Autores de si Mesmos

Numa época em que tudo o que se faz, se constrói, se pensa e se materializa nas escolas – assim estabelecem os nossos representantes ministeriais - em função das estatísticas pinceladas de verniz pseudocultural, há sempre uma verdade absoluta que vem à tona: somos todos feitos de uma massa multiforme e, também, multifacetada e, nessa medida, quase como que automatizados, somos também agentes de uma forma de ser e estar nas escolas que é, em última instância, a imagem da escola portuguesa.

Mas se são os professores que conduzem o “navio” em mar tempestuoso, muitas vezes desgovernado, mercê de uma verdadeira intempérie que teima em não passar, também certo é que podem os alunos ajudar na labuta do leme para que também eles ajudem na orientação do caminho traçado e, assim, ajudem a salvar a embarcação, e a si próprios, também.

Podemos entender esta metáfora como uma forma de união, de “companheirismo”,  de divisão de tarefas entre os educadores e os educandos. Será utopia?

É importante reflectir sobre a possibilidade que temos em “aproveitar” as valências naturais dos seres humanos que temos perante nós: os nossos alunos. Também eles, à sua maneira, desejam exprimir-se: estar, fazer, deixar acontecer, provocar, lançar desafios… essa é a verdadeira essência de todos nós e ela não se manifesta apenas em estado adulto… muito antes disso ela acontece em todos nós. E nos nossos alunos também.

Com a estrutura montada, as regras estabelecidas e o sistema organizativo próprios de uma escola, os alunos sabem até onde podem levar as suas vontades e terão, como qualquer um de nós, que cumprir com as premissas legais do seu espaço escolar. Porém, é na aula que eles podem espelhar a sua forma de estar no mundo, em função do que lhes vai acontecendo naquele espaço. Temos portanto, ali, na aula, todas as possibilidades de dar vida a vontades e intenções dos nossos alunos, para que a sua energia se materialize em tarefas autónomas, eficazes e dignas de registo e admiração.

Mas como? É minha crença que a simplicidade das relações interpessoais contribui grande e eficazmente para a tão desejada autonomia dos nossos alunos. Assim, a terapia do elogio, a valorização da sua identidade e a desvalorização do seu erro vai - talvez lentamente, é certo, mas a médio prazo com total eficácia – desmistificar a ideia pré-formatada de que não se consegue, não se acredita em si mesmo. O culto do optimismo, da perseverança e na crença das capacidades alheias transforma o outro num indivíduo com atitude, com auto conceito e auto estima.

Transmitir aos nossos alunos o conceito de auto valorização, associado às regras básicas do estar em grupo e – também – do estar consigo mesmo, contribui, na minha opinião, para uma posição mais positiva face às tarefas que se vão sucedendo, dia após dia. Mesmo a delegação de responsabilidades logísticas, exequíveis para os nossos alunos, em sistema rotativo, coloca-os perante o melhor de si mesmos e dá-lhes a segurança que necessitam para, “quase”sozinhos, triunfarem e valorizarem aquilo que são e conseguem. E quando isso acontece… os outros irão – mais ou menos lentamente – acreditar também.

É, fundamentalmente, a valorização efectiva e constante por parte do professor que transforma o nosso aluno num ser capaz de acreditar. Em si. Nos outros. E no mundo. E tudo acontece depois. Talvez o tal “verniz pseudocultural” deixasse de ser pseudocultural… e até deixasse de ser verniz…

Como diz o poeta  Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.” (Fernando Pessoa)

E ser autónomo é ser feliz. E a “felicidade exige valentia”.

Basta-lhes entender que têm as ferramentas.

A nós compete-nos mostrar-lhas.

Será utopia?

Violante Grilo, profª