Em 1953 foi publicada a revista “POLIANTÉIA”, edição comemorativa do primeiro centenário da morte de São Gaspar Bertoni. Nas páginas 82, 83, 84, sob o título “Vida missionária no Tibagi”, Pe. Fortunato Morelli teceu considerações sobre o trabalho missionário de nossos pioneiros. Pe. Fortunato Morelli, de origem italiana, foi ordenado em maio de 1920. Veio para o Brasil em maio de 1922. Desta data até sua morte (17 de junho de 1980) trabalhou em todas as casas estigmatinas de então, desenvolvendo todo tipo de atividade. O artigo, escrito em 1953, é anterior à descoberta do original das Crônicas de Pe. Henrique Adami. O texto original em italiano das “Crônicas” foi encontrado posteriormente e Pe. Benedicto Andrade Bettini o datilografou, publicando-o no Boletim Provincial depois de 1955. Só mais tarde foi feita a tradução em português. O artigo aqui reportado é significativo porque apresenta o espírito missionário que permeou as atividades no início da Congregação no Brasil e representa a tradição oral sobre a ação apostólica de nossos primeiros confrades.
VIDA MISSIONÁRIA EM TIBAGI
Os primeiros estigmatinos que vieram ao Brasil, instalaram-se quase imediatamente em Tibagi. Era o ano de 1911. Formavam a pequena comunidade: Pe. Alexandre Grigolli, Pe. Henrique Adami, Irmão Domingos Valzacchi.
Acolhidos fraternalmente pelos padres Escalabrinianos, representados pelo Revmo. Pe. Marcos Simoni, logo tomaram posse da paróquia, cuja Padroeira era Nossa Senhora dos Remédios, por provisão passada pelo saudoso Dom João Braga, então Bispo do Paraná.
E aqui começa a verdadeira epopéia da nossa missão tibagiana. Não perderemos tempo em descrever os vários acontecimentos que determinaram a fossilização do seu progresso material, nem nos demoraremos em emoldurá-la com acontecimentos políticos que poderiam talvez torná-la mais interessante. Limitar-nos-emos ao que mais diretamente se refere ao tema prefixado.
Considerando as incomparáveis belezas naturais e a riquíssima zona diamantífera de que essa terra foi favorecida, não se compreende porque continuou e continua ainda esquecida: sem luz elétrica, sem telefone até 1923, sem estradas dignas desse nome, sempre esperando a ponte sobre o seu belíssimo rio homônimo em substituição à célebre "balsa" que, apesar do seu pitoresco e poético aspecto artisticamente reproduzido em inúmeras revistas, é capaz de fazer o passageiro esperar por quarto de hora ou mais, sem se falar da estrada de ferro que esperada em Tibagi, torceu o nariz e virou para Monte Alegre.
Mas tudo isso pouco importa. Para nós o lado mais interessante de Tibagi será sempre este: o ter sido o berço da nossa Congregação no Brasil e o cenário maravilhoso onde se desenvolveu uma intensa e quase lendária vida missionária.
Sim, é esse o lugar em que o missionário foi obrigado a prosseguir sua viagem por horas e horas durante um verdadeiro dilúvio, subindo ínvias montanhas, mergulhando nos caldeirões traiçoeiros do caminho, atravessando rios em plena enchente. Foi esse o lugar onde, perdendo o rumo do caminho, teve que aturar por muitas horas os acerbos estímulos da fome (em uma de suas viagens, Pe. Ferrucio Zanetti ficou perdido, sem alimento, por 36 horas). Aqui, o perigoso encontro com o tamanduá bandeira. Aqui a marcha forçada com acompanhamento do rugido de lobos e onças. Tudo fazia gelar o sangue, margeando por horas a fio a pavorosa floresta.
Nestes tempos a nossa missão tibagiana atravessou a sua época de ouro, atraindo de toda parte as mais vivas simpatias e fazendo estremecer de exultação no além-mar as reduzidas falanges do Venerável Gaspar Bertoni, as quais com ímpeto juvenil se preparavam e esperavam.
E era mesmo de se ficar emocionados, ao ver esses intrépidos heróis, que, dizendo adeus aos parentes e à pátria, empreendiam tudo para salvar as almas!
Para completar o quadro tibagiano não devemos esquecer que os nossos primeiros missionários encontraram ainda, embora apenas fumegando debaixo das cinzas, um pouco do terror implantado pelo famigerado Coronel Borba, que por meio dos seus capangas, queria transformar o sertão em terra de conquista.
Como se vê, tudo estava conspirando para tornar Tibagi a missão ideal para o missionário arrojado e destemido. E precisava mesmo que fosse imbuído de um espírito sobrenatural, para subtrair-se ao espírito de aventura demasiadamente humana, e não cair na tolice de querer transformar-se num autêntico herói de romance.
Verdade é que para o verdadeiro missionário nada vale toda a miragem humana em comparação ao seu fulgurante e divino ideal.
