A literatura e teses acadêmicas denominaram esse novo segmento de indivíduos como “anarquistas”.
Em São Paulo os anarquistas usaram o escândalo provocado pelo “caso Idalina” para por em xeque os objetivos da Igreja católica, que criticava e condenava os "erros do mundo moderno" expressos no liberalismo, nas mudanças de costumes, na maçonaria e na excessiva liberdade do clero brasileiro.
Os anarquistas tiveram como adversários não somente a Igreja católica, mas também as elites sociais e o Estado, embora este fosse laico em virtude da proclamação da República. Além disso, também sentiram a resistência de operários a quem pregavam uma proposta de organização libertária.
O espaço de atuação dos anarquistas foi urbano, entre os letrados e no eixo Rio de Janeiro, São Paulo, Santos. Contudo, era difícil abrir brechas em uma mentalidade tradicionalmente católica e na força repressiva dos coronéis. O clero secular nacional também se antipatizava com os anarquistas que tinham postura predominantemente anticlerical. Havia ainda o ambiente escolar dominado por instituições eclesiásticas e civis que optavam pelas tradições religiosas vigentes.
Para superar todos estes empecilhos os anarquistas fizeram campanha no meio do operariado, nos domicílios, em instituições, com folhetins e jornais. Eram os recursos que encontraram para divulgar suas idéias. Encontraram resistência por parte dos trabalhadores, quando os esforços paredistas malogravam; neste caso, o anarquismo alimentou a idéia de que era um movimento que conduzia à ruína, acrescentando-se que os patrões, quando cediam, nem sempre cumpriam os acordos depois das greves.
Em São Paulo um alvo promissor para fazer vingar as idéias anarquistas era o migrante italiano, que aportara no Brasil almejando melhores condições de vida, querendo "fazer a América" e, depois, voltar para o torrão pátrio em melhor situação do que quando de lá saíra.
Certamente o trabalho dos scalabrinianos em São Paulo, com um centro irradiador de pastoral do imigrante e com instituições socialmente influentes como o Orfanato de Artes e Ofícios Cristóvão Colombo, era forte barreira para os objetivos dos anarquistas.
Foi justamente no Orfanato dos scalabrinianos que aconteceu o nebuloso caso de uma menina desaparecida com a acusação de que fora estuprada e morta por padres. Visava-se a atingir a honra da figura influente e conhecida de padre Faustino Consoni.
O prato estava à mesa para a ceia dos anarquistas.
O “Caso Idalina” foi popularizado, em 1909, com denúncia à justiça paulistana pelo jornal “La Battaglia” sob a direção de Oresti Ristori, destacado membro do movimento operário. Foi amplamente divulgado pelo jornal “A Lanterna”, dirigido por Edgard Leuenroth.
Ao longo de quase um ano, “A Lanterna” publicou as indignações dos anarquistas quanto à postura do Estado que não tomava providências. Exigiu a interdição do Orfanato e a abertura de inquérito para a apuração dos fatos. Ante a pressão, o Estado, fez a denúncia oficial. Os anarquistas, entretanto, não se contentaram com a abertura do processo e denunciando a morosidade de seu andamento, apregoando a conivência do Estado com o crime supostamente atribuído aos padres do Orfanato.
Os anarquistas organizaram comícios nas proximidades do estabelecimento scalabriniano, nos quais denunciavam “os abusos, a violência e os maus tratos que sofriam os internos a partir do testemunho de ex-alunos. Enfatizavam o caso acontecida com Idalina”.
O caso teve enorme repercussão pública. Ganhou as ruas provocando inclusive manifestações para apurar o crime, apoiadas até mesmo por não anarquistas Tal situação levou o governo a proibir as manifestações de ruas, organizadas pelos anarquistas que, contra ordens judiciais, arquitetaram um grande comício para março de 1911 na capital. A realização desse ato de protesto foi reprimida pelo aparato policial que agiu de forma extremamente repressiva, detendo muitos manifestantes, entre eles Edgard Leuenroth e Oresti Ristori.
O inquérito acerca do desaparecimento de Idalina foi concluído, dando-se ganho de causa aos padres do orfanato e, segundo os anarquistas, com fraude. Para estes, as provas favoráveis aos acusados teriam sido forjadas pelos envolvidos e aceitas pelas autoridades judiciárias.
A presidência da república e o presidente do estado de São Paulo ignoraram os fatos. Os anarquistas especularam o caso até sua prescrição em 1919.
Os chamados “anarquistas” do início do século XX, no Brasil, receberam tiro pela culatra. Foram oportunistas e tomaram o bonde errado. No final das contas, a frágil e inocente Idalina Stamato tinha sido manipulada por interesses escusos e pela má fé de muitas pessoas. |