373 dias para
os 100 anos da chegada dos estigmatinos ao Brasil

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CONSIDERAÇÕES SOBRE TEMAS DAS CRÔNICAS DE PE. ADAMI

 

 

3. A situação do catolicismo no Brasil na segunda metade do século 19

 

 

Um dos fatores externos que influenciou grandemente para a vinda dos estigmatinos ao Brasil foi a situação do catolicismo no país na segunda metade do século 19.

O Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil em 1759. Para ele o clero deveria seguir seu modo de pensar e recusar as normas emanadas pela Santa Sé. As conseqüências apareceram. Daí por diante predominou no país o clero diocesano, que não se interessava pelas orientações e diretivas da Santa Sé. Era um clero imbuído de idéias liberais que vivia, em grande escala, de forma independente no aspecto religioso. Muitos sacerdotes, que estudaram na Europa, defendiam os ideais republicanos. Diversos padres participaram das lutas e dos movimentos de independência do governo português. De modo geral, os padres e religiosos buscavam estabelecer-se em cidades e lugares importantes, levando vida ociosa e mundana. Havia escassez de vocações para o estado sacerdotal. O nível intelectual do clero era baixo. Não havia preocupação pelas necessidades religiosas e espirituais do povo.

A Constituição de 1824 estabeleceu o catolicismo como religião oficial do Império. Em setembro de 1827 a Santa Sé concedeu o privilégio do Padroado aos reis de Portugal e de Espanha, possibilitando, assim, o domínio direto da Coroa nos negócios religiosos, especialmente nos aspectos administrativos, jurídicos e financeiros. Padres, religiosos e bispos tornavam-se funcionários da Coroa portuguesa. O governo tinha o poder de nomear bispos, que permaneciam ligados à Coroa desde o momento de sua escolha até a execução de suas atividades pastorais.

A primeira conseqüência funesta do Padroado no Brasil foi a inexistência, por longo período, de uma figura de bispo que merecesse grande destaque. Durante mais de cem anos, São Salvador, na Bahia, foi a única diocese em todo o território brasileiro. Por ocasião da independência (1822), existiam no Brasil apenas uma arquidiocese (Bahia) e seis dioceses.

Pelo Padroado, o Imperador podia cobrar o dízimo do povo católico e tinha a obrigação de pagar um salário aos bispos, párocos e proteger as Ordens Religiosas. O Padroado atrelou a Igreja ao estado, tirando dela a liberdade de ação e acostumou o clero a depennder do governo civil e apóia-lo.

A partir do reinado de Dom Pedro II (1840) A hierarquia da Igreja Católica fez a tentativa de desvinculação do estado.

A Igreja estava praticamente desorganizada vivendo do catolicismo herdado de Portugal, sem fundamentos doutrinários e sem a devida formação cristã para o povo e para o clero. Havia escassa metodologia de evangelização.

Fragilizada, a Igreja do Brasil necessitava de aliança forte com uma instituição para não se deixar dominar pelo poder político do país. Recorreu, então, à Santa Sé, que por sua vez, insistia sobre a necessidade da aplicação de normas e orientações por ela emanadas.

O episcopado batalhou em duas frentes: a reforma do clero e a reforma do povo cristão.

A primeira pretendia a formação de um clero com sólidas bases teológicas, observante dos princípios evangélicos, distante das atividades economicamente rentáveis e da participação política. Os seminários foram instituições específicas para tais objetivos. Neste aspecto, houve necessidade de se recorrer a religiosos provenientes da Europa. Com esse trabalho preparou-se o clero de forma rígida, conhecedor da doutrina religiosa e, praticamente, separado da vida do povo.

A prática cristã do povo brasileiro estava desligada da Igreja oficial. Predominavam as irmandades e as confrarias, sem muita interferência do sistema hierarquizado. Havia no país duas faces distintas da vida cristã. O povo simples, principalmente no meio rural, invocava os santos, construía capelas e fazia romarias. A hierarquia não tinha controle sobre estas práticas. Nas capelas o importante era colocar a imagem do santo e não o altar para a missa. A missa era menos importante do que o mastro do santo levantado fora da capela. A religião popular era leiga e a religião oficial era propriedade da hierarquia.

A limitação do regime do Padroado aos bispos, padres e religiosos impediu, de uma parte, a evangelização aprofundada da população. Todavia, este contexto gerou um papel muito importante por parte do leigo na vida da Igreja no Brasil. Os leigos se uniram através das irmandades religiosas e ordens terceiras.

De modo geral, as irmandades tinham como finalidade específica, a promoção da devoção a um santo. Freqüentemente eram os leigos que promoviam o culto, organizavam a própria irmandade, tomavam a iniciativa para a construção da igreja em honra ao santo padroeiro. Para a edificação das capelas e igrejas as confrarias, pouco podiam contar com o auxílio do poder civil, pois o dever do Padroado em erguer edifícios religiosos estava ligado à estrutura paroquial, à qual não estavam ligadas as irmandades. Aliás, elas até mesmo contratavam o próprio capelão.

A reforma do povo cristão deu prioridade à formação doutrinária, com o objetivo de sair de uma espiritualidade marcada por devoções para a prática de uma fé convicta e convincente. É através da catequese que se pretendia a renovação. As santas missões, o cuidado dos santuários e a aplicação das normas do Concílio de Trento, referentes à formação do clero, foram os meios para o fortalecimento da vida cristã.

Até a última década do século 19 os objetivos propostos pelo episcopado foram, em grande parte, alcançados.