Mesmo não se tratando propriamente de uma Missão entre os índios, e menos ainda entre índios ferozes, em Tibagi tínhamos muitos índios "coroados". Viviam reunidos em vários aldeamentos, em paisagens encantadoras, nas margens dos rios, em Palmital, além de Queimadas, nas Serras de Apucarana. De índole mansa, eram mais inclinados à fuga do que à agressão. Para com nossos padres eles nutriam certa veneração, feita dum misto de respeito, medo, superstição e gratidão. Confiavam desconfiando, é verdade; mas também em ninguém confiavam tanto quanto no padre. Conseguimos não somente cair na simpatia daquelas criaturas, mas também enviar para a Escola Apostólica de Rio Claro um indiozinho inteligente, que recebeu o nome de Quintinho; depois de pouco tempo ajudava na santa Missa. Vimos também como eles queriam constituir-se nossos defensores na ocasião do casamento do seu Capitão e do Tenente, ocasião em que todas as tabas de Apucaraninha se puseram em pé de guerra pelo simples motivo de um protestante ter estupidamente arrancado uma cruz que eles muito estimavam. Vimo-los nessa ocasião tão indignados e desejosos de vingança, que se tivéssemos apenas levantado um dedo, teriam comido vivo o iconoclasta.
Se para conosco eles se mostravam tão amorosos, o mesmo não se podia dizer com respeito aos inspetores do governo. Contínuas revoltas, repentinos levantes que marcava tudo a ferro e fogo, punham sempre os inditosos inspetores em sobressalto. Afinal, depois de repetidas tentativas, a catequese leiga dos índios teve que fechar as portas. O governo acabou por convencer-se de que aquilo era mesmo malhar em ferro. Com menos da metade de quanto o governo desperdiçou, correndo atrás dos índios, nós teríamos feito portentos. A nossa obra no meio dos índios, certamente menos espalhafatosa, foi mais eficiente.
Mas vamos agora a um campo mais vasto, que se abriu ao zelo do missionário: o campo formado pelo genuíno caboclo tibagiano. Quando não contagiado pelos aventureiros baianos, quase todos, garimpeiros e gananciosos, vindos à região unicamente deslumbrados pelo fulgor dos diamantes, o verdadeiro tibagiano é o tipo do bom amigo leal e sincero, e de tal modo religioso, que se teria deixado levar ate o extremo sacrifício.
Esses bons caboclos, amavam, adoravam o sacerdote. E bem o sabiam os baianos e os muitos bandidos e assassinos refugiados no sertão. Por isso ninguém teria ousado levantar a mão contra o padre. No meio de um povo tão bom e leal o missionário sentia-se à vontade e perfeitamente seguro. Quem poderia entrar naquele sertão tão despreocupado e sem armas senão o missionário? Perante ele instintivamente depositavam as armas. Mais de uma vez nos foi dado deparar nas portas das capelinhas, quase todas de madeira, ou fora da porta de casa que nos servia de capela, montículos de facões e de garruchas, que espontaneamente depositavam lá fora antes de se apresentarem ao vigário. Vinham todos a cavalo, de léguas e léguas, com as crianças na garupa, apeando no pátio externo: as mulheres entravam em fila indiana, carregando as crianças pequenas e guiando as outras pela mão. Depois de ter tomado a bênção do padre, iam parar na cozinha ou lá nos fundos da casa; voltavam depois para a reza e para confessar-se. Assim em todas as etapas das longas viagens.
Processo matrimonial, proclamas de estilo, exame dos noivos, tudo era feito sumariamente, tendo-se recebido do bispo todas as faculdades possíveis.
Os caboclos estavam sempre do lado do missionário porque bem sabiam que o padre, mais de uma vez os tinha salvado de sangrentos conflitos na ocasião em que fortes destacamentos da polícia paranaense se aprontavam para deixar a Capital em demanda do sertão tibagiano e dar caça aos nossos pobres caboclos, unicamente culpados de defender o próprio torrão e a própria gleba. Em outra ocasião também foi a coragem do padre que salvou a cidade de uma inútil matança por ocasião da “revolta dos sargentos” (1).
Mas tão bela missão já estava perto de seu fim.
O tempo marcado pela Divina Providência já se esgotava. Veio o desmembramento eclesiástico. O Paraná ficou dividido em três dioceses. Vieram a doença e a morte do missionário, e depois a ordem de retirada definitiva. Assim pelos decretos imperscrutáveis do Onipotente encerrava-se a nossa atividade missionária em Tibagi. E na hora em que no extremo horizonte se delineava a intrépida vanguarda dos novos bandeirantes, o último estigmatino deixava para sempre solo paranaense (2).
(1) Entre o final de 1914 e o início de 1915 verificou-se, no Rio de Janeiro, a “Revolta dos Sargentos”, que gerou uma divisão entre a base e a cúpula do exército. A revolta fora marcada para ser desencadeada às 24 horas de 24 de dezembro de 1915, por idealizadores intelectuais com apoio do braço armado de sargentos do Exército, Brigada Policial, Corpo de Bombeiros e sargentos da Armada. O governo informado de tudo antecipou-se ao golpe. As prisões tiveram início em 18 de dezembro. Estavam implicados 256 sargentos, que foram condenados e excluídos do exército.
(2) O último foi Pe. Ferrúcio Zanetti, que trabalhou 22 anos em Tibagi e batizou mais de dois mil índios nos sertões paranaenses. Introduziu o primeiro automóvel na cidade.
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