CONSIDERAÇÕES SOBRE TEMAS DAS CRÔNICAS DE PE. ADAMI
2. A índole missionária de nossa Congregação
A vinda dos estigmatinos para o Brasil está ligada a fatores internos e externos ao Instituto.
Como fator interno destaca-se a índole missionária de nossa Congregação, herança do pensamento de São Gaspar e da prática das primeiras comunidades estigmatinas.
Padre Gaspar Bertoni, em suas Constituições, nomeando seus seguidores como “missionários apostólicos em auxílio aos bispos”, entendia que o serviço ministerial à igreja deveria ser prestado de forma ampla e com caráter de universalidade, na diocese e no mundo, segundo as palavras de Jesus: “Indo por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda criatura.” (Mc 16,15).
Este espírito permeou a vida da primeira comunidade dos Estigmas que se dedicou à pregação de missões e cursos de Exercícios Espirituais em Verona e arredores.
“A principal ocupação dos padres naquele tempo era pregar Missões e Exercícios espirituais. Desde a ereção do Instituto até o final de 1855 sabe-se que eles pregaram em Cremona, Treviso e outras cidades. A Missão, porém, que mais marcou foi a de Caravaggio” (Breve Crônica, n. 95). “Os padres estavam sempre ocupados em pregar Missões ou Exercícios espirituais, e sempre com muitos frutos, o que se pode constatar pelas cartas de agradecimento que chegavam de toda parte ao Superior Pe. Marani no final de cada Missão e que ainda são conservadas no Arquivo do Instituto” (Breve Crônica, n. 100). “Em 1865, os nossos padres foram pregar uma série de Missões na Diocese de Adria” (Breve Crônica, n. 113). “Em 1871, em documento enviado à Santa Sé, o Cardeal Luís di Canossa, escreveu sobre nossa Congregação: produz ótimos frutos espirituais, especialmente com Missões e Exercícios, tanto na minha Diocese” (Breve Crônica, n.124).
No entanto, a Congregação permaneceu por algum tempo enclausurada na cidade de Verona e cidades vizinhas.
Para os estigmatinos foi significativo o ardor missionário de Pe. Daniel Comboni em relação a missões no exterior.
Em Verona, Daniel sentiu inspiração para abrir uma missão na África Central, fascinado pelo testemunho dos primeiros missionários de Pe. Nicola Mazza que haviam, então, regressado do continente africano. Por volta de 1857 ele mesmo partiu para a África juntamente com cinco missionários do Instituto Mazza (1). Para ele a sociedade européia e a Igreja católica deveriam tomar em grande consideração a missão da África Central. Com este objetivo dedicou-se incansavelmente à animação missionária em todos os recantos da Europa, pedindo ajuda espiritual e material. Fundou em 1867 e 1872, respectivamente um Instituto missionário masculino e outro feminino, conhecidos mais tarde como Missionários Combonianos e Irmãs Missionárias Combonianas. Como teólogo do Bispo de Verona, participou no Concílio Vaticano I, levando 70 Bispos a subscreverem uma petição em favor da evangelização da África Central.
Em outubro de 1881 morreu Monsenhor Daniel Comboni. Ele era Vigário Apostólico da África Central. Sucedeu-o Pe. Francisco Sogaro, que deixara nosso Instituto para dedicar-se a esta Missão. Pe. José Sembianti pediu ao Superior Pe. Vignola que Pe. Domingos Vicentini, desejoso de trabalhar nesta Missão, fosse companheiro de Pe. Sogaro. Reuniu-se o Capítulo dos Padres graduados na casa dos Estigmas que, ouvidas as razões de Pe. Vicentini, decidiu por sua ida para a África com a condição de que ele continuasse ligado à Congregação pelos votos, disposto a voltar quando fosse chamado pelo Superior Geral. Declarou-se, porém, que com isso a Congregação não pretendia assumir nenhum compromisso com a Missão (Cf. Breve Crônica, n. 162).
Estes relacionamentos, de certa forma, mantiveram acesa nos estigmatinos a chama de uma evangelização fora do país.
Segundo Pe. Adami, a idéia de fundar Missões no exterior fora sempre um objetivo perseguido pelos estigmatinos. Grande vibração pelas Missões no exterior aconteceu em 1884 quando o Vigário Apostólico da África Central, Dom Francisco Sogaro, fez algumas propostas ao Instituto, ao qual já tinha pertencido.
O Capitulo Geral de 1890 refletiu esta realidade. A questão das Missões no exterior foi tratada com calorosa intensidade. Surgiu a questão sobre a finalidade do nosso Instituto. As escolas tinham escopo igual às missões? Houve 21 votos favoráveis, um negativo e uma abstenção.
O final do Capítulo foi doloroso. Domingos Vicentini havia trabalhado na África e em outubro de 1889 fora chamado à Itália pelo Superior. Alguns padres, entusiasmados pelas missões, deixaram a Congregação. Os padres Domingos Vicentini, José Marocchi e José Sembianti apresentaram o pedido formal da dispensa dos votos. Outros sentiam aversão pelo ministério escolar e grande atração pela pregação e em particular pelas missões.
Segundo Pe. Adami, nesta época, o Instituto ainda não estava preparado para digerir a idéia missionária que medrava no coração de muitos confrades.
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(1) “No mês de agosto de 1857 foram aos Estigmas para um Curso de Exercícios espirituais os padres Daniel Comboni e João Beltrame, com seus companheiros Dal Bosco, Melotto e Oliboni, enviados por Pe. Mazza, a fim de se prepararem para a grande Missão da África Central” (Breve Crônica, n. 100).